Fios da desilusão

ShiryuForever94 e Akane Mitsuko AST

(ShiryuMitsuko)

Gênero: Yaoi/Angst nada leve/Drama/Lemon.

Classificação: Não aconselhável para menores de 18 anos.

Casais: Radamanthys de Wyvern e Valentine de Harpia – Sylphid de Basilisco e Lune de Balron - Minos de Griffon e Ayacos de Garuda.

Localização temporal: Após a Saga de Hades.

Atenção: Fanfiction yaoi contendo relacionamento homoafetivo entre pessoas do sexo masculino. Esta estória é desaconselhável para menores de 18 anos. Todos os direitos de Saint Seiya, Cavaleiros do Zodíaco, pertencem a seu criador, Masami Kurumada. Esta estória não possui fins lucrativos e é vedada sua reprodução parcial ou integral em sites ou fóruns sem prévia autorização das autoras. A idéia de que Hades possui tesouros em ouro e jóias foi inicialmente vista por mim em argumentações da ficwriter Nana Pizzani e, concordando com o ponto de vista dela, utilizei tal entendimento na construção desta fanfiction.

Capítulo 2

Wyvern apertou Valentine nos braços e ficou com ele assim por algum tempo, sem coragem de falar nada. Foi beijando-lhe o rosto molhado de lágrimas e tentando pensar no que fazer. Deslizava dedos amorosos pelo rosto, cabelos, queixo, dando suaves beijos na face que amava. Ele ainda estava ferido. Isso era fato. Lembrou-se dos movimentos lentos que vira. Precisava cuidar dele.

- "Val, você já tratou os ferimentos? Se não os tratou, teremos que cuidar disso. Há cortes mais fundos que estão abertos." Ficou um tanto sem graça mas tinha que perguntar algo tão devastadoramente íntimo que mordeu os lábios e suspirou várias vezes.

O mais jovem sentiu que o outro o abraçava um tanto mais forte e não disse nada, sentindo leves beijos por seu rosto. Não conseguia parar o choro dessa vez. Tinha que responder.

- "Não, não tratei dos ferimentos e há cortes piores nas costas." Percebeu que ele fez uma pausa e observou-o.

- "Ele ao menos teve o cuidado de usar camisinha? Aquele traste anda por aí com muita gente, não quero que fique doente por causa de uma violência." O inglês abraçou ainda mais seu marido. – "Droga, amor. Eu devia estar aqui. Aquele homem jamais se aproximaria de você se eu estivesse aqui."

O tanto que o chipriota corou dada a pergunta ouvida foi escondido pelo rubor causado pelas lágrimas, mas mesmo assim respondeu, negando com a cabeça. Sim, já havia pensado naquela possibilidade. Doenças. Minos não era muito casto. Ficou indignado. Ele era de Radamanthys, sempre tinha sido só dele e por causa de um kyoto estúpido chamando Griffon teria que pensar em algo como doenças sexualmente transmissíveis.

Ayacos e Minos, apesar do relacionamento público, pareciam solteiros. Valentine trincou os dentes e suspirou ao se sentir mais abraçado pelo marido. Dessa vez conseguiu corresponder ao toque, aproximando-se um tanto.

- "Estou aqui. Não se preocupe mais. Trataremos de cada coisa a seu tempo. Está forte o suficiente para tomar banho ou quer que eu te deite na banheira e cuide de você? E, só para confirmar, eu o amo." Radamanthys pegou-lhe o rosto entre as mãos e o beijou novamente na boca, agora se demorando mais em deslizar os lábios pelos dele, devagarinho, num carinho mais cheio de amor que de luxúria. Queria que ele sentisse que para ele, Radamanthys, tudo estava igual, amava-o e nada no mundo iria mudar isso.

Valentine escutava as palavras dele e suspirou, achava que conseguiria se levantar e tomar banho mas não tinha certeza. Ouviu-o dizer que o amava e graças a isso conseguiu não reagir negativamente quando seu rosto foi segurado e um beijo terno e lento lhe foi dado. Por um momento não fez nada, ainda com um tanto de receio quanto a contatos, mas acabou correspondendo ao beijo, a saudade e amor que sentia falando mais alto que aquele tanto de medo.

O inglês, de seu lado, percebia a tensão no outro e aquilo doía. Não podia deixar que ficassem estranhos um com o outro mas ia ser bem difícil. Era melhor serem muito sinceros um com o outro para poderem passar por aquilo. Juntos.

