Dedicatória: A Litha-chan… aqui esta como prometido a primeira parte da fic '
Era para ser one-shot… mas acabou sendo two-shot (dois capítulos) XD Beijao enorme e PARABENS!!!
Sentido Obrigatório
Parte 2
- O sinal esta vermelho Milo…
O grego parou o carro bem em cima do traço branco que limitava o acesso. Assobiava despreocupadamente como se tudo estivesse na maior tranquilidade. Tacteava no volante ao ritmo da musica, distraindo-se por completo com a movimentação no exterior.
Camus suspirou longamente, como sempre fazia naquelas aulas.
- O sinal está verde Milo…
Milo foi de novo chamado à realidade, apressando-se a carregar no acelerador. Apressando-se demais. Não andaram 5 centímetros, que o carro tinha ido abaixo. Camus levou a mão à face, massajando os olhos com os dedos.
Não era possível que aquilo lhe estivesse a acontecer. Seis malditos meses desde que tinha começado uma causa totalmente perdida à partida… mas fazer o quê? Se aquele ser desgraçado pagava as aulas. Já era a terceira tentativa que Milo fazia para passar no exame de condução e… reprovava. Milo era o único da sua lista de alunos que ia ficando de mês para mês. Arriscava-se a dizer que quase fazia parte da mobília do carro.
Para mal dele. Era o único que simplesmente NÃO trocava de instrutor. Uma mancha no seu corriculo, e ainda uma lapa que não desgrudava por nada da sua vida.
Olhou de esguelha para ele, percebendo que não estava minimamente interessado em arrancar rapidamente.
Assobiando da mesma forma que antes, sem se abalar com o ocorrido, sinal claro que não era a primeira vez que isso acontecia, Milo voltou a ligar o carro calmamente. Arrancou, sem se preocupar com as buzinadelas que recebia dos outros carros por causa da demora.
Era impressionante o quanto aquele grego conseguia ser tão distraído enquanto conduzia. Todo o santo dia, o pássaro de cor rara que passava do seu lado esquerdo era mil vezes mais interessante do que o enorme carro vermelho que se encontrava à sua frente, e no qual iria bater com certeza se não fosse Camus, já habituado àqueles surtos do escoriano, a travar à ultima da hora.
- O que me diz de um convite para um jantar Camus?
O raciocínio do instrutor fora interrompido pela voz despreocupada de Milo. Um jantar? Mas que ideia mais ridícula e insana, não era possível! Alem do mais, um jantar para quê?
- Na próxima rua, vire à direita…
- Hum… tudo bem então… e um almoço?
Camus rodou os olhos, não acreditando no que aquele ser estava pensando. Ele, o seu instrutor, aquele que supostamente lhe devia ensinar a conduzir, ir almoçar com ele? Mas aquela cabeça seria realmente oca, ou ele fazia de propósito?
- À direita Milo…
Não se abalou quando sentiu uma guinada brusca no carro, virando para a direita. Já era habito o escorpiano ser de tal forma distraído que se esquecia de fazer o que lhe tinha sido pedido… segundo Mu, esse era um dos motivos pelos quais ainda não tinha a carta de condução nas mãos.
- Um café?
A voz de Milo soava no carro despreocupadamente, como se não tivesse acabado de fazer algo irresponsável ao volante da viatura. Mas não era possível que ele em seis meses de tentativas frustradas não tivesse conseguido aprender algo nem que fosse ínfimo sobre condução?
Camus suspirou mantendo-se alheio às tentativas do loiro.
- Passadeira Milo…
Um chiar de pneus pode ser ouvido no meio da estrada, quando os dois ocupantes da viatura eram impulsionados par a frente devido à travagem… a metros da passadeira.
Camus voltou a recostar-se na cadeira, passando a mão direita pela franja ruiva demoradamente.
Ele devia ter feito algo de muito muito muito errado numa vida anterior para ter aquela coisa nas mãos agora. Mas porque ele não desistia simplesmente? Mesmo que passasse no exame, Milo era um perigo nas estradas devido à sua distracção constante e…
- Não gosta de café? Um chá então!
Ele não desistia mesmo… era tão desligado que não entendia o seu desinteresse pelas suas investidas. Nunca tinha tido algo que não fosse um relacionamento mais que profissional com os seus alunos e Milo não seria excepção! Isso ou não se chamava Camus Phillipe Lenoir!
---oOo---
- O que quer beber?
Um entusiasmado Milo colocava os cotovelos sobre a mesa, estendendo o cardápio para o acompanhante.
