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CAPÍTULO DOIS

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Rin fez as contas. Já se tinham passado dois meses desde que trabalhava no hotel. Na verdade, não ganhava muito bem porque eram poucos os clientes invisuais que frequentavam aquele hotel, por isso fizera bem em assinar um contrato a curto prazo.

Ajeitou a bolsa na cadeira e mandou Hachi deitar-se mais uma vez. Kagome estava atrasada. Não era comum na jovem mulher, ela normalmente era a primeira a chegar sempre que combinavam alguma coisa.

Entretanto, distraíra-se com algumas crianças de outras mesas que vinham fazer festinhas em Hachi. Os pais pediam desculpa pelo incómodo, mas Rin limitava-se a sorrir e a dizer que não fazia mal. Sempre adorara crianças, a sua alegria contagiante, as pequenas birrinhas, os gestos meigos e as expressões carentes quando queriam alguma coisa. Oxalá pudesse ter uma criança. Tinha a certeza que seria uma boa mãe, apesar de ser cega. Estava habituada a fazer todas as coisas do quotidiano como uma pessoa perfeitamente normal, mas ficava triste ao pensar que não poderia verificar quão lindo seria o seu bebé quando o tivesse em braços.

Mas, pensou, não haveria bebé algum sem antes encontrar o pai dele. Nenhum homem tinha interesse por ela, e se viessem falar com ela, afastavam-se logo quando descobriam que era cega, incomodados. Como gostaria que alguém a visse por dentro e não por fora! Seria ela feia? Não sabia dizer, a última vez que se vira ao espelho tinha sete anos e, além de se lembrar muito pouco do que vira, ainda era uma simples criança.

Lembrava-se de uma menina pequena e magrinha com uns cachos negros fofinhos e uns enormes olhos cor de avelã, quase amarelos. A sua irmã nada tinha a ver com ela, apenas os caracóis. Tinha olhos escuros e cabelos castanhos. Talvez tivesse saído ao pai, pensava sempre, porque o tio Kaito tinha fotos da mãe em casa e Rin era uma cópia autêntica dela.

Rin sentiu o cheiro delicado de lilases e sorriu para a sua fonte.

- Kalispéra, Kagome! – cumprimentou-a em grego. - Estava a ver que não vinhas! Porque demoraste?

Kagome fez uma careta de enfado e sentou-se, fazendo uma rápida carícia na cabeça de Hachi. – Desculpa ter-te feito esperar, Rin, mas o meu pai piorou na noite passada e fiquei preocupada.

- Mas aconteceu alguma coisa de grave? Ele está bem? – franziu o sobrolho, preocupada.

- Sim, sim! Ele já foi visto pelo médico e está em repouso absoluto. Foi uma recaída, apenas. O médico diz que vão ser cada vez mais frequentes visto que o seu estado de saúde piora a cada dia.

- Oh, Kagome… - Rin estendeu as mãos por cima da mesa até encontrar as da amiga. – Tenho tanta pena. Não conheço o teu pai, mas tenho a certeza que não merecia nada disso.

Kagome suspirou. – Ele cometeu os seus erros, mas partilho da tua opinião. Ninguém merece passar por isto. – ergueu os olhos azuis para ela. – Tu deves saber como a vida pode ser madrasta às vezes, não é? – perguntou suavemente.

Rin sentiu-se incomodada. Apesar de dizer sempre que era cega, não gostava de falar sobre isso com as pessoas. Não era um assunto muito bom para relembrar. – Sim, sei perfeitamente.

- Queres falar sobre isso um pouco? Já nos conhecemos há dois meses mas nunca me falaste sobre o teu passado… Já nasceste cega?

Os caracóis escuros moveram-se com graciosidade em volta do seu rosto quando a porta da rua se abriu e entraram mais clientes no restaurante. As memórias do seu passado voltaram-lhe à cabeça como flashes.

