Aqui está o segundo capítulo! Peço desculpas aos que estão acompanhando pela demora, mas, em compensação, este ficou maior que o outro. Espero que não desistam de ler antes de chegarem ao fim... Acho que vale a pena... Sei que sou muito detalhista, fico em dúvida se a leitura é difícil ou agradável. De qualquer forma, espero sugestões e as críticas são sempre bem vindas. Antecipo que a penúltima parte tem uma linguagem mais formal porque se passa no Olimpo e foi a forma que achei para diferenciar os deuses dos mortais: aqui também sigo a estratégia de CDZ. Quanto às referências à mitologia, estão nas notas. Provavelmente, a maioria das informações já é manjada do pessoal que curte Saint Seiya, mas, como cito algumas histórias que não aparecem no enredo original, talvez fosse bom dar uma olhadinha antes de começar pra facilitar.
Não sei se vocês concordam com minha caracterização de Shun e Hyoga, nem se tô exagerando na dramaticidade... A minha idéia é simples: sim, eles se gostam, e suspeitam disso, mas aprenderam a lidar com o fato porque o dever como cavaleiro vem em primeiro lugar. Gostaria de saber a opinião de vocês. Cheguei a escrever 11 páginas só de diálogo entre os dois, mas tive que dividi-lo para seguir a lógica da história.
Quero agradecer a Mi-chan, Srta. Nina, Tanko e Cardosinha pelos comentários calorosos. É gratificante receber elogios de vocês, que já escreveram sobre os dois e que me incentivaram, com suas histórias cativantes, a escrever também. Sem essa força, acho que nem teria continuado!
Ah, já ia esquecendo. Na terceira parte, há uma referência sobre uma das famosas peças do trágico Sófocles: Antígona. Para os que não a conhecem e não querem ver spoilers, talvez fosse melhor lê-la antes. Se não, por favor, não fiquem bravos comigo porque contei o final!
Cap. II - Vingança
Atravessou todo o andar a passos largos e entrou na imensa sala que ficava bem à frente da escadaria. Sentou-se em uma das poltronas estampadas com ricos arranjos em cetim e, escorando os cotovelos sobre os joelhos, escondeu o rosto com as mãos. Não se reconhecia na reação intempestiva que tivera, não entendia nem queria entender os motivos que o levaram a se irritar tanto com o amigo. Procurava simplesmente apagar da memória o incidente, deixar a mente vazia e não se atormentar imaginando o que o outro estava sentido naquele momento. Mas, obviamente, todo seu esforço não tinha êxito. Recostou o dorso na poltrona e encarou o rosto severo do senhor Mitsumasa Kido pintado em um enorme quadro na parede. Parecia repreendê-lo.
- Vergonha, quanta grosseria! Como pude... e mais no estado em que está! - falava olhando fixamente para o quadro como se ele estivesse vivo.
Na verdade, o que o incomodava não era apenas a preocupação com o estado debilitado do amigo, mas também o fato de eles se desentenderem com tanta freqüência, o que antes era praticamente impossível de acontecer. O que o inquietava eram justamente as cismas recentes com alguém que sempre representou para ele mais que um amigo ou companheiro: um confidente nas horas difíceis. Não conseguia desvendar o que se escondia naquele olhar nublado, era como se não o reconhecesse mais. Ou melhor, mesmo suspeitando de tudo o que o angustiava, não podia ampará-lo. Percebia que ele estava sozinho e não tinha a mínima intenção de demonstrar o que sentia ou de pedir ajuda a quem quer que fosse. Parecia um estranho, não sabia sequer como tratá-lo.
- Seu idiota, como pôde ser tão grosso? - martelava para si incrédulo.
Mas sabia que não fora apenas grosseiro. Cruel, era essa a palavra! Era como se tivesse se vingado de Shun por ele se fechar em si mesmo e dispensar sua ajuda, jogando-lhe na cara e com desprezo a ausência do irmão que tanto o incomodava. Mais ainda, o episódio soava como uma punição pelo fato de ele nunca haver comentado sobre o assunto, de ter escondido algo tão surpreendente por tanto tempo e pego a todos de surpresa, quando o próprio Hyoga, tão fechado e impassível, tinha-lhe aberto seu coração e suas feridas, tinha-lhe revelado sua alma sensível como nunca fizera, e nem era de seu feitio fazê-lo.
- Idiota... - Levantou-se bruscamente e começou a circular de um lado a outro da sala onde a Senhorita costumava reuni-los. - Ele sequer podia imaginar.. Como pode querer cobrar-lhe isso agora? Que egoísta...
Não adiantava. Lembrava claramente das palavras de Ikki assim que voltaram, quando Shun ainda estava no hospital: "Ele sabia de tudo. Sempre soube. Foi lá para se sacrificar". Mas como Ikki podia ter tanta certeza? A própria Atena se surpreendera com o fato de ele, logo ele, ser o "Escolhido". Como Ikki podia afirmar com tanta convicção? Será que Shun lhe havia confidenciado em segredo? Se mesmo o próprio irmão não lembrava de nada... "Traidor!" - A fala irônica de Radamanthys retumbava em sua mente.
- Mas que droga! Por que isso me incomoda tanto? O que importa se ele sabia ou não? Shun continuou seguindo Saori, mesmo odiando lutar, isso é o que importa!
Alguém poderia duvidar de sua fidelidade a Atena? Ninguém tinha o direito de suspeitar das intenções de Andrômeda naquela batalha. Por outro lado, ele era poderoso o suficiente para que uma ligação tão forte com o Deus não lhe passasse despercebido. Mas por quê? Por que ele não havia contado? Por que aquela dissimulação vinda de alguém que era modelo de sinceridade para todos? Hyoga, principalmente, via nele a maior prova de que os sentimentos podem ser um sinal de força, não de fraqueza. Não foi com ele que aprendera a não ter medo de demonstrá-los?
- Estou cansado dessa ladainha!
- Procurei você por toda a mansão, o que houve Hyoga? - Uma voz conhecida interrompia seu monólogo. - Parece preocupado.
- Hein? - Virou-se assustado por ter sido apanhado em devaneios. Shiryu o encarava com olhar inquiridor e seu habitual ar de serenidade.
- Não, não é nada! - sorriso amarelo. - Apenas... apenas o Shun que consegue me tirar do sério! Agora colocou na cabeça que nos quer longe daqui... que nós o consideramos um traidor... - Sentou-se desabafando.
- Ora Hyoga, ele apenas quer mostrar que não precisa de ajuda. Teme que possa estar nos enfadando. Aliás, o que é bem típico dele: preocupa-se demais com os outros e pouco consigo mesmo. - O rapaz de longos cabelos negros sentou-se ao seu lado falando tranqüilamente, como se o que acabara de dizer se tratasse de uma obviedade.
- Sim, eu sei. - Jogou os braços por detrás da cabeça, recostando-se na poltrona. - E não tira da cabeça dura o Seiya, como se tivesse poucos problemas com que se ocupar...
- Bom, temos que deixá-lo o mais livre possível de inquietações e lhe dar um tempo para que se acostume com os últimos acontecimentos. Não é todo mundo que consegue sobreviver ileso ao que ele passou. Veja o exemplo de Saga, que acabou se matando. - Hyoga o escutava apreensivo.
- E no entanto, Shun não ordenou a morte de ninguém...
- Mas chegou a atacar Atena! E só através dele, Hades pôde iniciar o Eclipse aqui na terra. Ele sabe que foi o responsável indireto pela calamidade e por muitas mortes. - Sim, era natural que Shun se sentisse culpado. E ele só fez piorar as coisas. Percebendo sua preocupação, Shiryu mudou rapidamente de assunto. - Eu cabo de vir do laboratório da Fundação. Já liguei para a Senhorita informando a situação.
- E qual é?
- Eu lhe passei o resultado dos últimos exames e o estado de Shun, e ela me contou que o Seiya está bem melhor.
- Verdade?
- Parece que já recuperou alguns movimentos e a consciência, só a memória ainda está um pouco comprometida. Ele não lembra de nada!
- Talvez seja melhor para ele... Bom, mas se já saiu daquele estado, será pouco tempo para retomar todos os sentidos, certo?
- Sim, ele fala, vê, mas ainda não reconhece ninguém, nem mesmo a irmã. O próprio médico me informou que a memória é uma região do cérebro bastante delicada e que a recuperação será um pouco mais demorada. Nada que nos surpreenda...
- Que bom!
- Na verdade, a impressão que eu tenho é que a recuperação do Seiya depende única e exclusivamente de Saori. Acho que ela não quer que as coisas fluam tão rápidas. Além de seu estado debilitado pelo golpe de... bem, pode ser um choque rever a irmã depois de tudo.
- É, mas a presença dela, sobretudo agora que ele recobrou a consciência, já deve lhe trazer algum benefício, mesmo que inconscientemente... - Recompôs sua postura. - Mas me diga uma coisa, e quanto ao Shun, alguma novidade com os exames?
- O fisioterapeuta virá hoje novamente com exercícios mais pesados. Já querem retirar o gesso da perna direita semana que vem. Quanto à transfusão, não haverá mais necessidade. Ele já recuperou a quantidade de sangue e, dentro de uma semana, já estará completamente renovado. Os riscos de nova infecção são poucos com os antibióticos. Tudo indica que ele mesmo já repeliu aqueles vírus estranhos.
- Tudo por culpa daquele demônio!
- Agora, sua capacidade pulmonar ainda é baixa. Não pode fazer muito esforço, há possibilidade de complicações nesse pós-operatório. Os riscos de hemorragia interna ainda são consideráveis porque a cirurgia é bem recente.
- E o teimoso fez de tudo para voltar para casa...
