Bibliografia – Memórias de Vida e Morte
- Primeira Parte -
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Não lembro direito de meus primeiros dias, bem como os meses que se seguiram. No entanto, conforme estes se juntavam, tornando-se anos, os olhos finalmente se acostumaram com algo tão básico como enxergar. Foi quando comecei a perceber.
Essa é uma de minhas primeiras lembranças...
As pessoas caminhavam como bonecos, meros corpos sem alma que não faziam mais nada além do que lhes era ordenado. Passavam por nós com a cabeça erguida, cobiçando o céu que jamais alcançariam, fracas demais para sobreviverem a sua sombra. Os poucos que nos notavam logo viravam o rosto, mal disfarçando a repugnância que sentiam.
Talvez nós merecêssemos esse nojo. Afinal éramos só duas crianças maltrapilhas e imundas, pouco mais que trapos humanos, encolhidas entre duas barracas igualmente desprezadas e sentadas em meio a neve que há pouco parara de cair. O vento gélido cortava minha pele, passando entre os restos puídos do que um dia fora uma roupa. Meus pés estavam arroxeados e dormentes, e eu sabia que faltava pouco para as mãos ficarem na mesma condição. Mesmo assim eu continuava lá, sentado ao seu lado, as mãos dadas. Simplesmente olhando, sem nada ver.
Até hoje não sei por que ficava ali, esperando imóvel por horas a fio. Seria pela morte que o instinto teimava em desejar? Ou o famoso milagre do qual sempre escutava falar mas nunca vi?
Provavelmente um pouco dos dois, eu acho. Se bem que não faz mais diferença, assim como não fez na época. O fato é que, por mais cruel e desumano que pudesse parecer, era melhor insistir nessa tortura do que voltar para o barraco que chamávamos de casa e, principalmente, para o ninja decadente e bêbado que chamávamos de pai.
Porém, quando o sol se punha e a noite tragava os poucos raios que atravessavam as nuvens cinzentas, roubando qualquer migalha de calor; quando o dia finalmente acabava e a espera se provava inútil mais uma vez, eis que o instinto de sobrevivência falava mais alto, nos fazendo levantar do chão frio e percorrer de volta o maldito caminho.
Dessa vez não seria diferente.
Nos encaramos, apenas para confirmar o que já sabíamos. No fundo, talvez esperássemos que o outro desistisse ou sugerisse uma idéia maluca, como uma fuga com chances de sucesso abaixo da mínima. Porém, tal qual o famoso milagre, isso também não aconteceu.
Por fim, simplesmente ficamos de pé, cambaleantes mas ainda assim de pé. Fomos embora tão incógnitos quanto chegamos. Seguimos o caminho de volta ainda de mãos dadas, os olhos no chão. Não falávamos nada, não precisava-mos. Éramos iguais.
Para entender o outro, bastava entender a si mesmo.
Contudo, o silêncio foi quebrado quando chegamos. Algo de louça ia ao chão, o som seguido por palavras rudes demais para serem repetidas ou mesmo entendidas por duas crianças.
Os olhos de meu irmão buscaram os meus, num encontro triste e apagado. Apertei sua mão com mais força, tentando passar alguma segurança. Nós dois sabíamos o que ia acontecer. Conhecíamos com cada cicatriz de nossos corpos essa velha e amaldiçoada rotina.
Mas isso não mudava nada.
Mais sons ecoaram, dessa vez de móveis sendo revirados. Engoli seco, as pernas de repente bambas demais para me sustentar. No entanto, essa era a minha vez.
Soltei sua mão e caminhei até a porta. A abri com cuidado, no entanto sem intenção de ocultar minha presença. Atrás de mim, um suave farfalhar deixou claro que meu irmão já havia se escondido. Suspirei, sentindo uma ponta de alívio nisso tudo, depois fechei a porta atrás de mim.
-X-
Dor...
Gritos, lágrimas, sangue.
Um corpo sendo arremessado de um lado para o outro. Uma mente infantil condenada a insanidade. Uma alma ferida e abandonada.
Mas ele não se importava.