O ruivo recebeu-o, pousando-o sobre a mesa sem ao menos se dar ao trabalho de olhar.
- Um café simples será perfeito.
Não era possível que se tinha deixado levar pelas investidas do escorpiano… não.era.possivel! Mas a verdade é que estava ali, num café calmo e recatado, diante UM ALUNO mais sarnoso que a própria sarna.
Milo sorriu, chamando o garçon com a mão.
- Era um crepe com muito chocolate, um chocolate quente e um café vieneza por favor!
Camus arregalou os olhos não acreditando. Abriu o cardápio que tinha pousado na mesa, correndo os olhos pelas sugestões e chegando ao que tanto procurava.
"Café vieneza: combinado de café, leite condensado e chantily"
- Mas eu não…
- Eu sei… mas um café simples consegue ser tão sem graça que nem dá vontade de pagar!
Camus respirou fundo, fuzilando o grego sorridente com o olhar.
- Então… sobre o que estávamos conversando mesmo? – Milo sempre animado, tentava arrancar algo mais que não fosse um resmungo do francês… em vão.
- Eu? Nada mesmo. Você parecia tão entusiasmado com o seu monologo pró-helénico que eu deixei completamente de ouvir…
Camus no seu constante bom humor pegou calmamente no café vianeza que o garçon tinha acabado de colocar sobre a mesa, levando-os aos lábios. Apesar da enorme quantidade de chantily, não seria complicado chegar finalmente ao delicioso sabor do café amargo.
- Bem… - Milo pegava nos talheres, pronto a atacar os crepes inundados de chocolate quente – vendo o lado positivo: pelo menos estava prestando atenção ao foco do meu monólogo.
Camus ouvindo tais palavras, puxou o ar com demasiada força, acabando por ingerir demasiado café… pelo canal errado. Odiava chamar a atenção sobre si, mas aquele ataque de tosse não estava fácil de controlar.
Após algumas tentativas, finalmente o seu esforço deu frutos. Ia retrucar devidamente quando duas almas demasiado conhecidas entraram no recinto.
- O que… o que estão aqui a fazer?
- Boa tarde para você também Camus!
O ruivo resmungou algo antes que os recém chegados se acomodassem na mesma mesa.
- Não devia comer tanto chocolate Milo! Isso pode ser prejudicial para a saúde!
O grego sorriu para Shaka e Mu, acenando com a cabeça enquanto acabava de mastigar um pedaço de crepe demasiado grande. Decididamente gula era um dos seus pontos fracos.
- Então Camus, como se safou o Wilson?
Ilusão sua ou Shaka estava tentando captar a sua atenção? Bem, não seria assim tão complicado visto que não havia nada mais interessante para fazer. Até que não tinha sido assim tão mal os dois terem chegado agora. Podia pelo menos se livrar de um grego demasiado cola.
- Ainda tem muito que aprender… sobretudo tem que ter cuidado com os cruzamentos e… - mesmo não querendo, o seu olhar desviava-se algumas vezes na direcção do grego – bem, acho que algumas poucas aulas vão ser necessárias para…
Não era possível que enquanto Shaka desviava a sua atenção, Mu e Milo riam um com o outro e segredavam descaradamente! Desde quando eles estavam tão próximos? Estaria Shaka ocorrente daquele aproximação dos dois? Aliás. Desde quando ele estava tão interessado na aproximação daqueles dois? Certamente não estava interessado em Mu, muito menos em Milo!
- Camus! – a voz de Shaka chamou-o de volta à realidade. Pelos deuses… estaria mesmo interessado no grego?
- Ho quendf kazqdh sdf?
Não… decididamente Milo era TUDO menos um potencial ser pelo qual poderia vir a ter algum interesse.
- Não fale de boca cheia Milo…
Mas desde quando aqueles dois estavam tão próximos?
---oOo---
Os dias iam passando, serenos na medida do possível. As aulas com Milo Kalomiris não era o que se podia chamar de 'dia sereno', mas nada que a sua enorme capacidade de concentração não superasse.
- Já pensou Câ, que passamos quase três dias por semana juntos?
Tudo bem… retirava o que tinha dito. A sua paciência e capacidade de concentração tinham limites, que pelo pior dos acasos estava a ser atingido naquele momento.
- Quem lhe deu autorização para me chamar dessa forma?
Apesar de não ter alterado a voz, pois não era algo que se devesse fazer quando alguém estava conduzindo… ou pelo menos tentando. Lançou um olhar fulminante ao grego.