- Mas não há com que se preocupar. - Shiryu observava a cara séria de Hyoga com o canto de olho. - Ele está praticamente restabelecido. Tentarei animá-lo um pouco hoje à tarde: certamente ficará mais bem-disposto com a notícia sobre o Seiya.
- Vossa não imagina como isso me tranqüiliza...
- É o que já esperávamos, não? Aquela aparência frágil do Shun só não engana menos que sua suposta frieza e formalidade...- Riu da expressão de vexame do outro, que bufou com indignação.
- Ah, muito engraçado você! Veja como estou contente, é exatamente disso que estou precisando! Nem me contrariei hoje... - Levantou-se com ares de injuriado. - E sabe do que mais...? Vou almoçar que é o melhor que faço. Não sou monge e não me nutro de vento e orvalho! - Encarou-o com um olhar altivo, quase de desdém. - Aliás, você sabia que é um péssimo piadista? Não devia tentar imitar o Seiya desse jeito, é patético... - Shiryu gargalhava.
- A propósito, o Tatsumi estava arrancando os cabelos que não tem lá embaixo. Sua orelha não está coçando? - Perguntou acompanhando-o até o corredor.
- Pelo panteão do Olimpo, nem me fale daquele careca, eu imploro!
- Ele realmente adora você!
- Diga, chinês inescrupuloso! - Hyoga às vezes, para se passar por mais arrogante do que já o consideravam, adorava usar um linguajar difícil e parecer ainda mais astuto. - O que fez para conquistar sua cordialidade? Está subornando-o?
- Em primeiro lugar, não sou chinês! Em segundo lugar, a nobreza se reconhece de longe, é só saber se dar o respeito...
- Sei, claro! Só muita nobreza para que Saori te deixasse por dono dos cofres da Fundação! - Os dois desceram, alegres, as imensas escadas da mansão. Ao chegarem na sala de refeições, encontraram o mordomo furioso, vermelho como um pimentão, esperando-os para o almoço. Hyoga falou à parte para Shiryu: - Olha só o que vou ter que enfrentar!
- Deixa comigo!
OooOooO
Já era noite, a mesa ainda estava posta com as sobras do que tinha sido o jantar. Shiryu e Hyoga mantinham uma conversa amena sobre as lembranças das batalhas que mais lhe marcaram e o que pretendiam fazer, agora que todo o mal havia sido expulso da terra e não oferecia mais perigo. Perguntavam-se sobre o que seria do Santuário, já que estava em grande parte destruído e não havia mais cavaleiros de ouro para protegê-lo.
- Espero que Jabu e os outros estejam dando conta do trabalho por lá. A vila sofreu muito com a destruição das doze casas.
- Eu ainda não compreendo o que Saori pretende. Não devíamos estar lá para ajudar a reconstruir tudo?
- Ora Shiryu, não somos arquitetos nem operários... Além do mais, agora que Hades foi vencido de uma vez por todas, talvez o Santuário nem seja mais tão necessário.
- Ela já deixou tudo organizado. Há ótimos profissionais cuidando do assunto... Não há com que se preocupar! - O careca andava pela sala de um lado para outro e se intrometia vez por outra na conversa. - Mas tem gente aqui que pensa que toda a história dos cavaleiros acaba com ele. - Hyoga ignorava, orgulhoso, as provocações, como se se tratasse de um inseto zumbido em seu ouvido.
- Ele talvez tenha razão Tatsumi, Atena nem chegou a restituir o Paládio(1) ao seu antigo lugar.
- Só um idiota para achar que um deus pode ser morto... - Àquelas palavras, Hyoga comunicava-se com Shiryu por um olhar irônico e um meio sorriso estampado na cara. Parecia dizer: "não dê atenção a esse velho senil!"
- Mas Tatsumi, eu já lhe disse: nós perseguimos Hades até os Elísios.
- E ele sabe o que é isso?
- Escute aqui, seu russo de meia tigela, acho melhor você começar a me tratar com mais respeito! Só porque é um cavaleiro, não pense que pode ser arrogante desse jeito!
- Calma Tatsumi, não se afobe com as brincadeiras de Hyoga...
- Brincadeiras? Brincalhão é Seiya... esse aí é metido mesmo! - Hyoga ria à vontade, com a cabeça abaixada e os olhos reclinados sobre a mesa.
- Está certo. Você tem razão. Mas lembre-se que Atena não gosta de confusões...
- E quem está fazendo confusão aqui? - Disse já saindo pela porta que dava para uma das salas de estar, no térreo da mansão.
- Hyoga, tenha mais paciência!
- Mais do que já tenho, Shiryu? Esse aí vem pegando no meu pé desde que Ikki se mandou daqui. Como não pode mais atormentá-lo, resolveu se voltar contra mim. É um sádico! - Shiryu tentava conciliá-los, mas achava graça da situação.
- Certo, mas bem que você podia controlar um pouco sua língua afiada. - Mudou o tom de voz, ficando mais sério. - Quer saber de uma coisa? Estou preocupado com Jabu e os outros. Eles devem estar bastante ocupados.
- Que se ocupem mesmo! Não fizeram nada desde a guerra Galáctica, aqueles inúteis...
- Minha nossa, você está mesmo intragável hoje... - O rapaz de olhos puxados e gestos contidos se divertia com o jeito enfadado do amigo.
- E não é a verdade? E depois, Shina e Marin estão lá para cuidar de tudo... - Levantou o rosto e passou a mão sobre a testa para tirar a franja que encobria seus olhos. - Mas me diga, Shiryu, já sabe quando vai voltar à China? - Shiryu fechou o cenho.
- Não sei ainda... Estava esperando Seiya e Shun se recuperarem totalmente.
- Saori não já te liberou?
- Sim, mas... Eu não quero ir pra lá e ter que voltar de novo, entende? - falava sem olhar para Hyoga.
- Sei... De qualquer forma, acho que vou me demorar um pouco ainda, suportarei o mal-humor de Tatsumi por mais um tempo, pelo menos até Shun não correr mais risco com aquela ferida e voltar a andar. - Interrompeu-se para tomar fôlego e coragem. Shiryu nunca falava muito da companheira de infância. - Se é apenas a condição dele que o está prendendo aqui, você pode ficar tranqüilo. Afinal, Shunrei está esperando por você... ainda mais agora, sem o Mestre Ancião para lhe fazer companhia...
- Nem me fale... - Shiryu baixou o rosto meio triste. - Ela deve estar sentindo muito minha falta...
- E quem sabe eu não te visito quando for embora? Saborear um pouco da comida dela... - O moreno encarou Hyoga repentinamente.
- Mas que história é essa de saborear a comida de Shunrei?
- Que é isso chinês? - O loiro ria da cara surpresa do outro. - Não sabia que era tão ciumento!
- Não... Não... Eu só não me lembro quando foi que você nos visitou...
- É só jeito de falar, tonto! - troçava do desconcerto de Shiryu, sempre tão sereno.
- E quando foi que te dei essa liberdade toda?
- Sabe qual é seu problema? Você é sério demais!
- Olha só quem fala, um chato orgulhoso como você! - Os dois gargalharam.
- Espero que não esteja atrapalhando... - Shun apareceu numa das portas, apoiado pela enfermeira.
- Mas que surpresa! - Shiryu disse contente enquanto o loiro cravava-lhe os olhos arregalados em silêncio. - Pena que já terminamos.
- Não se preocupe Shiryu, eu já jantei. - Shun se aproximava da mesa, esboçando um meio sorriso que contrastava com o rosto abatido. A moça o ajudou a sentar-se em uma das cadeiras. - Obrigado Oko. Sente-se conosco e faça sua refeição. - Ela deu uma olhada enviesada para Hyoga e respondeu:
- Prefiro jantar lá dentro. - Hyoga fulminava-a com suas duas pupilas anis, um olho mais fechado que o outro e uma das sobrancelhas levantada.
- Mas, não há problema nenhum...
- Eu me sinto melhor assim. Voltarei logo que precisar. - Fez uma reverência com a cabeça e se retirou. Shun acompanhava-a com a vista, meio desapontado.
- Bom se ela se sente melhor assim... Você fez sua parte. - O Dragão se ria das gentilezas do jovem.
- Claro que se sente melhor, vai fofocar com as cozinheiras... - Shun lhe voltou os dois olhos grandes e amendoados, um pouco sem luzes.
- Mas será possível? Hyoga, você está precisando de análise urgente! Será que existe alguém com quem não antipatize à primeira vista? - O comentário jovial de Shiryu fez com que Shun abrisse um belo e inocente sorriso. Concordava com o Dragão, fitando-o indiretamente com a cabeça meio abaixada, num gesto comum que o dotava de uma meiguice inigualável. Cisne, que o observava surpreso por vê-lo sorrir daquele jeito, nem teve tempo de pensar em uma boa resposta para dar a Shiryu. - O que você acha Shun? - O rapaz alvo assentiu com a cabeça, mas não ousou falar nada.
- E por certo eu não a surpreendi fofocando sobre tudo e mais um pouco na cozinha? Enquanto isso, Shun estava sem banho e com o curativo por fazer.
- É verdade? - Shiryu olhou sério para Shun.
- Bom... - Sua voz saía baixa, o que dava a impressão de que era ainda mais fina. - Na verdade, eu adormeci logo após o desjejum... Ela não quis incomodar... acabei acordando tarde. Foi uma bobagem...
- Bobagem? Pois saiba você que ela, em vez de cumprir com suas obrigações, anda ocupada em descrever o quanto a Mansão Kido é rica e luxuosa, o quanto você é lindo, gentil e não sei mais o que... E pra completar, prometeu que vai arranjar autógrafos para suas amiguinhas... Essa tiete! - Shun o olhava admirado.
- Então está entendido... - Shiryu pensou alto sem querer.
- O que está entendido? - perguntou-lhe como se o repreendesse.
