Just Kiss Me
Parte II
Encontro ao pôr-do-sol
Haruka soltou a caneta sobre a mesa, espreguiçando-se satisfeita por ter terminado o trabalho. Finalmente poderia relaxar um pouco antes de mergulhar no próximo projeto.
Sorriu consigo mesma, girando a cadeira para que pudesse fitar a janela às suas costas e deixou-se relaxar por alguns minutos. O sol começara a se pôr, tingindo o céu daquele adorável tom alaranjado, os poucos raios que ainda restavam eram encobertos por nuvens escassas, em vários tons que combinavam com o céu daquele final de tarde.
– Desejando que chova? – A voz de Jakotsu soou da porta, sobressaltando-a. O rapaz sorriu quando ela virou a cadeira, fuzilando-o com o olhar. – Não encontrou seu bonitão novamente desde aquele dia, estou errado?
– Não é meu bonitão. – Haruka girou os olhos, juntando as folhas sobre a mesa. – Pare de falar desse modo.
– Sabe, Akai, ninguém vai recriminá-la por ter uma vida fora da empresa. – Jakotsu aproximou-se da mesa, tirando a pasta das mãos da garota. – Não precisa trabalhar vinte e quatro horas por dia.
– Não trabalho vinte e quatro horas por dia. – A garota franziu o cenho. – Paro para comer, dormir, tomar banho…
Jakotsu girou os olhos suspirando.
– Você realmente me decepciona às vezes. – Afastou a pasta quando a garota tentou pegá-la de volta. – Saia um pouco para se divertir.
– Tenho que entregar isso. – Akai lançou um olhar significativo para a pasta. – Pare de me atrapalhar.
– Faço isso por você. – Jakotsu sorriu, pegando a bolsa e atirando-a na direção da garota. – Agora saia.
– Jakotsu, eu—
– Saia.
– Falta meia hora para o fim do expediente.
– Ninguém vai notar. Saia.
– Pare de me expulsar de minha própria sala ou vou acertar sua cabeça com a coisa mais pesada que encontrar!
– Tão violenta… – Jakotsu sorriu, depositando um beijo rápido no rosto da garota, e girando-a na direção da porta quando ela paralisou com a surpresa. – Eu entrego o projeto, você compra o jantar.
– Não lembro de tê-lo convidado para jantar.
– Pagamento por ajudá-la – Jakotsu sorriu, balançando a pasta e empurrou-a para fora da sala. – Até mais tarde.
– Eu não—
– O restaurante italiano no final da rua. – O rapaz continuou sorrindo ao se afastar. – Escolha uma mesa perto do caixa se aquele bonitão estiver lá.
– Ele não me segue por aí! – Haruka piscou, sentindo o rosto corar quando o rapaz virou para encará-la com uma expressão curiosa e divertida. – Você estava falando do caixa do restaurante… entendi.
– Você pensou que—
– Não demore! – Haruka falou rapidamente, correndo para o elevador.
A garota murmurou alguma coisa para o grupo que a cumprimentou dentro do elevador, encolhendo-se no canto da caixa metálica. Baixou a cabeça, fechando os olhos. 'Era tudo o que faltava… depois de falar tanto que não estava pensando nele…' Apertou a bolsa contra o peito, sentindo o guarda-chuva que carregava ali desde o dia que se encontraram. 'Se ao menos eu devolvesse… aposto como o esqueceria se não tivesse esta estúpida coisa para me lembrar o tempo todo.'
Caminhou para fora do prédio sem notar as pessoas que passavam por ela, acenou para o porteiro e passou pela porta de vidro, sentindo a brisa morna atingi-la, fazendo-a se arrepender de ter escolhido aquela camisa pela manhã.
'Talvez Jakotsu tenha razão…' Pensou, virando a esquerda e caminhando na direção do restaurante. 'Eu deveria pensar em outras coisas além de trabalho.'
Suspirou, ao chegar ao restaurante e notar que só havia mesas livre no exterior. Sentou-se, decidida a esperar pelo amigo ali, e depois talvez arrumar outro lugar. Depositou a bolsa sobre a cadeira a sua direita, depois de pedir ao garçom que lhe trouxesse um refrigerante gelado.
'Patético.' Pensou, abrindo dois botões da camisa, e arrumando o tecido para que nada ficasse a mostra. 'As poucas vezes que não estou trabalhando… é porque estou em um encontro… com meu amigo gay.'
Forçou um sorriso para o garçom quando ele depositou o copo à sua frente. Apoiou o braço direito sobre a mesa, tomando um gole do liquido gelado. 'Em momentos como esse eu realmente invejo Ryo e sua vida vazia e agitada…'
– Você parece patética.
Haruka estreitou os olhos, soltando o canudo, e virando-se para o dono da voz.
– Está atrasado. – Piscou quando tudo o que pôde ver foi o tecido escuro do terno. Inclinou a cabeça, pela primeira vez notando que a voz que acabara de ouvir, apesar de conhecida, era bem diferente da de Jakotsu.