Mas como sempre vinha a acontecer, Milo simplesmente não se abalava com aquele gesto. Talvez estaria habituado a ele, quem sabe…
- 'Camus' é demasiado comprido! E gostei de o chamar assim!
Camus revirou os olhos recostando-se mais no banco. Milo tinha deixado à muito tempo de ser um perigo a dirigir, mas infelizmente fazia parte de um pequena parte da população que sofria de 'malus dirigirus': dirigia mal! E nisso, Camus não via melhoras…
- Nunca reparou no que eu lhe disse Câ?
Camus olhou pela janela, ignorando solenemente o grego ao seu lado. Enquanto o chamasse daquela forma, podia ter a certeza que não retribuiria!
- Câ?
Silêncio…
- Geladeira com pernas? Pinguim? Ice berg?
Camus sentiu o sangue ferver… aqueles eram os sobrenomes inventados por um certo ariano para se referir a ele. Como Milo saberia daquilo? De novo Mu…
Virou o tronco na direcção do condutor, cravando as orbes castanhas na face do grego, respirou fundo algumas vezes antes de disparar com toda a seriedade.
- 'Câ' está perfeito…
---oOo---
- Senhor Lenoir, o senhor Kalomiris acabou de ligar a desmarcar a aula das três da tarde!
Camus estagnou, olhando para o papel. Todos os dias de manha, chegava à escola de condução com o seu café, abandonava-o por alguns segundos sobre o balcão da recepção onde Lena, a recepcionista, lhe entregava o plano das aulas daquele dia. Geralmente era naquele preciso momento que todas as manhãs dava os bons dias a um certo loiro arrogante que sempre arranjava algo subtil para o tirar do sério.
- Bom dia senhorita Lena! Ilusão minha ou parece mais jovem a cada dia que passa?
Como aquele dia não era diferente dos outros, o tal de 'loiro arrogante' acabava de chegar e de largar todo o seu 'savoir faire' sobre a pobre recepcionista. Se pelo menos ela soubesse de Mu…
- Senhor Devas! Bom dia! Aqui tem o seu plano para as aulas de hoje!
- Shaka senhorita! – o loiro sorria numa falsa inocência – Já lhe disse para me chamar de Shaka não?
Camus revirou os olhos, controlando-se para não gargalhar na cara da pobre coitada, que, vermelha que nem um pimentão, tentava atrapalhadamente se concentrar no resto do seu trabalho. Com um gesto de cabeça, Camus indicou ao loiro para que o seguisse, indo para a saída do edifício, na direcção dos carros estacionados.
- Deixe só o Mu saber que você anda flirtando com a recepcionista…
Shaka riu, tirando calmamente as chaves do bolso do sobretudo.
- Devia tomar exemplo sobre mim sabia Camus? Talvez se tornasse mais concorrido!
Camus negou com a cabeça, voltando a sua atenção para a folha que lhe tinha sido entregue. Leu pela decima vez o que estava escrito, parando instintivamente no local onde estaria a aula do grego.
- Sabe o que aconteceu com Milo? – tinha a ligeira sensação que, apesar da sua tentativa se soar o mais leviano possível, Shaka tinha percebido o ligeiro tremor na sua voz.
- Esta com saudades dele Camus?
Pronto. Estava demorado! Ainda não tinha sido alvo das piadas ácidas do loiro naquela manha, e claro, tinha sido ele próprio a colocar-se nas teias daquele indu diabólico!
- Tudo bem, já entendi! – Dirigiu-se ao próprio carro, com a intenção de ignorar Shaka pelo ultimo comentário. Mas antes que pudesse entrar no lugar do condutor, a voz deste chamou de novo a sua atenção.
- Milo esta doente. Ele avisou o Mu que não poderia vir nos próximos dias!
---oOo---
Apesar de querer morrer em vez de admitir abertamente, Camus tinha passado a semana estranho, com menos paciência para os erros que o normal. Apesar das tentativas para afastar aquela ideia da sua cabeça, não conseguia negar a fatídica verdade: tinha-se apegado ao grego.
- Próxima rua vire à direita Milo.
Por isso, sentira uma ponta de felicidade ao voltar a ve-lo finalmente naquele carro. Nem parecia que uma gripe o tinha apanhado. Estava tão leviano como sempre, tão feliz, tão escandaloso… e tão desastrado!
- Câ, na próxima viro para onde?
- É sentido obrigatório Milo!
