Capítulo 02 – Trabalho

Sabe aquele dia em que você pára e pensa: "Eu não deveria ter saído da cama."? Era assim que Hayden se encontrava naquela manhã chuvosa de segunda-feira. Havia tido um final de semana ótimo, mas voltar ao trabalho e encarar o chefe nunca é fácil.

Até porque, ele havia pedido transferência sem avisar. Não queria dar nenhuma explicação, porque iria se enrolar na desculpa e acumular mais problemas ainda. Enquanto estava no avião voando para Nova York, ficou imaginando a cara que Morris não deve ter feito ao receber a noticia.

A questão toda é que Hayden estava de volta e teria que enfrentar a fúria de dois anos do chefe. No momento em que se sentou na cadeira em frente à mesa de Morris, desejou pelo menos ser surdo por alguns minutos.

Toda aquela ladainha que o cinqüentão falava incomodava, causando um mau-humor que demoraria o dia inteiro para se diluir. E piorava a cada palavra que seu chefe dizia.

-Por que resolveu voltar? –Morris falava tão alto que veias saltavam nas têmporas. –Poderia ter ficado por lá!

-Sinceramente chefe, isso é problema meu. –ele disse calmamente, tentando se controlar. –Não está feliz com a minha volta?

-Olha lá como fala comigo! –seu rosto começava a ficar vermelho de raiva. –Ainda sou eu quem manda por aqui!

-Eu não quero brigar, ok? –Hayden levantou as mãos, em posição de defesa. –Será que você poderia me deixar trabalhar?

Morris ficou quieto, respirando com dificuldade. Era um homem de meia idade com uma barriga imensa e tinha problemas cardíacos. Passou a mão pela careca e procurou se acalmar, o médico disse que deveria evitar situações estressantes.

Encarou o jovem a sua frente, não queria ter falado daquele jeito. Mas é que estavam envolvidos em uma investigação minuciosa, sobre o possível envolvimento de Jude Law no esquema de drogas na cidade.

E justo agora Hayden volta para a corporação, deixando a equipe meio agitada. Afinal de contas, ele era um excelente detetive, com muita experiência do campo. O dilema todo consistia em deixar Erick Thompson à frente das investigações, como já estava, ou se o substituía.

-Faz o seguinte... –seu tom de voz estava mais baixo. –Assiste a reunião e depois veremos o que você pode fazer, tá?

-Obrigado chefe. –ele se levantou e saiu do gabinete.

Por mais que não quisesse admitir, sentia falta de todo aquele ambiente que a corporação tinha. Passou pelas várias mesas, entrou pelo corredor principal e procurou sua antiga sala.

Não existia mais seu nome colado no vidro, a sala havia virado uma espécie de depósito para papeladas antigas. O espaço estava completamente tomado por vários caixotes de casos-mortos.

Ele deu uma última olhada no ambiente antes de seguir para a reunião. Quando abriu a porta do salão, agradeceu mentalmente que esta ficava ao fundo. Enquanto procurava uma cadeira vazia para se sentar, naquela escuridão, algo lhe chamou a atenção.

O palestrante ficou quieto de repente e foi neste momento que Hayden olhou para frente pela primeira vez e ao constatar quem era, sentiu um enjôo no estômago.

-Olha só, se não é Hayden Christensen? –Erick falou lá da frente, onde explicava o caso. –O filho pródigo à casa sempre retorna...

Vários risos baixos e murmurinhos tomaram conta do salão. Erick limpou a garganta e continuou falando, como se nada tivesse acontecido. Ele era um verdadeiro babaca que não perdia a oportunidade de tirar uma com a cara de Hayden, mas se transformava completamente quando palestrava sobre um caso.

Explicava tudo minuciosamente, prendendo a atenção dos colegas de trabalho e focando nos pequenos que faziam toda a diferença durante a investigação. Mesmo não tendo nada para anotar qualquer informação, Hayden cravou os olhos no telão e aguçou seus ouvidos para conseguir captar a maior quantidade de coisas importantes.

Por mais que a policia de São Francisco fizesse uma limpeza na cidade, recolhendo toda a droga possível, era impressionante o modo como os traficantes conseguiam se reabastecer.