- Nada... Quero dizer, se ela é tão desleixada assim, podemos arranjar outra. - desconversou, mudando o real sentido de sua fala.
- Não, não é! - Shun discordou abruptamente, mas voltou-se de novo para Hyoga, receoso de contradizê-lo depois do mal-estar que tiveram pela manhã. - Eu... estou satisfeito...
- Então, só posso entender isso como uma ponta de inveja de Hyoga por ela ter te elogiado e não a ele. Do jeito que é convencido... - gracejava com a expressão do outro, que se contrariava fácil nos últimos dias.
- HÁ, HÁ, HÁ! Shiryu virou piadista... Por essa eu não esperava! - O russo respondeu à pilhéria com ironia, e encarou Shun com frieza. - E você, o que está fazendo aqui?
- E..eu...
- Sim, você! Não devia estar lá em cima? Como me desce essas escadas na situação em que se encontra?
- Mas... eu já estou bem... O Shiryu me disse à tarde que estava praticamente restabelecido. - Agora era vez do rapaz vestido com trajes chineses ser fuzilado pelas duas centelhas azuis.
- Shun, você quer me botar em maus lençóis? Eu disse que você estava bem melhor... - Piscou pra ele, cúmplice, mas o outro não entendeu.
- Não, Shiryu, você disse que eu já podia sair do quarto...
- Sim, está certo, eu falei que era bom você caminhar um pouco, mas nada sobre descer escadas... - Ele voltou a ficar sério. - E falei que era pra repousar também.
- Não digo que é teimoso como uma mula... - Shun fechou o semblante e baixou o rosto.
- Eu só queria... sair um pouco...
- Bom, de qualquer forma, é bom ver que está com uma aparência mais saudável... - Shiryu amenizou quando viu sua expressão.
- E quando poderemos ver Seiya?
- Já não lhe falei que tudo depende de Atena?
- Um hum... - meneou a cabeça pra cima e pra baixo.
- Bom, acho que devíamos deixar os criados tirarem a mesa...
- Sim. - Hyoga concordou. - Você quer que te leve lá pra cima?
- Eu queria ver um pouco de tv... o noticiário...
- E não há tv lá em cima? - Mudou o tom, fazendo-se de mais gentil, embora mantivesse a gravidade no olhar.
- Acho que não tem problema... Ele já está aqui embaixo mesmo...
- Está bem, mas não vamos nos exceder...
OooOooO
Adentraram no quarto escuro e pararam na altura da cama. A claridade da noite entrava pelas cortinas abertas. Ficaram estáticos por um instante, sem saber o que dizer. Shun ainda sentia o braço forte do loiro em torno de sua cintura delgada, o que lhe transmitia uma estranha sensação de segurança. Percebia os músculos rígidos do ombro amigo por baixo de sua delicada mão. Hyoga se preparava para se desculpar pelo que acontecera durante a manhã, pois não tivera oportunidade com a presença de Shiryu, mas seus pensamentos foram interrompidos por uma voz suave:
- Eu ainda não agradeci pelas flores. - Hyoga pôde entrever o sorriso sincero de gratidão que se desenhava no rosto pálido de Shun, apesar da penumbra. Fitava as duas pupilas negras pela escuridão noturna. Apesar de toda aquela transformação, sua beleza restava intacta, talvez ainda mais notável pelo ar melancólico e porque o sofrimento só a tornara mais nobre.
- Não há de quê. - bocejou com certo constrangimento, retirando o braço. - Você já pode...
- Sim, consigo andar só. - Shun se dirigiu devagar até a varanda para abrir mais as cortinas e deixar que a brisa penetrasse. Preferiu não ligar a luz para não ocultar o brilho das estrelas que se viam da varanda. Era Lua nova e elas cintilavam imperiosas no céu de verão. - Está quente, não?
- Eu queria... hum... bom, não fui muito gentil hoje... - Hyoga, que era sempre tão eloqüente, se atropelava nas palavras. O outro voltou-se imediatamente e reparou que ele permanecia parado no mesmo lugar, olhando para algum ponto negro no chão. Notou o desconforto do amigo. - Eu fui cruel com você... - Uma trava parecia ter se alojado em sua garganta, não conseguiu continuar.
Ao ouvi-lo, Shun lembrou imediatamente da cena desagradável da manhã. Ficou sério. Mas sabia que a culpa não tinha sido dele. Na verdade, vinha testando sua paciência com sarcasmos nos últimos dias e não sabia porquê. Nunca foi de seu feitio ironizar as fraquezas de ninguém, muito menos as daquele russo, que escondia uma alma tão sensível por baixo do que parecia ser apenas raciocínio, altivez e equilíbrio. E, nisso, não mudara. Só não sabia porque fazia aquilo, porque os comentários maliciosos e alfinetadas. Sentia-se amargo e não tinha idéia do que fazer a respeito. Apenas o sentimento de vergonha pelas palavras rudes que ouvira sobre seu irmão lhe vinha à mente. Caminhou até ele lentamente.
- Sim... Cisne... você... você sabe ser cruel como ninguém... - Hyoga o fitou admirado. Não podia enxergar direito seu rosto pois estava contra a claridade que vinha de fora. - Nunca serei tão bom como você! - O loiro custou um pouco a entender, mas riu automaticamente. Os dois se sentiam meio estúpidos com todos aqueles mal-entendidos.
- Quando foi que aprendemos a rir de nossas desventuras?
- Desde que nos acostumamos a ser cavaleiros...
- Hum...
- Bom, vou fazer meu toilette. Se preferir, pode ligar a luz.
- Acho melhor eu ir andan...
- Já está com sono? - Shun estava realmente mais à vontade. Falava diretamente, mas sem perder a ternura que lhe era tão característica, e expressava um certo entusiasmo na voz. Não fosse por sua fisionomia ainda abatida, poder-se-ia dizer que era o mesmo de sempre, até mesmo nas reações meio arrebatadas que às vezes lhe prestavam uma feição infantil e voluntariosa, apesar de tudo o que já tinha vivido.
- Na verdade, não. - Olhava-o com curiosidade pensando que a notícia sobre Seiya tinha-lhe feito muito bem.
- Então fique à vontade. Ou está temeroso que briguemos novamente? - Dirigiu-se ao banheiro sorrindo. Parou defronte à porta e voltou a cabeça sobre os ombros para ver a reação do outro, que se encaminhava para a varanda.
Hyoga passou por uma poltrona próxima à porta de vidro e percebeu que nela havia um livro. Tomou-o em suas mãos e o folheou. Não conseguia ver seu conteúdo por causa da escuridão, mas preferiu não ligar a luz. Escorou-se com os cotovelos sobre a sacada da varanda. A noite estava realmente bela. Sentiu com prazer a brisa leve e fresca que corria lançando seus fios dourados para trás e admirou de longe o jardim da mansão, que ficava mais à direita. Os galhos das árvores no bosque à frente balançavam com movimentos que lembravam uma dança, pendendo para frente e para trás. O som das folhas farfalhando só era interrompido vez por outra pelo assobio agudo de algum pássaro. A hora já estava um pouco adiantada. Lembrou do jantar, que havia se arrastado mais do que o habitual, e do rosto de Shun enquanto assistia à tv. Ele, sem dúvida, parecia mais tranqüilo e saudável. Apesar de saber que se esforçava para aparentar que estava melhor, das sombras rochas que permaneciam sob seus olhos e do verde escurecido de seu olhar, não tinha dúvidas de que seu sorriso era sincero. Não conseguiria disfarçá-lo.
- Ele está se recuperando, não há dúvidas...
Baixou a vista até o livro em suas mãos. Com algum esforço, pôde ler com a ajuda da luminosidade longínqua que vinha dos refletores do jardim.
- Sófocles?
Era uma coletânea de tragédias em grego antigo(2), incluindo a trilogia tebana. Das famosas peças daquele autor, só conhecia a mais célebre: Rei Édipo. Abriu o livro onde estava marcado e atentou para uma passagem grifada:
- Vede-me em caminho para o atalho fatal, contemplando, pela última vez, a luz rutilante do sol! Hades me arrasta, viva, às margens do Aqueronte, sem que eu haja sentido os prazeres do himeneu(3), cujos cantos jamais se ouvirão por mim! O Aqueronte será meu esposo!
- Tu irás, pois, coberta de glória, a essa mansão tenebrosa dos mortos, sem que tenhas sofrido doenças, e sem que recebas a morte pela espada... Por sua própria vontade, única entre os mortais, vais descer ao Hades!
Hyoga interrompeu a leitura, estarrecido. Ficara paralisado com a vibração daquelas palavras, escritas há tantos séculos, mas que lhe soavam tão familiares. Procurou o título da peça.
- Antígona?
Já ouvira falar, mas nunca a havia lido. Claro que estava acostumado com o tom grave dos personagens mitológicos e do teatro grego, mas aquele pequeno verso parecia tê-lo tocado de forma peculiar. Era forte, como se a heroína, mesmo lamentando-se, não temesse a morte e se orgulhasse do seu destino.
- Por sua própria vontade, única entre as mortais, vais descer ao Hades! - repetiu em voz alta como se quisesse memorizá-lo, enquanto admirava o desenho que as constelações esplendorosas faziam no céu.
- Achei que já tivesse ido embora.Você sempre reclama que eu demoro no banho! Ainda mais agora, que tenho de fazer malabarismos... - Hyoga virou-se ainda pensativo, nem imaginava quanto tempo havia decorrido.
- Você demorou? Eu nem reparei... - respondeu meio desatento.
- Estava lendo?
- Não, eu.. estava só olhando... - Voltou a folhear o livro. - Você não arranjou nada mais agradável para ler?- Shun abriu um sorriso singelo.
- Não seja chato, eu adoro teatro. Ainda mais clássico.