Depois de ter sido atropelada, não se lembrava de mais nada, apenas de acordar e não ver rigorosamente nada, só escuridão. Deram-lhe a notícia da morte da irmã e quando soube, ao ouvir às escondidas uma conversa entre algumas freiras do orfanato, que o condutor que as atropelou tinha um nome, prometeu vingar a morte da irmã, um dia. O seu nome era InuTaisho. Nada mais nada menos que o poderoso magnata grego, dono da famosa cadeia de hotéis Taisho. Era praticamente o rei da ilha de Santorini. Não as ajudou em nada depois do atropelamento. Não deu uma indemnização, não deu caras, nem sequer um pedido de desculpas.

A partir desse dia, Rin jurou que se ia vingar. Fosse como fosse.

- Não, não nasci cega. Foi um acidente automóvel.

- Ias a conduzir?

- Eu não estava dentro do carro, fui atropelada por ele. Eu ainda era uma menina pequena.

- Que horror! – consternou-se. – Deves sentir… raiva do condutor, não?

- Não. – mentiu. – Nem sequer sei quem foi. E prefiro assim, não queria saber que quem me atropelou ainda anda por aí à solta. E se me cruzasse com ele?

- Sim, segundo a minha falecida avó, não é bom guardar rancor ou raiva dentro dos nossos corações. A vingança é um prato que se serve frio, mas tem um sabor muito amargo. – as palavras cheias de sabedoria atingiram o centro do coração de Rin. Sentia-se culpada, mas tinha jurado vingança e não ia voltar atrás. O seu plano já estava em andamento.

Tinha pedido emprego naquele hotel com intenção de se infiltrar. Encontraria maneira de entrar nos escritórios e arranjar provas como tinha sido InuTaisho quem a tinha atropelado. Encontraria documentos antigos, contas do mecânico datadas aquando o acidente ou qualquer outra coisa que o incriminasse. Mas o seu plano estava a falhar. Não conseguia entrar em lado nenhum, como se se sentisse constantemente observada e vigiada pelos funcionários. Para não falar da constante ausência do magnata. Ele não era visto no hotel, que era a sede principal de toda a cadeia, ninguém falava nele e Rin já não sabia o que fazer.

Todo o objectivo de uma vida podia ir por água abaixo. Se calhar estava numa viagem de negócios.

Há mais de dois meses? Impossível.

Pediram o almoço e comeram alegremente, comentando sobre todo o tipo de assuntos. Apesar de Kagome mostrar saber de tudo o que a rodeava, também mostrava ser um pouco frívola por gostar de festas, jóias e roupas. Mas que tipo de jovem mulher seria se não gostasse dessas coisas?

A Rin interessavam-lhe mais assuntos humanitários e altruístas como a fome global, a poluição, a desflorestação, o desemprego cada vez mais constante, a crise mundial, a extinção das espécies... Interessavam-lhe porque não gostava de ir a festas ou às compras. Sabia que assim que as pessoas descobrissem o seu problema iriam olhá-la sempre de canto, ou fariam perguntas e ela detestava ser o centro das atenções. A discrição e a subtileza eram suas amigas íntimas há anos.

Kagome contou-lhe que Kouga planeava fazer um cruzeiro e tencionava convidar a sua família. Pediu-lhe opinião porque suspeitava que ele só a queria seduzir.

- Acho que ele deve ser muito rico para pagar algo do género! – disse com sinceridade e de olhos arregalados.

Kagome engasgou-se subitamente e corou. – Bem… O dinheiro não é problema para o meu círculo de amigos.

Rin franziu o cenho. – Não? Achas-me com cara de rica?

Kagome pegou-lhe nas mãos. – Rin, tenho uma coisa para te contar…

- O quê? – algo não lhe cheirava bem…

- Eu nunca te disse o meu apelido, já reparaste?

- Sim, mas… que importância tem?

- É que… - suspirou. – O meu apelido é… Eu sou a Kagome Taisho.

Taisho.

Oh, não…

Kagome era… uma Taisho. Como era possível? Rin estacou de imediato. Se Kagome era quem dizia que era então… o seu pai era InuTaisho! Por isso é que ele não aparecia! Estava doente! E agora? Faria sentido a sua vingança se fosse contra um homem com pouco mais de um mês de vida? De que lhe serviria a sua vingança se ele estava a morrer? Sentia-se enjoada consigo própria.