- "Meu beijo incomoda você? Perdoe-me, é bem provável que incomode, desculpe a insensibilidade." Levantou da cama e anunciou com a voz neutra que iria preparar um banho para Valentine e pediria material para cuidados médicos.

Ao ouvir o que ele dizia, Valentine baixou imediatamente os olhos, constrangido. Não queria que fosse daquela forma, não queria sentir o que estava sentindo quando ele o tocava. Pela milionésima vez amaldiçoou Minos pelo que ele fizera. Tinha que fazer algo sobre aquilo. Não podia mentir sobre nada ou iriam se perder um do outro. Murmurou quase inaudivelmente para o marido que não era culpa dele enquanto o observava levantar para cuidar do banho e outras coisas. Pensou uns momentos e finalmente disse que não era bem incômodo. Não sabia o que dizer. Não conseguia ficar confortável com os toques do kyoto embora o quisesse por perto.

- "Se houver cortes fundos eu mesmo posso costurar você. Pelo menos isso de nossas vidas de seres do inferno será útil." Ficou olhando Valentine algum tempo, perdido em sentimentos confusos e por fim foi andando, não sem antes murmurar uma frase simples, baixo.

- "Vai passar." Queria dizer mais, porém não conseguiu. Um aperto no peito apressando-o a se refugiar no banheiro. Encostou a porta, ligando a água e preparando tudo. Agora podia chorar, novamente. Não queria que Valentine visse a intensidade de sua dor. Cerrou as mandíbulas para não gritar, mordeu os lábios e deixou as lágrimas correrem ainda mais fortes. Além de tudo ainda tinha que se lembrar que Valentine iria fugir dele por uns tempos. Não ia ser simples. As feridas no corpo dele, as feridas na alma dele. Que diabos ia fazer?

Começou a soluçar alto e ficou perto da banheira, ouvindo a água jorrar e verificando a temperatura. Aquilo tinha que ter jeito. E havia Angel. Queria tanto ver o filhinho deles mas, agora, não era propício. Tinha que cuidar de Valentine imediatamente. Lavou o rosto e tentou ficar calmo, retirou um tanto de sua roupa e ficou apenas de calças. Pensou se a visão dele com menos roupa constrangeria o marido. Nu sabia que não deveria ficar, não por enquanto. Talvez fosse melhor colocar uma sunga. Saiu indo até o armário buscar a roupa.

Harpia ouvira o marido dizer que tudo iria passar e tentou acreditar naquilo, Radamanthys tinha que ter razão. Podia sentir o cosmo dele, absurdamente triste. A dor dele o açoitava também. Pelos deuses, por que aquilo tivera de acontecer? As lágrimas não paravam de cair e secou-as com as mãos, fechando os olhos. Sentia tanta saudade, do kyoto e do filho. Achara melhor deixar o bebê com Syl e Lune, não ia conseguir cuidar dele do jeito que estava. A porta do banheiro se abriu e o viu sair, apenas com a calça. O corpo estremeceu um tanto mas logo acalmou-se, era Radamanthys, era seu amor que estava ali, ninguém mais. O loiro se dirigiu ao armário. O porte dele, o andar seguro, o jeito decidido que Valentine tanto adorava.

- "Amo você." Harpia murmurou de maneira bem audível. Havia apenas o crepitar da lareira, não havia barulho algum. O castelo era isolado e as grossas paredes impediam qualquer barulho externo. Era bom para a privacidade deles. Sentia uma necessidade premente de reafirmar que amava o inglês. O amor era a força que teria que usar para vencer os acontecimentos.

- "Eu também te amo. Mais que qualquer coisa. Vou colocar uma sunga pois não creio que vá gostar de me ver nu por enquanto. Eu sei que será difícil mas vamos superar." Wyvern voltou-se com o olhar mais apaixonado que pôde e se aproximou dele lentamente, com a roupa de banho na mão. Um longo suspiro e continuou a falar, com calma.

- "Vai chegar o dia em que poderemos nos amar em paz, novamente. Confie em mim. Vamos? Depois vou cuidar de cada pedacinho desse corpo lindo que você tem." Tentou sorrir e passou as mãos pelos cabelos vermelhos do marido. – "E talvez eu lave seus cabelos e fique cantando para você... Se quiser..."

