Fui até a sala dos professores entregar os trabalhos do Fujimoto sensei. Um homem barrou-me na porta.

- É proibida a entrada de alunos aqui. Além disso.. Você não deveria estar no jogo hoje, senhor capitão?? - sorriu com certo sarcasmo.

Aquela aura de puro veneno pertencia ao meu professor de história. É não só o professor mais exibido como também o mais sarcástico.

- Vim entregar os trabalhos do Fujimoto sensei. Poderia chamar alguém que entregue isto pra mim?

- Desculpe, mas, não sou garoto de recados. - fechando a porta, entrou e sentou-se em uma poltrona.

Maldito! Que me deixasse entrar pelo menos! Por sorte uma professora me atendeu dignamente e entreguei os trabalhos a ela.

Ao passar pelo corredor vi Akira, o pivô do time de basquete. Após o término do jogo, os participantes haviam sido dispensados da aula o resto do dia.

- Então... Como foi o jogo? - perguntei aflito.

- Ganhamos.

- É isso aí!Sabia que isso ia acontecer!!Vamos pro nacional!!Não é empolgante??

- Não... Você está errado.

- Como assim? Nós ganhamos, temos que ir pro campeonato nacional, não?

- É que... Nós iremos sem você.

- O quê? Como assim?

- O treinador espera por você no ginásio. Desculpa, eu tenho que ir.

- Mas, espera!Akira!!

- Desculpa cara.

Mais tarde, voltei para casa, angustiado. Encontrei com ele na cozinha. Antes que eu pudesse abrir a boca, ele sorriu.

- Você gosta de curry?

Até tentei dizer algo, porém, o cheiro da comida me chamava.

- INCRÍVEL!O seu curry é simplesmente incrível!! - empolgado ao extremo.

- Que bom que gostou. É pra me desculpar.

A angústia voltou.

- O que aconteceu?

- Hein? - olhei pra ele, me olhava preocupado, recuei. - nada.

- Como se eu fosse acreditar... O que aconteceu? - agora, parecia sério. Não pude deixar de contar.

- Eu... Fui expulso do time.

Um silêncio invadiu o apartamento.

- Mas, tá tudo bem - sorri sem graça. - o time ganhou o jogo e vai pro campeonato nacional. Isso é ótimo, não é?

Ele continuou me olhando com aquela expressão séria.

- Aaaaaah tá bom!! Eu tô mal! Eu não queria ter saído, eu queria jogar com eles no nacional!! - chorei.

- Isso não é justo.

- O que disse?

- Não é justo que fique fora do time depois de tanto trabalho. Eu vou dar um jeito nisso!

- Espera sensei! Você tá doente!

- Coma todo o curry. Eu volto logo.

- Mas, se aparecer lá, vai ter problemas.

- Tem razão - sentou-se novamente.

Eu e minha boca...

- Mas vou resolver isto. Não se preocupe.

- Tudo bem, tudo bem, agora vá descansar. Não era nem pra ter levantado de lá. Se tivesse acontecido alguma coisa, imagina só! Eu não estaria aqui para ajudá-lo.

- Obrigado.

No outro dia, ele foi falar com o treinador. Pela tarde, fui chamado até o ginásio. Eu iria ser testado até o campeonato nacional, ficando como reserva. Não fiquei muito feliz com isso, mas, pelo menos existiam chances de jogar. No fundo, o treinador Sakamoto não era má pessoa. Ele só tinha medo que eu deixasse o time na mão.

Fui para casa pronto para contar as novidades ao sensei. Ninguém era mais sortudo que eu. Queria agradecer e comer curry como comemoração. Queria que ele se sentisse orgulhoso por mim. Abri a porta. Ele estava lá, com a professora gentil que encontrei pela manhã. Atrapalhei um beijo. Ele sorriu sem graça, afastando-se dela.

- Hikaru-kun!

A moça apenas me olhou de lado, forçando um sorriso.

- Essa é a Shizumi-san, professora de física dos primeiros e segundos anos.

- Já nos conhecemos hoje de manhã. Eu estou atrapalhando. Podem deixar que vou sair... - sem saber onde enfiar minha cabeça.

- Aah não se preocupe, não é Shizumi-san?

- Sim. Já estou de saída. Nos vemos amanhã, Hiroki.

- Sim. Até amanhã. - sorri gentilmente.

Passou por mim, colocando a mão sobre meu ombro.

- Até amanhã, Hikaru-kun!

Foi embora. Eu nem mesmo olhei para ele.