Com a cabeça às voltas, Rin esboçou um sorriso tímido.

- E porque… porque é que nunca me contaste?

- Desculpa… não era minha intenção enganar-te. Mas tenta perceber! – implorou. – Toda a minha vida vivi rodeada de gente interesseira e por uma vez eu queria sentir como era ter um amigo de verdade. – antes que Rin dissesse alguma coisa, apertou-lhe mais as mãos. – Tu mostraste-me isso. És minha amiga de verdade e estou-te eternamente grata por isso!

- Oh, Kagome… Podias ter-me dito na mesma, eu não sou interesseira.

- Estás zangada?

- Não. – admitiu. – Só um pouco desapontada. Mas não te preocupes, continuaremos amigas na mesma, está bem?

Kagome riu-se. – Se não estivéssemos sentadas dava-te um abraço agora! És tão meiga e compreensiva…obrigada!

- Bom, mas agora quero que me contes mais pormenores sobre o teu noivado. Agora já não temos segredos uma com a outra, não é? – riu-se.

- É.

- Quando é o casamento?

- Daqui a duas semanas. – torceu o nariz.

Rin não conseguiu esconder o espanto. – Tão cedo? Meu deus!

- O meu pai diz que já esperou tempo suficiente. Tem medo de partir antes de me ver casada.

Rin sentiu uma pontada de raiva e tristeza ao mesmo tempo. Não gostava da maneira como esse homem orgulhoso geria a sua família, com mão de ferro. Mas sentia pena por saber que pouco tempo possuía para estar com os seus.

- E o Kouga?

- Ele ia jantar todos os dias comigo no restaurante do hotel, mas decidi mudar-me para o apartamento do meu irmão, que fica aqui perto, para não ter que o ver tantas vezes. Ele é tão meloso comigo que até enjoa! – resfolegou. – Eu e o meu pai moramos no hotel, é como se fosse a nossa casa, mas o Sesshoumaru decidiu que queria mais privacidade e isolamento e comprou um apartamento no bairro alto.

Sesshoumaru Taisho! O poderoso herdeiro de InuTaisho! Tinha-se esquecido dele por completo! Tinha sorte que ele não estava na cidade, tinha ido numa viagem de negócios, caso contrário poderia causar muitos estragos se descobrisse a verdadeira intenção que a levou a pedir emprego no hotel. Pior seria se ele pensasse que fizera amizade com Kagome apenas por interesse! Era um homem muito poderoso e cruel, arrogante e frio. Era conhecido mundialmente por ser um playboy e por ter o poder de manipular os negócios e os outros a seu bel-prazer.

Tinha que ter cuidado com ele. Muito mesmo.

- O teu irmão não está cá, pois não?

- Oh, não! Ele está em Nova York! – olhou para ela com um sorrisinho. – Mas porquê? Estás com… medo? – desatou a rir-se, chamando a atenção de meio restaurante.

- Claro que não! – mentiu. – Que mal me podia ele fazer?

Kagome sobressaltou-se com o vibrar do telemóvel que levava no bolso das calças. – Desculpa… - verificou quem era e fez uma careta. – Oh, não… É o Kouga! E agora?

- Atende!

Kagome segurou o aparelho como se possuísse uma doença contagiosa. – Não quero! Atende tu!

- Eu? E o que vou dizer?

- Sei lá! Inventa uma coisa qualquer! Diz que morri!

- Kagome! – reprovou. – Fugir aos problemas não resolva nada! É melhor atenderes!

Ela suspirou com desânimo e atendeu. – Sim? Olá, Kouga. Não, não incomodas nada… - fez outra careta. – Sim, é verdade, mudei-me há pouco para o apartamento do Sesshoumaru. O quê?... Mas eu… Não, não podes! – quase gritou.

- O que foi? – sussurrou.

Kagome tapou o aparelho com uma mão. – Ele quer mudar-se também para lá ou quer que eu vá para o apartamento dele! Vai ter uma sorte! – disse com sarcasmo, fazendo-a rir. Depois voltou a falar ao telemóvel. – Sim? Kouga? É assim, eu não posso fazer isso porque estou acompanhada.

