Título: Reencontro

Autora: Umi no Kitsune/ Adriana Adurens

Disclaimer: Tezuka e Fuji não são meus, se fossem, estariam se arranhando desde os quatorze anos. Eles e os demais personagens de PoT pertencem a Konomi Takeshi, o mago das coincidências yaoísticas.

Aviso: Yaoi. Mesmo universo de Encontro, Flácido, Acidente, Dominó e patati, patatá... Se você gostou da fic e a quer em seu site, por favor, peça permissão.


Fuji raramente sonhava. Durante toda sua breve existência até então, lembrava-se de cinco ou seis histórias malucas que sua inconsciência criou enquanto dormia. Mas, na maioria das vezes, ele nunca sonhava. Ou, pelo menos, era muito difícil de lembrar-se do que sonhou, se é que sonhou realmente.

Sabia que uma coisa não devia ter necessariamente relação com a outra, mas Fuji, também, tinha um sono muito leve.

Por isso, antes de dormir, ele verificava todas as janelas e cortinas, todas as portas e aparadores, certificando-se de que qualquer barulho ficasse do lado de fora de seu quarto. Aprendeu e adquiriu esse ritual muito cedo, depois de algumas noites acordando de quinze em quinze minutos, sem conseguir descansar totalmente.

Fuji abriu os olhos num átimo, virando o rosto na direção da porta do quarto, atento a qualquer outro novo barulho. E, novamente, o som de metal contra metal. Intrigado, ele sentou-se na cama e acendeu o pequeno abajur na cabeceira.

A maçaneta da porta mexeu e, lentamente, a porta se abriu.

Tezuka ergueu milimetricamente as sobrancelhas ao vê-lo acordado, mas logo se recompôs, entrando completamente no quarto e fechando a porta atrás de si, "Desculpe se o assustei."

Fuji sorriu, desacreditando no que via, "O que faz aqui?"

"Me desculpe."

Fuji continuou olhando pacientemente para o homem parado aos pés da sua cama, esperando um pouco mais do que um simples pedido de desculpas sem fundamento ou razão. Mas Tezuka pareceu muito satisfeito consigo mesmo e não acrescentou mais nada que explicasse sua inesperada visita.

Fuji soltou uma pequena risada, olhando para o despertador, "Tezuka, são três horas e dezoito minutos. Da manhã."

"Sei que não interrompi nada importante.", Tezuka comentou com uma certa displicência, retirando o casaco e jogando-o em uma cadeira próxima, "Você dorme com tanta facilidade quanto desperta."

"Ora... sinto-me honrado por esse pequeno detalhe ainda fazer parte de suas lembranças.", Fuji sorriu de lado, abrindo espaço na cama para o outro homem, maior e mais largo.

Tezuka retirou os sapatos e o cinto, puxando a barra da camisa de dentro da calça. Como se tivesse anos de experiência, em um movimento único, ele retirou os óculos e deitou na cama, abraçando Fuji e ajeitando o corpo menor contra o seu, "Agradeça depois. Agora durma.", ele ordenou, colocando uma mão sobre a cabeça do loiro, obrigando-o permanecer naquela posição.

Fuji, como sempre, dormiu, poucos minutos depois. E não acordou mais, pois Tezuka, como sempre, era um sonhador silencioso, que nunca atrapalhou seus sonos. Literalmente.


"Papai vai voltar?"

"Claro que vai voltar, Rin.", Fuji respondeu tranqüilamente, alisando o cabelo ruivo da menina, "Ele só foi ajudar a mamãe."

"Ah...", a menina, de cabelos ruivos e olhar vivo, olhou para o final do corredor e voltou a perguntar, "E eles vão voltar com ele, né?"

"Rin, deixa de besteira e chame 'ele' pelo nome.", Yumiko bronqueou com a garota, balançando as pernas freneticamente.

Fuji sorriu ante a birra da sobrinha. Achava-a muito parecida com Yumiko e, justamente pela irmã também perceber a semelhança, as duas sempre acabavam se implicando, tornando os encontros em família sempre cheios de emoção. A grande bronca que Yumiko tinha com a sobrinha era que ela não gostava nada da perspectiva de ter um irmão.

"Quando você crescer, vai ouvir montes de filhos únicos dizerem o quanto é sortuda por ter um irmão."

"O que eu escuto é um monte de filhos com irmão dizerem o quanto sou sortuda por ser filha única.", ela retorquiu imediatamente, lançando um olhar superior para a tia.

"Bom, agora você pode decidir qual é o melhor.", Fuji interferiu na conversa, "Eu, que já nasci com uma irmã, não tive chances de saber como é ser filho único."

"Aposto que, se você tivesse a chance, preferia ter tido só meu pai como irmão."

"Ora...!", Yumiko fechou a revista em seu colo, olhando indignada para a pequena garota atrevida, que agarrou-se ao pescoço do tio, mostrando que não estava desprotegida.

Nesse momento, o médico da família apareceu no final do corredor, com um sorriso de boas novas no rosto.

Yuuta casou-se com uma bela moça, delicada e tímida, perfeita para ele, Fuji achava. Suspeitava que os dois, Yuuta e Rinko, demoraram um ano apenas para avançarem do esquema beijinhos e abraços, mas isso era outra história. Conseguiram avançar, era claro. Afinal, Rin iria completar seis anos em agora Hiro, que acabara de nascer.

"Syusuke, ele é a sua cara!", Yumiko exclamou quando viu o menino no berço.

Fuji riu, franzindo o cenho, "Não acho que eu esteja tão vermelho e enrugado assim."

Yumiko bateu de leve em seu braço, "Cale a boca, ele é você escrito.", ela repetiu, continuando mais admirada, "Que absurdo... ele é igualzinho a você quando era bebê."

"É verdade.", Yuuta comentou, depois de verificar que Rinko estava dormindo e bem aquecida, "Eu não estava lá, mas as fotos não mentem. Vou ter pesadelos se ele crescer e a semelhança permanecer."

