- Eu não sei como dizer isso.
Me encarou. Não me fiz de rogada, olhei fundo em seus olhos.
- Você nunca sabe como dizer porra nenhuma.
Sim, eu estava ligeiramente irritada. E ele tornou a fitar o maldito desenho.
- Eu não sei como encaixar as palavras certas, só isso.
- Sua falta de léxico me irrita, às vezes...
- Não é isso.
Tomou um tom mais sóbrio, mais sério. Voltou a me encarar.
- Eu conheço palavras suficientes pra transformar a sua tese de mestrado em um texto do primário. Eu só não sei como usar as palavras na hora de... uh... interagir com... humanos, no geral.
Me explicou (ou, ao menos, tentou explicar). Haha, acho que consegui ofendê-lo.
- Você realmente lê bastante, mas não é lá isso tudo. Na verdade, você é um desastre em questão de comunicação verbal, Sai...
Sem perceber, estou sorrindo, e fazendo carinho no rosto desse retardado mental. Ele não me dá um de seus sorrisos forçados. Não me dá qualquer tipo de sorriso. E eu me sinto muito melhor assim. Ele pode ser como quiser enquanto estivermos juntos.
- Eu não sou um desastre.
- Sinto muito, mas você é sim.
- Eu posso provar.
- Como? Vai dizer o que queria dizer no começo da conversa?
- Vou!
Ele parece entusiasmado. Ou desafiado, não sei como julgar.
- Estou esperando... E quero no mínimo cinco palavras pra isso.
Não contenho uma risada no final, quando me percebo agindo como se fosse uma professora cobrando o exercício de uma criança.
-...
Ele parece indeciso, encarando qualquer ponto no nada em busca das palavras certas. Ele fica de frente para o desenho novamente, e começa a rabiscar algo.
- Ué. Cadê? Não ia me provar que não é um completo desastre quando quer se manifestar?
Mal termino de falar e ele brande o caderno contra o meu rosto. Mas está perto demais para enxergar. Seguro o caderno, primeiro faço uma careta para Sai, só então me dou ao trabalho de ler. É difícil, à princípio. Ele fez questão de escrever bem no meio do desenho. Mas, bem no colo de uma pietà, eu começo a distinguir palavra por palavra.
"Quero te comer de novo"
Há o silêncio de alguns segundos, o meu cérebro ainda não processou a informação. Acho que estou corada. Ao menos, minhas bochechas estão ardendo. Ele se levanta, e eu o encaro. Eu quero muito esmurrá-lo, ou simplesmente praguejar esse filho da puta um milhão de vezes. Mas eu não tenho fôlego. E, mesmo se tivesse, não poderia falar nada. "Cala essa boca" ele só diz isso.
Um beijo.
Terno. Molhado. Talvez pra me acalmar os ânimos. E o desgraçado filho de uma bela puta consegue. Me adorna, me doma. O filho da puta tem uma boca linda, e é a primeira coisa que eu vejo quando abro os olhos. Eu quero muito falar alguma coisa. Muito mesmo. Mas ele cola a testa na minha, tapa minha boca com uma das mãos, fecha os olhos, suspira.
- Esse tipo de comunicação é completamente dispensável no momento...
Ele diz num tom de confissão e começa a tirar minha roupa.
Eu me limito a concordar.
