Introdução:
Um pouquinho de Shura e Camus não faz mal, né? Eu sempre tive uma quedinha por esse par, então resolvi pôr uma pitadinha nessa fic! Espero que gostem. Esse capítulo demorou a sair e me deu um trabalhão infernal. Espero que as falas do Shura, com palavras em espanhol, e as do Camus, com palavras em francês sejam compreensíveis. De qualquer forma, eu traduzi as falas em francês no final do capítulo.
Qualquer dúvida, crítica ou sugestão, não hesitem em falar comigo, ok? Boa leitura.
Dores do Passado
Capítulo 2 – A Festa
Dois adolescentes trocaram um beijo. Sem malícia, porém apaixonado, escondidos por entre as pilhas de livros da biblioteca da escola. Mal chegaram ao décimo sexto ano de vida e já descobriram o que significava o termo "amor verdadeiro".
Seu primeiro beijo com Camus fora roubado, era o que Milo pensava. Discutiam entre sussurros, porém, ao ver os lábios rosados se movimentarem próximos a seu rosto, não resistiu. Foi assim que pela primeira vez se tocaram.
Quando conheceu Camus, ele não era muito bonito. Porém, possuía um rosto diferente do que o loiro costumava ver na Grécia: era pálido, coberto de sardas, olhos de um tom de verde – como se fossem as águas de um oceano, lábios finos e rosados naturalmente, nariz arrebitado e cabelos avermelhados compridos caíam lisos sobre os ombros como se emoldurassem o quadro. Era quase da mesma altura de Milo. "Sou um centímetro mais alto!" – sempre dizia contente, arrancando olhares de desaprovação do outro. Conheceram-se enquanto cursavam o ensino médio. Possuíam alguns pontos em comum, inclusive a mesma ambição para o futuro: serem jornalistas.
Quanto mais conviva com o francês, mais sentia algo crescer em seu peito. Descobriu o que sentia pelo outro quando foi visto aos beijos com uma garota, quase no final último ano do ensino médio. Correu atrás do amigo para lhe explicar o que ocorrera. "Você não me deve satisfações! A vida é sua, não se incomode comigo", foi o que obteve como resposta. Porém, internamente, sentia que precisava explicar, se desculpar, implorar. Era orgulhoso demais para fazer isso. Continuou argumentando até arrancar um "o que você quer afinal, Milo?" do outro. O que queria? Conseguiu. Um beijo: escondido, ansioso, silencioso, cheio de paixão.
Começaram a namorar assim que separaram os lábios. Conseguiram passar no vestibular da mesma faculdade. Ainda namoravam. Trocavam beijos escondidos de todos. O loiro não compreendia o porquê de toda a discrição do outro, mas aceitava. Estava feliz. Então veio uma notícia inesperada: um de seus professores o recomendara para uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Ficou realmente empolgado: mal juntou suas coisas e assinou os documentos e logo já estava sobrevoando o Atlântico.
Foi nesse momento que percebeu ter esquecido algo: não avisara Camus. Não o beijara, não trocaram lágrimas por entre um abraço no aeroporto, não fizeram muitas coisas. E esse "muitas coisas" para Milo era de conotação sexual. Nunca trocou mais do que beijos com o outro. Gostaria de ter explorado melhor o corpo alvo, porém não pode. Não mandou notícias: o ruivo devia lhe odiar. Desapareceu por anos. Estava no quarto semestre de faculdade quando conseguiu a bolsa. Completou seu curso, fez uma pós-graduação e, quando voltou a Europa, foi trabalhar em Londres. Agora, de volta a Grécia, reencontrou a primeira pessoa que amou com intensidade. O mundo é realmente complicado.
- A vida não é justa! – Suspirou.
- Ninguém nunca disse que era, Miluxo. – Sorriu Aphrodite. – Houve algo? Não ama mais seus amiguinhos?
- Não é isso não, Dite... – Riu.
- Jááá sei! Vamos sair pra comemorar hoje a noite! Que mané esperar o sábado! – Pôs-se a discar um número. – E vamos no seu bar favorito: Thanasis (1). Não aceito "não" como resposta.
- Já que estou sendo intimado a isso. – Fez uma expressão de sofrimento. – E o Camus, não trabalha de noite? Então ele não vem?
- O Cam não curte muito. O único que conseguiu arrastá-lo para um bar foi o Shura. E depois de muito esforço. Só que era uma ocasião muuuito especial.
- Quer dizer que a minha volta não é especial? Oh, Aphrodite, assim você me magoa. – Torceu o nariz.
- Vou ver se o espanhol consegue. – E começou a digitar o ramal.
- O espanhol consegue o quê? – Perguntou Shura, que estava ouvindo a conversa de trás de uma estante. – Fala, escorpichato!