Yumiko riu, "Parece que sua sina é ter filhos parecidos com seus irmãos.".

Todos esses comentários, comparando seu tio favorito com seu irmão e sua tia odiosa com ela mesma, deixaram a pequena Rin com uma expressão de frustração no rosto. Determinada, ela puxou a barra da calça do tio e exigiu ser dada mais atenção. Queria passear pelo hospital. Fuji fez o convite e o entusiasmo de Rin foi grande o bastante para que decidissem ir a lanchonete.

Estavam escolhendo o lanche quando Fuji o viu. Sentado em um dos banquinhos próximos ao balcão, tomando uma xícara de café com seu inseparável celular no ouvido.

"Quero um de carne."

A voz de Rin chamou sua atenção e Fuji decidiu ignorar a presença de Tezuka, dizendo a si mesmo que era pura coincidência, que ele não estava sendo seguido. Novamente. Não mais.

Na manhã seguinte à invasão de Tezuka a sua casa, Fuji acordou bem cedo e saiu silenciosamente, pois tinha uma audiência a cumprir. Quando voltou, de noite, sua cama estava arrumada e vazia.

Três meses se passaram. Sem notícias ou vestígios de Tezuka.

"E um suco de maçã, tio, não se esquece!"

Fuji pediu os lanches e entregou-os para a sobrinha, que, olhando ao redor, avistou uma mesa que estava sendo desocupada.

"Vou sentar lá!", ela avisou, saindo correndo. Fuji sorriu para ela e voltou sua atenção ao caixa, separando o dinheiro para pagar o lanche, "Ah! Meu suco!"

Imediatamente, Fuji virou na direção do grito de Rin, preocupado com a menina. Encontrou-a com um bico enorme, lamentando a perda de seu suco, que encontrava-se, no momento, escorrendo pelas calças de Tezuka.

Sem resistir à cena, Fuji riu, voltando-se rapidamente para o caixa e pedindo um segundo suco, "Rin, peça desculpas ao senhor.", ele disse, ao se aproximar dos dois, tentando não rir mais ao ver Tezuka limpando-se com guardanapos de papel.

"A culpa é minha.", Tezuka interviu seriamente, curvando-se levemente para a garota, "Desculpe-me, senhorita."

"Desculpas aceitas.", Rin respondeu educadamente, já com seu novo suco em mãos.

"O que faz aqui, Tezuka?", Fuji perguntou, fingindo uma simples curiosidade cortês, mas imaginando consigo mesmo se receberia uma resposta ou não, visto o modo como Tezuka desviou de suas perguntas anteriormente.

"Exame pré-natal. Yumi está grávida."

Os dois se encararam por longos segundos em silêncio. Fuji não sabia de Tezuka, mas o único barulho que ouvia era o de sua sobrinha chupando com o canudinho grandes goles de suco de maçã. E tinha certeza que isso não era por causa de sua deficiência auditiva.

Apesar da surpresa, Fuji conseguiu sorrir, admirando-se por ver mais uma prova do empenho de Tezuka em mantê-lo afastado, "Oh, que bela notícia.", ele disse educadamente, "Dê os meus parabéns a ela."

"Pois não.", Tezuka acenou tão educado quanto, despedindo-se logo em seguida, "Agora, se me dão licença, preciso ir."

Rin observou a cena quieta, brincando com o canudinho na boca, "Quem era, tio?"

"Ah, um amigo de infância...", Fuji respondeu simplesmente, guiando a menina até uma mesa e sentando-se com ela.

"Vocês se falam muito?", ela perguntou novamente, mas, dessa vez, Fuji apenas acenou negativamente, não querendo entrar em maiores detalhes, "Mas falou de mim pra ele, né?", a garota perguntou, com um sorriso.

"Como assim?"

Rin soltou uma pequena risada diante da ingenuidade do tio, "Ele me segurou para que eu não caísse... e ele disse o meu nome.", ela explicou, achando que o tio não escutou por causa de seu problema no ouvido, o que foi exatamente o caso.

Fuji sorriu, achando a informação muito interessante, "Ah... sim... devo ter comentado sobre você com ele. Uma garotinha tão interessante, todo mundo quer saber."


Tezuka estava desconfortável no terno preto, os óculos escuros escorrendo a cada minuto por causa do suor que lhe escorria da testa. Sob o sol escaldante do verão japonês, usar roupas tão formais e tão escuras não seria nada até mesmo pra ele, se não fosse a ocasião.

Ministros, executivos das maiores empresas, todos os seus colegas de trabalho que sempre trabalhavam como inexistentes para o resto do mundo, senhores que já utilizaram os serviços e que pretendiam continuar utilizando... Ternos pretos, mulheres chorando silenciosamente, com vestidos discretos e rostos escondidos nos ombros de seus maridos. Assim como sua própria esposa, Yumi, que segurava com tal força sua mão, como se estivesse desesperada de que ele também se fosse.

O enterro do chefe de departamento da segurança secreta do Japão era um evento esperado já há alguns meses. Tezuka tentou, como pôde, ignorar todos os olhares que diziam saber que ele seria o próximo chefe de algumas daquelas pessoas e encarregado da vida pessoal de outras. Como genro, favorito discípulo e tido como um filho para o falecido, nada seria mais natural.

Yumi desesperou-se ao saber da notícia da morte do pai e Tezuka tentou acalmá-la da melhor forma que sabia: não falou nada, afastou-a de todos e dele mesmo, cuidou profissionalmente de todos os detalhes e, agora, postava-se silencioso ao lado dela.

Ele notou, com a discrição que lhe era característica, o modo como ela lamentava não poder ter dado um neto mais cedo para o pai, acariciando de forma possessiva a barriga de sete meses, prometendo que iria cuidar bem da criança, que ela seria honrada e levaria adiante os ideais do avô.