Valentine a tudo ouvia, um tanto sem ação, realmente não sabia qual seria a própria reação caso o inglês se aproximasse demais. Tinha conseguido não fugir dele nem empurrá-lo para longe mas, não sabia por quanto tempo mais iria manter tal postura. Toques em seu corpo despertavam as memórias das dores que Minos infligira. Odiava a si mesmo por estar daquele jeito. Ainda restara um tanto em si daquela sensação de não poder controlar o próprio corpo. Viu o inglês se aproximar mais e observou-o um tanto, ouvindo as próximas palavras. Concordou com a cabeça e sorriu de leve, levantando devagar. - "Cantar para mim? É?"

- "E te fazer dormir em paz apenas por um dia pois tenho certeza que não anda dormindo. E te fazer sonhar novamente com o nosso amor. Eu imagino que esteja ferido em alguns lugares. Por isso, vamos com calma está bem? Já passei dois meses sem você. Passarei quantos forem necessários. Meu amor é maior que sexo, muito maior. E, vamos. Não sou muito bom em ficar me declarando o tempo todo." O loiro sorriu sinceramente, pegou o ruivo pela mão e o levou ao banheiro. Ligou um pequeno aparelho de cd e colocou uma música romântica e lenta. A água estava morna e colocou sais de banho para dar aroma e relaxar seu amor.

– "Depois pensaremos no restante, agora, apenas agora, eu sou seu marido e você é meu marido e vamos ficar um tempo juntos, sem pensar em nada além de um bom banho quente, concorda?" Esperava que o cosmo de Valentine ajudasse um pouco na cicatrização. Sabia que arderia, que ele sentiria alguma dor mas era preciso. Infecção era algo bem grave e difícil de combater.

I don't need a lot of things

Eu não preciso de muitas coisas

I can get by with nothin'

Eu posso sobreviver com nada

With all the blessings life can bring

Com todas as bênçãos que a vida pode trazer

I've always needed something

Eu sempre estive precisando de algo

But I've got all I want when it comes to lovin' you

Mas eu consegui tudo que eu queria quando comecei a amar você

You're my only reason, you're my only truth

Você é minha única razão, você é minha única verdade.

Harpia corou, envergonhado. A música tocando era tão bonita. Sua mente lhe mandava mensagens de que sentia falta de Radamanthys, de tocá-lo, de estar com ele. Sentia falta de... Ah, sentia falta de fazer amor com ele mas sabia que no momento não conseguiria. Seu corpo tinha outras reações. Escutou o que ele dizia por fim e conseguiu dar um pequeno sorriso, livrando-se da roupa de baixo, que ainda usava, e com cuidado entrou na banheira, suspirando. Ardia bastante e ignorou a dor.

Wyvern observava cada movimento. Conteve o horror que sentiu ao ver as marcas no corpo inteiro de Valentine. Não fazia idéia, por todos os infernos, não fazia mesmo idéia de quão sádico Minos poderia ser. Viu marcas nas coxas, tornozelos, dedos do pé, ombros, cintura, viu mordidas? Eram mordidas na carne branca e firme dos glúteos de Valentine? Aquilo era inadmissível! Mordeu os lábios com força aproveitando que o marido estava de costas para ele e pegou o sabonete líquido de maçã verde que encontrara numa loja de aromas de países latinos. Parecia refrescante, sua voz saiu baixa – "Onde doer, avise, não quero machucar." - Achou-se meio imbecil por dizer aquilo. Não havia como fazerem aquilo sem provocar dor.

Valentine estava tão envergonhado. Não queria ficar com o corpo exposto daquela maneira, tinha plena consciência de todas as marcas espalhadas por sua pele. Piores eram aquelas em sua mente, em sua alma. Não devia ser uma visão agradável. Será que o marido ainda sentiria atração por ele? O pensamento o fez estremecer. E sabia que o fato de que vários cortes ainda estavam abertos não ajudaria em nada na sua aparência. Quase chorou ao pensar que parecia um retalho de carne.

Se fossem cortes comuns, depois de quatro dias já teriam cicatrizado mas, eram cortes produzidos pelo poder do Kyoto Minos, eram feridas que não fechavam sem alguma interferência externa. Por isso Valentine sofrera e sofria. Seu pouco cosmo, afetado por tanta tortura, não dera conta de recuperar seu corpo. Ele precisava de Radamanthys. Da força do marido.

Harpia podia sentir as oscilações do cosmo do kyoto. Baixou sua cabeça, teria preferido que o marido não o visse daquele jeito. Concordou com um gesto quanto ao que o inglês falara sobre dor. A dor não era o mais importante. Amava-o. Amava os cuidados dele, o fato de ele não o ter ignorado. Era reconfortante saber que Radamanthys estava ali. Estava ali com ele e para ele. Sua salvação.