- Ela veio entregar as anotações da reunião que perdi ontem. É mesmo muito atenciosa.

- Hum..

- Olha... Se está achando que temos alguma relação eu...

- Não precisa se explicar. É algo que não me diz respeito.

Assustou-se com a minha fala e tentou se aproximar. Eu fui até a porta, indiferente.

- Eu vou correr um pouco.

- Mas... Hikaru-kun?

Parei perante a porta.

- Não demore muito. Vou fazer o curry que você gosta.

Saí contendo minha frustração. Corri com todas as minhas forças.

- Droga, droga, droga, droga. Aquele idiota... O que ele tem na cabeça? Depois daquela pouca vergonha, diz que vai cozinhar pra mim.

Seus corpos juntos, os lábios quase se tocando, era nojento. Aquilo não saia da minha cabeça.

Cheguei até uma quadra abandonada que ficava pelas redondezas. Ia até lá jogar um pouco quando estava irritado. E eu, definitivamente estava irritado.

Abri a mochila e tirei minha bola de basquete. Enquanto tentava fazer cestas, continuava a pensar.

- Aquele cara... Ele finge ser bonzinho, mas na verdade é frio e pervertido. Isso mesmo! Você pensa que conhece as pessoas e aí se depara com uma realidade diferente... Eu deveria saber... Aliás, sempre soube que tinha algo errado com ele. Não podia ser tão perfeito quanto parecia. Droga! Aquele idiota!

- Hikaru! - uma voz meio longe chamava.

Pensei ser minha imaginação e continuei a tentar acertar a cesta. Até que a bola saiu de minhas mãos. Quando vi, Akira estava sorrindo com a bola na mão.

- Akira!

- Brigou com a namorada? Parece frustrado.

- Eu não tenho namorada. Por que veio aqui? Não que eu esteja te expulsando... Eu só...

- É que... - pega a bola e acerta a cesta - tô meio frustrado - ri.

- Pelo menos você consegue acertar a cesta.

Sentei em baixo de uma árvore e ele deitou-se ao meu lado.

- Soube que o treinador chamou você hoje.

- Sim.

- E então?

- Tô no banco de reservas.

- Já é alguma coisa...

- Pois é. Fiquei feliz por poder voltar pro time.

- Tô vendo sua felicidade transbordando - diz em tom de deboche.

- Akira!

- Hum?

- Já aconteceu de você pensar que conhece alguém e de repente essa pessoa é totalmente diferente do que você pensou?

- Sua namorada?

- Não!! Eu não tenho namorada, já disse.

- Aah... Bom, fala de pessoas falsas?

- Sim. Eu acho.

- Existe muita gente assim. Não precisa ficar tão irritado. Afinal, nem é sua namorada né.

- Mas... Deixa eu exemplificar.

- Okay.

- Imagina uma pessoa que você acha que é gentil e inocente e que você seria capaz de colocar a mão no fogo por ela. Se encontrasse essa pessoa com uma outra pessoa sem que você saiba. Assim você vê que ela não é tão inocente assim e que traiu sua confiança.

Silêncio.

- Isso não faz sentido pra mim.

- Como não??

- Essa pessoa não tem obrigação nenhuma de contar sobre isso. A não ser que seja sua namorada - ri com malícia - Aí sim seria traição.

- Mas, se não for isso. O que é então?

- Ciúmes.

- Como?

- Você está com ciúmes. É óbvio! Agora me conta... Quem é essa garota? Eu conheço?

- EU NÃO TÔ COM CIÚMES!

- Está sim e não precisa se alterar.

- EU NÃO... Eu não tô me alterando. É só que... Por que eu teria ciúmes dessa pessoa?

- Talvez... Você esteja se interessando por essa pessoa.

- NÃO! Isso não! Não mesmo.

- Em outras palavras... Você está apaixonado por essa pessoa.

Senti como se estivesse sendo sugado pra outra dimensão.

- Até parece que nunca se apaixonou...

- É que... Você não entende... Eu não posso estar apaixonado por essa pessoa. Isso não faz sentido!

- Com o tempo, você vai achar encanto em todas as coisas que essa pessoa faz. Quando ela se aproximar, seu coração vai bater mais rápido. Quando ela te olhar nos olhos, você vai tremer e suar. Quando chamar por você, vai arrepiar-se. Vai começar a observá-la em cada simples movimento e viajar com momentos estranhos que são completamente idiotas mas que te fazem ser o idiota mais feliz do mundo.