No meio dos cumprimentos todos, um dos colegas de maior confiança de Tezuka aproximou-se dele, sussurrando discretamente, "Ele aceitou o caso."

Impaciente, o futuro chefe da segurança secreta do Japão estreitou os olhos, movimento que passou despercebido por todos graças aos óculos escuros. Com um rápido olhar para a esposa, apertando a pequena mão entre a sua, ele chamou sua atenção, "Você já está há muito tempo sob o sol. É melhor ir para a sombra."

Yumi mordeu o lábio, voltando a olhar para a foto do pai, "Não queria ir tão cedo."

"Sente-se um pouco e coma alguma coisa. Sua mãe também está preocupada com você.", ele guiou a esposa para dentro do templo, sentando-a ao lado da sogra, "Você e o bebê precisam descansar."

"E você?"

"Eu estou bem.", ele respondeu educadamente, acenou um cumprimento para a sogra e afastou-se de todos, tirando o celular do bolso e discando um bem conhecido número rapidamente.

"Tem boas notícias pra me dar?", a voz do outro lado da linha perguntou com um misto de cansaço e interesse.

"Você aceitou um caso."

"... como é?"

"Você aceitou um caso. Hoje."

Fuji suspirou, demorando-se um pouco para responder, "Você continua me vigiando?"

"Você não devia aceitar um caso desse tipo."

"Eu tive uma reunião hoje de manhã, são três horas da tarde e você já sabe o que eu fiz?", Fuji perguntou antes mesmo de Tezuka terminar de falar, com uma leve irritação na voz.

"Não é um simples caso de vazamento.", Tezuka tentou explicar o mais brevemente possível, sem perder a paciência.

"Eu também sei disso. Por isso preciso investigar e acusar os verdadeiros culpados."

"Você vai recusar esse caso."

"Por acaso você sabe que animais estão morrendo e pessoas --"

Tezuka ergueu levemente o tom de voz, interrompendo-o com uma ordem, "Recuse o caso, Fuji."

Com uma voz muito calma, o outro disse, "Você ligou para o meu celular. Estou pegando o telefone do meu escritório, agora...", ele comentou lentamente, como se explicasse algo complicado demais, "... estou discando um número... e quando a pessoa no outro lado da linha atender, eu vou pedir para ela cuidar melhor do marido--"

"Fuji, desligue esse telefone.", Tezuka ordenou assim que entendeu o que o outro estava fazendo.

"Está chamando...", Fuji cantou, não escondendo sua satisfação.

"Hoje é o enterro do pai da Yumi. Desligue esse telefone."

Fuji permaneceu silencioso por alguns segundos, antes de responder sério, "Bom, Tezuka... eu nunca poderia saber disso porque eu não fico vigiando o que acontece à sua volta."

Tezuka suspirou, sabendo que o outro tinha desligado o telefone, "Eu não... eu não vigio você."

"Não me convenceu."

Cansado, Tezuka esfregou a mão pelo rosto, retirando o suor da testa e entre os olhos. Ele sabia que teria que dar algum tipo de esclarecimento para Fuji, mas, justamente isso, era uma das coisas que menos queria fazer, em toda a sua vida, "Eu preciso manter um controle sobre você.", ele admitiu, sentando-se no tatame com calma.

"... você sempre quis isso."

Sim, ele sempre quis e nunca conseguiu ter, nem quando se iludiu, um mínimo de controle sobre Fuji, "Você não tem idéia do que esse simples caso de vazamento tem por trás."

"Você poderia me dizer. E o meu trabalho seria muito mais rápido e menos perigoso."

"Fuji.", Tezuka começou, fechando os olhos, "Eu estou te pedindo. Por favor, recuse o caso."

"Sinto muito. Não posso.", a voz dele indicava que não iria mudar de idéia.

"Isso vai me obrigar a ter um controle ainda maior sobre você.", Tezuka disse, sério, "Você sabe disso."

Surpreendentemente, não exatamente, pois Tezuka preparava-se para tudo quando conversava com Fuji, mas surpreendente mesmo assim, uma risada leve soou do outro lado da linha, "Eu devo pedir desculpas por te dar tanto trabalho?"

"... não."

"Oh... bom, você deve saber. Qualquer coisa, eu tenho o Jean para me defender."

Tezuka gostaria de ser mais forte e conseguir não se irritar mais com provocações tão infantis, mas o simples nome do atual namorado de Fuji já o deixou novamente impaciente, "Ele trabalha com golfinhos.", ele disse como se fosse uma acusação, lembrando-se da foto do loiro francês que Fuji conheceu depois de resolver casos para o Greenpeace.

Fuji riu e Tezuka culpou-se por ter deixado escapar a informação de que sabia até mesmo a ocupação profissional do outro, "Ora, você trabalha com políticos."

"Você não vai mesmo desistir do caso?"

"Você sabe que não.", Fuji respondeu jovialmente.

"Por favor... tenha cuidado.", Tezuka pediu novamente, sério.

"... não preciso. Tenho alguém cuidando de mim."

Tezuka abaixou a cabeça, de certa forma satisfeito por não identificar nenhum traço de raiva no tom usado por Fuji. Ao contrário, depois de muito tempo, mais de treze anos, ele ouviu a voz de Fuji falando-lhe com certa amorosidade, como se fosse uma aceitação e conformidade com a relação contraditória e conturbada dos dois. Ele já ouviu Yumi sussurrar-lhe palavras muito mais doces, com intenções a mais, com emoções demais.

Mas Tezuka tinha certeza. Aquelas poucas palavras, despretensiosas e irônicas, com aquele leve tom de carícia pulsando ao final de cada sílaba, construíram o momento mais feliz de sua vida, em quase treze anos de frustrações.


"Não quer mesmo ajuda?"

