Dois – Maternidade

Primeiro ela tentou ignorar. Mas os lamentos e soluços de Cissy – tola Cissy, irritante Cissy – ecoavam pelos corredores, reverberavam pelos aposentos e pareciam aterrissar bem ali, no quarto de Bellatrix, com força total. Era impossível dormir, impossível se distrair, impossível fingir que não estava acontecendo.

Assim, a garota jogou os pesados cobertores para longe de si com uma força que só podia vir da raiva e pulou para fora da cama. No corredor, o chão de mármore frio parecia congelar seus pés, e um vento frio atravessava sua fina camisola, fazendo-a sentir-se nua. Os quadros nas paredes faziam comentários e torciam seus narizes para a menina, mas ela não deu atenção à desaprovação da casa. Que eles se explodissem se achassem que ela não devia perambular por ali à noite!

Bellatrix sacudiu a cabeça, percebendo que estava mais uma vez distraindo-se e se perdendo em devaneios. Andava fazendo isso com uma freqüência assustadora, que não passava mais despercebida pelas pessoas ao seu redor. De qualquer forma, era melhor não perder o foco. Havia uma razão pela qual ela estava no corredor frio, escuro e hostil, e não em sua cama quente e confortável.

Por fim alcançou a porta do quarto da irmã mais nova, que empurrou com brutalidade e estardalhaço. Sorriu ao ver que sua idéia funcionara perfeitamente – Narcissa pulara na cama, assustada, e parara imediatamente de chorar, encarando-a com olhos arregalados. Logo, no entanto, a menina mais nova se recuperou do susto e preparou-se para recomeçar.

- Ah, cale a boca, Cissy, ou vou fazer com que você tenha mais motivos para chorar. O que houve?

- Eu tive...Eu tive um pesadelo, Bella. – a voz era hesitante, medrosa, e fez Bellatrix estreitar seus olhos, perigosamente irritada.

- Só isso? Você estava quase botando a casa abaixo por causa de um pesadelo idiota?

- Era horrível, Bella. Estava escuro, e...

- Eu não quero saber do seu pesadelo idiota. Fique quieta e volte a dormir. É o que eu vou fazer também.

- Bella, não me deixe sozinha...

- Bella, não me deixe sozinha – Bellatrix imitou, numa vozinha de bebê maldosa e debochada – Por Merlim, você devia ter vergonha! Você é uma Black! Os Black não ficam chorando e se lamuriando por causa de pesadelos.

- Por favor, Bella...Fique comigo. Não me deixe sozinha. Está tão escuro e frio...Onde está a mamãe?

- Provavelmente dormindo. O quarto do papai e da mamãe fica na Ala Oeste. É longe, eles não devem ter te ouvido.

- Por favor, Bella, fique comigo...

A irmã mais velha cerrou os punhos, resistindo à vontade de bater na menina ou de simplesmente abandoná-la. Narcissa ainda era, afinal de contas, muito pequena. Talvez ainda precisasse ser guiada, instruída, ajudada a descobrir a força que tinha dentro de si. Talvez ela precisasse realmente de um modelo, não alguém como sua mãe, que se fazia de forte e no fundo era tola e fraca, mas alguém como Bellatrix. Determinada, corajosa, realmente forte. Uma verdadeira Black.

Assim, a menina de cabelos negros deu um pesado suspiro e pulou na grande cama, que parecia engolir a forma pequena e trêmula da irmã.

- Está bem, Cissy. Mas só dessa vez.

- Obrigada. Você canta para mim, Bella?

- Você é idiota ou o quê? Eu não vou cantar. Eu não sei cantar.

- Por favor, Bella. Eu gosto da sua voz. Você não se lembra de nenhuma das músicas que mamãe cantava para nós às vezes, quando éramos muito pequenas?

A humildade e a docilidade nos olhos aquosos de Narcissa comoveram levemente Bellatrix, que por fim deu uma risadinha e falou, debochada:

- Você ainda é muito pequena, Cissy. E eu não me lembro das músicas direito. Foi há muito tempo.

- Não precisa cantar certo.

Sentindo-se um tanto tola, Bellatrix começou a entoar muito baixinho uma canção de ninar. Não era, no entanto, uma das músicas que a mãe cantava, e sim a melodia que ouvira naquela caixinha de música quando fora visitar o pequeno Sirius. De alguma forma, ela parecia se lembrar vagamente da letra que acompanhava aquela melodia, e foi aquela letra que seguiu, mesmo tendo que inventar ou pular alguns pedaços.

Por mais diferentes que Narcissa e Bellatrix fossem, naquela noite a irmã mais velha descobriu algo que elas tinham em comum. A música pareceu finalmente acalmar e entorpecer Cissy que, satisfeita, aconchegou-se nos cobertores e fechou os olhos, agarrando automaticamente a mão maior e mais forte de Bellatrix. Ela, no entanto, não conseguiu dormir. Mesmo depois de parar de cantar, passou a noite com os olhos bem abertos, brilhando insones na escuridão do quarto. Aquilo – dormir amontoada com uma irmã, sem direito ao seu espaço pessoal, parecia-lhe errado, o tipo de coisa que sangues-ruins pobres, impuros e miseráveis fariam. Além disso, era opressor ficar deitada entre lençóis e cobertores pesados, com um corpo fortemente preso ao seu, ávido por consolo e proteção. Bellatrix decidira ajudar e guiar a irmã, mas não esperara aquilo. Aquela dependência, aquele peso morto em seus braços. Aquilo era desagradável, era assustador, era limitador. Uma prisão. Ela não queria ter a vida e o futuro de Narcissa em suas mãos. Não era sua mãe. Não queria ser sua mãe, nem mãe de ninguém.

Irritada e impaciente, Bellatrix afastou de si a irmã mais nova. Encarou por alguns instantes sua pele pálida e seus cabelos platinados, que pareciam brilhar na escuridão. Pensou em como ela era parecida com Druella, e isso lhe deu forças para, finalmente, livrar-se da mão gorducha, pequena e carente que agarrava a sua avidamente. Pulou então da cama, sentindo agora com prazer o chão gelado e o vento frio que vinha dos corredores e entrava pelas frestas da porta. O corpinho de Cissy virou-se na escuridão, e a menina perguntou, com a voz mais uma vez assustada e chorosa:

- Bella? Bella, por que você está indo? Não me deixe sozinha!

- Quieta, Cissy. Você é uma Black. Precisa aprender a ficar sozinha.

Antes que a irmã mais nova pudesse protestar, Bellatrix saiu do quarto, sorrindo no corredor. Frio, sombras e solidão. Ela descobriu que preferia assim.