Rin franziu o cenho e bebeu um gole de água. Aquilo não lhe soava nada bem… Ainda ia sobrar para ela.

- Eu tenho uma amiga a viver comigo! Chama-se Rin Hatanaka!

Rin cuspiu a água na cara de Kagome e tentou não corar muito ao aperceber-se do silêncio que tomou conta do restaurante. De certeza que estavam a olhar para ela. Que se lixe!

- Kagome! – chamou por um fio de voz zangado.

- Shhh! – pediu e voltou a falar com o noivo. – Sim, eu compreendo. Mas não posso deixá-la a morar lá sozinha! Acho que só vamos morar sozinhos depois do casamento, querido… Bom, então está bem. Adeus! – quando guardou o aparelho e olhou para Rin, assustou-se. A amiga tinha uma cara de dar medo! – Rin… deixa-me explicar!

- Estou a ouvir!

- Desculpa, mas foi a única ideia que me ocorreu! Já viste se ele se mudasse para lá? Ou se eu fosse obrigada a ir viver para casa dele?

- Obviamente terias direito a escolher se querias ou não!

- Não se ele falasse com o meu pai! Não entendes? Kouga está a planear uma coisa em grande!

- Oh, Kagome, não sejas tão dramática!

- Ele quer seduzir-me! – disse com desespero, os seus olhos azuis cheios de exasperação. – Quer que eu vá para a cama com ele para assim não poder voltar atrás! Pensa que se me desflorar que vou ficar presa a ele para o resto da vida!

- Que antiquado. – torceu o nariz.

- Vem morar comigo, por favor! Eu fico-te a dever um milhão de favores depois desta! O que tu quiseres!

- Não sei. Vou ter que levar o Hachi e não prometo que ele se comporte como deve ser dentro de um apartamento de luxo.

- Não faz mal, tudo o que ele partir, o meu irmão paga!

- Mas o teu irmão nem sabe!

- Oh, anda lá! Por favor, por favor, por favor!

Se Rin pudesse ver, sabia que encontraria um par de gigantescos olhos azuis carentes e pedinchões.

- Oh, está bem! – cedeu.

Kagome fez uma pequena festa na sua cadeira e levantou-se sobre a mesa para conseguir beijar-lhe o rosto. No fim do almoço, pagaram a conta e saíram.

- Posso levar o Hachi um bocadinho? – Kagome pediu.

- Claro! – Rin deu-lhe a trela e segurou-se ao braço dela, para não bater em ninguém que passava na rua.

De repente, Hachi farejou algo que lhe chamou a atenção e começou a ladrar e a correr, arrastando Kagome a toda a velocidade pela rua. Ela gritou e o seu grito foi abafado no peito do homem com quem chocou. Uns braços fortes envolveram-na de imediato e o perfume masculino entrou-lhe nas narinas.

- Desculpe! Foi sem querer! O meu cão… - perdeu as palavras quando olhou para cima e encontrou um par de olhos dourados maliciosos e brilhantes. Depois, quando o homem sorriu, sentiu-se desfalecer perante o sorriso perfeito que ele tinha. Perfeitamente sexy! Era muito bonito e exótico com os seus cabelos prateados e a sua pele dourada.

- Parece que o Hachi me trouxe algo especial, desta vez… - murmurou num grego perfeitamente falado. O seu hálito fresco roçou-lhe o rosto. – Como se chama?

Kagome desenvencilhou-se devagar dos seus braços e sentiu-se corar. – Kagome. – gaguejou.

- Muito prazer! – disse, tomando-lhe a mão e beijando-a. – Sou o…

- Inuyasha! – Rin veio devagar pela rua movimentada e Inuyasha deu um beijo delicado no verso da sua mão antes de se virar para ela. Kagome sentiu a pele queimar no local do beijo. – Inuyasha! És tu, não és? Consegui ouvir a tua voz.

- Rin, meu anjo! – Inuyasha apertou a morena nos braços e beijou-a demoradamente no rosto. – Há semanas que não te via! Como está o tio Kaito?