Fuji negou com a cabeça, expulsando o namorado da cozinha. Era a primeira oportunidade que ele tinha para cozinhar para Jean, todos os outros momentos ou eles jantavam fora ou pediam pratos prontos. E Fuji, sendo Fuji, tinha o hábito de cozinhar para os namorados logo nos primeiros dias de namoro. Com Jean, teria um gosto especial, pois o francês era um completo ignorante em termos e comidas japoneses e, provavelmente, não faria as caretas de hesitação ao escutar o nome do prato. Apenas depois.

"Você vai acabar sem jantar se continuar teimando assim.", Fuji respondeu, sentando o namorado no sofá.

"Estou curioso para saber o que vai fazer.", Jean comentou, puxando o loiro para perto e beijando-o apaixonadamente antes de deixá-lo ir.

"Você vai gostar. É um dos meus pratos preferidos.", Fuji disse, fechando a porta da cozinha atrás de si logo depois.

Conheceu Jean-Paul em um dos vários navios do Greenpeace que visitavam o mar do Japão, quando foi chamado para prestar serviços. Jean era voluntário há dois anos no navio e resolveu ficar depois da segunda vez que aportou no país e viu Fuji. Na primeira vez, os dois conversaram sobre a pesca indevida. Na segunda, apenas sobre eles mesmos.

Jean não poderia ficar no Japão por muito tempo. O navio dele iria fazer uma viagem até a Nova Zelândia e voltaria alguns meses depois, para pegá-lo. Enquanto isso, ele ficaria com Fuji. E o advogado estava satisfeito com essa relação com data marcada para acabar. Que seja belo enquanto dure.

O telefone tocou, despertando Fuji de seu transe, enquanto preparava os sushis, "Pode deixar!", ele gritou da cozinha, pegando o telefone preso à parede, "Alô?"

"Aniki."

"Yuuta!", um sorriso largo transformou o rosto de Fuji, que sentou-se na mesa para conversar melhor com o irmão, "Estou fazendo wasabi sushi! Não quer trazer Rinko-san e as crianças para jantarem conosco?"

"... Aniki, você sabe que a Rinko é alérgica a wasabi..."

"Oh, eu sempre me esqueço."

"Aniki.", Yuuta suspirou, acostumado com o irmão, "É um assunto sério."

Fuji abriu os olhos, mas continuou com o tom alegre, "Seu irmão é todo ouvidos. Ou pelo menos, um deles estará inteiramente ao seu dispor."

"Eu recebi uma proposta.", Yuuta disse quase sussurrando, "Rinko ainda não sabe... é fora de Tóquio."

Fuji segurou-se para dizer ao irmão para recusar a proposta de trabalho. Yuuta estava procurando emprego há algumas semanas, depois de um pequeno desentendimento de ordem legal com o ex-patrão. Fuji e Yumiko estavam dando todo o apoio que podiam ao irmão menor, mas nenhum deles imaginava um emprego que deixaria o caçula da família longe.

"A remuneração é maior do que eu esperava.", Yuuta continuou, sentindo a tensão do irmão mesmo por telefone, "Eles estão interessados em mim. Disseram que eu posso visitar a empresa para me decidir."

"Oh, e o que você quer do seu irmão?"

"Bom, eu gostaria de levar Rinko e Rin-chan comigo. Acho que elas também devem tomar parte na decisão, já que irão morar lá comigo."

"Mas é claro. Rin-chan precisa saber há quantos quilômetros de distância ficará de seu tio."

"Aniki!", Yuuta soltou a exclamação de frustração que sempre conseguia deixar Fuji mais contente, "Eu gostaria de saber se você pode ficar com Hiro enquanto nós estivermos fora. Ele ainda é muito pequeno para viajar e Yumiko está ocupada com a tradução do livro... então..."

"Ah, quer dizer que eu sou a segunda opção?"

"Aniki... não é assim! Você está com esse tal de Jean aí...", Fuji conseguiu visualizar o embaraço do irmão, "Isso... isso... isso não é bom para um bebê..."

"Yuuta, ele não consegue diferenciar papai de mamãe, titio de titia... ele não vai ligar muito para o que Jean e eu fazemos de noite contanto que ele esteja bem alimentado e quentinho."

Nesse momento, Yuuta riu, "Há! Você que pensa..."

"Yuuta, você é o que é hoje graças--"

"A você?", Yuuta o interrompeu, rindo.

"Não, à Yumiko. Vê como eu sou a melhor opção?", Fuji respondeu, escutando a campainha tocar, "Oh... não se preocupe, então. Eu fico com o Hiro com o maior prazer. Jean pode ensiná-lo a falar papai e mamãe em francês, se quiser."

"Oh, que detalhe imprescindível..."

"Hm. Claro... Yuuta, alguém tocou a campainha e Jean ainda não sabe falar mais do que oi em japonês."

"Vá lá. Obrigado por tudo."

"Disponha, querido."

"Argh! Baka aniki!", Yuuta desligou o telefone logo depois.

Fuji apoiou o fone no gancho preso à parede, sentindo-se bem e murmurando uma música baixinho, "Jean? Algum problema?", ele perguntou em inglês, abrindo a porta da cozinha, "Conseguiu ver --!!"

Mal Fuji abriu a porta, viu um homem arrastando o corpo inconsciente de Jean e, ao vê-lo, avançou na direção da cozinha.

Percebendo logo de que se tratava de um assalto, Fuji fechou a porta da cozinha em tempo, apoiando-se nela, já que não havia fecho.

"Saia da minha casa. Agora!", Fuji disse, pegando novamente o telefone, "Ou chamarei a polícia."

"Isso não será necessário.", uma mão avançou de repente por cima de seu ombro desligando o telefone. Fuji virou o corpo rapidamente, dando de cara com um rapaz moreno e alto, "Seichirou Souta, agente federal.", ele se apresentou brevemente, pegando Fuji pelo cotovelo e puxando-o para a porta dos fundos, "Venha comigo, por favor."

Enquanto levava Fuji para o quintal dos fundos da casa, Seichirou retirou um celular do bolso, pedindo uma viatura para o endereço.