- E aí, capricorno?! Há quanto tempo! – E abraçou o amigo. – As pessoas desse jornal têm algum tipo de passagem secreta: é só você falar de alguém que esse alguém aparece!
- Imagine, yo estaba escondido esperando uma deixa ou um bat-sinal, mas tudo bien. E yo vou convencer o Camus. Aliás, estou indo embora, está em mi hora de salida. Estejam no bar Thanasis! Apareço lá pelas diez horas. Dite, nosso relações públicas, convide tooodo mundo! É uma ocasião especial. – Começou a rir, acompanhado pelos outros dois. – Ah! Hyoga! – Chamou com um aceno o garoto. – Las fotos. – E entregou o disquete. – Bom. Estou indo embora. No chorem mucho en mi ausencia, a gente voltará a se ver!
- Esse cara fala tanto que me deixa zonzo. – Disse Milo, ouvindo um "vá a la mierda" como resposta.
Shura saiu da sala dos amigos e tomou o elevador. Quando chegou ao térreo, encontrou Mu e Shaka, que voltavam do refeitório. Conversou um pouco com eles e comentou da idéia de comemorar a volta de Milo no bar, que não ficava muito longe do jornal. Após a breve conversa, resolveu cortar caminho até o estacionamento pela rotativa. Cumprimentando um conhecido ou outro chegou, finalmente, no lugar em que seu carro estava estacionado. Após arrumar um lugar para sua pasta no lotado porta-malas, entrou no carro e deu a partida. Logo já estava estacionando, novamente, em uma rua estreita, cheia de árvores. Muitas pessoas idosas moravam ali. Deu um "buenas tardes" para algumas senhoras e começou a procurar a chave do portão dentro de seus bolsos. A esquecera dentro do carro. Travou uma batalha intensa contra seu porta-luvas ("esses CDs estão revoltados! Daqui a pouco fazem um motim e acabam comigo" – dramatizou) e, finalmente, encontrou a chave.
Seu chaveiro era enorme: um burrinho ("é a sua cara!" – dizia Aiolia, o presenteador) de pelúcia com espaço para guardar até um celular dentro. Finalmente, depois de testar, pelo menos, quatro chaves, conseguiu entrar e trancar o portão de grade. Procurou mais um pouco e achou a chave que abria a porta da casa. Entrou pé ante pé. Não queria incomodar... Muito.
Vagarosamente deslizou até o quarto, deitando-se na cama e abraçando, com força a pessoa que já estava adormecida ali:
- Um dia você ainda me faz ter um ataque cardíaco. – Replicou, mal humorado, o recém acordado.
- Quanto exagero. – Mordiscou o ombro do outro. – Camus, usted exagera demais.
- Ainda treino o Louis para o atacar quando entrar sem tocar a campainha.
- Usted fica irritado quando eu toco porque te acorda!
- Então não me assuste. E pare com isso.
- Parar com o quê? – Perguntou, depositando beijos sobre as costas do ruivo.
- Com isso. Estou cansado.
- Yo también. Mas... Estou com saudades.
- Shura, ontem nós...
- Ontem foi ontem. Hoje é hoje. – Fez uma pausa. – Camus?
- Você venceu, espanhol chato. Vous êtes irritant (2).
- Melhor não falar em francês.
- Vérité? J'adore parler en français. Ensuite... Je veux un baiser.
- Ok, usted pediu... Duplamente. – E virou o francês de frente para si, dando-lhe um beijo. – Mas vou deixar usted dormir. Aliás, vou acompanhá-lo nessa viagem ao mundo de los sueños! Depois de tudo há muito que fazer essa noche.
- Pois é, tenho que acabar uma matéria...
- Nah, yo estaba hablando da festinha! Pro Milo!
- Festinha? Pro... Milo? – Perguntou Camus, com os olhos entreabertos.
- Si, si! Para celebrar a volta dele ao ninho.
- Eu não vou.
- Ahhh! Vai sim. Yo já disse pro Dite que ia te convencer.
- Não convenceu. Eu não vou.
- Por favoooor?
- Não.
- Camus...! Por favooor?!
- Me deixa dormir, depois a gente pensa nisso.
Shura se controlou para não exclamar um sonoro "YES!". Quando Camus dizia que pensava nisso depois, significava "sim, não encha mais o saco agora, mas não espere que eu vá feliz". Antes era realmente difícil de entender o ruivo, mas agora ele parecia um livro aberto para o espanhol.
- Gracias, Camus. Te amo. Oh, y durma bien!
- Você também, Shura. Bon rêves.
