– Capítulo 2 –
Um presente para a vovó
"Pegue a sua varinha, estique o braço... Isso, agora".
Um barulho ensurdecedor de pneus interrompeu Draco. À frente dele e de Lyra surgiu um ônibus roxo berrante. Ela já havia andado no Nightbus, mas essa era a primeira vez que o chamava com a própria varinha.
"Já pensou no que você vai querer comprar?"
"Na verdade não. Não sei o que posso dar pra ela... Você sabe do que a vovó gosta?", perguntou subindo no Nightbus.
"Acho melhor dar algo que você queira, que você ache que vai agradar. Não confie no meu gosto para presentear a sua avó, porque acho que não daria muito certo".
"Tudo bem. Mas por que o senhor fala assim quando se refere à vovó?"
"Algumas lembranças que não são boas", falou pagando ao condutor que há muito deixara de ser Stan Shunpike.
"Feliz Natal, Sr. Malfoy", cumprimentou o rapazote, e Draco não ficou admirado por ser reconhecido.
A família Malfoy ainda era respeitada e conhecida no meio bruxo e, após a queda de Voldemort, alegaram ter ajudado a Ordem no momento decisivo, o que os livrou de Azkaban, com os testemunhos de membros da organização que fora liderada por Dumbledore. Draco ainda achava engraçado o fato de Gryffindors serem tão tolos, mas estava em dívida. Sabia que o motivo da sua liberdade era o mesmo que o levou a sair de casa, e isso não tinha nada a ver com justiça.
"Papai, por que todo mundo conhece o senhor?", Lyra perguntou após se sentar, com seu pai ao lado.
"Porque a família Malfoy é bastante conhecida e respeitada".
"E por que nossa família é conhecida e respeitada?"
"Porque os Malfoy são sangue puro, são ricos e pertencem a uma linhagem nobre".
"A linhagem da mamãe é nobre?"
"Não".
"Então eu não sou nobre?"
"Você é nobre".
"Mas meu sangue é misturado, não é? Se a mamãe não tem..."
"Seu sangue não é misturado, Lyra, não fale bobagens".
"É tão ruim assim ter sangue misturado?"
"É".
"Então por que casou com a mamãe?"
"Não sei".
"O senhor gosta de mim, mesmo com sangue misturado?"
"Você não tem sangue misturado, Lyra, você é sangue puro".
A menininha a olhou, confusa com toda aquela conversa. Segurou-se em uma freada mais brusca e depois voltou a olhar para o pai.
"Não estou entendendo. É importante ter sangue puro, não é, papai?", Draco, não respondeu de imediato, estava absorto em pensamentos, olhando pela janela. "Papai?"
"O que você acha?"
"Não sei se devo achar que é importante, mas na escola têm muitos alunos nascidos trouxas. No começo eu achei estranho, sempre pensei que por ter sangue só de bruxo a pessoa tinha mais magia, mas me acostumei. Eu sempre ficava esperando algo diferente deles, mas eles são iguais a nós. Quero dizer, eles não fazem nada de diferente".
"Sua opinião é o que importa".
"Mas o que o senhor acha?"
"Minha opinião não é importante, Lyra", falou, apertando de leve a bochecha da filha.
"Pra mim é", falou com os olhinhos castanhos vidrados nele.
"Bem... Ter o sangue puro para mim sempre foi importante, mas para a sua mãe não. Acho que aprendi um pouco com ela, apesar das coisas terem dado errado".
"E os seus pais? Eles acham importante ter sangue puro?"
Draco sorriu debochado.
"Muito".
"Por isso eles não gostam de mim?"
"Eles gostam de você, Lyra".
"Então por que eles não querem ver o senhor?"
"Quem te disse isso, menina?"
"Eu sei que eles não querem ver o senhor".
"Lyra..."
"Não tem problema. Só achei que a culpa fosse minha mesmo, já que meu sangue é misturado".
"O problema não é esse, Lyra. E você não tem o sangue misturado, pare de ficar repetindo isso!"
"Então por que eles não gostam de mim?"
"Por que você faz tantas perguntas?"
"Porque eu sou sua filha".
Draco sorriu. Achava engraçada a forma como ela se comportava como se fosse uma adulta às vezes. Era uma menina curiosa e inteligente demais para a idade.
"Você é atrevida, igual a sua mãe".
"E isso é bom?"
"Na maior parte do tempo é".
"E quando não é bom?"
"Quando você me faz um monte de perguntas que me deixam sem resposta".