I need you like water, like breath, like rain

Eu preciso de você como água, como a respiração, como a chuva,

I need you like mercy from Heaven's gate

Eu preciso de você como clemência nas portas do paraíso

There's a freedom in your arms, that carries me through

A liberdade me leva em seus braços

I need you

Eu preciso de Você

Wyvern deslizou a mão suavemente, vendo roxos, amarelados, hematomas diversos, as mãos estavam úmidas com o sabonete e deslizavam com suavidade na pele dele, tocou os locais onde parecia haver mais dor e massageou lentamente. Carinho e amor, dedicação e cuidado.

- "Val, feche seus olhos, sei que sentiu dor nesses locais e vou apagar isso, quero que se concentre apenas na minha voz e que não tenha medo. Não pode ter medo de mim, não tenha medo de mim."

O chipriota suspirou, mordendo os lábios de leve ao sentir os toques leves sobre os ferimentos, devagar. Mesmo com um tanto de receio continuou em silêncio, apenas se atentando ao que ele fazia. Não conteve um baixo gemido de dor quando ele tocou um ponto em suas costas, próximo da cintura. Ouviu o que ele disse e concordou com um movimento de cabeça, fechando os olhos. Não tinha como não admitir para si próprio que tinha um tanto de medo mas tinha de controlar aquilo. Não queria ter que dizer que estava morto de vergonha por estar tão pouco apresentável.

- "Sou seu, Radamanthys, sempre serei seu."

- "Não tenho dúvida alguma quanto a isso, não se preocupe." Deu um minúsculo beijo na nuca clara do outro ao ouvir o que ele dizia e gemeu que o amava tanto. Tentava compreender o tanto que a segurança de seu amado estaria abalada. Massageava cada vez com mais força, sem ser bruto, desfazendo os nós dos músculos que aos poucos deixavam de se retesar ao mínimo contato. Era tão difícil não abraçar o outro e tomá-lo para si. Tinha que sublimar seu desejo e pensar apenas no imenso amor que compartilhavam. Ao mesmo tempo deu-se conta que mesmo o corpo marcado e espoliado à sua frente ainda lhe despertava desejo. Não era pelo corpo de Valentine que sentia desejo, na verdade. Era por ele inteiro. A alma dele. Nada disse, não sabia se deveria dizer isso. Temeu que o chipriota entendesse errado. Conhecendo Valentine como conhecia, sabia que ele tiraria suas próprias conclusões e temia que as conclusões dele apontassem para algo como, já que não havia mais beleza nele, que só sobrara a alma. Não. Melhor nada dizer.

You're the hope that moves me to courage again

Você é a esperança que me move para ter coragem novamente

You're the love that rescues me when the cold winds rage

Você é o amor que me salva quando os ventos frios estão raivosos

And it's so amazing 'cause that's just how you are

E é tão incrível porque é a maneira que você é

And I can't turn back now

E eu não posso retroceder agora

'Cause you've brought me too far

Porque você me trouxe muito longe

Radamanthys continuou tocando o marido com desvelo e cuidado, pressionava pontos energéticos, massageava lentamente, aquilo estava excitando-o mas não podia sequer sonhar com isso. Apenas se controlava e continuava acarinhando-o. Jogou água morna com sabonete em feridas ainda abertas e pediu a ele que agüentasse só mais um pouco.

- "Depois de limpos, os cortes serão suturados e daremos um jeito para que não fiquem muitas cicatrizes. Você sempre será lindo para mim."

Valentine se esforçava para não reagir negativamente aos toques que recebia. Aos poucos ia relaxando, sentindo os carinhos do outro em suas costas. Doía um tanto, ardia. Ao mesmo tempo o cuidado dele consigo fazia com que sentisse certa paz. Mordeu de leve os lábios ao sentir a água jogada contra suas costas mas manteve-se sereno, concordando com o que ouvia. Pensou que possivelmente, em suas costas principalmente, poderiam ficar muitas cicatrizes. E Radamanthys era tão bonito.

- "Desculpe, você acabou de voltar de missão, devia estar descansando."

- "Meu descanso será quando você puder se aconchegar a mim sem medo. Por agora, terminamos. Venha, vou ter que costurar alguns cortes. Sinto muito por isso, vou anestesiar um pouco para não doer tanto. Como conseguiu se mexer? Você deve ter sentido muita dor. Porque queria esconder de mim?" Estendeu a toalha para que Val se enrolasse nela e suspirou, por que precisava tanto saber? E tinha que se distrair, controlar o desejo que sempre sentia por Valentine, não era hora daquilo.