- Sim, mas.. bom, deixa pra lá. Onde você conseguiu o original em grego?
- Onde mais? Aqui, na biblioteca da Saori. - Shun se escorou na sacada, acompanhando o gesto de Hyoga. - Um livro desses deve ser uma fortuna, viu a encadernação como é bonita?
- Sim, a edição é bem antiga.
- Você quer emprestado? Pode levar, já li o que queria.
- Engraçado, eu ainda não tinha visto esse livro por aqui. - Hyoga continuava folheando o livro pra lá e pra cá, sem deter a atenção em nenhuma parte específica.
- É que peguei hoje.
- Hoje?
- Sim, depois que você me chamou de suicida, lembrei de uma passagem e fui até a biblioteca...
- Shun! Você saiu por aí subindo e descendo essas escadas o dia inteiro? - Hyoga fechou o livro com força, incrédulo.
- Quero dizer, eu pedi a Oko que pegasse pra mim. - Baixou o rosto com um risinho maroto de quem havia feito uma traquinagem.
- Mas é claro, ela é fluente em grego antigo! Você não tem jeito mesmo, não é? E eu preocupado em te trazer pra cá depois do jantar, para que não fizesse mais um esforço...
- Eu já te agradeci. Você é muito... gentil. - falou com uma vozinha mansa.
O banho tinha-lhe dado um ar mais despojado, quase brincalhão, o que fez Hyoga reparar nele com mais atenção. Vestia uma espécie de túnica bege de lã fina que descia à altura dos joelhos e tinha duas pequenas aberturas nas pontas, deixando suas pernas de mármore e de contornos bem delineados à mostra. Ele costumava usá-la como pijama. O cabelo amarrado no alto da cabeça estava seco e deixava seu longo e alvo pescoço à mostra, com alguns fios verdes pendentes emoldurando o rosto fino. As sobrancelhas levantadas, os olhos meio apertados em direção ao bosque e um lado da boca um pouco repuxado denunciavam o riso preso.
- Escuta aqui, se pensa que vai me convencer com essa carinha de santo desamparado, tá muito enganado. Eu te conheço de longa data...
- Que é isso... Hyo-San! - Agora ria abertamente. - Não precisa ficar tão bravo por uma bobagem dessa... Depois, o fisioterapeuta me mandou fazer exercícios e mesmo Shiryu disse que eu já estava bem... - Seu sorriso era simplesmente irresistível, conseguia amolecer o coração do pior bruto que fosse, até mesmo de seu irmão. O pequeno sabia perfeitamente disso e como usá-lo.
- Não, ele não falou nada disso. Falou que você devia ficar em repouso.
- E não é o que estou fazendo? Não posso sequer ir ao jardim... - O loiro bufou e voltou a folhear o livro calado. Ele se aproximou, pousou a mão em seu ombro e falou baixinho bem próximo a seu rosto. - Você não precisa me tratar como se eu fosse uma criança...
Hyoga sentiu seu estômago se abrir por dentro e alguns dos poucos pêlos que tinha pelo corpo se eriçarem, mas se segurou e fez que nem prestava atenção. Aquele moleque manhoso sabia como mexer com ele, algo inadmissível! Shun ficou com cara de desapontado quando viu que sua provocação não surtira efeito: o russo tinha a postura de uma estátua de gelo. Franziu os lábios e se afastou resmungando.
- Ai, não sei porque insisto em conversar com um bloco de gelo... - Sentou devagar no chão, apoiando-se numa parede. Escorou as costas nela, dobrou os joelhos até onde a perna engessada permitia e levantou a cabeça para ver as estrelas. - Até parece que eu nunca fiquei convalescendo depois de uma batalha, nem ninguém aqui...- Hyoga voltou-se para trás ao perceber os movimentos do outro.
- Mais essa agora!
- Olha, não enche, continue lendo o livro, tá? - disse , meio espevitado. - Se é pra ficar me criticando, melhor ir embora!
- Hááááá... Quer dizer que começou a botar as garrinhas de fora, hein? - Parou ao seu lado esquerdo, em pé, com um riso zombeteiro. - Agora eu sou chato porque não dou atenção às suas manhas?
- Não, você é chato por natureza! E eu não sou manhoso! - Shun fazia-se de bravo.
- Imagina... - Hyoga continuava ironizando, o ombro direito junto à parede e a mão esquerda na cintura. Na verdade, ele era elegante por natureza, não chato, mas, obviamente, Shun jamais confessaria isso!
- Vai ficar parado aí? Não vê que tá tomando minha visão?
- Não precisa ser tão rude! - Sentou-se ao seu lado. - Estou te fazendo companhia e é assim que me agradece... Além do mais, não dá pra ler direito nessa escuridão!
- Por que não liga a luz?
- Ah, deixa pra lá... Que peça estava lendo?
- Antígona. Você conhece? - Shun respondeu entusiasmado, como uma criança que acaba de ler uma história e quer contar para todo mundo.
- Conheço o mito, era filha de Édipo, não?
- Era. Eu adoro essa tragédia, já li faz algum tempo, sabe como é o treinamento...
- Eu vi parte de um diálogo que estava marcado. - E repetiu num tom solene a passagem que tinha lido há pouco. Shun o ouviu com atenção. Depois de algum tempo refletindo, Hyoga completou: - É muito bonita!
- Sim, fui eu que grifei. - Ficara tocado pela pronúncia intensa do loiro e achava graça dele ter encontrado exatamente uma das passagens que mais o marcava. - Lembrei dela e quis reler algumas cenas. Só não diga a ninguém que risquei o livro!
- Sei, mas eu não te chamei de suicida! - Shun riu com a cara de constrangimento do loiro.
- Você não deixa passar nada, não é? Tem outra frase que acho bonita: "Não nasci para compartilhar de ódios, mas somente de amor". - Ele simplesmente adorava esse verso, mas preferiu nem comentar muito. Hyoga permaneceu pensativo, com o rosto voltado para o livro. - Eu conheço algumas comédias também. Até gosto delas, só acho que não dá pra comparar. As tragédias sempre revelam nossos sentimentos mais nobres... - O outro olhou-o surpreso.
- Sim, é verdade. Mas ainda prefiro os poemas homéricos. Se bem que conheço algumas peças de Eurípides. E também já li o Rei Édipo.
- Pois bem, essa peça se passa depois que Édipo morre. - Shun estava verdadeiramente exaltado. - Com sua morte, seus dois filhos, Etéocles e Polinice, disputam o trono, mas morrem em um duelo. Então, quando Creonte, que era cunhado de Édipo, se impõe como tirano, ordena que sepultem Etéocles com honras de herói e proíbe, sob pena de morte, que dêem sepultura a Polinice, considerado traidor por fazer aliança com os argivos(4) para conquistar Tebas. Como castigo, seu corpo deveria ficar exposto às aves carniceiras. Só Antígona, irmã dos dois, tem coragem de contrariar o decreto e lhe prestar as honras fúnebres.
- Me parece a coisa mais natural a se fazer, deixar corpos insepultos, além de um ato impiedoso, contraria a própria vontade dos deuses.
- E é assim que ela se defende, mas Creonte não dá atenção a seus argumentos e não vacila em condená-la à morte. Manda que a sepultem viva em uma gruta. - Parou subitamente. Seu rosto empalideceu, tomando uma expressão de tristeza. - Essa passagem que você leu é exatamente quando ela se encaminha para o túmulo...
- E não havia ninguém para defendê-la? - A voz rouca de Hyoga soou pesarosa. Estava claro que Shun se identificava com a dor daquela heroína.
- Sim... - Ele continuou devagar, mexendo as mãos involuntariamente. - O filho de Creonte... Hémon... era seu noivo. Ele pede ao pai ... pede que a poupe.
- E?
- Creonte não o ouve.
- E o que ele faz? - Hyoga mostrava-se cada vez mais interessado.
- Ele... ele vai até o túmulo tentar salvá-la mas... - Shun o encarou e deu um sorriso amarelo. Incomodava aquela perturbação inesperada, sobretudo sob o olhar sagaz de um ouvinte atento aos menores detalhes. Desviou o olhar rapidamente e baixou o rosto. - Ela já ... ela havia se enforcado... - parou novamente a narração, mordeu um dos lábios e engoliu em seco - ...com os cordões de sua roupa. - Hyoga esbugalhou os olhos.
- Que? Coitado...
O russo estava completamente envolvido pela história trágica e pela beleza de seu narrador sob a claridade sutil daquela noite, que realçava ainda mais sua pele alva e lisa. Seu rosto angelical se contraía a cada detalhe da narrativa, como se a sentisse na própria carne. Envolvia os joelhos com um dos braços e levava sua mão esquerda até o pescoço, acariciando-o com os dedos compridos ou então mexendo nervosamente em uma mecha de cabelo, num ato totalmente irrefletido. Sua respiração soava descompassada e os lábios, agora vermelhos como duas pétalas de rosa, estavam entreabertos para o ar sair com mais força. As maçãs do rosto também haviam enrubescido e as pálpebras pesavam meio fechadas, guardando duas esmeraldas ardentes como tochas em delírio e focalizadas em um ponto vazio daquela varanda, que parecia ter diminuído.
- E o que ele fez? - Hyoga insistia para ouvir o fim da história, mas Shun mal conseguia falar, estava quase sufocando. Encarou-o de novo com um olhar meio febril.
- Como o que fez? Ele se matou! - O loiro não respondeu nada, apenas continuou admirando-o embasbacado. Quanto a Shun, baixou novamente o rosto e franziu a testa. Seus movimentos se revelavam debaixo daquele tecido fino, que deslizava suas dobras levemente cada vez que ele roçava as pernas uma na outra, encolhendo-se. Podia-se ver parte de sua coxa esquerda, incrivelmente branca e aparentemente sem pêlo algum, com músculos firmes, mas não tão rígidos que lhe tirassem a textura macia, e curvas suavemente arredondadas semelhantes às de uma virgem. Como estivesse desatento, sequer percebeu sua pequena nudez e os olhares curiosos do rapaz ao seu lado. - E o pai dele, que correra até a gruta para libertá-la, informado por maus presságios, acabou presenciando tudo.
