7VERSE : SETE VIDAS

SETE VIDAS VIDA 1: O CAÇADOR DE UNHAS PINTADAS DE VERMELHO.

vida 1 CAPÍTULO 2

TEM DIAS QUE O MELHOR É NEM SAIR DE CASA

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O bar era exatamente como Dean lembrava, embora Sam jurasse que nunca estiveram ali antes. Careta, escuro, chocho e enfumaçado. O tipo de lugar onde o velho Dean costumava se sentir à vontade. Bebidas e mulheres baratas. Um longo balcão de bar, diversas mesas espalhadas pelo amplo salão, alvos para jogo de dardos, duas mesas de sinuca, uma jukebox próxima à entrada, um pequeno palco para shows no fundo e uma movimentada escada para um suspeito segundo andar. Faltavam uns brilhos, talvez uns espelhos.

Desta vez, no entanto, o que atraiu sua atenção foi o pequeno palco. Começou a se imaginar ali vestido de Diana Ross e cantando I Will Survive. De peruca loura, em um tom platinado, cílios postiços, salto agulha e um vestido branco bem colado ao corpo, todo de lantejoulas. E, à medida que a cena de desenrolava em sua mente, começava a cantarolar e a se remexer. Até levar uma cotovelada de Sam, para que deixasse de dar bandeira.

– Foco, Dean. Garotas.

Déjà vu. As pessoas no bar eram as mesmas, as coisas aconteciam da mesma maneira. Só ele estava diferente. Só ele podia alterar aquele roteiro. O Trickster provavelmente estava naquele bar. Ele não ia querer perder o espetáculo. Precisava descobrir com que aparência ele se escondia.

Sabia que devia estar empenhado em desmascarar o FDP, mas, por algum motivo, aquilo parecia ter cada vez menos importância. O maldito estava fazendo alguma coisa com ele.

Quanto mais Dean se esforçava para se lembrar de como as coisas deveriam ser, mais a lembrança do Trickster e de que aquilo tudo era uma realidade alterada lhe escapava. Aquela vida era cada vez mais a única vida de que se lembrava.

Aquela estava se tornando cada vez mais a única realidade existente.

Ao olhar em volta, sorrindo animado, não se lembrava mais do Trickster. Não se lembrava de já ter vivido aqueles momentos. Não se lembrava de ter tido algum dia outra vida. Sua atenção estava mais uma vez voltada apenas para o jogo de sedução. Mais uma vez tudo o que queria era arrumar uma companhia para a noite.

A maioria dos frequentadores do bar era homem e poucas mulheres o animaram. Limitou a três candidatas o grande prêmio da noite: ele mesmo. Nisto, Dean não mudara nada. Ele ainda se achava.

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A primeira era claramente uma profissional, madura, mas ainda atraente. Era sempre mais fácil com as profissionais. Sem tantos subterfúgios. Era só pagar um extra e elas não se importavam com a forma como você estivesse vestido ou as fantasias sexuais que quisesse experimentar.

A forma vulgar como ela se vestia, no entanto, o desanimava um pouco. Esperava que ela soubesse escolher melhor sua roupa de baixo. Ela certamente precisava que ele lhe desse umas boas dicas de maquiagem. Talvez ela pudesse fazer umas correções antes de começarem.

A segunda estava sozinha e parecia carente. Tinha uma idade indefinida e uma beleza exótica. Alguém que não passaria despercebida nem que quisesse. Dean tinha experiência suficiente para saber que não se tratava de uma profissional. Fazia o estilo diva inacessível. Classuda. Gestos aristocráticos. Vestida de forma impecável. Jóias discretas e de bom gosto. Com certeza, seu refinamento se estendia às roupas íntimas. Perdeu um tempo imaginando como seriam. Ela era alguém que claramente destoava daquele ambiente rústico e daquela cidade minúscula. Ela parecia existir num mundo à parte, diferente do das pessoas ao redor.

Reparou que muitas das mesas vizinhas à dela estavam vazias. Isso chamou sua atenção, já que o bar estava razoavelmente cheio. Devia haver algum mistério envolvendo aquela mulher. Num bar cheio de homens rudes e já meio bêbados, uma mulher tão bonita sem pretendentes podia indicar que era depressiva, problemática, chata ou tudo isso junto.

Embora a aura de mistério e refinamento o atraísse, ela era aquele tipo de mulher que costumava reagir de forma histérica quando ele revelava seus fetiches. Como se o fato dele ser não convencional roubasse algo que ela achava que merecia ter. Ia chamá-lo de viado e expulsá-lo do quarto. Se resolvesse investir nela, teria que dar uma maneirada. Pelo menos da primeira vez.