Dor... Muita dor...
Porque era tudo meu. Corpo, mente e alma. Dor, medo e desespero.
Lágrimas e sangue.
Tudo meu.
Só que isso não era o bastante para amenizar os golpes. Nunca era.
Por mais que eu fosse uma parte dele próprio, por mais que o mesmo sangue corresse em nossas veias, para ele isso não significava nada.
Será que era por isso que ele nos batia? Para achar um significado?
Ou ele só não gostava da gente como todo mundo?
Eu não sabia e tinha medo de perguntar. Mesmo sendo só uma criança, eu tinha certeza de que não iria gostar da resposta.
- Some daqui, desgraçado! – ele sempre gritava, nas poucas vezes que ainda estava acordado, dando fim à surra do dia. E, como em todas as outras noites antes desta, eu me levantava cambaleante, tentando chegar até meu quarto. Tentando chegar até meu irmão, até suas mãos que cuidariam de minhas feridas assim como eu cuidaria das dele. Até seu calor, tão vital quanto o meu próprio. Até sua presença, simples, doce e igual.
Porque esse era o nosso trunfo. O pequeno truque que nos permitira sobreviver até hoje.
Nós éramos gêmeos, espelho e reflexo um do outro. Cópias idênticas, inseparáveis e indistinguíveis. Isso nos dava a chance de trocar de lugar, revezando nas surras de modo que um sempre tinha uma noite de descanso. Afinal, nosso pai estava sempre bêbado demais para sequer lembrava que tinha dois filhos ao invés de um.
Essa era a rotina, marcada em nós a ferro e fogo e repetida a cada dia miserável de nossas vidas.
Abri a porta com dificuldade, entrando no quarto iluminado apenas por uma fraca vela. Logo fui amparado e levado para a luz tremulante, mãos pequenas me ajudando a tirar a blusa e cuidando de meus ferimentos. Ele limpava como podia, enfaixando os piores e parando com cada leve gemido que deixava meus lábios. Quando terminava era a minha vez de cuidar dos seus machucados, trocar as bandagens e ouvir seus lamentos. Depois simplesmente dormíamos, abraçados juntinhos sobre os cobertores mofados e puídos, tentando espantar um pouco do frio.
Desumano?
Na época era tudo que tínhamos. Nossas mentes tolas e infantis não conseguiam enxergar nada além, de modo que nos contentávamos em baixar a cabeça e engolir o choro. Nós não conhecíamos o mundo. Não sabíamos o que desejar ou o que temer.
Mas isso estava prestes a mudar...
-X-
Foi numa noite de tempestade. Mil raios cortavam os céus e furiosos trovões estremeciam a terra. As gotas frias castigavam tudo como agulhas envenenadas, atiçadas pelo vento selvagem. A casa toda rangia e estalava, oscilando como uma folha morta prestes a ir ao chão.
Porém, mesmo em meio ao caos nós conseguimos ouvir os passos firmes e ritmados que ecoavam pelo corredor. Passos de quem finalmente se decidira. E isso me deu medo, muito medo. Não eram os passos vacilantes que eu estava acostumado a ouvir. Não haviam garrafas de sakê para serem quebradas, nem o cheiro enjoativo de álcool e vômito.
Não havia mais o pai bêbado, que espancava o filho toda a noite. Só havia o homem, o ninja...
...o assassino...
E os passos continuavam.
Meu irmão envolveu minha mão com dedos trêmulos, assim como eu envolvi a dele. Nos encaramos, os rostos tão próximos que eu sentia sua respiração ofegante, os traços iluminados apenas pela efêmera luz dos raios.
Mas isso era só o que precisávamos para decidir.
Levantamos do chão gelado, caminhando até a frágil janela. Juntamos nossas forças conta o vento furioso que soprava e a abrimos, ao mesmo tempo em que a maçaneta estalava e cedia.
A partir desse ponto o torpor do medo desapareceu, dando lugar a uma explosão de energia tão intensa que transformou tudo num borrão. O desespero tomara minhas veias e o instinto nublara minha visão. Eu não tomei conhecimento da janela nem da chuva, muito menos da kunai que passou zunindo entre nossas cabeças. Não.