– Olá novamente, Akai. – O rapaz de cabelos prateados deu um pequeno sorriso ao perceber a expressão confusa da garota. – Sua vez de esperar?
– Como?
– Da última vez deixou seu amigo esperando, não deixou? – O rapaz sentou-se à mesa, de frente para a garota.
– Sim… – Haruka piscou. – Eu não disse que você podia sentar.
– Eu sei.
'Idiota pretensioso.' Pensou, desviando os olhos para a rua e tomando mais um gole de refrigerante.
– Devo presumir que trabalha por aqui? – O rapaz perguntou, fazendo sinal para o garçom.
– Posso morar aqui perto. – Haruka respondeu, tentando se manter calma e ignorar o modo como o rapaz parecia analisá-la.
– Não creio que sairia de casa vestida desse modo se morasse por perto.
'O que diabo isso quer dizer?' Haruka baixou a cabeça, tomando o refrigerante em grandes goles para engolir a pergunta.
– Você perdeu um botão.
– Não, eu… – Haruka parou ao baixar os olhos para a própria camisa e perceber que realmente um botão de sua camisa havia se perdido, o que fizera o decote aumentar significativamente. Pulou, tentando inutilmente fechar o tecido quando sentiu um lenço ser jogado em seu peito.
– Ninguém notou.
– 'Ninguém notou.' – Haruka repetiu, imitando o modo do rapaz falar. Franziu o cenho, usando o lenço para tampar o que o decote exagerado revelava. Voltar a fechar os botões que havia aberto não bastaria. – Idiota…
– Você sempre fala sozinha?
– Você é sempre tão grosseiro?
– Acho que mereci isso. – O rapaz riu, erguendo as mãos. – Que tal uma trégua?
– Era uma batalha? – Ela suspirou, encostando-se na cadeira. – Eu poderia me sair bem melhor se soubesse… – Piscou quando ele lhe estendeu a mão. – Quer o seu lenço de volta? – Colocou as duas mãos sobre o peito, protetoramente. – Agora?
– Não nos apresentamos no outro dia.
– Oh! – Haruka corou, estendendo a mão até tocar a dele. – Akai Haruka.
– Akuma…
– Sesshoumaru. – A garota piscou, desviando os olhos quando o viu arquear uma sobrancelha. – Está gravado em seu guarda-chuva. – Soltou a mão dele, pegando a bolsa sobre a cadeira. – Você o deixou comigo, eu pensei em devolver, mas…
– Entendo.
– Obrigada. – Ela falou rapidamente, finalmente retirando o guarda-chuva da bolsa e estendendo para o rapaz.
– Você… ficou carregando isso todo esse tempo?
– Pouco mais de uma semana.
– Mesmo assim… – Ele deixou o guarda-chuva sobre a mesa e lançou um olhar curioso para a garota. – Não ficou me seguindo por aí, ficou?
– O quê?
– Terrível. Não está pensando em me assaltar está?
– O quê? – Haruka apertou a bolsa com força, pensando se conseguiria atingi-lo com força o suficiente. – Não estou seguindo ninguém!
– Claro, isso é o que você diz.
– Você é um completo maluco! – Levantou-se em um pulo, quase derrubando a cadeira no processo. – Ficarei feliz se nunca mais encontrá-lo!
Sesshoumaru deu um pequeno sorriso, observando a garota se afastar pisando duro. Estava surpreso por ela não tê-lo atingido com aquela bolsa estupidamente grande que carregava.
– Senhor?
O rapaz virou-se para o garçom, os olhos brilhando com irritação por ter sido interrompido.
– Sinto muito, senhor, mas aquela garota não pagou a conta, e… – O rapaz piscou quando a expressão irritada no rosto de Sesshoumaru desapareceu, lentamente dando lugar a uma divertida. – Pensei que estavam juntos, e—
– Traga-me a conta.
oOoOoOo
– Akaiiiii – Jakotsu chamou mais alto, correndo atrás da amiga. – Akaiiiii—
– Pare. Com. Isso. – A garota respondeu pausadamente, entre dentes, virando-se para fuzilar o amigo com os olhos.
– Você não respondeu. – Jakotsu suspirou dramaticamente. – Passou por mim como um furacão e continuou correndo sem me ouvir chamar.
– Eu ouvi, apenas escolhi não responder!
– O que aconteceu?
– Nada! – Haruka suspirou quando percebeu que o lenço saíra do lugar e a blusa voltara a se abrir. – Inferno!
– Alguém atacou você? – Jakotsu piscou surpreso.
– Não. – A garota respirou fundo antes de fitar o amigo. – Um dos botões caiu.
– Use isto. – Jakotsu forçou-a a baixar as mãos e colocou a echarpe que estivera ao redor de seu pescoço nos ombros da garota. – Compre roupas novas, por favor.