Milo não sabia se era apenas por sua ansiedade e empolgação, mas a noite chegou realmente rápido. Como a sala em que trabalhava não possuía janelas, nem viu o dia passar, porém ficou realmente surpreso quando viu o relógio marcando nove horas da noite. Desceu a diagramação para encontrar Aiolia e Mu, ficou decidido que os três iriam juntos.
Os amigos sorriram ao vê-lo. Trocaram algumas poucas palavras e se dirigiram ao bar. Thanasis era um lugar simples, porém muito agradável. Tinha uma fachada simpática, toda envidraçada e decorada com plantas. Porém o ambiente de dentro que era o diferencial: o dono original do lugar era um ativista do Greenpeace, por isso se recusou a derrubar as árvores do terreno. O resultado foi o bar ter árvores enormes dentro dele, com toda a construção feita evitando as prejudicar, de alguma forma. Todas as mesas eram com tampo de vidro colorido e pernas de ferro, com cadeiras coloridas dispostas a volta.
Muitos dos garçons e garçonetes vieram cumprimentar os recém chegados, já que eram conhecidos de longa data. Pediram a "mesa especial", que nada mais era uma enorme mesa ao ar livre nos fundos do restaurante. Era um lugar arborizado e sempre com o perfume agradável de flores. Sentaram-se e pediram apenas água, já que precisavam esperar a "turma".
- Então, amores, o que andaram aprontando na minha ausência? – Perguntou Milo, enquanto bebericava sua água com gás.
- Um milagre aconteceu, Miluxo. – Sorriu Mu. – Aiolia está noivo!
- Não! Eu sumo por míseros anos e meu filhote me abandona? Quem é a louca? Ou melhor, a santa! Pra agüentar esse estrupício em casa, a criatura deve ser canonizada! – Exclamou tragicamente, arrancando gargalhadas dos amigos.
- Não se preocupe, você vai conhecê-la. Ela vem aqui hoje. – Disse Aiolia, rolando os olhos.
- É a Marin, Milo. – O tibetano disse, arrumando os cabelos.
- Marin...? Aquela ruivinha da faculdade de Design Gráfico? – Ao ver uma afirmação. – Ótima escolha. Apesar de temperamental, ela parecia ser uma ótima pessoa.
- Ela é uma ótima pessoa! – Exclamou o noivo, de modo apaixonado. – É maravilhosa...
- Eu cheguei a ver coraçõezinhos pularem da cabeça oca do Ólia. – Disse Milo, sendo chutado pelo outro.
- Quero você como padrinho quando eu me casar, Miluxo!
- Ólia, quantos padrinhos você vai ter? – Perguntou Mu, erguendo a sobrancelha.
- Não sei, bando de amigo gay que eu tenho, saco. Falta mulher nisso aqui! Só você que se salva, né, Mi? – Ao ver a risada que o outro soltou. – Ah, não! Eu não sabia desse detalhe sobre sua vida pessoal!
- É que meu parceiro antes de eu ir para os States era muito tímido e vocês o conheciam. Por isso eu tive que jurar com os dois pés juntos que não falaria nada.
- Entendo... Aliás, o Mu se perdeu nesse caminho sodomita. Passa o tempo todo praticando sexo tântrico com o falso indiano lá. – Disse Aiolia, bufando.
- Essa é difícil de engolir. Tanto quanto o Shaka ser indiano apesar dos cabelos loiros e dos olhos azuis.
- Estou muito feliz, obrigado. – Sorriu Mu, tomando um gole da água e em seguida se levantando. – Dite! Deba!
- Amooores! – Gritou Aphrodite, se aproximando, com um enorme sorriso. – Não aprontaram antes do titio Dite chegar, né?
- Milo! Há quanto tempo! – Disse Aldebaran, com um enorme sorriso, abraçando o grego. – Estava com saudades de você!
- Continua a mesma coisa, né, Deba? Uma manteiga derretida, apesar desse tamanhão! – Respondeu o grego, arrancando gargalhadas de todos em volta.
A conversa correu animada. Aos poucos, foram chegando várias faces conhecidas, das quais Milo sentiu muita falta. Soube de muitas novidades: desde aventuras nos tempos de faculdade até casamentos. Aqueles anos que se passaram podiam não ser tanto tempo assim, mas foram o suficiente para milhares de coisas ocorrerem.
A madrugada começava a se aproximar, quando o grego se impacientou e perguntou a Aphrodite se Camus viria. Recebeu uma resposta afirmativa, mas a demora começava a lhe irritar.
Abriu um sorriso enorme ao ver o francês chegar junto de Shura:
- Que demora!
- Ao contrário de usted, Milo, nós ainda pensamos em trabajar. Tivemos cosas para resolver antes de virmos. – Respondeu o espanhol, sentando-se junto aos amigos e já pedindo uma bebida.
- Fico feliz que tenha nos dado a honra de sua presença, Camus. – Disse Milo, sorrindo.
