Nunca tive muita sorte em namoros. Nunca mesmo, nem tive aqueles namoricos de criança com algum vizinho... Todo mundo da rua da minha casa me achava estranha, e minha irmã incentivava isso. Mais tarde, descobri que essa estranheza era por eu ser uma bruxa.
Bruxa. Que descoberta incrível! Descobri que as coisas estranhas que aconteciam em minha volta tinham fundamento e afinal, passei a me sentir "normal".
Em Hogwarts, tornei-me amiga da Michelle Simpson e da Samantha Stratford. A Michelle é nossa conselheira, sabe de tudo que temos que fazer e sempre tem conselhos, a não ser que o problema seja com ela. Ela é meio tímida quando o assunto é ela, a única coisa que eu sei de sua vida dela é que seus pais trabalham no ministério. Agora a Sam é totalmente ao contrário. Brincalhona, divertida, tudo na vida dela é um drama. Pode ser uma ótima conselheira, quando não está pensando em si mesma, é claro. Até hoje não entendo porque o Dumbledore a nomeou monitora, mas não devo negar que ela é inteligente.
Eu? Sou uma mistura mal formulada dessas duas. Não posso dizer que sou a melhor pessoa para se conviver, mas também não sou insuportável. Pelo menos, a Sam e a Mih nunca tiveram muito que reclamar da minha amizade...
Mas em matéria de beleza... A Sam é alta, têm cabelos castanhos claros, olhos meio acinzentados e digamos que é a mais bonitona de nós três. Sinto-me uma nanica andando ao lado dela. E a Michelle é morena, tem cabelos pretos e olhos escuros e, bem, uma nanica assim como eu. Eu, ah, uma ruiva de baixa estatura e olhos incrivelmente verdes. O que eu mais gosto no meu corpo são meus olhos, nunca vi igual! Papai e Mamãe têm olhos castanhos, assim como Petúnia.
Falando em beleza, minhas amigas começaram a namorar cedo, logo no quarto ano. A Samantha começou a namorar o Brandon Miles depois de ele ter feito uma superdeclaração na hora do café da manhã, desde então eles ficam num vai e volta que dura até hoje (no momento estão separados). E a Michelle foi uma das primeiras garotas que saiu com o famoso Sirius Black. Até hoje não sei porque eles terminaram e desde então não a vi e nem soube dela saindo com ninguém.
Voltando a mim, fui apaixonada Edgar Bones no quarto ano, mas não tive coragem de contar a ninguém. É claro que não deu em nada. Eu apenas ficava observando minhas amigas e imaginando como seria o meu primeiro beijo. Que, aliás, foi horrível! no começo do ano passado, quando eu estava sozinha na cabine e de repente apareceu o Fábio Prewet lá. Nós dois sozinhos, conversa vai, conversa vem... e no fim acabamos nos beijando... Nunca mais olhei para a cara dele depois disso, e o coitado ficou sem entender.
A verdade era que eu não queria nada com ele. Apenas estávamos na mesma cabine conversando, e acho que ele acabou confundindo as coisas. Eu não queria dizer isso a ele, não se pudesse evitar.
- Lily, você precisa explicar a ele! – disse Michelle naquela época – O cara não pode simplesmente ficar sem explicação!
- Caramba! – eu respondi a ela – foi só um beijo! Se eu passar a evita-lo, ele vai entender que não quero mais nada...
- Eu não queria estar na pele dele – disse ela por fim.
E foi o que fiz. Passei uns dois meses fugindo dele pela escola até que ele acabou entendendo e passou apenas a me olhar feio pelos corredores. Sinceramente, eu não tive culpa de nada. Ou melhor, quase nada... como dizem, quando um não quer, dois não faz. E acho ainda que só aceitei essa situação porque queria viver uma experiência assim como minhas amigas tinham vivido.
Como disse, nunca tive sorte no amor, e esse foi o meu desastroso primeiro beijo.
Mas no meio do ano passado, as coisas começaram a melhorar, quando eu fiz amizade com o Michael Connor, da Corvinal. Ele era monitor e amigo da Michelle. Logo fizemos amizade e passamos a ir a Hogsmeade juntos.