- Belo! - Hyoga continuava hipnotizado, mas seu pensamento voou longe. Imaginava a cena: um pai vê o filho matar-se por causa de seu amor, que ele mesmo tinha feito perecer. A culpa era sua! - Terrível! - Shun se riu quando notou a expressão de desalento do outro, que soltava palavras ao vento sem perceber, e de sua própria. Talvez por ingenuidade, desatenção ou mesmo costume, não deu importância ao fato daqueles fachos azuis estarem paralisados na direção de suas pernas.
- E isso não é tudo! - Sua fala voltou a sair normalmente, mas a voz ficara ainda mais doce, como um canto. Ele continuava mexendo nos fios verdes soltos e virou o tronco totalmente para o outro, queria ver sua reação. - A mãe dele, ao saber da morte do filho, também se mata...
- Meu Deus!
Hyoga não estava apenas surpreso, mas seu rosto expressava horror. Não porque não estivesse familiarizado com o conteúdo trágico do teatro grego, afinal o Rei Édipo era muito mais terrificante. Além disso, ele conhecia bem os mitos e sabia que nas tragédias, geralmente, todos os protagonistas acabavam morrendo. Mas aquela história contada àquela hora, daquele jeito, depois de tudo o que haviam passado há apenas alguns dias atrás, logo por Shun! Tudo aquilo o tocara profundamente, mesmo que não fosse absolutamente de seu costume se emocionar com facilidade. Coçava a testa com a mão esquerda, o cotovelo sobre o joelho dobrado, enquanto sustentava o corpo que pendia para frente com a outra perna, cruzada rente ao chão. Estava completamente voltado para o companheiro, os olhos fixos naquela mesma direção, e repetia atordoado:
- A MÃE dele... Meu Deus... A MÃE!
Shun continuava olhando-o curioso, com as sobrancelhas levantadas e os dentes trincados, atrás de pequenos lábios carnosos entreabertos. O loiro percebeu a cara de espanto do amigo e desviou o olhar para o chão, sorrindo forçado, balançando a cabeça de um lado a outro. Sentiu-se ridículo. Recompôs-se, escorou as costas na parede como antes e jogou a cabeça para trás, que continuava balançando de um lado a outro. Agora ria de si mesmo. Pensou que Shun devia achá-lo maluco, mas este, na verdade, o contemplava. Os lábios finos de Hyoga desenhavam um riso largo, cujas curvas iam até as bochechas. Seu rosto era afilado e, por que não, delicado, mas não feminino. Tinha os olhos rasgados, o nariz comprido e ereto, que lhe acentuava a personalidade marcante, e o queixo levemente pontudo, com um pomo de adão saliente logo abaixo. E para emoldurar aquele rosto distinto, longos fios dourados, assim como suas sobrancelhas e cílios, e muito lisos, embora revoltosos e um tanto desgrenhados, pois ele não se penteava com freqüência. Na verdade, Hyoga era bem másculo, e se tinha maneiras e porte esbeltos à moda de um bailarino, estes eram, ao mesmo tempo, bastante viris. Shun admirava aquele perfil que lembrava a estátua de um deus grego.
- Como é que você resolve ler uma coisa dessas logo agora? - O olhar perdido no céu estrelado e o riso meio sarcástico persistiam.
- Ué, e qual o problema?
- Já não se sente mal o suficiente? - Shun fechou o semblante imediatamente, apertou os olhos e baixou novamente a face, espremendo os lábios um contra o outro. Hyoga logo se apercebeu do que havia dito, mas já era tarde. - Idiota! - pensou. Estava se sentido constrangido e quis devolver o mal-estar ao amigo, que não tinha culpa alguma. Ele costumava ter essas reações um tanto egoístas, mas quase sempre se arrependia delas, principalmente quando recaiam sobre alguém tão generoso. - Quero dizer... é muito triste... - Tentou consertar. - É bonita... mas é triste. - Mudou o tom da voz, agora falava quase sussurrando. Shun permaneceu calado por um tempo, depois suspirou.
- Mas é exatamente por isso que gosto dela. As histórias dos heróis do passado nos dão forças para suportar as dores do presente. - Hyoga não respondeu. - O que mais me chama a atenção, é que ela não se arrepende nem por um instante do que fez. Tinha certeza de que havia escolhido o caminho certo, mesmo sabendo qual seria as conseqüências de sua ação. - Prosseguia devagar, pausadamente, mas sempre sem encará-lo. - Ela poderia ter se conformado com seu destino de rainha, mas preferiu tomar as rédeas em suas mãos. Ou talvez seu destino fosse exatamente morrer por aqueles que amava... - O coração de Hyoga teve um sobressalto. Sentiu um aperto forte no peito e olhou-o com receio. Shun continuava no mesmo tom lúgubre. - Uma vez meu irmão disse que nós podíamos lutar e mudar nosso destino. Ele sempre se orgulhou muito de termos conseguido sobreviver apesar de não conhecermos pai ou mãe. - Ia se encolhendo a cada palavra. Fechou os olhos e abraçou o próprio tórax com os dois braços. - Eu queria acreditar nisso mas... acho que tudo o que aconteceu conosco até hoje não foi em vão... Somos meros fantoches brincando de deuses...
- Por que está dizendo tudo isso? - Aquela fala de Shun deixara o russo apreensivo.
- Hyoga... acabamos nos tornando aquilo com o que lutamos... Nossa pretensão não tem limites! Que tipo de justiça se faz com tanto sangue? - O loiro esperou um tempo para responder, pensativo.
- Eu não posso te responder essas perguntas... A única coisa que posso te dizer é que não lutamos por nós mesmos nem agimos por conta própria. Temos uma deusa a quem devemos proteger.
- Não culpe Atena por nossos erros!
- Eu não estou culpando, só que...
- Vai me dizer que nunca quis se igualar a um deus, que seu poder não o fez pensar que podia julgar os outros ou que sempre foi piedoso com seus inimigos?
- Você acha que eu me divirto matando os outros? Logo eu, Shun?
- Não! - Recordou de imediato os adversários com que Hyoga se defrontara até então. - Não foi isso que quis dizer... mas... muito sangue foi derramado...
- Para que inocentes não morressem, oras! Você sabe disso melhor que ninguém!
- Só que nós não interferimos apenas na terra. Nem os mortos descansam em paz... Com que direito modificamos o fluxo das coisas? - Shun demonstrava uma angústia infinita no olhar, mas não derramava uma lágrima sequer. - Lembro do que Mime me falou uma vez: o resultado de uma luta é sempre outra luta. O círculo de violência nunca pára. ... E o pior é que nem podemos ter certeza se lutamos do lado certo.
- Shun!
- O que me garante que este mundo deve ser preservado como está? Que devemos sacrificar tudo por ele? Será que as pessoas que protegemos são mais valiosas que aquelas que fazemos perecer? Será que estão preocupadas com o futuro deste mundo? Apesar de tudo, as intenções de Poseidon e Hades poderiam ser justas.
- Eu não acredito no que está dizendo. - Hyoga estava chocado com aquelas palavras. "Traidor": o deboche de Radamanthys de novo lhe vinha à mente. - Mime pode ter falado isso mas não hesitou em te atacar. E quantos cavaleiros nobres não morreram por causa das pretensões de Hades e Poseidon. Quantas pessoas, Shun? Veja o exemplo de Asgard: todos eles enganados por um impostor, e morreram achando que lutavam por sua terra! E os nossos amigos, os cavaleiros de ouro!
- Mas Hyoga, há tanto mal e sofrimento no mundo... nem fazemos idéia...
- Escute bem, eu venho de um país que é o maior exemplo de como as boas intenções e a tentativa de construir um mundo perfeito pode ser fatal! Nós somos o que somos, com defeitos e virtudes, é isso que nos faz humanos! E eu aprendi com você que devemos confiar nas pessoas, que elas podem, no fundo, ser melhores do que acreditamos. Não era assim que sempre falava? - Shun ficou mudo. Não conseguia dizer exatamente o que queria e discutir com Hyoga era perda de tempo. Não havia quem pudesse superá-lo em inteligência. - Escute, eu entendo como é difícil aceitar certas coisas, concordo com você. Mas daí a duvidar do propósito de Atena.
- Não estou duvidando do amor de Saori... mas... - Tinha o rosto contorcido, os lábios trêmulos. Não conseguia articular o que pensava.
- Você está confuso! - Hyoga tentava ser o mais compreensível que podia. Apesar de tudo, estava feliz por Shun finalmente se abrir com ele. - Não acha melhor deitar agora?
- Eu não estou com sono. - Olhou pra ele interrogativo. - Não tô te atrapalhando, tô?
- Absolutamente. Não é isso. E a enfermeira não vem mais, não precisa de nenhum remédio?
- Hum, hum - Shun meneava a cabeça num gesto singelo. Ainda pensava no que Hyoga tinha acabado de dizer. - Já tomei todos e falei pra Oko que podia descansar hoje.
- Descansar? E ela faz alguma coisa?
- Hyoga! - Shun o repreendeu. - Que implicância! Ela te acha arrogante, sabia?
- Bom, então não é tão burra quanto eu pensava... - Shun o olhou incrédulo, mas ele já havia voltado a atenção para o céu, agora recheado de estrelas devido o avançar das horas - A noite está linda!
- É.