Rin riu-se com pura alegria a brilhar nos seus olhos. – Está óptimo! Às vezes rabugento, mas sabes como ele é!

- Sim, eu sei! – depois virou-se para Kagome e a jovem teve um sobressalto. – Estava a conhecer a tua amiga. Parece que não está habituada à força do Hachi, tens que ter mais cuidado da próxima que lhe passares a trela!

Rin riu-se a pegou na trela de Hachi, que fazia de tudo para atrair a atenção de Inuyasha. – Kagome, este é o Inuyasha, o meu melhor amigo há anos. Além de mim, só há mais uma pessoa no mundo que consegue fazer com que Hachi arraste um tanque de guerra pela trela para o fazer chegar à sua beira, e é ele. Tiveste azar pelo Hachi o ter farejado.

Kagome sorriu timidamente. – Não faz mal, da próxima já sei.

Inuyasha continuava com um sorriso no rosto e encarava a jovem de cima a baixo. Era uma beleza! Uma preciosidade de cabelos lisos da cor do ébano com olhos azuis brilhantes. Tinha tão bom aspecto que ficou curioso. De onde tinha Rin desencantado tamanha perfeição?

- São amigas?

- Sim. – Rin fez festinhas no cão para o acalmar. – Conhecemo-nos há dois meses. Eu convidava-te para almoçar, mas acabamos de sair do restaurante.

- Eu também já almocei.

- Queres acompanhar-nos até ao hotel?

Inuyasha olhou-a de repente com o sobrolho franzido. – Ao hotel? Para quê?

Rin tragou em seco. – Eu… trabalho lá. Foi onde conheci a Kagome.

- Tu trabalhas lá? – o seu ar de reprovação foi tão forte que Kagome ficou curiosa.

- Passa-se alguma coisa? – quis saber.

- Não. – Rin apressou-se a dizer. – Olha as horas! Estamos atrasadas! É melhor irmos andando!

- Não faz mal… Eu levo-as. – Inuyasha fingiu um sorriso cortês.

Seguiram os quatro pelas ruas movimentadas quase em silêncio, excepto quando Kagome fazia alguma pergunta a Inuyasha e ele respondia com um sorriso sincero no rosto. Quando estavam à porta do hotel, que estava a abarrotar de gente a entrar e a sair, Inuyasha segurou no braço de Rin para a impedir de entrar.

- Temos que falar, não achas?

- Kagome… podes ir à frente? Eu já te apanho.

A morena assentiu e despediu-se de Inuyasha, que só desviou o olhar dela quando a sua figura desapareceu dentro do edifício.

- Inuyasha, já podes largar-me, não vou a lado nenhum.

Ele soltou-a, mas a expressão do seu rosto mostrava que estava zangado. – Porque vieste trabalhar para aqui? Ainda queres seguir com aquele plano?

- Sim, eu disse que não ia desistir, não disse?

- Isto não vai acabar bem. Sabes que InuTaisho é um homem poderoso! Ele pode esmagar-te como uma formiga, Rin! Tens noção do perigo?

- Claro que tenho! Mas ele não me vai fazer nada! Descobri que está doente. Ele tem cancro.

Inuyasha pareceu ficar em choque por um momento. – E tu queres vingar-te de um homem que certamente vai morrer? Rin…!

- Eu não vou descansar enquanto não provar que ele é culpado pelo que fez! – disse com rispidez. – Há já muito que tomei a minha decisão. Só tenho que tomar cuidado com o filho dele. Quando ele voltar da viagem de negócios…

- Sesshoumaru Taisho? – Inuyasha exasperou-se e passou as mãos no cabelo, nervoso. – Tu entendes no que te estás a meter? Esse tipo come um iceberg ao pequeno-almoço! É tão frio como o Pólo Norte! É tão rude como um Viking na hora do almoço! É tão arrogante como…

- Já percebi! – tentou acalmá-lo. – Vai dar tudo certo, não te preocupes!

- Se ele te descobrir, Rin… Se ele souber que andas atrás do pai dele… Oh, meu deus! Ele vai acabar contigo!

