Cena II:
Aos desconhecidos que conhecemos a cada dia.
Um senhor, poucos anos mais velho que eu, sentou-se ao meu lado. Estava ensopado. Sim, a chuva ainda persistia. E somente naquele momento me dei conta disso.
O barman serviu uma xícara de café ao sujeito. Ele era negro, olhos cor de mel, careca, alto e robusto. Retirou um jornal do bolso e o abriu. Estava molhado mas dava para ser lido.
–Com tantas notícias interessantes é surpreendente que eles escolham uma matéria sobre estética para a capa – ele comentou alto após bebericar o café e Jeremy concordou em um aceno.
Ajeitei meus óculos e me curvei sobre o balcão para ver a que notícia ele se referia. Ah, sim. Havia lido a tal matéria. Certamente inútil. Talvez não para uma mulher. Mas comparar o assalto a um senhor de idade na periferia da cidade a dicas sobre como se manter sempre jovem era burrice. Surreal.
Vi que o homem virara a página à procura de algo interessante.
–Incrível! – exclamou o senhor – Já a notícia sobre uma passeata de estudantes franceses que entrou em choque com a polícia eles colocaram em um canto de uma das páginas do jornal – olhei o quadrinho no qual cabia a notícia por cima do ombro dele.
–Por isso eu prefiro o Pensamento inglês – anunciei – Apesar de tudo ainda têm certa credibilidade. Seu maior problema é ser pouco conhecido.
–Pois eu não confio mas em nenhum jornalista! – bradou, enquanto eu terminava meu drinque – São todos da mesma laia!
–Nem todos – interrompi – Tem a que escrevia colunas no Colossal. Aquele era um bom jornal. Eu gostava de lê-lo. E ela sempre abordava um assunto diferente.
–Ah, sim! – afirmou com a xícara a mão – Hermione Granger.
–Ela mesma – concordei, vendo-o tomar o café.
–Mas ela se demitiu do jornal. Você não soube? – indagou pousando a xícara na mesa – Disse que o Colossal havia debandado para caminhos que ela não poderia seguir. Exatamente com essas palavras. Ela as domina muito bem – elogiou.
–Eu não sabia que havia se demitido – comentei confuso.
Isso era verdade. O fato de desconhecer o nome dela, não.
–Pois foi – prosseguiu, terminando o café – Faz uns dias. O problema é que nos tempos de hoje contamos a dedo os jornais e revistas que merecem credibilidade – disse e pôs a xícara novamente sobre a mesa.
Pegou a carteira no bolso e tirou de dentro uma nota de cinco euros. Enrolou o jornal e o guardou dentro de um bolso do casaco. O barman lhe deu o troco e ele aceitou jogando as moedas de volta para a carteira.
–A chuva está mais fraca. Já vou indo – sorriu para mim e para Jeremy – Foi bom conversar com você, senhor...
–Potter – disse erguendo a minha mão – Harry Potter.
Ouviu-se um estampido. Como se algo se partisse ao tocar o chão. Cogitei virar a cabeça para olhar mas o senhor se dirigiu a mim:
–Noah Morisson – e apertou-me a mão – Prazer.
–Igualmente – e o vi sair, sumindo ao se virar para a direita, ainda debaixo de uma chuva fraca.
Dirigi minha atenção para a mesa onde alguém havia derrubado algo. Não pude ver quem era. Malmente via um braço que julguei ser feminino. Um garçom grandalhão parara na frente da mulher. Ela certamente pedia desculpas pois movia muito uma das mãos e eu consegui escutar algo como um "perdoe-me" e "eu pagarei".
Voltei minha atenção para o bar e pedi outro drinque. Olhei-me no espelho do bar novamente. Sentia-me velho. Trinta anos nas costas e solteiro. Meus olhos verdes já não brilhavam como antes. E os óculos os ofuscavam ainda mais. Talvez eu devesse me sentir desesperado e não velho, seria mais apropriado. Passei uma mão na barba por fazer. Eu nunca tinha tempo para ela. Sempre atrasava o dia em que daria um trato no meu visual. Folguei mais ainda a gravata preta, assim como meu paletó, e bebi um gole do drinque que desceu queimando como sempre acontecia na primeira vez. Depois do primeiro gole minha garganta adormecia e se acostumava com a sensação. Deveria ser por isso que eu sempre o escolhia desde que o experimentei na terceira vez que vim ao bar. A bebida me anestesiava.
Percebi uma jovem a me olhar. Ela era bonita, loira, deveria ter cerca de vinte e cinco anos, era alta e magra. Muito magra. Talvez fosse modelo. Sentava-se a alguns bancos além do meu, por isso não consegui distingui a cor dos seus olhos. A moça me sorriu. Senti-me menos insignificante, mas lhe retribui com um simples aceno e um sorriso forçado. Ela virou o rosto. Acho que percebeu.
Jeremy me encarou. Ele provavelmente vira a cena. Deveria pensar que eu estava sozinho porque queria. E ao analisar o olhar dele passei a duvidar do mesmo.
Voltei meu olhar para onde a moça estava, mas o banco se encontrava vazio. Havia perdido a chance. Bem feito. Talvez eu merecesse. Tomei outro gole da bebida e dei uma olhada pelo bar: ninguém sozinha na pista de dança. Olhei para as mesas: somente uma delas continha uma mulher sozinha. Ela estava observando o cardápio e havia uma taça de vinho em cima da mesa. Mas... Apertei os olhos. Acho que a bebida já surtia efeito em mim. A mulher... Hermione. Continuei a olhá-la por longos minutos. Não tinha como confundi-la com outra pessoa. Eu conhecia seus traços como ninguém. Não apenas com os olhos. Eu saberia que era ela somente utilizando as mãos.
–Jeremy? – chamei ainda a encarando.
–Sim, senhor? – falou parando a minha frente.
–Ela – apontei-a discretamente, olhando para o barman – Você já a viu por aqui antes?
–É a primeira vez que a vejo, senhor Potter – afirmou.
–Tem certeza?
–Certamente – concordou, me sorrindo – É o tipo de mulher cuja fisionomia não costumamos esquecer.
Olhei-a mais uma vez. Anos sem vê-la pessoalmente, sem falar com ela e Hermione estava ali. Tão perto.
Eu tinha que pensar. Como me aproximaria? Como puxaria conversa? Nunca fui bom nisso.
–Jeremy, eu quero uma taça do vinho que ela pediu – solicitei deixando meu drinque de lado.
–É para já, senhor – me sorriu.
Pouco depois ele voltou com uma garrafa de vinho tinto. Certamente fora perguntar a algum garçom qual era o vinho que ela bebia. Anotei mentalmente: lembrar de deixar uma boa gorjeta para o Jeremy hoje.
–Aqui, senhor – disse entregando-me a taça.
Peguei-a e a levei até meu nariz. Seu aroma era suave e doce. Uma fragrância que meu olfato identificou como sendo de um vinho português. Tirei um gole e o degustei. Era fraco e adocicado. Certamente era de uma safra mais nova.
–Boa escolha. Vinho português – falei erguendo a taça até meus olhos – Safra de 1989, provavelmente.
Jeremy riu impressionado.
–Exatamente – concordou.
Sorri-lhe. Agora eu tinha um assunto.