Harpia pensava nas perguntas enquanto se enrolava na toalha, tinha que responder, tinham que conversar.

- "Doeu Rada, muito." Nem sabia como descreveria aquilo. – "Quanto a esconder de você, não posso explicar, sentia-me tão perdido, eu nem ao menos consegui impedir que Minos... Que ele..." Parou de falar, sentindo-se totalmente inútil e fraco.

- "Não foi sua culpa. Conheço um tanto do inferno para saber que se você não se livrar da idéia de que pode ter sido sua culpa, não vai conseguir superar. Não fique pensando nisso." Levou-o com cuidado para o quarto. Deu um longo suspiro ao pegar os apetrechos médicos. Agulha de sutura, linha, curativos. Sabia o quanto aquilo ia doer. Achou melhor exteriorizar sua preocupação. – "Vai doer amor, apenas pense em Angel, pense em nosso amor enquanto faço isso. Deite da maneira mais confortável e, quer que lhe ponha roupas íntimas? Talvez se sinta mais seguro." Sabia e não sabia como lidariam com tudo aquilo. Tinha ciência do desconforto que seu amado deveria estar sentindo.

Valentine deu um sorriso triste, era nisso que mais pensava, em Rada e em Angel. Nunca se imaginara naquela situação e nunca se vira tão fraco. Deitou-se de lado na cama, tentando achar uma posição em que nenhum ferimento fosse pressionado. Viu todo o material para os curativos e fechou os olhos por instantes. A dor não podia ser evitada, o jeito era enfrentar. Pediu que o marido lhe pusesse ao menos as roupas de baixo, iria se sentir melhor daquele jeito. Infelizmente não se sentia confortável sem roupas perto de Radamanthys. Tal pensamento o entristeceu. A intimidade deles era sempre tão bonita e agora...

- "Está bem, amor." Radamanthys foi até o armário dos dois e escolheu um roupa de seda, verde escura e o ajudou a colocar a peça de roupa. A alvura do corpo de Valentine contrastava tanto com o tecido escuro mas era tão bonito. – "Vou começar. Se doer muito, fale que lhe dou um tempo e... " Tocou-lhe a face com cuidado – "Eu te amo, sempre amarei." - Sabia que estava repetindo muito aquilo mas por mais que dissesse, tinha certeza que precisaria dizer mais. Precisava assegurar ao outro que nada mudara.

O ruivo sorriu internamente ao ouvir aquilo e murmurou um 'eu também' tímido. Sabia que doeria e muito, tinha que agüentar, era um espectro, afinal de contas.

Wyvern deu um longo suspiro, já havia limpado tudo. Abriu a embalagem da agulha cirúrgica, pegou a linha e começou a costurar, inserindo a agulha metálica e fria na pele tão bonita. Lágrimas começaram a descer uma vez mais. Doía-lhe tanto imaginar o que Minos fizera ao outro. Doía sentir a carne perfurada pela agulha, os fios que se iam trançando em pontos de sutura perfeitos. Fechou o primeiro corte profundo. Passou para outro. Droga, esse ia ser bem pior.

O chipriota arfava, mordia os lábios com força, sentindo cada perfuração da agulha. Esforçava-se para não tremer, não seria bom se isso acontecesse enquanto seu marido dava os pontos.

- "Amor, vai doer muito agora. Terei que dar pontos internos. Não sei como não morreu de hemorragia. Está tão fundo. Ah, por Hades, Valentine! Isso me dói tanto!" O inglês agora chorava sem esconder mais e tocou o ombro do outro com os lábios, devagarinho.

Valentine não se esquivou do contato, ouvira cada palavra e ouvia o choro sentido do poderoso Kyoto. Amor. Era puro amor. Levou uma das mãos para trás, deslizando-a brevemente pelo rosto do loiro.

- "Rada, faça o que achar necessário, eu agüento. Já passamos por coisas piores. Você está aqui. Então está tudo bem." Sim, ele suportaria bem mais que aquilo se a motivação fosse Angel ou Radamanthys. O amor que sentia por sua família era enorme e também iria provar a si mesmo que não era tão fraco. O ataque de Minos lhe causara danos bem grandes na segurança e na auto-estima.

- "Você é forte, Val. É muito forte. Eu o admiro." Suspirou, beijou-lhe a mão e controlou-se para poder continuar. Recomeçou a costurar, mais e mais. Parava às vezes, verificando se Val estava bem. Seguia com cuidado. Lembrou-se de um corte um tanto aberto que vira. Para seu desgosto, bem acima das partes íntimas de seu marido.