"Desculpe-me a ignorância, mas eu não sabia que a policia federal estava tão empenhada em cuidar da segurança pessoal dos japoneses.", Fuji comentou discretamente, obedecendo todos os gestos que o mandavam ir para um canto, agachar-se, falar mais baixo ou simplesmente ver-se completamente escondido atrás do corpanzil do policial.

"Você também nunca me pareceu alguém que precisasse de segurança pessoal."

"Mas Tezuka não compartilha da nossa opinião.", Fuji acrescentou, sorrindo de lado.

Seichirou olhou-o por cima do ombro, sorrindo também, "Ele é muito ocupado. Não tem tempo para se apegar a esses detalhes."

"Imagino.", depois de alguns segundos, enquanto os dois apenas observaram a movimentação do assaltante pela casa, Fuji voltou a perguntar, "Desde quando me vigia?"

"..."

"Informação confidencial?", Fuji tentou responder pelo policial, erguendo os ombros, mostrando que não estava realmente muito interessado nisso.

"Não... apenas não sei se o meu chefe vai gostar de saber que eu contei isso."

"Oh...", Fuji sorriu novamente, recostando-se no muro que dividia sua casa com outra e fazendo-se mais confortável, "Diga que eu o seduzi. Ele vai perdoá-lo.", diante da expressão indignada do policial, ele acrescentou, "É verdade... ele sabe como é."

Seichirou riu baixinho, balançando a cabeça, "Eu posso responder, mas depende do que quer saber."

"Como assim?"

Ao som da sirene, os dois silenciaram-se e observaram o assaltante entrando em desespero dentro da casa, "Eu já o observei de uma maneira. Mas, há quase dois anos, observo de outra."

"Hm... acho que entendi.", Fuji concluiu que estaria sendo vigiado com mais rigor depois que se reencontrou com Tezuka, no acidente com Takeru, "E desde quando me observa, da outra maneira?"

"Sete anos.", Seichirou respondeu, sério, "É o meu emprego mais estável."


Tezuka estava em casa, na frente do computador, vendo os últimos e-mails com os relatórios de seus subordinados. Yumi já estava dormindo, com oito meses de gravidez, incomodando-o com o volume estranho e, de certa forma, desconfortável na cama.

Um dos relatórios chamou-lhe a atenção. Rapidamente, ele escreveu um e-mail. Enviou. Continuou a ler os outros documentos. Um novo e-mail chegou, como resposta ao que acabou de mandar.

Re: Vazamento de Produtos Químicos

Conheci Souta-san.

Fuji.

Rapidamente, Tezuka procurou pelo último relatório do seu amigo e subordinado de confiança entre os outros e-mails. Ele suspirou cansado ao final da leitura, sabendo que não poderia realmente repreender o policial.

Re: Vazamento de Produtos Químicos

Não ofereça chá aos meus subordinados.

T.K.

Em poucos segundos, a resposta já apareceu:

Re: Souta

Era o mínimo que eu podia fazer.

Aliás, não vou desistir do caso.

Fuji.

Tezuka crispou os dentes, sentindo que perdia a paciência. Ele mandou um outro e-mail, somente com assunto, sem nada escrito.

Re: Desista

A resposta foi igualmente seca e direta:

Re: Não.

---

Re: Não.

Você recebeu o relatório.

Souta, por melhor policial que seja, não conseguirá protegê-lo da Yakuza.

T.K.

---

Re: Não.

Você apenas me deu as provas necessárias para a acusação final.

Aproveitando a oportunidade, obrigado.

Fuji.

---

Re: Não

Está arriscando muito mais do que sua vida.

T.K.

Não houve mais resposta. Tezuka suspirou, vendo o resto dos relatórios que ainda tinha que ler e o tempo que gastou discutindo com Fuji. Mas, por mais que soubesse do seu compromisso com os subordinados, não conseguia deixar de preocupar-se com a segurança do advogado.

Em uma atitude impulsiva, ele redigiu um e-mail para mais dois subordinados, dando ordens diferentes, mas ligadas ao caso de Fuji. Se ele pudesse, iria resolver o caso antes que ele fosse parar na justiça, assim como o loiro queria.


"Oh... Hiro-chan!!!", Eiji bateu palmas para o pequeno garoto que conseguiu sentar-se sozinho no berço, "Que lindo! Está ficando um menino grande e forte!", o garoto despencou para o lado logo depois, mas Eiji continuou animado.

"Na verdade...", Fuji disse um pouco distraído, retirando uma pequena manta do armário, "O pediatra disse que ele está um pouco menor e com um peso um pouco abaixo da média."

Oishi, que observava Eiji brincar com Hiro ao lado do berço, concordou com ele, "É verdade... Ele irá ter uma estrutura óssea muito parecida com a sua."

"Tadinho do Hiro-chan!"

Fuji riu, aproximando-se do berço e envolvendo o sobrinho na manta, "Quer segurá-lo, Eiji?"

"Pra sempre? Posso?", o ruivo brincou, pegando o bebê no colo e desprendendo-se do mundo para dar total atenção a ele, "Oh, Hiro-chan... nós vamos passear!", ele começou a cantar, "Vamos passear no shopping, enquanto o seu tio não vem!"

Oishi e Fuji observaram o ruivo afastar-se, ninando o pequeno pela casa, "Ele tem uma grande inveja...", Oishi comentou, um pouco triste, "Nenhum dos irmãos dele deixou-o ver os sobrinhos quando eram pequenos."

"Ora, mas vocês também são tios do Hiro. Da Rin também, ela chega a chorar quando tem que se despedir de vocês."

Oishi soltou um suspiro conformado, "Eiji também chora, Fuji... Acho que é por isso que Rin-chan chora, aliás."

Fuji apenas riu, pegando a mala de Hiro e entregando-a ao amigo, "Melhor eu ir.", ele apoiou uma mão no ombro de Oishi, "Confio em você para cuidar dos dois bebês."