Eram muito grandes as chances de ter algum político envolvido no meio, pois assim poderia corromper os subordinados e evitar que as medidas necessárias fossem feitas. As atenções se voltaram para Jude Law e sua esposa por causa de uma foto tirada por paparazzi.

Nela, Rachel Weiz aparecia conversando com um homem desconhecido e entregando um pacote. Até então, ninguém havia notado esse detalhe. Todos ficaram mais preocupados com o fato dela estar sem maquiagem e parecer mais magra do que o comum.

Esse tal pacote que ela entregava, se assemelhava muito a um embrulho de cocaína. Isso fez com que alguns investigadores procurassem mais a fundo os históricos da mulher do secretário do governador.

Quando adolescente, foi internada duas vezes numa clinica de reabilitação, mas conseguiu se livrar do vicio. Mesmo assim, isso deixou a polícia desconfiada e não a descartou da lista de suspeitos.

Agora, eles iriam começar a procurar pelos traficantes de drogas, para assim tentar chegar ao cabeça de todo o esquema.

-As recomendações de cada grupo estão em suas pastas... –Erick disse, acendendo as luzes do salão. –Mãos à obra!

Aos poucos, os policias começaram a deixar o local, sobrando apenas o palestrante e Hayden. Este se levantou quando o outro se aproximou.

-Não pense que isto me agrade... –comentou com desdém, entregando uma pasta. –Você e mais dois homens a sua escolha vão ser responsáveis por monitorar Rachel.

-Ordens do chefe... –um sorriso sarcástico no rosto.

-Exato e isso me irrita profundamente. –Erick levantou uma das sobrancelhas. –Nem preciso dizer que é sigilo absoluto, não é senhor perfeição?

-Sempre bom recomendar, não custa nada... –Hayden pegou a pasta e saiu do salão.

(...)

Ewan amassou a ponta do cigarro no cinzeiro e atendeu ao celular que não parava de vibrar no bolso da calça jeans.

-Ei, loiraça! –Hayden disse animadamente no outro lado da linha.

-Não me chame assim. –ele pediu, sua voz séria. –Sabe que eu não gosto desse apelido.

-Deixa isso pra lá, o importante é que você vai trabalhar comigo!

-O que? –sentiu que iria engasgar.

-Não posso falar pelo celular... –uma pausa curta. –Vamos almoçar juntos?

-Te encontro daqui a quinze minutos no restaurante chinês. –respondeu antes de desligar.

Eve estava trabalhando no seu escritório e voltaria só mais tarde, depois de pegar as meninas na escola. Mesmo assim, resolveu deixar um bilhete para elas, dizendo que estava resolvendo assuntos de trabalho e que as amava muito.

Vestiu sua jaqueta de couro favorita, calçou as botas pretas, colocou o capacete e saiu montado na sua Kawazaki Ninja prateada. Tirando as artes, pilotar era uma de suas maiores paixões. Só decidiu que não seria profissional da área, porque Eve estava grávida de Clara e nunca as deixaria de lado. Fora que era apenas um hobby, fazia por pura diversão e perderia toda a graça se tivesse que vencer sempre.

Depois de quinze minutos, estacionou a moto num lugar apropriado e foi andando até o restaurante chinês. O engraçado desse lugar era que a cozinha era aberta e voltada para a rua.

Os fregueses sentavam em bancos altos, como aqueles dos bares, e faziam seu pedido, comendo no balcão. Extremamente informal e extremamente delicioso. Ninguém fazia um chop suey como o deles. Senhor Ming era um perito na cozinha e não falava uma palavra em inglês.

Não demorou muito e Hayden apareceu, veio andando da delegacia até ali, não ficava muito longe. Até porque, havia parado de chover e o tempo parecia querer melhorar.

-Já fez o pedido? –perguntou o mais novo.

-Claro, nosso chop suey especial de sempre. –fez um sinal para que o amigo sentasse ao seu lado. –Então, me explica direito...

