II

James perdera a noção do tempo em que esteve sentado no meio-fio da calçada da delegacia. Ele só pôde perceber a chuva o ensopar gradativamente, fazendo seu corpo congelar e seus dentes baterem de frio. Talvez fosse melhor assim, talvez o desconforto físico o distraísse – pelo menos um pouco – da sua confusão mental.

Ele ainda não havia processado direito aquela situação. Cerca de cinco horas antes, ele fora expulso de um pub, brigara com um policial e fora preso por desacato. E agora, cinco horas depois, ele era um cara solto, no meio de uma chuva torrencial, e sem uma namorada. Namorada essa, que ele era totalmente apaixonado.

James definitivamente não estava em um de seus momentos mais racionais, mas ele sabia que tinha uma lógica em toda aquela situação. Ele já havia sido alertado que mais cedo ou mais tarde, sua garota iria cansar de estar ao lado de um cara inconstante como ele. Ele só não estava esperando que essa hora fosse realmente chegar.

O que mais o doía, fora o fato que as palavras que Lily despejou pra cima dele, eram absolutamente verídicas. Ele era mesmo um encrenqueiro, era mesmo uma pessoa de temperamento explosivo e realmente tinha se metido em mais brigas que poderia sequer lembrar. Ele só não imaginava que aquilo fosse irritar Lily a um ponto em que ela fosse jogar tudo pro ar e desistir. Ele deveria pelo menos se colocar no lugar dela, e imaginar como ela poderia estar se sentindo sendo submetida à esse tipo de situação, mas ele não o fez. Talvez ele verdadeiramente fosse um garotinho fingindo que já crescera.

Mas, por Deus, ele a amava tanto. Ele queria tanto consertar as coisas, ele queria tanto que tudo voltasse a ser como era antes. Entretanto, ele sabia que Lil era uma garota diferente. Ela dificilmente voltava atrás nas coisas que fazia ou dizia, e se ela havia desistido de um relacionamento, era porque definitivamente chegara a um patamar insustentável.

James sentia como se tivesse levado um soco forte na boca do estômago ao se deparar com os fatos. Ele sentia dor, uma náusea insuportável e uma ligeira falta de ar. E ele nunca poderia imaginar que um choque de realidade fosse doer tanto como estava doendo agora.

- Ei filho, o que você ainda está fazendo aqui? – o Delegado perguntou encostando-se no batente da porta da delegacia enquanto observava a silhueta do garoto ensopado a alguns metros a sua frente.

- Não estou fazendo nada – James murmurou com a voz trêmula.

- Não sei o que houve, mas por pior que sejam as coisas, não adianta ficar tomando chuva no meio da rua – Falstaff murmurou – Vá pra casa.

- Me deixe quieto aqui – James pediu suspirando.

- Ouça garoto – o delegado proferiu – O que você está sentindo, vai te acompanhar pra onde quer que você for. No meio de uma chuva torrencial, no carro, ou na sua casa. Pra estar parado no meio de uma tempestade você deve estar com problemas demais, e certamente não precisa adquirir mais um. Você pode ficar doente aqui fora. Estou falando sério, vá pra casa.

- Vai me acompanhar pra onde eu for, não é? – James perguntou retoricamente enquanto se levantava – Eu já imaginava.


- James, meu Deus, você quase me mata de preocupação!

Essas foram as palavras que James ouviu assim que abriu a porta do apartamento que partilhava com seus amigos.

Marlene – ou Lene, como ela preferia – estava sentada no sofá a espera dele tendo como companhia uma caneca grande de café fumegante.

- Eu estou bem, Lene. Pode me soltar agora – James pediu calmamente enquanto tentava se desvencilhar do abraço esmagador de sua melhor amiga.

- Está bem? Como está bem? – ela perguntou histérica – Você não atendia esse maldito celular, o dia já estava clareando e nada de você aparecer... E quando chega, aparece completamente ensopado. O que aconteceu James? Quer me matar? Eu só pensei o pior com o seu sumiço – ela tagarelou desesperadamente - Desse jeito não dá, você vai me causar um infarto qualquer dia, eu estou falando sério James Potter.

- Quer um resumo? Pois bem: Fui preso, Lily pagou a fiança e terminou comigo. Posso dormir agora? Minha cabeça está estourando – Ele murmurou massageando as têmporas.

- O QUE? FOI PRESO? FIANÇA? QUE HISTÓRIA É ESSA? – Lene gritou desesperada – Você não vai dormir enquanto não me explicar tudo.

- Fala baixo, desse jeito vai acabar acordando o Sirius – James pediu se sentando no sofá – O que você quer que eu te explique?

- Ele não está em casa – ela despejou prontamente – Estou liberada pra gritar no seu ouvido o quanto quiser. Por Deus, James. Cada dia é uma novidade. O que você aprontou dessa vez? – ela murmurou enquanto se dirigia rapidamente ao banheiro em busca de uma toalha.

- Onde o Six foi? – o garoto perguntou tirando a blusa encharcada.

- Ele foi a uma festa e avisou que de lá iria direto pro trabalho – Lene informou voltando à sala e jogando uma toalha em direção a James – E não mude assunto. A pauta aqui é você.

- Ouça, Lene – ele balbuciou cansado – Meu dia foi horrível, eu não quero ficar remoendo essa história.

- Jay... Ser preso é coisa séria, você precisa adquirir um pouco mais de responsabilidade. – Lene proferiu sentando no braço do sofá onde ele estava – Não estamos mais na adolescência, não temos mais nossos pais pra responder pelos nossos atos. Meça bem o que você faz...

- Eu sei, eu sei – James suspirou – Lily já me disse o suficiente por hoje.

- Ela terminou contigo pra valer? – a melhor amiga perguntou preocupada.

- E Lily faz alguma coisa sem ser pra valer? – James questionou enquanto se levantava do sofá e se arrastava até o seu quarto.