Lyra sorriu. E ele achava aquele sorriso a coisa mais bonita do mundo. A forma como as covinhas se formavam em suas bochechas rosadas o confortavam por saber que ainda restava alguma esperança dele ser feliz. Seria um homem solitário se não fosse por ela. Não teria em quem pensar, não teria um motivo para voltar para casa todos os dias e nem para quem comprar presentes no Natal.
Sentia-se só agora que Lyra estava em Hogwarts a maior parte do ano, o que lhe fazia sentir necessidade de escrever-lhe cartas quase diariamente. Queria ser uma pessoa mais forte, mas foi um fraco durante a vida toda, então seria tolice achar que ele mudaria de uma hora para outra. Era bastante difícil cruzar com o próprio pai, diariamente, nos corredores do Ministério e ser ignorado.
Já desistira de tentar trocar alguma palavra. Ele era invisível aos olhos de Lucius Malfoy e entendia os motivos do seu pai. Ele havia traído a família, o sangue e as convicções dos Malfoy. Já tinha perdido as esperanças de ser perdoado. Fazia tanto tempo...
"Papai?", Lyra chamou.
"Sim?", respondeu com a voz embargada.
"O senhor está chorando?"
"Claro que não".
Ele tocou o rosto dele, enxugando uma lágrima solitária que vinha caindo sem que sentisse.
"Eu amo o senhor", falou baixinho, abraçando-o. Draco não conseguiu deixar de sorrir.
Só foram precisos mais alguns minutos para chegarem ao Caldeirão Furado, que estava cheio como nos tempos antes do retorno de Voldemort. Algumas pessoas cumprimentaram Draco e ele olhou para a pequena Malfoy.
"Quer alguma coisa para beber, Lyra? Está com sede?", ela fez que não e os dois passaram direto pelo estabelecimento.
Draco também a ensinou a abrir a passagem para o Beco Diagonal, pois era a primeira vez que ela ia até lá com uma varinha em mãos. O local estava bastante cheio, mesmo para o dia de Natal e Draco pensou que, assim como eles, muita gente deixara para comprar um presente no último momento.
Estava frio, mas já não nevava naquele momento, o que deixava o local com uma aparência muito convidativa. As lojas estavam enfeitadas e por todos os lados se viam fadinhas piscantes e grupos de pessoas cantando canções natalinas.
Passaram direto pela Floreios e Borrões, assim como pela Loja de Equipamentos Esportivos e pela sorveteria, que prometia um novo sabor "que esquenta você em dois segundos".
"Já sabe o que vai comprar?"
"Não".
"Alguma idéia?"
"Nenhuma".
"Quer entrar em alguma loja?"
"Não, papai. Não acho que vou encontrar alguma coisa aí dentro que agrade a vovó".
"Ela não é tão exigente assim, Lyra".
"Mas tem que ser algo que a surpreenda".
"Acho que já será surpresa demais chegarmos sem avisar".
"Acha que ela vai ficar brava?"
"Não tanto quanto o seu avô".
Houve alguns segundos de silêncio até que ela deu meia volta e começou a puxar o pai, decidida.
"Ei, ei... Para onde está..."
"Vamos para a casa da vovó agora!"
"Mas para onde está me puxando, se nem sabe o caminho?"
"Sei onde fica a lareira do Caldeirão Furado, vamos logo, papai!"
"E o presente?"
"Eu depois pergunto para ela o que ela quer", falou sem explicar mais nada.
Draco a acompanhou. Deixou que ela pensasse que estava guiando ele, mas no final das contas, não era essa mesmo a verdade? Desde que a mãe dela os deixou, Lyra o guiava, mesmo que não soubesse que assim o fazia.
"Tom, nós vamos usar a lareira, ok?"
"Fique a vontade, Sr. Malfoy", falou displicentemente.
Draco se adiantou até a lareira e pegou um pouco do Pó de Flu, colocando-o na mão de sua filha, que estava coberta por luvas de couro branco, com uma fita verde amarrada ao pulso em detalhe.
"Sabe como usar, não é mesmo?"
"Claro que sim, já tenho onze anos. Não é a primeira vez que eu uso a rede de Flu", falou ofendida.
Empinou o nariz, jogou o pó na lareira fazendo com que as chamas ficassem verde-esmeralda, e entrou. Fechou os olhos e falou em tom alto e claro.
"A Toca!"
N/A.: Essa é uma fic de capítulos curtos. Realidade totalmente alternativa e eu gosto da Lyra. Beijos para você que está lendo e comentários continuam sendo felizes: nunca esqueça disso. Comentou no anterior? Comenta de novo, quero saber o que achou desse também, se tem algum erro, etc etc.