Em outros aspectos, minha vida acabou piorando... Porque foi aí que aquele maldito do Potter resolveu me pegar para Cristo e ficar me chamando para sair a cada vez que se cruzava comigo. 'Tá, é exagero! Mas ele vivia pedindo para sair comigo. Acho que foi aí que subiu a minha auto-estima, afinal, quem não gosta de alguém no seu pé? Mas, como se não bastasse, ele ainda fazia chantagem, dizendo "se você sair comigo, eu paro de fazer isso ou deixo de fazer aquilo". Minhas amigas não se conformavam com isso.
- Por que você não sai com o Potter? Ele não é feio, chato e muito menos burro... – esses eram os argumentos de Sam.
- Tudo bem, posso até concordar que ele seja bonito e inteligente, mas não venha me dizer que ele é legal! – eu não suportava ouvir ninguém falando bem dele – Ele é insuportável, arrogante e metido! Você quer que eu saia com um cara desses?
- Não é bem assim, Lily – Michelle sempre entrava com "os panos quentes" – O Tiago pode ter seus defeitos, mas não deixa de ser uma cara legal...
- DESDE QUANDO VOCÊ CHAMA ELE DE TIAGO?!
- Tudo bem, já não está mais aqui quem disse – Michelle sabia exatamente a hora de parar quando se estava discutindo comigo. Se continuasse, as conseqüências poderiam ser catastróficas.
Esses pedidos do Potter, é claro, acabaram chamando atenção o Michael e, na última visita a Hogsmeade do ano passado (logo depois dos NOM's), ele disse:
- Sei que parece idiotice perguntar isso, mas você não vai aceitar sair com o Potter?
- Até parece... – eu respondi, sendo um pouco grossa até. Mas quando o assunto era aquele maroto desmiolado...
- Muitas garotas gostariam de estar no seu lugar...
- Eu sei... mas não faço questão.
- Bem... Se você não vai sair com ele... – ele engasgou um pouco – Então aceitaria sair comigo?
Fiquei sem reação. Tudo bem, devo dizer que já havia pensando em Michael como meu namorado muitas vezes. Porém, não imaginava que isso um dia poderia se concretizar, principalmente pelas minhas experiências anteriores (onde? Eu tive alguma?).
- Bem, acho que sim – essa foi a minha resposta totalmente sem nexo, sendo que ainda acabei deixando o garoto meio sem graça. Mudei de assunto rapidamente e saímos andando pelo povoado.
Sem perder a oportunidade, de repente ele pegou na minha mão. Subiu um arrepio de não sei de onde por todo meu corpo e comecei a tremer, sintoma clássico de nervosismo. Tentei levar numa boa, mas quem disse?
Quando chegamos na escola, o sol estava quase se pondo. Ele me levou até as margens do lago e me abraçou ali. Ficamos um tempão assim, até que, quando o sol estava quase desaparecendo, nos beijamos. Era muita emoção! Para mim, aquele era o meu primeiro beijo, e eu nem sabia o que dizer depois disso. No fim, foi ele que quebrou o silêncio.
- Você está tremendo – disse ele.
Olha o mico! E eu não conseguia me controlar, parecia que depois do comentário dele eu tremia ainda mais. Para abafar o comentário, eu disse:
- Você também – comentário inútil, até porque ele não estava tremendo. Acho que ele resolveu deixar quieto, pois não discordou. Ou talvez estivesse mesmo, e eu não tinha percebido porque estava tentando controlar o meu nervosismo.
Logo depois disso, voltamos ao castelo, pois já estava tarde e eu não poderia ficar andando pelo castelo. No dia seguinte ele já foi tomar café comigo e essa cena foi se repetindo pelo que ainda sobrava do ano letivo.
Passamos as férias todas nos correspondendo, mas sem uma única chance de nos ver. Meus pais tinham resolvido ir passar as férias no Caribe, e acabaram me carregando para lá. Não que eu não tenha gostado, mas queria ter visto o Michael nas férias.
Finalmente chegamos a esse ano. O sexto ano. Nem o quinto e nem o sétimo. Nem o primeiro e nem o último... Devo acrescentar que os meus NOM's foram bastante satisfatórios para alguém que quer ingressar no ministério.