E mais uma vez, sempre assoviando a musica terrível que passava na rádio, Milo virava o volante…demasiado rápido. Mas porque retrucar? Ele sempre fazia aquilo por mais vezes que lhe dissesse qual a forma correcta de agir.
Bem, como bom instrutor que era, teria que testar aos poucos o seu aluno. As várias aulas acabaram por ajudá-lo a conhecer de cor os pontos fracos do escorpiano. Sim, podia gabar-se que o conhecia bem. Uma das raras pessoas que podia dizer que conhecia bem, apesar de ter sido contra a sua vontade.
- Poderia dizer-me as horas Milo?
Não foi preciso desviar os olhos do vidro do carro para entender o gesto que o loiro começava a fazer. Respirou fundo, levantando o braço calmamente e levando-o ao volante, compensando assim a falta da mão do escorpiano.
Milo tinha acabado de cair de novo na sua armadilha. Retirou a mão do volante, subindo ligeiramente a camisa que usava, olhando o relógio.
- Uma e meia! – respondeu sorridente, voltando a tomar posse do volante com um enorme sorriso. Como se não tivesse acabado de cometer uma infracção grave.
- Milo, se fosse num exame, já estaria reprovado! – a voz do francês era calma, conformada, já em nada parecida com a frigidez das primeiras aulas.
- Vamos almoçar Câ?
Seria possível aquele grego não ter a mínima noção do que fazia? Tinha acabado de demonstrar que ainda não estava pronto para um novo exame, e ainda tinha o descaramento de o convidar para almoçar?
Bom… "se não pode vencer, junte-se a eles" não era o que dizia sempre?
---oOo---
Camus espreguiçou-se no banco do condutor do carro de instrução. Os longos cabelos soltos e a camisa branca ligeiramente amachucada pelo exaustivo dia de trabalho. Respirou fundo, deixando-se ficar alguns segundos de olhos fechados. Aqueles pequenos segundos dos seus dias em que se dedicava a reflectir sobre tudoo que tinha feito desde o amanhecer.
Infelizmente tudo o que é bom sempre acaba, e la estava de novo Shaka batendo no vidro do carro. Estava na hora de voltar para casa.
- Vai demorar muito? Ou vai querer beber um copo comigo e com Mu?
- Nunca fui bom de candelabro. - Camus respondeu olhando para o loiro e dando um pequeno sorriso.
- Hum… eu até propunha algo a três, mas sabe como é o Mu não? – resposta à altura. Shaka sempre fazia aquilo para o destabilizar e podia gabar-se de sempre ter a ultima palavra. – Até mais Camus!
O ruivo assentiu vendo-o se afastar aos poucos. Como sempre fazia, revistou o carro antes de seguir para casa. Não eram raras as vezes em que encontrava algo pertencente aos alunos nos bancos, ou por vezes no chão. Verificou cuidadosamente se estava tudo em ordem, retrovisor, vidros devidamente fechados. Foi quando chegou o banco do motorista para trás que descobriu algo estranho deixado no chão. Uma carteira…
Como alguém na sua sã consciência era capaz de perder uma carteira daquela forma? Ainda mais, num carro de instrução! Se ele não fizesse o seu trabalho decentemente aquele objecto podia ser alvo de alguns assaltantes nocturnos que certamente arrombariam o carro. Aí o prejudicado seria ele!
Suspirou, olhando a carteira na mão e fechando o carro. Ainda teria que voltar à recepção e entregar aquela coisa à pobre senhorita Lena... que provavelmente iria guardar numa gaveta e esperar até ao dia seguinte para telefonar ao proprietário.
Bom, o jeito era ver a quem pertencia. Se não o afastasse muito do seu caminho de volta para casa, ainda passaria para a entregar.
Abriu o objecto verificando a completa desordem na qual se encontrava. Uma pilha de recibos no lugar das notas, os cartões sobrepostos… o caos completo! Com alguma relutância, Camus procurou o RG, retirando-a da carteira. Sentiu uma enorme vontade de rir ao descobrir a fotografia assim como o nome escrito a preto no lado direito.
Milo Miklos Kalomiris
Ficou alguns segundos apenas olhando a fotografia, um sorriso nos lábios. "Senhor Kalomiris… amanha esta ferrado comigo!" pensou, voltando a colocar-lo no devido lugar.
Mas quando julgava que tinha tudo controlado, algo chamou a sua atenção de novo. Algo que ele conhecia extremamente bem… algo como…
Uma carteira de motorista, em nome de Milo Niklos Kalomiris, datada do primeiro exame que julgava Milo ter reprovado.