Oishi enrubesceu, mas conseguiu responder, "Pode deixar..."


Fuji não dirigia mais. Depois que perdeu parte da audição no ouvido preferiu abusar da sempre bem-vinda carona da irmã ou dos transportes públicos de Tóquio. Mas, hoje, excepcionalmente, ele pegou um táxi.

O clube estava vazio quando chegou. Poucas pessoas ocupavam as mesas e outras dançavam devagar. Fuji assumiu uma expressão petulante e dirigiu-se ao bar ignorando todos os olhares gulosos que lhe foram dirigidos.

Assim que sentou-se em um dos bancos altos, soltou um suspiro entediado ao sentir que a calça, muito menor das que costumava usar, desceu pelo seu quadril, revelando uma faixa de pele no final das suas costas. De repente, viu um rosto familiar e sorriu, "Espero que a minha oferta de chá não tenha feito o seu emprego estável desmoronar."

Seichirou suspirou, secando habilmente um copo e esfregando as mãos contra o avental branco, "Ordens são ordens.", ele olhou interrogativamente para Fuji, esperando um pedido, aproveitando para examinar a caracterização que o loiro fez para si mesmo.

"Qualquer coisa colorida."

Estava com os olhos pintados, usava brincos longos que alcançavam os ombros e seu cabelo provavelmente tinha passado por uma mão cheia de gel, pois estava desarrumado, deixando-o com um ar muito mais jovial e divertido.

"Hn.", Seichirou misturou algumas coisas, colocando algo azul royal na frente de Fuji, "Quer chamar atenção?"

"Apenas seguir com o plano.", Fuji piscou um olho, bebericando e lambendo os lábios, aprovando o sabor.

"O que pretende aqui?", Seichirou perguntou, atendendo outro cliente rapidamente, notando como seu protegido chamava atenção, o que significava mais clientes no bar e mais trabalho pra ele.

"Hmm...", esticando os braços para o alto, Fuji soltou um suspiro lânguido, "Eu gosto de unir trabalho com diversão."

O gesto despertou o interesse de um homem em uma mesa próxima, que aproximou-se, ficando em pé, ao lado do loiro, "Tem um lugar vago na minha mesa.", ele disse tranqüilamente, como se já o conhecesse.

Fuji sorriu calorosamente, pegando o seu copo. Enquanto acompanhava o homem até a mesa, ele piscou maroto para Seichirou, que apenas sorriu de volta, mostrando-o um celular e sacudindo o aparelho no ar, indicando que daria um relatório para Tezuka tão logo saísse do bar.

Em pouco menos de meia hora o clube lotou. Fuji conversava intimamente com o mesmo homem, rindo e aceitando as liberdades dele, como a mão em sua perna ou os carinhos em seu ombro e pescoço. Minutos depois, os dois estavam dançando no centro das mesas.

E o homem chegou.

Seguranças ocuparam o resto das mesas, garçonetes e garçons correram de um lado para o outro, apressados, preparando as últimas coisas para o cliente mais importante da casa. Ele entrou. E viu Fuji. E Fuji, mais que rapidamente, mordeu o lábio enquanto sorria, olhando nos olhos do homem.

Fuji soube, antes mesmo de ser convidado para a nova mesa, que conseguiria tudo o que queria naquela noite.


"Precisamos conversar. Me encontre daqui a meia hora na rua--"

"Tezuka...", Fuji gemeu levemente, interrompendo o outro, rolando nos lençóis, "Se você sabe que eu trabalhei a noite inteira, por favor, me deixe dormir."

"Levante-se, Fuji.", Tezuka ordenou, "Anote o endereço--"

"Eu. Quero. Dormir.", Fuji disse o mais claramente que pôde, com metade da boca contraída ao travesseiro, ignorando o fato do rímel provavelmente estar manchando a fronha, "Não vou sair daqui pra me encontrar com você."

"... Eu vou até ai."

"Bah.", sem querer ouvir mais, Fuji desligou o celular e, sem forças, deixou-o na cama mesmo, voltando a dormir no instante seguinte.

Tezuka estava inquieto. Suas mãos tremeram ao ligar o carro, apesar de apresentarem a mesma precisão de sempre, mas ele sentia seu corpo todo tremer por dentro e precisava extravasar toda essa frustração de algum jeito, rapidamente.

Ele mal prestou atenção no trânsito, na expressão dos vizinhos ao vê-lo, um estranho no bairro, abrir o portão da garagem e muito menos nos poucos segundos entre a porta da sala e a porta do quarto.

"Acorde. Vamos, acorde.", ele disse imponente, mal entrou no quarto. Com passos rápidos, alcançou a janela e afastou as cortinas, abrindo as ventanas, "Fuji, acorde!", Tezuka aproximou-se da cama, pegou um punhado de lençol e, com um puxão, jogou o tecido todo no chão.

Fuji já estava acordado, ele sabia disso. Mas permanecia deitado de olhos fechados, com o celular desligado ainda ao seu lado.

"Fuji!"

Com um suspiro, Fuji ergueu-se, ajoelhando-se na cama para poder encarar Tezuka, "Eu já escutei, só--", sua fala foi interrompida com um forte tapa, que jogou-o de volta aos travesseiros.

"Você é um advogado.", Tezuka disse, soltando cada palavra com um toque de desprezo, "Não é policial, não tem autoridade para fazer o que fez."

Apesar de ter sido claramente surpreendido e da forte dor em seu rosto, Fuji riu, "Não sabia que policiais faziam o que eu fiz."

Irritado, Tezuka agarrou o loiro pelos braços, arrastando-o para fora do quarto, "Não faça piadas. Eu poderia prendê-lo por todas as infrações que cometeu... ou poderia enterrá-lo se você estivesse morto.", chegando ao banheiro, ele ligou o chuveiro e empurrou Fuji para dentro do box, "Nem tomou um banho. Limpe-se e esteja decente o suficiente para conversarmos depois."