Imaginou-se por um momento no lugar dela, usando aquele vestido maravilhoso. Fazendo gestos daquela forma ao mesmo tempo refinada e casual. Seria divertido imitá-la com um vestido parecido com aquele na próxima vez que encontrasse com Chris e Steve. Mas, ia precisar ensaiar bastante. Talvez devesse se arriscar com ela afinal de contas. Nem que fosse para aprender a fazer corretamente aqueles movimentos com as mãos.

A terceira era o sonho de consumo de qualquer homem. Jovem e linda, além de ter um jeito atirado e um sorriso sedutor. Não conseguia imaginar um corpo mais perfeito. Tinha toda a pinta de ser uma líder de torcida. Esse era um de seus fetiches. Transar com uma líder de torcida vestido de líder de torcida. Dar um show particular para ela mostrando como é que se usa os pompons.

Podia apostar que ela era romântica, embora disfarçasse fazendo a linha garota má de família boa. Pela jaqueta, via-se que o namorado era do time de football da faculdade local. A líder de torcida mais gostosa costuma fisgar o capitão do time. Clichê, mas costumava ser verdade. No entanto, parecia que as coisas não iam bem para o casal 20. Ela sorria, mas sua experiência com mulheres lhe dizia que ela estava se sentindo negligenciada e infeliz. Uma amargura no olhar que ela não conseguia disfarçar. Não seria nenhuma surpresa se o namorado não estivesse fazendo direito o dever de casa. Melhor assim. Isso facilitava as coisas para ele.

O namorado era bonitão e estava entretido conversando com outros dois fortões, que, pelas jaquetas, jogavam no mesmo time, o Hunks Football Team. Aparentemente os outros dois estavam sozinhos. Em caso de briga, seriam três contra um, ou, talvez, três contra dois, se Sam achasse que precisava de ajuda. Sabia que os três não tinham a menor chance contra ele, mas a noite estava apenas começando. Era ainda muito cedo para comprar briga. A última coisa que queria era acabar preso.

Mesmo assim, voltou a fazer contato visual com a bad girl. Pensando bem, ela merecia que ele entrasse numa briga por ela, sim. Isso e muito mais. Olhou como se pudesse ver por baixo das roupas da garota e gostou muito do que viu e mais ainda do que imaginou. É, decididamente ela merecia o grande prêmio. Como ele ficaria na calcinha que ela estava usando?

Viu que o olhar que lançou a fez ficar vermelha. Viu que ela olhou para o namorado e os amigos com medo deles terem percebido o quanto aquele olhar mexera com ela. Sorriu, sentindo-se vitorioso.

Mas, antes de mais nada, precisava descolar alguma grana num jogo de sinuca. Estava a quase nenhum e ali não aceitariam o cartão de crédito clonado que tinha na carteira. Se ao final optasse por uma noite sem riscos com a profissa, ia precisar de grana. Muitas se aproveitavam da situação e cobravam dobrado.

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A jukebox começou a tocar Lucky Star da Madonna e isso pareceu um sinal para Dean se por em movimento.

Dean perdeu o primeiro jogo e ganhou apertado o segundo, como sempre fazia para aumentar as apostas para o terceiro e decisivo jogo. Já tinha analisado o jogo do adversário e o da outra dupla. Ninguém especialmente bom. E também não eram de arriscar muito, os valores em jogo eram baixos. Se fosse mesmo com a profissional, ia precisar chorar um desconto.

Dean estava entretido jogando e nem percebeu a aproximação de Ashley Madison.

– Ooooi.

Dean quase perdeu a concentração num momento decisivo. Era agora que ele fazia a caçapa e fechava a fatura embolsando US$ 85. Concentração. Tacada certeira. Bola preta na cesta.

– Agora sim. Ooi. Acho que foi você quem me deu sorte.

– Tenho certeza disto.

– Seus amiguinhos não vão sentir a sua falta?

– Duvido muito.

– Eu terminei aqui. O que acha de respirar um pouco de ar fresco?

– Acho ótimo.

– Saímos pela frente?

– Você sai na frente. Te encontro lá fora em cinco minutos.

Falou rapidamente com Sam, pedindo que lhe desse três horas. Voltaria para pegá-lo.

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As coisas entre Dean e Ashley começaram a esquentar no momento em que os dois entraram no Impala e ela passou a mão ao longo da perna dele, acendendo-o. Naquele momento, um ainda não sabia o nome do outro. Nem se importavam com isso.

Depois de despistar Kyle, o namorado, e os amigos dele na estrada, seguiram tranquilamente até o Blue Mountains Motel, onde Dean e Sam estavam registrados.