Passaram algum tempo assim, contemplando o manto negro pontilhado de luzes sem dizerem palavra alguma. Shun sentiu um incômodo nas costas, mas não queria levantar, preferia continuar ali, vendo as estrelas, desfrutando da presença amiga de Hyoga. Desatou o laço que lhe prendia os cabelos e deitou-se com a barriga pra cima, acomodando a cabeça no colo do outro. Sentiu o chão frio em suas costas e um sopro de ar invadir suas pernas, fechando-as imediatamente de modo que segurassem sua veste. Naquela posição, podia ver o firmamento sem precisar mover o pescoço. Hyoga se surpreendeu com a atitude brusca do amigo, mas baixou mecanicamente a perna direita para que ficasse mais confortável. Riu de sua espontaneidade.
- É que me dá torcicolo.
- Talvez seja hora de ir dormir, então.
- Não, só mais um pouco e eu terei sono.
- Por mim, tudo bem, só me preocupo com suas extravagâncias...
Os minutos passavam vagarosamente e eles continuavam ali, calados, sentindo apenas a natureza ao redor e a companhia um do outro. Hyoga, irrefletidamente, pousou a mão esquerda sobre as madeixas verdes e onduladas, ora penteando-as com os dedos, indo da raiz até as pontas, ora acariciando suavemente sua cabeça bem desenhada. Os pensamentos de Shun, com aqueles movimentos, voavam longe, e seu corpo fragilizado parecia ainda mais enlanguescido, totalmente entregue aos seus devaneios e às mãos fortes que tocavam seus cabelos e seu rosto. A sensação agradável foi libertando-o cada vez mais de seu físico ainda dolorido, de suas más recordações e angústias. Seu cosmo caloroso começou a transbordar de seus olhos semicerrados voltados para o infinito. Hyoga o reconheceu imediatamente, maravilhado por ver que aquele imenso poder dadivoso permanecia latente e aflorava aos seus estímulos, confundindo-se com o próprio universo. Ele vacilava entre admirar o céu ou a cândida figura debruçada sobre seu colo.
- Shun?
- Sim?
- Você... sabia? - O rapaz devolveu-lhe as duas pupilas verde-azuladas e um sorriso terno. Tinha idéia de como aquela pergunta andava atordoando a mente do amigo e de como ele estava apreensivo em fazê-la. Falaram-se assim, apenas com o olhar, por um tempo.
- Eu... não sei... - Seus lábios só abriram o suficiente para passar um murmúrio. Hyoga continuava contemplando-o, tocando carinhosamente as ondas de seus cabelos. - Às vezes eu... me surpreendo e acho que tudo foi tão... inesperado... -Tornou a fitar a abóbada celeste. Falava cadenciado como se estivesse sonhando em vigília. - À vezes penso que... sempre soube... que ele sempre esteve... dentro de mim... - Apoiou os dois braços sobre o tórax, suspirando. - Lembro-me de sonhar com Pandora... comigo mesmo, mas não me reconhecia... - Seu olhar cruzou mais uma vez com o de Hyoga, que o escutava taciturno. - Aquele poder... ele estava escondido em algum lugar... eu tinha medo... medo de libertá-lo... medo de descobrir quem eu era. - Silêncio.
- Você é um cavaleiro de Atena, sempre foi. - Cercou seu maxilar com a palma da mão direita, os dedos afagando-o por trás da orelha pequena e o pescoço, e o polegar acariciando suavemente sua face aveludada. A outra face de Shun estava colada ao abdômen de Hyoga e podia sentir seus músculos se contraírem e esquentarem pouco a pouco. - Ikki disse que você sabia, e que foi lá para se...
- Ikki me toma por alguém melhor do que eu sou... - Um novo frenesi se estampou em seu rosto, nas linhas que apareciam entre suas sobrancelhas finas. Mas a dor que seus olhos revelavam não era de origem física. - Hyoga... nós não sabemos quem somos... nem do que somos capazes... - O loiro apertou mais o seu rosto.
- Às vezes sabemos e nos recusamos a ver... - Os olhos azuis quase marejaram.
- E às vezes vemos, mas não há porque dizer...
Os lábios de Shun novamente estavam vermelhos como uma flor desabrochando. Fazia com eles o mesmo movimento que as moças costumam fazer para espalhar o batom em todo o seu contorno de forma homogênea, mas que ele imitava instintivamente quando sentia o coração bater descompassado e as faces incendiarem-se. Sorriu um sorriso meio de timidez, meio de complacência: não sentiria vergonha de seus sentimentos. Nunca sentira... Hyoga apenas fixava o olhar nele embevecidamente, sem reação. Queria gravar aquela imagem em sua memória. Percebeu que sua mão apertava demais o rosto delicado e retirou-a, deixando-a fechada com força no chão. Apertava seus dedos uns contra os outros: era por eles que passaria toda sua tensão. Shun pôs-se de lado, com o rosto de frente ao ventre do amigo. Prendeu as mãos entre as próprias coxas, pois elas estavam arrepiadas pelo frio ou por qualquer outra coisa de que ele poderia até suspeitar, mas não carecia saber. Fechou os olhos e tentou esvaziar sua mente.
- Não podemos fugir daquilo que está traçado... há uma ordem no universo. Até os deuses devem submeter-se a ela... - Andrômeda falava como se estivesse em transe. - Atena quer proteger seus cavaleiros... mas... a nenhum homem é dado o direito de agir como deus... ou de matar em nome da justiça... - As palavras lhe saíam involuntariamente, como se alguém as soprasse em seu ouvido. - Enquanto estiver entre nós, tentará nos proteger... mas não cabe a ela decidir sobre os destinos. - Estava cansado e quase adormecendo.
- Sabe de uma coisa, Shun? - Interrompeu-se para atestar de que o pequeno o ouvia. Ele parecia nem estar lá, o rosto denotava total serenidade. - Os deuses... eles têm inveja de nós... E sabe por quê?
- Louco... - Um sussurro quase inaudível saiu das duas bordas carnudas e carmesins, que tocavam levemente uma na outra. - Não fale assim...
- A mortalidade: nossa maior fraqueza... Sem ela, não poderíamos amar como amamos! - Hyoga mantinha-se revolvendo os cabelos verdejantes como a natureza, por trás de sua nuca. Voltou os olhos para as constelações que os observavam em silêncio. - Eles nunca saberão o que é dedicar nossa única e breve vida a alguém... por amor... Jamais conhecerão a força e a beleza disso... - Cravou-lhe ainda uma vez as orbes azuis, mas Shun já não respondia.
OooOooO
Por trás das portas do Urano(5), lá onde as Horas zeladoras são responsáveis pelo abrir-e-fechar das nuvens espessas, no solar áureo de Zeus, os imortais se reuniam, comentando os últimos eventos. Alguns deles andavam receosos pela crise que havia revolvido o jardim dos mortos, outros denunciavam o insulto pelo qual os deuses primeiros, irmãos do Porta-escudo(6), haviam passado, e culpavam Atena de ter se rebelado contra o Olimpo.
- É ultrajante ver como ela nos faz de marionetes nas mãos de Zeus. - Ares, enfurecido, denunciava o que considerava um comportamento intolerável por parte da deusa para com os outros seres divinos.
- Na verdade, estava apenas cumprindo sua missão. - Apolo ponderava com suas longas tranças negras, símiles às de sua irmã. - Não foi o próprio Pai quem lhe confiou a proteção da terra e permitiu que retornasse depois dos 200 anos previstos. O que faziam Poseidon e Hades querendo usurpar-lhe o que lhe é de direito?
- Apolo, será que te esqueces do que ela fez a Hades? - O divino guerreiro de imponente estatura não se controlava. - Ridicularizar, ferir um deus daquela forma? Quanto a Poseidon, ela apenas lacrou com seu selo a passagem pela qual desce à terra, para que não voltasse a interferir nos assuntos humanos. O que não acho justo, embora esteja dentro dos limites impostos por Zeus. Mas perseguir Hades até os Elísios... simplesmente para envaidecer aquele humano fedido por quem está enamorada? - Os outros se sobressaltaram. - Vede como é casta a nossa irmã... menosprezar nossa estirpe por causa de um reles mortal, para enchê-lo de glórias?
- É melhor tomares cuidado com tuas palavras, Ares. - A sagitária Ártemis, prevenia. - Não se deve duvidar da castidade de uma deusa como Atena. Sabes como ela pode ser vingativa.
- Só quando se trata de deuses, não é mesmo? E a tu, Apolo, quantas vezes te contrariou desde o célebre massacre de Tróia, quando nos fez a todos de idiotas, chegando a ferir a mim e a Afrodite, bela? E somente para a glória de seus protegidos?
- Trata-se de uma ocasião muito diferente. Naquela época, a grandiosa Hera estava de seu lado. À sua fúria feminina, o próprio Zeus submete-se. E mesmo a balança do destino acabou pendendo a favor dos aqueus...
- Sim, luminoso irmão, mas a própria Hera também está desgostosa do que os cavaleiros de Atena fizeram a seus irmãos.
- Ártemis, pedirei a minha mãe que convença o Pai de que Atena atenta contra seu trono!
- Ora, Ares, não sejas intempestivo! Jamais Zeus acreditará numa história dessas? Atena sempre foi sua filha preferida... - Sua amada gêmea olhou-o, indignada. - Ártemis, querida, sabes perfeitamente disso. E será improvável que Hera considere o que aconteceu uma ameaça ao Olimpo. Isso não é motivo para se pretender um motim...
- Tu e tuas ponderações... Se estás aqui para defender Palas, é melhor que te retires...
- Não, eu já disse que não concordo com o que ela fez. Mas não podemos ser tão precipitados. Seria melhor usarmos a cabeça e não partirmos para a carnificina como tu, sanguinolento, tens feito.
- Atena precisa ser castigada! - Ares ardia de ódio. - Não importam os meios...