Vendo que não conseguiria dormir tão cedo, Fuji jogou o rosto para trás, recebendo o jato de água quente diretamente contra a face. Ao abaixar a cabeça, ainda pegou Tezuka saindo do banheiro, e disse, com um sorriso, "Sabe... se eu não estivesse tão cansado e dolorido, até convidaria você para me ajudar aqui."

Tezuka fechou a porta com uma forte batida, que ecoou pelo banheiro.

Enquanto esperava Fuji sair do banho, ele andou irrequieto pela casa, tão conhecida por ele. No quarto, encontrou as roupas que Seichirou descreveu ontem, pelo celular, logo no início da noite. Estavam descartadas, do avesso, no chão. Tezuka pegou uma das peças, não entendendo como Fuji, por mais esguio que fosse, conseguiu entrar em algo tão diminuto, ele próprio não fazia a mínima idéia de por onde se encaixavam os braços ou as pernas, tantos buracos e panos soltos a roupa tinha.

Resoluto, pegou as peças estranhas e juntou-as em um bolo. Sem pensar duas vezes, jogou tudo na lixeira da área de serviço, limpando as mãos na pia da cozinha depois. Esse ato, tão infantil, conseguiu deixá-lo razoavelmente mais calmo a ponto de sentir-se levemente culpado pelo tapa que dera. E, com essa calma, frágil e inconstante, ele viu Fuji saindo do banheiro.

Com um pijama azul escuro, listrado, bem comportado. Completamente diferente de como estava minutos atrás. O loiro abriu a porta do banheiro e dirigiu-se solene de volta para o quarto, ignorando a presença de Tezuka. Sem opção, este o seguiu.

"Fuji...", ele começou a dizer, mas interrompeu-se ao ver que o loiro voltava para a cama, cobrindo-se com o lençol, "Você não vai dormir."

"Não... claro que não.", Fuji disse, ajustando o travesseiro e apoiando a cabeça nele, "Pode falar... só vou descansar os olhos.", ele completou, com a maior inocência, fechando os olhos e relaxando na cama.

Tezuka suspirou. Sabia que não conseguiria conversar com Fuji, por mais que insistisse ou brigasse com ele. Mas sabia que ele, também, não conseguiria fazer mais nada se não falasse o que lhe perturbava tanto, "Eu estou investigando o caso. Peço que não se envolva mais... porque o seu nome já aparece o bastante nos relatórios que recebo."

"Hm."

"Vou cuidar da segurança dos seus irmãos. Portanto, não se atreva a defendê-los novamente dessa forma.", Tezuka não percebeu que sibilava ao falar, acrescentando, com um pouco mais de calma, "Eu gostaria de saber uma coisa.", o silêncio de Fuji não o impediu de continuar, sabendo que o outro não dormiria enquanto ele estivesse falando, "Se eu lhe der o número do meu celular... Você irá me procurar? Se acontecer alguma coisa?"

Fuji suspirou, girando o corpo e sentando-se novamente na cama, encarando Tezuka, "Você não pode me pedir uma coisa dessas."

Tezuka não ouviu a resposta, no entanto. Sentando-se na lateral da cama, ele ergueu a mão, acariciando o rosto de Fuji e deixando que seus dedos passassem pelas pontas dos fios de cabelo que caiam sobre a orelha dele. Como se estivesse admirado, ele sussurrou, "Assim... sem nada escondendo o seu rosto."

Fuji inclinou o rosto, permitindo o toque, "Você gosta?"

Como saindo de um transe, mas continuando a manter um pouco de dignidade, Tezuka ergueu-se da cama, negando, "Não... apenas disse que prefiro assim.", ele retirou um cartão e uma caneta do casaco, escrevendo algo no papel e deixando-o na mesa de cabeceira ao lado da cama, "Meu celular."

"Eu não prometi nada.", Fuji voltou a deitar-se, virando-se de lado e encarando o cartão de Tezuka ao lado de seu abajur.

"Não me interessa.", Tezuka passou uma mão pelo cabelo, ajeitou o terno e disse, "Agora, pode dormir.", segundos depois, ele já estava trancando a casa pelo lado de fora.


Fuji estava em casa, sentado em frente ao computador, batalhando consigo mesmo sobre que decisões tomar frente ao processo contra grandes nomes no Japão que estavam negligenciando acordos internacionais de proteção à natureza, permitindo vazamentos de produtos químicos em várias empresas de fachada para famílias de yakuzas.

Desde que aceitara o caso, Fuji vinha sendo vigiado. Não somente por Seichirou, a mando de Tezuka, mas também por outras pessoas. Ele sabia disso. Mais precisamente, ele sentia isso claramente.

A primeira ameaça o levou a tomar a drástica decisão de ir se encontrar com um dos chefes da organização criminosa. Poderia até dizer que era abençoado com o dom da memória seletiva, mas, na verdade, ocupava-se em não pensar mais no assunto.

Sabia estar arriscando a vida de seus irmãos e sobrinhos. Quem sabe, dependendo de como encaminhar suas acusações, interferiria na vida de seus amigos também. Mas também sabia que nenhum deles ficaria satisfeito, assim como ele, se simplesmente deixasse o caso para trás e fingisse esquecer tudo o que sabe.

Então, estava decidido a ir em frente com o processo, até porque, sabia perfeitamente ser capaz de resolver isso sem envolver nenhum dos seus irmãos.

O som da porta da sala sendo aberta despertou-o de seus pensamentos e Fuji salvou o arquivo rapidamente, fechando o programa. Mal levantou-se da cadeira, viu Tezuka, pela fresta da porta de seu escritório, retirando o casaco e jogando-o na cadeira mais próxima.

Fuji ergueu os braços, alongando-se com vontade depois de horas sentado em frente ao computador. Sem se importar com Tezuka, pois sabia que a primeira coisa que ele fazia era ir buscar um copo d'água na cozinha, ele dirigiu-se ao armário, procurando um agasalho.