Naquele momento eu só via a mata intrincada. Só sentia a mão de meu irmão na minha.
Só corria.
Sonhar com um final feliz era pedir demais? Sair dali, achar alguém que nos amasse, sorrir...
Pareciam coisas tão simples...
Então porque não aconteciam? Porque a cada curva só o que víamos era mais e mais floresta? Porque nosso perseguidor chegava cada vez mais perto? Porque o peito queimava e as pernas tremiam, nos condenando ao chão?
Éramos apenas crianças. O que havíamos feito de errado?
Uma kunai chegou num sussurro suave, rápida e certeira, acertando sua vítima sem piedade e rasgando a carne jovem e macia. Gritei, o corpo afundando em meio a lama e folhas, as mãos sobre a coxa tentando parar o sangramento.
Nunca vou esquecer aquela dor. Ainda que mil kunais sejam cravadas em meu corpo, nenhuma superará a primeira, tamanha a agonia de uma criança a ser ferida pelo próprio pai.
- Aniki... – meu irmão sussurrou, a mão trêmula estendida pra mim, pedindo, não, implorando que eu a segurasse de volta.
Ele não queria ser abandonado.
Porém, antes que me desse conta disso, antes que me arrastasse na lama até aquela mão quente, antes que enxugasse as pequenas lágrimas que se misturavam a chuva...nosso pai chegou.
Fechei os olhos com força, rezando a quem quisesse ouvir, vendendo minha própria alma para que fosse apenas um sonho. Mas ninguém me ouviu. Ninguém fez nada.
Eu já devia saber que não adiantaria. Não importava quanto tempo eu ficasse ali, desejando caído e sangrando, quando voltasse a realidade tudo continuaria igual, se não pior.
Deveria saber. Mas não sabia.
É errado ter esperança?
Nosso algoz continuava se aproximando, inabalável sobre o caos que ribombava sobre nossas cabeças. Meu irmão veio ao socorro, tentando me arrastar dali, mas era fraco demais. Nós dois éramos. Eu estava apavorado, cansado e tonto, a consciência me abandonando mais e mais até que tudo que eu conseguia enxergar era um vulto alto vencendo os poucos passos que nos separavam.
- Por quê? – perguntei num fio de voz abafado dela tempestade. Eu não percebia mais os pequenos braços que me envolviam, não os sentia tremer. Mas mesmo assim eu pude ver os olhos escuros de meu pai se arregalarem como nunca antes.
- Porque... – ele sibilou, a fúria crescendo, as mãos se fechando até sangrar – Porque a culpa é sua.
Ouvi meu irmão dizer alguma coisa, no entanto suas palavras soaram distantes demais para que eu entendesse. Senti um solavanco e logo me vi com o rosto a centímetros do de meu carrasco, seus olhos agora sombrios e cruéis.
- Vocês sabem como nasceram? Sabem como vieram ao mundo, seus bastardos? Pois eu vou dizer. Foi graças a ela! Foi ela que quis vocês e rasgou o próprio ventre para conseguir! Malditos! Vocês a mata...
Eu nunca entendi direito o que aconteceu. Só sei que num momento era erguido pelo pescoço junto com meu irmão, as palavras raivosas sendo cuspidas sem compaixão. No outro eu estava na lama mais uma vez e meu pai cambaleava, o peito ensangüentado.
- Malditos... – ele sussurrava cheio de ódio. Porém, de nada lhe adiantava as ofensas e maldições. Elas não pararam o ataque de meu irmão, tampouco impediram que sua garganta fosse cortada.
Essa é a última lembrança de meu pai: seu corpo estirado em meio a chuva e barro, debatendo-se em seus últimos e agonizantes suspiros enquanto se afogava no próprio sangue.
Talvez, para o mundo fosse apenas mais um que tombava, insignificante demais para chamar a atenção de algo que não cães e abutres.
Talvez nós já devêssemos estar acostumados.