Quinze minutos depois, Dean abre a porta do quarto 212 do motel. Ele e Ashley caem agarrados na cama, antes mesmo da porta bater.

Nas preliminares, ambos ainda vestidos e luzes acesas, Dean parecia o Dean de sempre e agia como o Dean de sempre. Ash não era simplesmente bonita. Era QUENTE. Era atirada. Sabia incendiar um homem. Agia e reagia em sintonia com os movimentos de Dean. Estavam a caminho da segunda etapa, quando as roupas começam a ser retiradas. Para a grande maioria, o destino imediato das roupas é o que menos importa. Para uma minoria que inclui Dean, a posse das roupas do outro se mistura com o prazer e vestir essas peças é parte importante deste prazer. É a cereja do bolo.

Ashley surpreende Dean quanto inverte as posições e puxa sua cueca para baixo. Mas, surpresa mesmo quem tem é Ashley quando se depara com a calcinha de rendas que ele está usando por baixo da cueca.

– Que diabo..?

– Ash, eu posso explicar. Eu estou usando por zoação. Uma brincadeira. Uma .. aposta. Volta aqui, Ashley.

Ashley se veste apressada, sem querer escutar nenhum argumento, nenhum pedido para recomeçarem de forma diferente, sem querer escutar nada que saísse de sua boca. Ainda meio decomposta, sai do quarto e desce as escadas correndo, disposta a enfrentar o frio da noite e o que fosse preciso para ficar longe daquele pervertido.

Dean a alcança e implora para que entre no Impala. A estrada àquela hora era perigosa para uma garota. Jurou que a deixaria em segurança em sua casa. Em vista da interestadual hostil e quase vazia Ashley aceita a carona, mas o trajeto transcorre num silêncio constrangedor.

Quando Ashley, chorando silenciosamente, tranca por dentro a porta de seu quarto e se joga na cama com o rosto voltado para o travesseiro, a única certeza que ela tem é que gostaria de riscar aquele dia horroroso da sua vida.

Só naquele momento deu-se conta do risco enorme que correu. Onde é que estava com a cabeça quando decidiu sair com um estranho? Tivera sorte, apesar de tudo. Dean até podia ser um pervertido, mas não forçara a barra e a trouxera em segurança como prometera. Estava tudo errado em sua vida. Precisava rever seus conceitos. Mais do que invejada, queria ser amada. Queria ser feliz. Dean fora um erro gigantesco, mas também já perdera tempo demais com Kyle Hayden.

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Dean acompanha com os olhos, desapontado, Ashley sair do carro, batendo a porta do Impala com força; e entrar apressada no pequeno prédio em frente. Mais do que frustrado, estava triste. Deveria ter ficado na segurança do sexo pago e dos serviços acertados.

Vivia o pior dos mundos. Não era compreendido nem por homens, nem por homens gays, nem por mulheres. Era minoria mesmo entre as minorias. Chris, que era gay, não enfrentava tanta hostilidade. As pessoas sabiam o que esperar dele e ele sabia o que esperar das pessoas. Já ele, Dean, pegava as pessoas de surpresa. E quase sempre a surpresa era acompanhada de reações exageradas. Às vezes, violentas.

Antes que voltasse a ligar o carro, Dean escuta a sirene de um carro de polícia se aproximando. E, de um carro estacionado alguns metros à frente de onde havia parado, vê saírem Kyle Hayden, Owen Foley e Mark Levine.

La Grande era uma cidade de 12300 habitantes. A presença da Eastern Oregon University explicava a vida noturna agitada, mas no fundo La Grande era como qualquer cidade pequena. Desconfiada de estranhos.

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Dean não chegou a se surpreender quando soube que o delegado da cidade era pai de Kyle Hayden e que o policial da viatura que o abordou era irmão de Mark Levine.

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Notas finais do capítulo:

1) A "cena do bar" é uma referência direta ao dia que se repete do episódio 3x11. Fica mais interessante para quem leu VIDA ZERO. Vai se repetir em outras VIDAS.

2) O Dean vestindo a calcinha da garota nas prévias da transa não é algo tão absurdo assim. É inclusive algo que ele próprio confessou que já fez. No episódio 5x04 (The End), ele precisa convencer sua versão futura de que é realmente Dean Winchester e, para isso, precisa contar algo que somente ele próprio saiba, algo que jamais contou para ninguém antes. Ele conta que numa transa vestiu a calcinha da garota e que gostou.

IMPORTANTE: O autor não se responsabiliza pelas opiniões e preconceitos de seus personagens.


25.09.2013