- Não fique tão feliz assim. Logo já vou embora. – E bebericou um cálice de água.
- Ué... Não vai pedir sua bebida a la Belle Époque? Se não me falha a memória, era com absinto, folhas de hortelã, gelo e soda.
- Esqueceu dos cubos de açúcar.
- Oh, é mesmo! – Riu Milo.
- Tenho que me manter sóbrio, depois tenho que voltar à redação...
- Uma dose não vai te embebedar.
- Absinto é extremamente alcoólico, Milo.
- Peça uma cerveja então!
- Eu bebendo... Cerveja? – Torceu o nariz desgostoso.
- Francês fresco. – Rolou os olhos. – Ok, meia taça de vinho e não se fala mais nisso!
- Feito. – Bufou. – Aí você para de encher o saco?
- Não prometo nada. – Acenou para o garçom. – Dois "Fresh Absinthe"!
- E o vinho? – Perguntou Camus, erguendo a sobrancelha.
- Eu disse que não prometia nada. – Sorriu. – Vamos lá, Camus, pelos bons e velhos tempos!
- O passado não volta, Milo.
- Mas podemos transformar o presente.
- Não creio. – E deu uma olhada de esguelha para Shura, que conversava animadamente com Aiolia e Aphrodite.
As bebidas foram trazidas, junto com os outros coquetéis e drinks pedidos pelos amigos. Camus segurou o copo e o fitou. Lembrava que a primeira vez que provou absinto fora junto com Milo.
Os dois tinham acabado de ver Drácula de Bram Stoker, o famoso filme de Francis Ford Coppola, e ficaram curiosos pela tal "Fada Verde". Já haviam lido sobre ela em alguns livros sobre arte, literatura ou história, que falavam de grandes nomes dessas áreas, como Baudelaire e Van Gogh, apreciando a bebida... Até demais.
Compraram uma garrafa. O francês ficou apavorado ao ver o teor alcoólico do absinto ("É capaz disso ter mais álcool que álcool de cozinha, Milo!"). Mas a curiosidade foi mais forte. Adoraram o sabor refrescante, herbáceo... Difícil de descrever.
Era mais do que nostálgico estarem ali: um a frente do outro bebendo a Fada Verde.
- Você disse que alguém já lhe falou do quanto ficou mais bonito. Quem falou isso? – Insistiu Milo. Aquela dúvida estava o incomodando desde a conversa de após saírem do elevador.
- Um monte de gente: Aphrodite, Shura, Shaka...
- Você andou namorando bastante, heim... – Riu, recebendo um olhar de censura em resposta.
- Eles estavam tentando me animar com elogios. Eu fiquei levemente deprimido depois que alguém foi para os Estados Unidos sem nem mandar um e-mail avisando.
- Levemente deprimido? – Exclamou Aiolia, se intrometendo na conversa, talvez alterado pela bebida. – Só faltava você chorar em bares ou sair correndo da sala de aula em prantos! Vocês dois eram muito amigos, não eram?! Milo, você precisava ver o estado desse aí.
- Vou voltar ao trabalho. Boa noite. – Tomou o resto da bebida em um só gole. E o ruivo saiu do bar.
- Ih... Falei algo que não devia?
- Ólia, você sempre fala algo que não devia. – O loiro rolou os olhos, irritado.
Passaram-se algumas horas e Milo declarou, então, que iria embora. Havia chegado de Londres naquele mesmo dia, por isso estava bastante cansado. Os amigos prometeram comemorar até o sol raiar, em sua ausência, e ele foi embora, recebendo de salvas de palmas a beijos soprados.
Seguiu caminhando pela rua e viu o prédio do jornal. Relutou um pouco, mas decidiu entrar. Tinha deixado sua jaqueta na redação. Sabia, é claro, que essa era uma desculpa: não estava frio e podia pegá-la no dia seguinte. Queria era ver Camus.
Continua...!
Notas:
(1) Thanasis é um restaurante que existe mesmo! Não, o que aparece na fic só roubou o nome do real, a descrição dele foi tirada de um bar e de um restaurante de Porto Alegre mesmo.
(2) "Vous êtes irritant". – Você é irritante.
"Vérité? J'adore parler en français. Ensuite... Je veux un baiser". – Verdade? Eu amo falar em francês. Então, eu quero um beijo.
"Bon rêves." – Bons sonhos.
Desculpe se há erros, meu francês é extremamente limitado. xD Então, eu recorri ao tradutor do Google, ao freetranslation . com e aos dicionários do Uol. '
A referência ao absinto e as outras coisas... eu TIVE que fazer! x3
Sem previsão pro terceiro capítulo. xD Mas vou tentar não me demorar!
Espero que tenham gostado!