- Aaaaaaaah pára com isso!!!! - tapei meus ouvidos, balançando a cabeça negativamente várias vezes.

- Se esta é a sua frustração... Aproveite-a enquanto durar - levantando-se.

- Aonde vai?

- Pra casa. Estou mais tranqüilo agora.

- Mas...

- Hikaru. A melhor coisa que pode fazer... É contar sobre seus sentimentos.

Voltei para casa mais confuso do que quando saí. O causador de tanta confusão estava sentado na mesa, lendo um livro. Assim que cheguei, ele sorriu fechando o livro e tirando os óculos.

- Que bom que chegou a tempo.

"Vai começar a observá-la em cada simples movimento"

As palavras do Akira não saiam de minha mente. Ele me serviu e sentou-se a mesa comigo.

- Então, como foi a conversa com o treinador?

- Bem. Vou ficar no time reserva por enquanto.

- Isso é bom. Significa que há chances de jogar.

- Pois é...

Levantei minha cabeça um instante e logo baixei, voltando meu olhar ao prato. Aquele maldito Akira...

- Alguma coisa errada? - fitava-me com preocupação.

- Não, não! Hehehe - sorri sem graça, transpirava como um porco.

"Quando ela te olhar nos olhos, você vai tremer e suar"

- Tem certeza? Você não parece muito bem - levantou-se e foi aproximando-se de mim.

"Quando ela se aproximar, seu coração vai bater mais rápido"

- TÁ TUDO BEM!

- Não é o que parece... Hikaru-kun!

"Quando chamar por você, vai arrepiar-se"

Estava a ponto de ter um colapso.

- Olha, sobre a professora Shizumi... Nós não temos nada. Ela só confundiu um pouco meus sentimentos e por isso estávamos daquele jeito quando você chegou. Só não disse nada para não constrangê-la.

- Por que está me contando isso, Sensei?

- Só achei que deveria ser sincero com você.

"Com o tempo, você vai achar encanto em todas as coisas que essa pessoa faz"

- Tá tudo bem - sorri.

Silêncio.

- Vou tomar um banho. Se quiser mais curry pode pegar.

- Tá.

Meu coração ainda estava acelerado. Até meu pensamento ficou sem palavras naquele momento, se é que isso é possível. Eu não podia estar apaixonado por ele. Afinal, ele é um homem! E é meu professor. Isso não faz sentido algum.

Graças ao Akira, me dei conta de que o sensei não só é o que eu imaginava, mas que eu estava com ciúmes dele. E tinha que admitir que fiquei aliviado depois de ouvir que eles não tinham nada e que ele não sentia nada por ela.

- Mas que diabos estou pensando??!!! Droga... Aquele maldito!

A culpa era desse idiota que estava roubando minha paz e também minha sanidade. Eu que me esforcei tanto pra ser um garoto bonzinho... Oh céus!Por que eu??

De repente, uma mão gelada toca em meu ombro. Arrepiei-me por inteiro. Era a mão do destruidor de garotos bonzinhos!

- Assustei você? Desculpe, é que você parecia tão distraído. - sorri divertindo-se com minha cara de quem viu assombração.

- Hehehehehe - forçando uma risada.

Levantei, deparando-me com seu corpo seminu. Corei. Eu tava mesmo ficando suspeito!

- Não vai terminar de comer?

- Ah! Claro! - sorri sem graça, suando muito.

Aproveitei a oportunidade para afastar-me dele. Enquanto eu comia, ele enxugava o cabelo com uma toalha. Seus cabelos negros e lisos caiam sobre os olhos azuis, fazendo com que parecesse ainda mais novo.

Eu o observava de maneira tão intensa que esqueci completamente do curry, que acabou caindo e manchando minha camiseta. Ele rapidamente pegou um guardanapo molhado.

- Deixe-me ajudá-lo.

Só voltei à realidade quando senti o pano molhado em meu corpo. As sensações que comecei a sentir são indescritíveis.

- Se não passar água logo e limpar, vai secar e ficar manchado.

- Desculpe.

- A camiseta é sua, não é? Então não tem porquê pedir desculpas - sorri.

Eu apenas o observava. Foi então que lembrei-me do que Akira disse antes de ir.

"Hikaru. A melhor coisa que pode fazer... é contar sobre seus sentimentos."

Pior do que estava, não podia ficar. Aquela era a oportunidade. Eu não podia ficar com esses pensamentos estranhos por mais tempo. Eu precisava dizer à ele.

- Sensei!