- E quem está falando em carnificina aqui? - Afrodite, com seus loiros e ondulados cabelos enfeitados de flores, assomou à porta das Horas. - Eu sei exatamente o que fazer para incitar as Eríniasa um castigo divino.
- Tens algum plano?
- Plano? - Ela sorriu. - Eu não uso dessas estratégias.
- Pois acho bom começares a usá-las para que não falhemos no que deuses maiores já falharam. - O divino arqueiro replicou.
- Meu nobre Apolo, Hades e Poseidon falharam por um motivo muito simples. Eles atacaram diretamente Atena, forçando seus cavaleiros a medidas desesperadas e sobre-humanas. No final das contas, é esse o seu joguinho, por isso se põe sempre em perigo - falava num tom sedutor que deixava o colérico Ares arrebatado. - E que tal castigarmos nossa irmã não diretamente, mas através de seus amados cavaleiros?
- Estás falando daquele verme que se acha maior que os deuses?
- Não, meu bravo e valente Ares. Aquele a quem chamas verme é o cavaleiro de Pégaso, que agora está sob os cuidados da própria Atena. Seria muito óbvio querer atacá-lo. Foi ele quem ousou ferir Hades e é ele o seu preferido. Exatamente por isto, ela espera que seja o alvo contra o qual nos voltaremos.
- E o que pensas em fazer? - Apolo começava a se interessar pela proposta de Afrodite. Talvez, para vencer a sagacidade de Palas, só os encantos da deusa feiticeira.
- Dentre os cinco guerreiros que sobreviveram ao inferno, existe um que cometeu um crime semelhante ao de Seiya, mas que não se encontra diretamente protegido por nossa irmã. Além do mais, ele, junto a Atena e Pégaso, é um dos maiores elos de ligação do grupo.
- Deixe de rodeios, de quem estás falando?
- De Andrômeda, é claro.
- Aquele menino? - Ártemis se manifestou contra de imediato. - Ele é o único que talvez merecesse nossa piedade. Quase um anjo, ora todas as noites por aqueles que perecem sob suas mãos, venera-nos como os antigos faziam e se desculpa pelas mortes que causa. Tem um coração imenso e é puro como uma ovelha.
- Tantos dons ... mais um motivo para ser nosso primeiro alvo! Sua desgraça fará o declínio do grupo.
- Não estais falando do "Escolhido" de Hades? - recordou Apolo.
- Ele mesmo!
- Aquele rapaz expulsou o domínio de Hades e, com ele, seu próprio destino. Em outras palavras, a derrota de Hades começou por sua causa, pois, devido à sua rejeição, nosso tio teve que apelar para o próprio corpo.
- Sim, e essa foi sua maior falta. Não se pode recusar o chamado de um deus dessa forma... Tu bem sabes, Apolo! - Provocou-o, maliciosa, pois o deus artista era conhecido por facilmente enamorar-se de donzelas e mancebos, aos quais castigava quando se lhe recusavam. - Além do mais, ele não retornou tão inocente do inferno. A possessão de Hades lhe deixou marcas e só agora está sentindo-as na pele. Está confuso, o coitadinho... Mas isso não é o melhor. O fato é que, além de estar desprotegido, um dos cinco cavaleiros é seu irmão e vive em sua função. Inclusive, sucumbiu a Hades porque não teve coragem de feri-lo, mesmo que fosse a própria vontade do possesso.
- Fênix, aquele demente! Admiro o que fez naquela ilha, queria tê-lo sob meu controle. Faria da terra um mar de sangue com sua ferocidade.
- Bom Ares, então, serás recompensado duas vezes porque acabar com o irmão caçula é mexer com a única motivação que pode medir-se com sua fidelidade a Atena.
- Está bem, agora entendo. Mas tu falaste de Fênix, e quanto aos outros três? - Ártemis mantinha-se desconfiada.
- Seiya é muito amigo seu. Também não conseguiu atacá-lo quando ele encarnou Hades.
- Sim, mas, passada a surpresa, ele certamente não virou as costas à Atena. É o mais fiel e persistente de todos.
- Acontece que Atena não pode ganhar uma luta apenas com ele e o Dragão.
- Por que dizes isso? E quanto ao outro?
- O outro é o cavaleiro de Cisne e ... bem, ele é muito amigo de nosso herói.
- O que estás insinuando? Aquele menino é casto!
- Até quando? Ártemis, tu mesmo acompanhaste todas essas batalhas de perto e não reparaste como os dois são, digamos, próximos?
- É verdade? - Apolo iluminou-se curioso. Se aquilo fosse certo, o plano seria perfeito.
- Sim, Afrodite, evidente que os acompanhei de perto. Eles são apenas bons amigos, disso eu vos asseguro!
- Bons amigos como Aquiles e Pátroclo? - Encarava-a com um olhar cínico. - Eles são jovens. Mas o loirinho não é tão ingênuo...
- Ainda assim, por mais fortes que possam ser os laços que os unem, eles jamais se manifestariam como tu pretendes e muito menos rejeitariam Atena por isso. Tuas artimanhas nunca funcionarão com um jovem tão cândido.
- Ártemis, querida, duvidas de meu poder? Posso não entender muito de guerra, mas, quanto ao Amor, nunca me engano. Aquele jovem é virtuoso, sem dúvida, só que está transtornado com o que lhe aconteceu. No estado em que se encontra, ele pode muito bem fraquejar. Além do mais, quem disse que o Amor contradiz a candura ou a virtude?
- Mas o outro me parece o mais racional de todos... - ponderou Apolo.
- Sim, e o mais frágil também. Não sabe lidar com seus sentimentos e as barreiras que criou para si mesmo não têm eficácia contra o companheiro. Eu posso garantir-vos, meus amigos imortais, que sei exatamente como levá-lo a perder a razão e a vontade de lutar!
- Afrodite, bela entre as belas, sei que nesses assuntos és insuperável. Acredito no que dizes. Se asseguras que podes manter esse cavaleiro distante, eu confio em ti. Deixa que me ocupe de Fênix, o irmão mais velho. Pedirei que meus filhos insuflem um ódio tão ardente em seu peito que ele voltará facilmente a ser o louco endemoniado de antes.
- Mas, e quanto aos outros dois?
- Não há porque se preocupar com eles, Apolo. Também sei quais são seus pontos fracos. E acredito que, provavelmente, nem precisaremos disso. Atena cairá ferida em seu orgulho e culpada pelo destino dos demais, o grupo estará desestabilizado e a motivação deles, desgastada.
- E como pensas em intervir na terra?
- Ora, ora, não há selo que funcione contra o meu poder! Faremos uso de armas com as quais ela não tem experiência, e, de tal forma fragilizada, poderemos lhe fazer nossa oferta.
- E, assim, voltaremos a exercer com liberdade nosso domínio nos assuntos terrenos! - Ares exultava.
- Está bem, Afrodite, faz o que tem de ser feito. Atena diz ser a única capaz de levar paz à terra, mas somos testemunhas do quanto ela fracassou. Só te peço que não te precipites com fúria contra aquele jovem. Eu mesmo gostaria de conhecê-lo, há séculos não vejo um humano que mereça a admiração dos deuses! Hades é sempre muito severo em seu julgamento, não creio que tenha se equivocado. Guarda-o puro, pois, de bom grado, o farei meu sacerdote, ou um novo Ganimedes.
- Como quiseres, Apolo. Vejo que já escolheste teu espólio de guerra...
- Quanto a mim, tentarei incitar os outros deuses a tomarem parte de nossa causa.
- Sim, minha irmã, também tentarei convencer Hefesto, nosso ilustre artífice, o ébrio Dioniso e Hera, a rainha dos deuses. Com sua ajuda, o império de Atena na terra estará com os dias contados!
OooOooO
Mansão Kido.
Passara o tempo, Hyoga não sabia quanto. Havia cochilado. Quando dera por si, as últimas constelações percorriam o globo celeste: a madrugada já avançara no céu, trazendo uma suave mistura de tons púrpuros e lilases. Com ela, soprava um vento frio que fazia o siberiano rir, embora fosse incômodo para o rapaz que se encolhia, debruçado sobre seu colo. Certificou-se de que ele dormia, acariciando-lhe o rosto e o pescoço: sim, jazia no doce e profundo torpor de Hipnos. O russo, então, ainda meio sonolento, arrastou vagarosamente os próprios braços sob os ombros e as coxas seminuas do adormecido, levantando-se com alguma dificuldade pela posição em que estava. Levou-o até sua cama e deitou seu corpo gracioso, colocando o travesseiro abaixo da cabeça e ajeitando seu tórax e membros de forma que ficasse confortável. Conduziu a mão até a ferida em seu peito, sob o tecido escasso, beijou-lhe a testa com imensa ternura e afastou-se. Também estava cansado, talvez de lutar contra si mesmo, talvez não: já haviam se acostumado à companhia um do outro e aprenderam aos poucos a lidar com certos reflexos inusitados. Assim que chegou à porta, ouviu um gemido:
- Hyoga... - Ele virou-se e percebeu que Shun tinha acordado. - Fique... - falou baixinho com a voz sonolenta.
- Você está com sono... - respondeu na mesma altura, aproximando-se - ... e eu também. Já é quase manhã...
- Fique... a cama é larga. - Shun ergueu o tronco, pondo-se sentado, e afastou seu corpo, deixando metade do leito vazio. Levantara o rosto e mirava-o com a expressão mais ingênua do mundo, com seus grandes olhos meigos, quase fechados de tão pesados. - Cabe nós dois...
- Shun... - O loiro riu balançando a cabeça como se não acreditasse no pedido do rapaz, que parecia sonâmbulo. O pequeno, então, abriu os olhos e lábios, e baixou intuitivamente o rosto, envergonhado.