- Calma! – Rin apanhou-lhe o rosto entre as mãos e olhou para onde estariam os olhos dele. – Eu vou conseguir o que quero e ele não me vai fazer mal nenhum, está bem? – disse com suavidade. Os olhos dourados de Inuyasha olhavam-na com tanta preocupação que se ela os pudesse ver, ficaria derretida. – Eu vou ficar bem, ninguém me vai magoar. – murmurou.

Inuyasha beijou-lhe o canto da boca com carinho e abraçou-a. Tratavam-se como irmãos desde que se conheceram. A mãe de Inuyasha morava ao lado da pensão do tio Kaito e ele foi o primeiro amigo dela desde que saíra do orfanato. O primeiro e o único.

- Eu vou confiar em ti, mas se sentires que corres perigo, se alguma coisa te incomodar, eu estou aqui para ti, está bem?

Rin sorriu e assentiu, desfrutando da protecção e da segurança que só encontrava nos braços dele. Adorava Inuyasha acima de tudo. Nunca teria amigo melhor e mais íntimo que aquele. Ele protegia-a de tudo desde que se conheciam e estava-lhe eternamente grata por isso.

Despediu-se dele e foi trabalhar.

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Depois de explicar ao tio Kaito o plano maluco de ir morar durante uns dias para casa de Kagome, e de o tentar convencer que ficaria bem, Rin fez uma pequena mala e partiu num táxi para o apartamento luxuoso que ficava no bairro alto da ilha.

Ao chegar e ser recebida por Kagome e um trilião de perguntas acerca de Inuyasha, Rin conseguiu jantar em paz e desfazer a mala num quarto que a amiga lhe mostrou.

- Este apartamento só tem dois quartos. O meu, onde eu estou a dormir, e o do Sesshoumaru, onde tu vais dormir. O meu irmão sempre se preocupou muito comigo e quis que me sentisse livre de passar cá uns dias sempre que quisesse.

- Eu vou dormir no quarto dele? – engasgou-se, horrorizada.

- Claro! Não te preocupes. – fez um gesto de descaso. – Ele ainda está em viagem. – levou-a pelas costas até ao fundo do corredor e abriu-lhe a porta. – O Hachi pode dormir contigo se quiseres, ou na sala, não há problema. Hoje à noite não vou poder ficar, o meu pai telefonou-me e pediu que passasse esta noite com ele. Quer conversar acerca do Kouga e discutir coisas sobre casamento. Desculpa, a sério.

- Não faz mal, mas prometes que amanhã de manhã voltas?

- Sim, claro! – pegou na bolsa e despediu-se de Hachi com uma festa na cabeça. – Adeus, até amanhã!

Rin sorriu e entrou no quarto quando uma ideia lhe assaltou a mente. Teria Sesshoumaru alguma prova do acidente? Se ele soubesse que o seu pai atropelou alguém anos antes, certificar-se-ia que não descobrissem a sua culpa. Correu pelo quarto e abriu todas as portas e gavetas que encontrou, se encontrasse algum papel, guardá-lo-ia e mostrá-lo-ia a Inuyasha para que lho lesse.

Desconfortável, meteu a mão numa gaveta e tirou uma peça de roupa que identificou como umas cuecas. Corou profundamente e voltou a pô-las no lugar, sentindo-se cada vez mais uma intrusa bisbilhoteira e, quem sabe, uma ladra. Estava a invadir a privacidade de Sesshoumaru, afinal de contas.

Depois de vasculhar o quarto, procurou o escritório. No entanto, encontrou uma porta trancada à chave e ficou desanimada. Sesshoumaru era demasiado inteligente para deixar o escritório aberto para que um possível amigo de Kagome entrasse e bisbilhotasse os seus documentos.

Cansada, tomou um duche rápido na casa de banho do quarto de Sesshoumaru e vestiu apenas um robe fino e delicado que o seu tio lhe oferecera pelo aniversário. Deitou-se debaixo dos lençóis e chamou Hachi. O cão deitou-se ao comprido na cama, sobre os lençóis, e ofereceu-lhe o seu calor e protecção.

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Continua…

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