Quando cheguei na plataforma nove e meia, fui saudada pelas minhas amigas Samantha e Michelle. A Sam tinha voltado com o Brandon pela décima vez e foi acompanhada por ele para o vagão dos monitores. Eu sabia que Michael ia para lá também, mas não posso negar que fiquei magoada de ele não ter vindo falar comigo na plataforma. Fomos eu e Michelle procurar uma cabine para nós.
Encontramos uma em que tinha algumas bagagens e um rato sentado em um dos bancos. Antes que pudéssemos pensar em afugentar o rato dali, ele se esquivou pela porta entreaberta da cabine.
- Você tem certeza que podemos ficar aqui, Lily? – perguntou Michelle, olhando para as bagagens.
- Ah, acho que sim, as outras cabines estão cheias e acho que os ocupantes dessa cabine não vão se importar.
Eu estava completamente enganada. Depois de já estarmos acomodadas, apareceram na cabine ninguém menos que Tiago Potter e Sirius Black, com um Pedro Pettigrew.
- Olha só Pontas... quem roubou nossa cabine! – disse Black, aparentemente falando com o Potter, nunca entendi esses apelidos...
A Michelle enrubesceu imediatamente.
- Não roubamos não! – me levantei e fiquei frente a frente com o Potter – Vocês não estavam aqui!
- Mas nossas bagagens sim! – respondeu o Potter. Ele só estava querendo me provocar.
- Ótimo! – eu disse, já puxando meu malão – Então vamos procurar outra cabine, Michelle...
Ela também se levantou e estávamos preparadas para sair, se os dois não estivessem bloqueando a passagem.
- Vai sair da frente ou não? – eu, para variar, já estava perdendo a paciência.
- Ninguém vai sair daqui – a voz do Potter soou imperiosamente. Ai, como eu odeio isso! Odeio quando tentam mandar em mim!
- E por que não?
Black, Pettigrew e Michelle resolveram apenas observar nossa discussão. Qualquer interrupção, poderia causar sérios danos na saúde dos três.
- Não tem mais cabines vazias no trem – argumentou ele – Então acho que teremos de dividir essa!
Por que? Por que ele tinha que estar certo. Nos sentamos outra vez e me dei por vencida. Só que o Potter resolveu se sentar bem do meu lado e antes que eu pudesse mudar de lugar, quem apareceu na cabine?
Sim. O Michael. Ele entrou, deu um beijo em mim, como se quisesse dizer "ela é minha!" e saiu mais uma vez, com a desculpa de que tinha de monitorar os corredores.
Amaldiçoei mentalmente o Potter com todos os nomes de maldições que pude lembrar. Sorte que eu consegui me controlar, senão tudo que imaginei poderia ter se tornado realidade.
Depois disso, o Michael nunca mais foi o mesmo comigo. Já não passávamos o tempo das refeições juntos e nos víamos raramente. Ele sempre dizia que era porque estava atolado de tarefas de monitor, além dos deveres de casa, mas eu sabia que, se ele quisesse me ver, daria um jeito.
Até que do Dia das Bruxas eu perdi a paciência. Fomos a Hogsmeade juntos, e ele andando sempre calado. Quando chegamos no fim do povoado, eu o encarei e perguntei:
- O que está acontecendo? Por favor, seja sincero!
Ele engoliu seco, começou a olhar em volta até dizer:
- Já não tenho certeza do que eu quero...
- Não sabe mais se gosta de mim, né?
- Não é isso! – ele começou a esfregar as mãos, estava nervoso – Eu gosto de você, gosto muito de você... mas, não sei, talvez eu precise ficar um tempo sozinho... colocar as idéias no lugar.
Não sei se era por que já estava caminhando para o fim, mas eu já esperava essa resposta dele. Então simplesmente disse:
- Então, se é isso que você quer, até mais... – dei as costas e voltei para o castelo.
Fiquei um tempo no campo de quadribol (Sim! Não queria ir ao lago, pois me traria algumas lembranças desagradáveis) e quando percebi que todo mundo estaria no Salão Principal para a tradicional festa de Dia das Bruxas, subi para a torre.
Nem esperei chegar no dormitório. Me deixei cair num sofá da sala comunal e fiquei ali chorando, até perceber que havia alguém ali. Alguém acariciando meus cabelos...
É aí que realmente começa a nossa história!