Quando saiu do quarto, viu o moreno secando as mãos e estendendo com precisão a toalha no pequeno gancho da parede, mesmo sem olhar. Fuji imaginou se Tezuka já não estava acostumado demais com sua casa, mas desviou o pensamento para mais tarde, "Vai ficar para o jantar?"

"Sim. Temos algo importante a discutir."

Fuji suspirou, escondendo uma expressão de tédio. Tezuka sempre aparecia com algo importante a discutir. Se era sobre o processo de Fuji, ele perdia a paciência e logo ia embora. Se era sobre a relação inconstante e mal-resolvida dos dois, terminava de jantar e saía tarde da noite. Se era somente sexo... era somente sexo.

Tezuka nunca parecia querer conversar com ele, apenas discutir. E discutir assim o faziam, pois Fuji sentia-se bem agradando e realizando os desejos do moreno.

"Vou pedir algo, então... não estou com muita vontade de cozinhar hoje.", Fuji passou pelo moreno, esticando o braço na direção do telefone preso à parede.

"Não. Na verdade...", Tezuka segurou sua mão no ar, entrelaçando os dedos e puxando-o para o quarto, "Eu já jantei...", Fuji percebeu que ele estava diferente, e sua suspeita foi comprovada segundos depois, "A não ser... Se você estiver com fome, eu posso fazer algo."

Sorrindo de lado, sem entender o comportamento estranho do outro, Fuji retirou sua mão, "Fale logo o que veio fazer aqui."

Tezuka parou tenso, virando-se para o loiro com uma expressão séria, demorando-se alguns segundos para responder, "... você não me procura."

"... é isso?"

Tezuka negou com a cabeça, passando a mão pelo rosto e deixando-a sobre a boca, "Não... não é só isso.", ele voltou a andar, caminhando de volta a sala, "Eu te procuro."

Fuji observou-o andando em círculos pela sala, como um animal selvagem preso pela primeira vez em uma cela pequena, "Bom, você mesmo está com a lógica nas suas palavras. Eu não te procuro porque você me procura.", ele disse tranqüilamente, cruzando os braços e apoiando o corpo na parede, "Não é?"

"Você sabe que não.", Tezuka respondeu, andando até ele e olhando-o de cima, cobrindo-o com sua sombra, "Se eu não te procurasse, você não me procuraria. Desde o começo, desde que nos reencontramos."

"Isso te incomoda?"

"Tsc! Você sabe que sim.", ele respondeu impaciente, "Você sabe que sim! Pare de fazer perguntas as quais já sabe as respostas."

Fuji sorriu mais largamente, vendo a reação irritada do outro, "Ficaria satisfeito se eu te procurasse?", ele perguntou, erguendo o rosto altivamente, e acrescentou rapidamente, "Se pergunto é porque verdadeiramente não sei a resposta."

Tezuka inclinou-se sobre ele, apoiando os braços na parede, parecendo exausto, e deixando um espaço razoável entre os dois. Ele suspirou e fechou os olhos, "Por que faz isso? Por que...? Você não me toca se eu não te tocar... você não me beija se eu não te beijar... você não--", ele calou-se ao sentir um leve toque sobre seu queixo.

"Não se engane tanto assim.", Fuji sussurrou, correndo com a ponta de seu dedo em volta da face de Tezuka, sobre seu queixo até sua orelha e voltando até a ponta do nariz, descendo até os lábios, "Geralmente, eu faço o que quero. Mas nunca deixei de atender um desejo seu.", ele disse, afastando-se da parede e aproximando-se mais do moreno, "Me fale, Tezuka... o que você quer?".

Tezuka abriu os olhos, mas continuou calado, pois o dedo de Fuji pressionava seus lábios.

"Peça qualquer coisa...", Fuji disse, retirando o dedo lentamente, "... e eu realizarei o seu desejo."

"Me beije."

Fechando os olhos, Fuji ergueu-se na ponta dos pés, inclinando o rosto para trás, tocando levemente os lábios de Tezuka. Voltou à sua posição anterior logo depois.

"Novamente.", Fuji repetiu o mesmo processo, mas, enquanto ainda estava com os lábios sobre os de Tezuka, este ordenou, "Me toque.", obedecendo, o loiro ergueu os braços, circulando o pescoço dele, comprimindo os dois corpos.

Segundos depois, voltou a ficar em pé, esperando a próxima ordem.

"Fuji... você não quer fazer isso.", Tezuka disse sério.

"Não quero...", Fuji concordou, sorrindo levemente, "Mas eu faço, se você pedir."

De repente, Fuji viu-se comprimido nos braços de Tezuka, com os pés soltos no ar, perdendo o fôlego em seus lábios, tendo sua boca ferozmente invadida pela língua do moreno. Imediatamente, respondeu ao toque tão sensualmente quanto, abraçando-o também, percorrendo com mãos ansiosas a extensão das costas dele, e afundando os dedos no cabelo macio.

Tezuka grunhiu frustrado no meio do beijo, apertando mais o loiro em seus braços e pressionando-o contra a parede, forçando com o quadril para que ele abrisse as pernas. Fuji concedeu, gemendo ao sentir as mãos de Tezuka segurando-o firmemente nas pernas.

Tão rápido quanto avançou, Tezuka recuou, soltando-o e dando um passo para trás. Fuji escorregou pela parede, caindo de bumbum no chão, com as pernas abertas e os lábios vermelhos, sua ereção visível contra o tecido leve do moletom que usava.

"Agora... peça você.", Tezuka sibilou com raiva antes de dar meia volta e sair batendo a porta da casa.

Continua...

pequena nota: lembram-se da música infantil? "Vamos passear no bosque, enquanto o seu lobo não vem!" O Eiji adaptou a música à situação. Quem diz que o ruivinho não é esperto está muito enganado.