-É o seguinte, Erick me deixou responsável pelo monitoramento de Rachel. –Hayden disse calmamente, enquanto se sentava. –Resolvi escolher você e o Matt para me ajudarem.

-Entendo... E o que você quer que eu faça, exatamente? –pegou os hashis no balcão.

-Opa, a comida chegou! –ele disse, pegando seu prato e os talheres.

Ewan olhou para o amigo e não conseguiu segurar o riso. Era muito engraçado ver uma pessoa comendo shop suey de garfo e faca. Sabia que Hayden não sabia usar os hashis e ficava todo atrapalhando quanto tentava.

-Pára de rir, porra! –ele reclamou, apesar de rir também. –Você sabe que não consigo!

-Eu sei... –o loiro ainda tinha um sorriso nos lábios. –Mas não deixa de ser engraçado!

-Você é um babaca, sabia? –Hayden socou o ombro do amigo.

-Ah que ótimo, agora caiu carne na calça! –disse, tentando se limpar com um gaurdanapo. –Vai parecer que fiz xixi...

O pedaço de carne havia caído exatamente em cima do zíper, sorte que a blusa tinha um comprimento maior e tamparia sem nenhum problema. Evitaram conversar muito sobre o caso, porque havia civis comuns ao redor e essas eram informações sigilosas.

Hayden ainda tinha que voltar para a delegacia para pegar mais informações, para então poderem ir atrás de Matt e inicias as investigações sobre Rachel. Aproveitaram o horário do almoço para falar besteiras, fazia tempo que não riam tanto.

Depois de comerem, Ewan deu carona para o amigo. O loiro ficou na recepção da delegacia, conversando com a plantonista, uma conhecia de colégio, enquanto Hayden ia buscar a pasta na sua sala.

Após alguns minutos de espera, ele voltou e então foram para o jornal local. O prédio ficava localizado no centro de São Francisco. Informaram ao atendente que falariam com um funcionário e subiram de elevador.

Quando a porta abriu, depararam-se com um espaço enorme, com várias pessoas andando de um lado para o outro. Algumas trabalhavam em suas divisórias, outras falavam no telefone. Perceberam que Matt estava conversando com uma mulher perto do bebedouro.

Assim que ele se virou para voltar a sua divisória, notou que havia dois homens parados perto da porta do elevador. Nunca tinha visto nenhum deles no jornal antes, provavelmente não trabalhavam lá.

Afinal, um era loiro, parecia ser estrangeiro, vestindo roupas de motoqueiro. Enquanto o outro era igual a um modelo e usava roupas sociais de alta costura. Ao olhar mais atentamente para seus rostos, viu que se tratava de antigos amigos de escola.

-Ewan! Hayden! –chamou, fazendo um sinal para se aproximarem.

Matt sentia saudade dos amigos, mas não tinha muito tempo para lazer. Desde que havia se tornado o redator-chefe da sessão policial do jornal, as coisas tomaram um rumo frenético.

-Que bom ver vocês por aqui... –ele comentou, abraçando dos dois.

-Então, atrapalhamos seu lance com a mulher? –Hayden perguntou, olhando para os lados, procurando-a.

-Na verdade não... –Matt de uma risada. –Ela é a supervisora da gráfica, veio me perguntar quando eu mandaria as matérias.

-Entendo... –Ewan colocou as mãos nos bolsos. –Então, podemos falar com você em particular?

-Claro, sobre o que se trata? –limpava os óculos de grau na barra da camisa social que vestia.

-Precisamos da sua ajuda numa investigação. –Hayden disse sério, as sobrancelhas franzidas.

O jornalista não acreditou no que ouviu, seu cérebro parecia digerir a informação lentamente. Pela primeira vez na vida, teria a oportunidade de finalmente colocar em prática tudo que sabia na teoria.

Depois de trabalhar durante muito tempo na sessão policial, conhecia muito bem como as investigações eram feitas, dependendo do caso, tinha acesso aos arquivos, para complementar suas reportagens.

Sem nem saber o que era, Matt Damon concordou, acenando positivamente com a cabeça e dizendo:

-Estou dentro do caso. –colocou novamente os óculos. –O que eu preciso fazer?