– Você está me enforcando com isso! – Haruka deu um tapa na mão do rapaz, empurrando a bolsa para ele enquanto arrumava a echarpe de forma a cobrir a frente de sua camisa. – E pare de falar de minhas roupas!
– Vai me contar o que aconteceu?
– Nada. – Haruka suspirou, dando-se por satisfeita com o echarpe e pegou a bolsa de volta. – Encontrei alguém desagradável.
– O que eu fiz?
A garota piscou, fitando o amigo, confusa por alguns segundos antes de começar a rir.
– Akai?
– Não foi você. – Haruka sorriu, ajeitando a alça no ombro. – O dono do guarda-chuva.
– Não acredito! E por que está fugindo? – Jakotsu agarrou o braço da amiga, puxando-a na direção que contrária. – Volte lá imediatamente!
– Jakotsu…
– Não acredito, passa dias olhando para o céu, suspirando porque não está chovendo e quando finalmente o encontra—
– Pare! – Ela quase gritou, firmando os pés no chão. – Não vou voltar!
– Do que está falando?
– Ele não passa de um idiota… – Soltou o braço das mãos do rapaz. – Como todos os outros homens que conheço.
– Não esqueceu que sou homem, esqueceu? – Jakotsu a fitou com uma expressão magoada. – Acha que sou um idiota também?
– Sim! – Haruka respondeu séria, enquanto ajeitava a camisa no lugar.
– O quê?? Você não devia concordar!
A garota começou a rir, abraçando o amigo.
– Você é meu idiota. – Sorriu, depositando um beijo rápido em seu rosto. – Pode ser tão insuportável quanto quiser.
– Verdade??
– Oh, céus! O que eu fiz?
– O que mais posso fazer por ser 'seu idiota'?
– Ficar calado! – Ela se afastou, dando meia volta. – E parar de gritar 'Akaiiii' a cada cinco minutos.
– Não parece divertido. – Jakotsu resmungou, seguindo a garota. – Ei, não vamos jantar?
– Se você não notou minha blusa está se abrindo mais a cada minuto, vou para casa.
– Estou com fome.
– Vá para sua casa e coma.
– É chato comer sozinho. – Jakotsu apertou o passo, alcançando-a. – Posso ir para sua casa e pedir uma pizza?
– Vai pagar por ela?
– Eu paguei da última vez.
– Sua memória nunca falha para detalhes como esse, não é?
– Na verdade, ela nunca falha!
– Idiota. – Haruka resmungou, deixando que ele passasse o braço pelo seu e caminhasse a seu lado. – Não tem um grande encontro hoje?
– Não.
– Por quê?
– Desmarquei para jantar com você. – Jakotsu falou distraído. – Você deveria comprar aquele vestido, ia ficar lindo em você.
Haruka concordou com um aceno, mal notando a peça que ele apontara na vitrine a seu lado. Apenas continuou a fitá-lo em silêncio.
– O que foi? Tem algo no meu rosto?
– Por que fez isso?
– Mostrar o vestido? – Jakotsu deu de ombros. – Você precisa de roupas novas, e tem que aproveitar esse corpo fantástico para atrair caras bonitos… – Suspirou. – Os deuses sabem que precisa de toda distração possível para manter o cara a seu lado quando começar a resmungar por cada detalhe.
Haruka franziu o cenho, acertando um tapa no braço do amigo.
– Você é extremamente desagradável!
– Calma, Akai. – Jakotsu segurou a bolsa quando ela o atingiu – O que carrega aí dentro? Um tijolo?
– Cale a boca e me deixe em paz. – A garota puxou a bolsa, começando a caminhar – Apresse-se ou vai ficar sem jantar.
– Akaiiii, espera! – Jakotsu correu, abraçando a garota por trás, o que provocou uma série de xingamentos antes que ela começasse a rir por não conseguir se livrar.
– Pare, seu idiota! – Haruka continou rindo. – Juro que se a polícia nos parar novamente, não vou explicar que é só um amigo que bebeu demais.
– Pare de tentar fugir.
– Vou deixá-lo ser preso por atacar pobres moças indefesas!
– Indefesa… – Jakotsu a abraçou mais forte, rindo. – Com a bolsa-tijolo em mãos?
– Não tem um tijolo na minha bolsa! – Akai suspirou. – Solte-me e vamos para casa. Estou com fome.
oOoOoOo
Sesshoumaru acelerou o carro, passando pelo casal ao vê-los rir. Não entendeu a razão por aquela simples cena irritá-lo a ponto de quase descer do carro e atingir o rapaz que abraçava a garota.
Balançou a cabeça, afastando tais pensamentos e pisou mais forte no acelerador. 'Tolice. Tenho coisas mais importantes para me preocupar.' Virou a direita, tentando afastar do pensamento, o rosto feminino corando a cada provocação que fizera.
Parou no farol, lançando um rápido olhar para o guarda-chuva pousando a seu lado.
– Odeio dias de chuva.
Continua...