O ruivo permanecia controlado. Não soltava som algum e esperava. Como doía! Não deteve as lágrimas mas não disse palavra. Era forte? Era admirado? Somente o kyoto para fazê-lo se sentir tão especial no meio de uma coisa daquelas.

- "Terminei nas costas, amor. No entanto, tem um corte que preciso cuidar. Val, tenho que afastar sua roupa, não se constranja, por favor."

Val suspirara aliviado com a notícia de que havia terminado mas ficou um tanto receoso ao se lembrar de qual corte ele estava falando. Aquilo... Virou-se na cama, crispando as mãos, totalmente ciente de que aquilo ia doer ainda mais e seria tão... Humilhante. Crispou as mãos e evitou encarar seu marido, dando sua muda concordância para que tudo fosse adiante.

O loiro mordeu os lábios. A pele acima do membro de seu marido era tão clarinha e sensível. Adorava passear com a língua por ali, adorava acariciar com ternura, adorava lamber o corpo dele e agora... Estava costurando-o como se fosse roupa esfarrapada precisando de reparos. O pensamento o fez gemer de tristeza. Introduziu a agulha devagar, aquilo era difícil. Viu gotículas de sangue brotarem dos pequeninos furos da agulha mas não podia parar. Costurou o melhor que pode, fazendo uma linha fina e viu a cicatriz da cesariana de Valentine. Suspirou. Angel... Sentia falta dos risinhos do bebê.

Harpia trincou os dentes quando sentiu que ele começava a costurar. Fechou os olhos, pensando em outras coisas, em Angel. Sentia tanta saudade do filho mas, do jeito que estava, não poderia mesmo ter cuidado dele. Ao menos agora Radamanthys havia voltado.

- "Pronto, amor. Como está?" Wyvern terminou por fim e, num gesto de afeto, desceu os lábios e beijou o local que costurara, erguendo-se logo após. Seu cosmo poderoso auxiliava nos cuidados. Colocara um tanto de sua energia em cada pequeno ponto. Sabia que ia demorar um pouco.

- "Muito obrigado." O ruivo abriu os olhos, após ter estremecido de leve ao sentir os lábios dele sobre o corte - "Estou bem. Acho." Deu um sorriso, sim, tudo era melhor com seu marido em casa.

- "Que bom! Vou pegar outras roupas ou será que prefere ficar assim? Talvez seja melhor, nenhum tecido roçará em você."

Valentine concordou. Sim, sem roupas, mesmo que se sentisse constrangido com isso, realmente seria o melhor e, pelo menos, já não sentia tanto frio.

Radamanthys sorriu um pouco e suspirou, estava exausto. Jogou-se numa cadeira e fechou os olhos. O que poderia fazer para alegrar Valentine? Pensou em algo e ergueu-se, resoluto. – "Amor, venho logo. Não tenha medo. Nada vai acontecer. Nada." Pegou suas roupas e começou a se arrumar.

– "Como? Vai aonde?" Ficou imediatamente tenso. Não queria ficar sozinho. E achava que o marido devia estar bem cansado. Arregalou os olhos, preocupado.

- "Ei, não se preocupe, eu volto em minutos, prometo. Por favor, fique aqui e descanse. Giganto está lá embaixo e Myuu está também de guarda. Confia em mim?" Sentira o medo nos olhos verdes de seu amor.

- "Tudo bem. Volta logo, por favor." Valentine suspirou e disse por fim, num tom baixo, tinha de confiar nele.

- "Sim, meu eterno amor, eu não vou mesmo agüentar mais que minutos longe de você." Wyvern sorriu, tivera uma idéia, ia pegar Angel na casa de Syl e Lune que não era assim tão longe. Era em outro país mas seu cosmo estava fortíssimo, ele não o usara para voltar. Demoraria pouco. Partiu em segundos, com um pequeno sorriso, reuniria a família. Era disso que precisavam.

XXXXXXXXXXXXXXXXX

Ok. Dessa vez eu fiz um capítulo rapidinho. Eu e Akane trabalhamos muito nele e foi mudado várias vezes. A idéia seria transmitir o amor dos dois e ao mesmo tempo contar um pouco da natureza do amor deles. Daqueles que não arrefece nem se abala. São humanos, são guerreiros e se amam. Capítulo dedicado à Margarida. Aquela que está sempre por aqui, animando-nos para continuar. Obrigada querida. Até o próximo.