Milo tinha passado no exame à primeira tentativa…
---oOo---
Chegou diante da porta 3A afobado. Após uma correria escada acima para atingir o terceiro piso o mais rápido possível, visto que o elevador estava fora de serviço.
Respirou fundo algumas vezes, tentando regularizar de novo a respiração. Fechou os olhos numa concentração profundo para acalmar o estado de raiva no qual se encontrava naquele momento.
Encarou a porta de novo, tocando à campainha uma vez.
Quem aquela criatura pensava que era para entrar na sua vida daquela forma? Ainda mais, martirizou-o até ao último minuto; ao último segundo daquelas malditas aulas, as quais não faziam sentido nenhum! Então… todo aquele estado aéreo a cada vez que pegava no volante era…
Voltou a carregar com demasiada força na campainha, sentindo a raiva aumentar a cada dedução.
Covarde. Não teria ele mais nada para fazer que não o sarnozar aqueles meses todos? Só podia ser uma brincadeira… uma brincadeira de muito mau gosto! Desgraçado do grego que desde o primeiro dia em que tinha aparecido lhe tinha chamado a atenção!
Inspirou ruidosamente, perdendo completamente a paciência. Sabia que Milo estava ali dentro. Talvez teria pressentido a sua ida ali e não quisesse abrir…
Grandes males, grandes remédios! Com um sorriso sádico nos lábios, os olhos brilhando perigosamente, levantou a mão ao nível da campainha… pressionando o botão sem retirar o dedo.
Era brincadeira que ele queria? Pois era isso que ia ter. Só retiraria o dedo e pararia com a barulheira depois daquela maldita criatura helénica abrir a porta!
- JÁ VAI!
O sorriso alargou-se ainda mais ao ouvir a voz do grego no interior. O barulho das chaves sendo rodadas e finalmente a porta abriu-se lentamente, revelando um escorpiano sonâmbulo.
- MAS QUE…- Milo parou no momento em que ia descompor o desgraçado que lhe tocava daquela forma à campainha, percebendo quem era - Camus?
Camus retirou o dedo da campainha entrando em casa rapidamente. Não daria margem a Milo para responder antes que lhe tivesse dito tudo o que pensava dele.
- Milo Miklos Kalomiris, nascido a 8 de Novembro em Atenas. Filho de Alkis e Lida Kalomiris, mede 1 metro e 85 centímetros para 87 kilos. – Camus disparava tudo o que tinha visto na carteira de identidade do grego, olhando-o nos olhos. – Estou certo senhor Kalomiris?
Milo olhava embasbacado para o ruivo, não percebendo nada do que estava acontecendo. Como ele sabia aquilo tudo, e porque lhe dizia aquilo agora?
- Mas o que…
- ESTOU CERTO SENHOR KALOMIRIS?
Milo sobressaltou com o grito do francês. Mas que raio vinha a ser aquilo?
- Sim. Mas como…
- ENTROU na escola de condução alegando que apenas tinha tido alguns conhecimentos prévios com o seu pai, tendo assim as aulas necessárias para efectuar o primeiro exame. Exame esse que PASSOU. Estou correcto senhor Kalomiris?
Milo arregalou os olhos, encostando-se às costas do sofá da sala. Como o ruivo tinha descoberto aquilo tudo? Talvez se ainda tentasse… mas o olhar mortal do francês sobre si fê-lo mudar de ideias.
- Esta correcto… -disse baixando o olhar.
- Parfait. Portanto mesmo assim, decidiu continuar com as aulas fazendo-se passar por um mau condutor, FAZENDO-ME perder o meu tempo alem da minha paciência. Durante meses a fio tirou uma com a minha cara, divertindo-se às minhas custas. Estou certo senhor Kalomiris?
Milo fez menção de que ia avançar respondendo mas foi imediatamente cortado pelo francês.
- Saiba que isso tudo acabou Milo! Não ouse nem sequer aparecer à minha frente nas próximas encarnações, a menos que deseje viver perigosamente!
Milo apanhou a carteira que lhe tinha sido mandada pelo ruivo, percebendo finalmente o que tinha acontecido. Nem percebera que tinha perdido a carteira naquela tarde, de tão cansado que estava tinha chegado a casa e adormecido directamente. Provavelmente tinha-a deixado cair no carro de instrução e o ruivo tinha encontrado. Aí tinha sido um pulo para que descobrisse que aquele tempo todo estava mentindo.