- Desculpe... - A oferta lhe parecera normal, mas, a julgar pela reação de Hyoga, percebeu que ultrapassava os limites da discrição e do bom-senso. Deitou-se de lado, em direção da varanda, dando as costas para o vulto em pé e se sentindo o maior dos idiotas. - Desculpe... - repetiu meio choroso.
Hyoga ficou parado ao lado da cama, sem saber o que fazer. Sem querer, o havia magoado. Não pensou duas vezes: sentou-se no espaço vazio, tirou os sapatos e deitou-se por trás de Shun, abraçando seu corpo curvilíneo como uma concha. Passou o braço robusto em volta de sua cintura fina e o pousou ao lado do dele, a mão grossa e bronzeada vizinha à clara e delicada. A cama era estreita, podia sentir a respiração e o coração do outro em seu peito, o aroma de seus cabelos embriagando suas narinas e as coxas macias juntas às suas. As duas nádegas arredondadas tocavam de leve em seu baixo ventre e virilhas. Levantou um pouco o rosto e viu que a lã rala da camisola que ele vestia colava-se aos dois montes rosados logo abaixo de sua coluna arrebitada, denunciando, pelos vincos suaves que perfaziam no tecido, seu formato esférico e a fenda comprida e estreita que os separava como um rio. Estremeceu. Por que havia deitado sem refletir? A cada novo toque, o tecido subia e a pele branca e macia das coxas ficava mais à mostra, quase ao alcance de sua mão. Sentiu um calor subir violentamente ao longo de seu corpo, como se seu sangue entrasse em refluxo. Uma ânsia delirante e arrebatadora de desvendar aquelas formas harmoniosas, que ele tanto admirava, de acariciá-las e penetrar em seus segredos mais recônditos o acometeu. - Shuuunnn...- Aquela palavra minúscula ecoava em sua mente. Tentou controlar a ansiedade. O espírito em turbilhão imaginava alguma forma de fugir daquele suplício ou de suportar os quadris tão belamente esculpidos roçando-lhe sutilmente as partes íntimas. Temia alguma reação involuntária que o deixaria mais do que constrangido: perplexo.
- Maldito corpo! - pensava consigo. - Seria tudo tão fácil se só tivéssemos cérebro...
Começava a sufocar quando ouviu soluços quase imperceptíveis. Shun tentava segurar o choro, mas seu tronco dava pequenos espasmos e os suspiros presos fugiam, sonoros, por entre seus lábios. Hyoga apertou as mãos brancas nas suas e o corpo menor contra o seu.
- Está tudo bem... - Foi o suficiente para que o jovem caísse em um pranto convulsivo. Quanto mais ele o apertava, mais o som dos gemidos repercutia no quarto, o corpo todo em contrações súbitas.
- Me desculpe...
- Está tudo bem, não se preocupe...
- Me desculpe... Hyoga... - Os soluços saíam com violência, Shun parecia que ia quebrar a qualquer momento. Escondeu o rosto entre suas mãos.
- Shun, está tudo bem... não fique assim...
- Eu sinto muito... - Hyoga não sabia o que fazer.
- Vem cá... - murmurou em seu ouvido, virando-o para si, abraçando-o fortemente e empurrando sua cabeça contra seu ombro esquerdo. Shun largou a mão trêmula sobre o peito musculoso e continuava totalmente descontrolado, a perna engessada rente à cama e a outra por cima das coxas de Hyoga. Tinha metade de seu corpo debruçado sobre o do loiro, em uma posição que lhe era bem familiar de outra circunstância. Mas, agora, o Cisne não estava desacordado, ao contrário, envolvia-o vigorosamente. E ele mesmo encontrava-se praticamente despido da cintura pra baixo, a não ser pela minúscula e justíssima peça íntima que há muito não lhe cabia mais e que entrava, afoita com a agitação, pelo bumbum roliço, deixando sua popa rósea totalmente exposta.
- Eu tenho medo... - Tudo girava embolado em sua cabeça: sua confusão mental, as imagens do inferno, sua pretensa traição, seu horror àquela possessão, o vazio devastador que o demônio deixara em sua alma, a estranha sensação resultante de toda aquela intimidade, o abraço sufocante de Hyoga, o coração batendo energicamente contra o seu, os espasmos que roçavam seu corpo ao do outro, os músculos tesos e as mãos ágeis apertando-o, o ímpeto incompreensível de senti-los grudados a si, de senti-los dentro de si, de ter seu ser desolado preenchido por todo aquele vigor e confundir-se com ele, o rosto de censura e decepção de seu irmão...
- Eu estou aqui, tá me ouvindo? Estou aqui... não vou te deixar! - Prendia-o firmemente com o braço esquerdo, a mão em seus quadris, e espremia-o contra seu peito viril, estreitando com força as faces mimosas em seu pescoço. Reclinou a própria cabeça sobre os cabelos verdes e sedosos, ora mergulhando seu rosto entre as madeixas e inebriando-se com seu perfume, ora beijando ternamente sua testa.
- Eu achei que... estava livre... tudo parecia em paz... eu não sei... não sei o que há comigo... - Mal se entendiam as palavras desconexas sob os gemidos, soluços e a respiração entrecortada por contrações exaltadas.
- Você o expulsou, Shun...
- Eu tenho medo... tenho medo de mim... - Encharcava o pescoço e o ombro do loiro com suas lágrimas.
- Não tenha medo... não vou te deixar... nunca! - Hyoga apertava cada vez mais a magnífica cabeça contra si. - Nunca!
Continuou consolando-o, acalentando-o com palavras doces, até que Andrômeda acalmou-se pouco a pouco e adormeceu, fatigado pela manifestação intensa e repentina. Era tão doloroso vê-lo naquele estado que o loiro nem teve tempo de pensar ou esquivar-se da posição no mínimo imprudente em que se encontravam. Não sabia como, mas resistiu ao estímulo supremo de ter aquele corpo encantador, seminu, colado ao seu. Devaneava nessas idéias quando, de repente, apercebeu-se: Shun estava em seus braços! Um júbilo desconhecido e misterioso invadiu cada parte de sua anatomia: Shun estava em seus braços! Totalmente entregue, desamparado, clamando por sua proteção: estava em seus braços! E quanto mais se sentia envergonhado pela situação perante si mesmo e a memória de seus mortos queridos, quanto mais emergia em sua consciência o antigo pavor de seus sentimentos e da maldição que acreditava persegui-lo por sempre ferir aqueles que amava, mais apaixonadamente o enlaçava e mais profundamente nascia em seu peito uma convicção: apesar de tudo, a vida valia a pena.
- Maaama... - o sono enuviava sua mente e amolecia seu corpo - ... eu quero viver...
OooOooO
Continua...
1 Paládio: nome da imensa estátua de Atena dotada de poderes mágicos e que protegia Tróia. Durante a famosa guerra, um adivinho anunciou que os gregos só conseguiriam invadir a cidade se a estátua fosse roubada e retirada de lá. Em CDZ, é ela quem protege o Santuário e se transforma na armadura da deusa quando banhada com seu sangue por Shion.
2 Pode parecer exagerado, mas acho que fica claro que os cavaleiros conhecem profundamente a cultura da antigüidade clássica. Não só porque estão sempre se referindo a mitos, mas porque, inclusive, o testamento de Aiolos que eles lêem nas paredes de Sagitário está em grego antigo. E mesmo no Ep. G, aparece uma passagem de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso no original, inscrita nas paredes do templo do Mestre. Pois é, infelizmente, eu não moro no Japão nem na França e não aprendi latim e muito menos grego no colégio... Então, a passagem fica em português! hehe
3 Casamento.
4 Habitantes de Argos, antiga cidade do Peloponeso, Grécia.
5 Só para lembrar:
Urano - o Céu em seu elemento fecundo; pai de todos os titãs, inclusive de Cronos, e, portanto, avô de Zeus, Hades e Poseidon, os três grandes deuses, e de Hera, irmã e esposa de Zeus;
As Horas: divindades das Estações, filhas de Zeus. São responsáveis pela vigilância sobre as portas da mansão divina e por desatrelarem os carros de Hera e do Sol.
Palas: nome ritual de Atena.
As Erínias: ou Fúrias, são trêsantigas divindades responsáveis por castigar os crimes contra os deuses e contra a família.São deusas violentasque só obedecemàs próprias leis, às quais o próprio Zeus deve submeter-se, e que perseguem os homens quando ousam esquecer-se de sua condição mortal, enlouquecendo-os e torturando-os.Geralmente representadas como gênios alados, com os cabelos mesclados de serpentes e tochas ou chicotes nas mãos.
Aquiles e Pátroclo: heróis da Ilíada cuja forte amizade tornou-se célebre. Há dois momentos em que vemos o grande Aquiles enlouquecido de fúria: quando lhe tomam Briseide, o que o faz recusar-se a lutar, e quando matam Pátroclo, o que o faz voltar ao combate.
Ganimedes: jovem troiano de tamanha beleza e candura que encantou o próprio Zeus. Este envia sua águia para raptá-lo e levá-lo ao Olimpo, onde passa a servir o néctar aos deuses com uma jarra - daí a constelação de Aquário. Foi um dos poucos mortais que teve a honra de desfrutar da presença dos imortais na mansão divina.
6 Algumas qualificações dos deuses comuns na Ilíada e na Teogonia:
Porta-escudo: Zeus
Braços-brancos: Hera
Olhos-azuis, Olhos-garços: Atena
Sagitária e Sagitário: sinônimo dearqueiro (a),os gêmeos - Apolo e Ártemis - que eram caçadores e exímios no arco-e-flecha.
Sanguinolento, ou Deus guerreiro: Ares, deus da guerra violenta, que se contrapõe à Atena, a deusa da guerra justa e da paz.
A bela, ou a de belos cabelos: Afrodite
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