Mas, se não pelas minhas próprias lágrimas, pela gargalhada insana de meu irmão que ecoava acima das gotas e trovões, eu soube que algo havia se quebrado. Por isso me arrastei até ele, o abraçando com força como se assim pudesse juntar o que havia se partido.
Ah, meu querido irmão. Acredite, eu o teria posto numa redoma de vidro se pudesse, criando um mundo novo apenas pela esperança de ver teu sorriso mais uma vez. Mas tudo que fiz foi fechar os olhos, me deixando levar, abandonando-o naquela chuva tal qual nosso pai nos abandonara tantos anos antes.
Ah, meu amado...
Você pode me perdoar?
-X-
Os anos se passaram...
Anos de sacrifícios e cicatrizes...
Anos em que fizemos de tudo para sobreviver...
Lutamos contra os mais fortes, roubamos dos mais poderosos, torturamos os mais durões, assassinamos os mais importantes. Éramos filhotes bastardos, perdidos numa selva de lobos ferozes e famintos. Filhotes, sim, filhotes.
Mas filhotes de lobo.
Prova é que sobrevivemos, mesmo que o resto do mundo acreditasse no contrário. Nos tornamos fortes e selvagens. Os que antes eram dois pirralhos que sequer valiam o esforço de serem lembrados agora eram os melhores mercenários do país da estrela, ninjas cuja a mera menção dos nomes gerava pânico e hesitação.
Foi uma luta árdua e injusta, mas tínhamos conseguido. Finalmente estávamos no topo.
No entanto alguma coisa parecia errada, como num quebra-cabeça que a última peça não quer encaixar. Nossa imagem estava completa mas, lá no fundo, largado num canto escuro e esquecido, havia um sentimento de vazio, uma melancolia tão profunda que jamais poderia ser apagada.
Eu sabia que era uma bomba-relógio. Via nos olhos de meu irmão o desespero e a agonia das tentativas frustradas, a eminência da explosão. Mas ele não falava nada, sempre mudando de assunto, guardando tudo dentro do próprio peito. Por muito tempo respeitei sua decisão. Fiquei calado, apenas observando, nada mais que uma sombra fiel que chorava em silêncio.
Assim nós continuamos. Sangrando sem saber, vivendo livres do certo e do errado. Sem amar nem odiar, apenas sobrevivendo, fazendo o que nos pagavam para fazer. Afinal, tudo havia mudado.
Nós havíamos mudado.
Só faltava abrir os olhos.
E eu os abri, ainda que sem querer. Numa noite como outra qualquer, eu finalmente percebi o que estava faltando...
-X-
Os gemidos dela ecoavam pelo quarto, reverberando absolutos pelo ar. Gritava, perdida em meio ao prazer e a dor que eram dois homens arremetendo dentro dela ao mesmo tempo, rasgando sua carne como animais, mordendo seu corpo, marcando, possuindo...
Porém, por mais rude que pudesse parecer a vadia pedia mais, se abrindo para nós como uma cadela no cio, se esfregando como podia. A mente despedaçada e esquecida, soterrada por luxúria e libertinagem, sequer percebia o sangue que lhe escorria pelas coxas morenas. Não, poderíamos matá-la agora mesmo que aquela puta continuaria a se arregaçar, usando dos últimos suspiros para implorar por mais.
Mesmo não sendo a primeira vez, aquilo me deu nojo.
Estava prestes a sair dali, dar um passo e abandonar aquele corpo quente e asqueroso, quando aconteceu.
Eu podia sentir as estocadas de meu irmão cada vez mais rápidas. O clímax estava chegando e, com ele, a vontade de ir mais fundo do que antes. Perdido no êxtase, meu irmão abriu os braços e depois o cerrou, tentando trazer a mulher mais pra junto de si. Porém não foram as costas dela a serem envoltas pelo aperto forte e febril...
...foram as minhas...
Se ele soubesse o que fez comigo naquela hora... Um contato tão tolo, mas que me fez arder como nunca antes, consumido por algo tão intenso que eu não podia, nem queria, lutar.
