DISCLAIMER: Game of Thrones e as Crônicas de Gelo e Fogo não me pertencem.


Catelyn I

Catelyn se perguntava de tempos em tempos se um dia pararia de se incomodar com Winterfell.

Havia um eterno movimento pendular dentro dela. Intermitente, é verdade, mas que inegavelmente traçava o movimento repetitivo de vai-e-vem: na maior parte do tempo, era Senhora de Winterfell, esposa de Ned Stark, mãe de seus filhos com uma assertividade reta e implacável; no entanto, havia aqueles momentos em que ela se sentia tal como chegara ao Norte, desconexa e sem nenhuma certeza.

Geralmente, essas sensações de estar fora do esquadro aconteciam quando caminhava para dentro do Bosque Sagrado, com sua imensidão ancestral e profunda ou se pegava olhando os campos na sua extensão ampla, remota e cinzenta. Mas, certas vezes, elas vinham quando olhava para a bastarda do marido.

Lyarra Snow não tinha culpa nenhuma na infidelidade de Ned, ela repetia para si mesma com frequência. Uma criança sem mãe, vinda de Dorne ou de onde só os deuses saberiam. Contudo, olhar para aqueles olhos cinzentos parecia conseguir obliterar todos os anos que passara com o marido, o valor dos filhos que gerara. Ela era a prova viva, residente, do quão Eddard Stark podia colocar sua honra em uma perspectiva relativa.

Se ao menos ela não estivesse ali, crescendo junto com os filhos dela, tão mais nortenha do que todos eles – talvez Ayra como única exceção, mas esse era um caso especial pelo péssimo exemplo que a bastarda dava à mais nova, sempre metida nos estábulos e montando como se estivesse treinando para ser um cavaleiro.

Sem falar no sucesso de Lyarra com os homens daquela família. Ned claramente dispendia favoritismo à filha mais velha – ou, ao menos, dava mais atenção do que com a filha Sansa – e os meninos. Todos enfeitiçados, fazendo-a pensar até que ponto o charme todo de Lyarra não fora herança de uma mulher a qual seu marido nunca relevara uma palavra sobre. Bran e Rickon a adoravam e Robb... Robb praticamente beijava o chão em que a bastarda passava.

As entranhas de Catelyn sempre se retorciam ao pensar nisso. Eles era próximos, próximos demais.

Quando pequenos, não parecia importar tanto. Claro, Cat nunca aprovara totalmente como seu filho se relacionava com a irmã bastarda, mas até Theon chegar não havia mais ninguém em uma idade próxima, e ela não tinha o coração de negar a uma criança companhia para brincar. Ela repreendida duramente a menina, no entanto, pensando que não era porque não conseguia adotá-la que Lyarra devia trazer embaraço a Ned, mas mesmo assim...proibir que se vissem, nunca proibira .

O resultado viera morder-lhe o rosto com uma força vingativa.

Senão em lições ou tarefas, estavam juntos, tecendo comentários murmurados, enterrados em algum pedaço da fortaleza, rindo e se tocando com uma energia que poderia ser perdoada em crianças, mas que para uma garota e um garoto de dezessete anos era absolutamente indecente.

Ned não pensava muito sobre aquele comportamento, sem dúvida transferindo para os filhos a relação que ele próprio tivera com os irmãos, principalmente Lyanna, que os deuses a guardasse na sua paz. Ele não acreditava que, por vezes e sem razão, pecado e perfídia infestavam o coração dos Homens, os jovens uma presa fácil. Mas ela via com crescente sensação de mau agouro toda vez que Robb tomava a mão de Lyarra na sua ou a bastarda discretamente beijava a bochecha do irmão.

Ela tentara separá-los, pressionando o marido para arranjar um casamento para Lyarra ou então despachá-la para a Fé, torná-la uma Septã. Ned a negava todas as vezes, afirmando que para a primeira possibilidade a filha ainda era demasiado nova e para o segunda, que a bastarda pertencia ao Deuses Antigos e não fora ungida com os óleos dos Sete, como Cat insistira em fazer com os filhos. Ele não insultaria aos deuses, novos ou antigos, usando credo e religião como desculpa para afastar Lya de Winterfell.

Cat remoía as discussões sobre o tema. Nada de bom poderia sair da permanência de Lyarra Snow.


Ela olhou para a missiva aberta em suas mãos, o selo real ainda se agarrando ao pedaço de pergaminho. De alguma forma, ela também sentia que nada poderia vir de bom da vinda do Rei ao Norte.