- Camus…
O ruivo virou-lhe as costas, avançando até a porta. Continha-se para não gritar para o escorpiano e demonstrando o quanto ele tinha sido inconsequente. Ainda não tinha dito tudo o que queria. Já que tinha ido ali, porque não acabar logo com tudo? Inspirou fundo, preparando-se para virar de novo para Milo e recomeçar com o sermão.
Ao virar o corpo, sobressaltou quando sentiu o grego bem próximo de si. Quadris contra quadris, a respiração rápida de Milo sobre a sua pele… os lábios capturando os seus de uma forma voraz.
Debateu-se durante alguns segundos, afastando-se ligeiramente do seu corpo.
- MAS QUE RAIO PENSA QUE...
Estremeceu de novo quando Milo impediu-o de falar, beijando-o desejoso. Camus não entendia o que estava a acontecer, mas de uma coisa ele tinha a certeza... o seu corpo começava a reagir às insistentes investidas do grego.
Ciúme... era o que sentia quando via Milo tão próximo de Mu. Durante todo aquele tempo tinha negado aquele sentimento tão inconsequante, mas a verdade era tão clara que até um cego a veria.
Levou os braços aos longos cabelos loiros cacheados, pressionando a nuca do escorpiano para perto de si.
Se não pode vencê-los, junte-se a eles... não era o que sempre dizia?
Retribui ao beijo intenso, deixando-se levar pelo desejo que tomava conta de si.
---oOo---
- Você não presta Milo…
Ambos os corpos exaustos deitados na cama, os longos cabelos loiros contrastando com os ruivos espalhados pelos lençóis. De olhos fechados, Camus tentava regularizar a respiração, acalmando o coração descompassado.
- Hummm… não era isso que dava a entender quando eu…
- Pode ir parando por aí.
Milo sorriu, aproximando o corpo do ruivo. Levou a mão ao abdómen definido, fazendo leves carícias com a ponta dos dedos. Camus suspirou, sentindo a pele arrepiar com aquele toque.
Aquela situação era por demais estranha para si. Nunca pensou em se deixar levar pelas emoções, fazer algo tão inconsequente. Bem… já que estava na chuva, era para se molhar não?
- Eu não acredito… - suspirou puxando o escorpiano para perto de si, afagando os seus cabelos.
Milo sorria de canto, mantendo os carinhos no abdómen do francês.
- Quem não vai acreditar são os dois projectos de buda zen...
Camus arregalou os olhos levantando-se rapidamente. Como assim Mu e Shaka não iam acreditar?
- O que quer dizer com isso?
Milo riu, aninhando-se sobre o colchão de barriga para baixo, abraçando o travesseiro por baixo da cabeça.
- Com quem acha que fiz o exame de condução? Mu ajudou-me nessa tentativa de quebrar o gelo...
O ruivo abriu a boca mas a sua voz não saía. Mu e Shaka sabiam daquilo tudo... Mu tinha passado o escorpiano no exame e tinha fingido testá-lo nas outras vezes, tudo porque...
- Camus, desde o inicio que tentava amolecer esse coração de gelo, mas você nem notava o meu interesse. Portanto, a única solução era fazê-lo aos poucos e sem que você percebesse!
O francês estreitou os olhos, esboçando um ligeiro sorriso sádico. Pegou no travesseiro lentamente, enquanto Milo falava de olhos fechados, bocejando vez ou outra.
- Portanto enquanto Mu tratava de fingir que me reprovava, Shaka ocupava-se da papelada na escola de condução e...
Sobressaltou assustado ao sentir algo lhe bater com alguma força. Arregalou os olhos, sentando-se na cama, perebendo que tinha sido Camus que lhe tinha lançado o travesseiro.
- Corrigindo... VOCÊS não prestam!
Aos poucos e sem que Camus percebesse, Milo tinha conseguido fazer parte da vida do francês. A pouco e pouco tinha-se instalado no seu coração e conseguido o seu objectivo de se aproximar do ruivo.
Camus do seu lado estava conhecendo uma faceta sua que não sabia existir. Tinha ultrapassado a vontade de matar o escorpiano dias a fio durante as aulas e acabou apercebendo-se da falta que ele fazia na sua vida. Milo tinha acabado por ser a lufada de ar fresco que lhe faltava, e isso ele não queria perder...
...pelo menos até Milo lhe lançar o objecto de volta, iniciando ali uma batalha entre travesseiros e beijos.
Fim