As barreiras racharam e cederam, liberando sensações que eu sequer conhecia, extravasando-as em seus lábios que eu tão desesperadamente possuía. Foi como abrir os olhos depois de um pesadelo e vê-lo ao meu lado, velando gentilmente. Os cinzentos anos de semi-afastamento pareceram evaporar da minha memória, não deixando para trás sequer uma lembrança.
E, mesmo que meu irmão ainda estivesse surpreso demais para corresponder, naquele instante, eu soube...
Estávamos mais unidos do que nunca.
Como que ensaiado, nossos olhos se encontraram e nossas mãos se uniram, no mesmo aperto, mesmo enlace que sempre nos unira, mas que o mundo quase nos fizera esquecer. Partimos o beijo e saímos da mulher, esse último sem a menos cerimônia. Ela gritou e reclamou, a face agora contorcida pela raiva. Ridículo. Quem ela pensava que era? Nós éramos mercenários. Assassinos perfeitos, frios e calculistas. Ela não passava de um objeto a ser descartado, nada mais. Como se atrevia a nos dar ordens?
Mesmo assim ela continuava reclamando e reclamando, a voz estranha e aguda doendo em meus ouvidos e arruinando o belo momento. No entanto, para meu alívio e sanidade, meu irmão fez o favor de enfiar o dinheiro combinado na boca dela, antes de expulsa-la do quarto com um belo empurrão.
Mal a porta se fechou e ele tomou meus lábios, reinvindicando-os com força, como se pudesse tomar tudo que eu tinha somente com aquele beijo. Quando finalmente nos separamos estávamos arfantes, os olhos embaçados e fora de foco. Só que eu não queria mais esperar. O havia feito por tempo demais! Mais um segundo sequer e morreria!
O ataquei, marcando sua pele, provando e sentindo como nunca fizera antes. Contudo, ele também não se deixou dominar, revidando com cada vez mais força, elevando as sensações até o limite. Eu poderia morrer, esmagado pelo seu prazer como a mesma facilidade com que esmagava uma flor qualquer mas não importava.
Acreditem ou não, eu morreria feliz. Não só desta vez como em todas as outras que viriam.
E assim foi. Intenso, bruto e dominador, sem palavras de carinho ou juras de amor eterno. Não precisávamos nem queríamos dizer nada. Nossos gemidos eram suficientes.
Olhar nos olhos do outro era suficiente.
Selvagem? Assustador? Decepcionante, talvez?
Hn, sinto informar mas foi assim mesmo. Sem carinhos, castidade ou inocência. Apenas aproveitando o tempo que tínhamos da forma mais intensa possível.
Porque éramos filhotes de lobo.
Porque não sabíamos se haveria outra chance.
Nós precisávamos de dor para saber que era real. Precisávamos de marcas que ninguém apagasse. Mas, acima de tudo, precisávamos estar de mãos dadas, olhando nos olhos um do outro.
Foi assim que alcançamos o prazer, meu irmão se enterrando em mim o mais fundo que podia enquanto eu lhe puxava com a mão que sobrara, rasgando sua pele, tentando lhe trazer mais para perto. Gemidos e gritos vibravam, confusos e misturados, nada mais que arfares e meias palavras.
A semente de meu irmão explodiu dentro de mim, preenchendo-me com um calor indescritível, me completando como jamais sonhara. Pude ouvir claramente sua voz rouca chamando meu nome.
Nunca houve música mais bela.
Esse foi um dos momentos mais felizes da minha vida, por mais que soe piegas admitir. Antes eu não tinha o menor valor pra ninguém mas, naquele momento, descobrindo o prazer que conseguia dar a ele, ver sua entrega num reflexo da minha própria, sentir seu coração no meu, sua alma se fundindo a minha...
Eu era dele.
E ele era meu.
Era só o que eu precisava saber. Só o que queria.
E, talvez pela primeira vez na vida, me vi desejando, sonhando...Ali, naquela cama e em seus braços, eu ousei acreditar no nosso enlace.
Ele seria eterno.
Nós teríamos um final feliz.
-X-
