Capítulo 02 – Past

- Então... alguma novidade no trabalho?

Stiles não conteve o sorriso e sabia que Lydia podia pesca-lo através do telefone só pela sua respiração. Ele culpava a convivência com lobisomens por esse fato, mas no fundo sabia que o crédito era todo da garota.

- As coisas estão indo bem. Metade da parte técnica de cabos e fios está feita, acho que termino tudo essa semana e estou surpreso e feliz da diretoria da empresa simplesmente aceitar minhas sugestões para tudo, mesmo que isso tenha elevado um pouco o orçamento inicial. E semana que vem eu começo com os softwares em si, que é muito mais divertido. Obrigada por apressar aquela postagem com os programas que eu pedi, aliás. Vou estudar a possibilidade de alguns apps para o futuro.

- Se não fosse o sequestro do Isaac eu teria mandado antes. Mas você sabe que não é isso que eu queria saber, Stilinski. Ele continua te ignorando?

- Não é bem ignorar, ele só é... solene. Quero dizer, toda a coisa sentidos lobisomem deve ter estragado a surpresa quando eu cheguei, o que evitou o ataque do coração para ele, ainda que eu não tenha entendido até agora como eu consegui ser contratado se minha capacidade de juntar duas palavras profissionalmente sumiu quando...

- Já passamos por isso, Stiles. Ontem, como foi? Você ia fazer algo que precisava...

- Assinaturas dele. Sim. Quer dizer, você já parou para pensar que Derek Hale realmente tem uma assinatura? Tipo, parece algo tão exposto e oficial que você espera que ele só rosne na sua cara e mande você pular a droga da burocracia. Mas, não, ele realmente tem uma assinatura e é algo digno de príncipes, com floreios e pontos. O que me faz pensar se não é algo da família dele, como, sei lá, todo Hale precisa ter um pouco de pompa, o que total explicaria a capacidade deles de criar entradas triunfais em situações...

- Stiles. – Lydia tentou colocar toda a sua impaciência na sua voz, mas Stiles percebeu o quanto ela estava se divertindo.

- Ele está ridiculamente incomodado comigo ali, Lydia. Mas não incomodado como quem prefere que eu não esteja ali, é estranho. É como se ele quisesse me pedir para ficar para sempre e para deixar ele voltar para a toca dele ao mesmo tempo.

- Vocês não conversaram ainda?

- Eu falo. Você me conhece, eu não consigo parar. – e ele podia sentir o carinho no "yep" dela do outro lado da linha – Mas ele escuta e me dispensa assim que não há nenhum motivo profissional para estarmos juntos sem nem indicar que me ouviu.

- Isso parece absurdamente irritante. E totalmente acima da capacidade de qualquer lobisomem se manter.

- Não é? Eu estava esperando que ele me mandasse fechar a boca ou batesse com a minha cabeça na mesa a qualquer momento, mas ele está... calmo.

- Estranho.

- Assustador.

- Estranho e assustador. Exatamente como eu me lembro de Derek Hale.

E Stiles não conseguiu deixar de sorrir.

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Ok, agora Stiles estava irritado.

Era quase meia noite e ele ainda estava na empresa em plena sexta feira porque o estúpido lobisomem deixou o laptop cair ou jogou ele na parede ou sentou em cima ou atropelou com o estúpido carro ou qualquer coisa assim. E, obviamente, precisava resgatar um projeto importante dos destroços.

E, claro, Stiles era a única pessoa que consideraria isso normal e não algo além das explicações não-sobrenaturais na vida de um arquiteto e o único com habilidades para realmente tirar algum dado daquele lixo, mas algo lhe dizia que havia alguma coisa de proposital naquela situação, e era isso que mais o irritava.

- Eu estou seriamente me sentindo subestimado aqui, cara. – ele suspirou e continuou digitando compulsivamente ainda que seus olhos fugissem da tela para o homem silencioso sentado ao seu lado.

Ele parecia intrigado. Ótimo, agora Stiles estava desenvolvendo habilidades de interpretar as sobrancelhas de Derek na ausência de palavras.

- Quer dizer, eu sei que você me conhece há anos e já me viu mexendo em máquinas muitas vezes. Vamos lá, nós moramos no mesmo quarto por tempo o suficiente para você ver muito mais do que eu gostaria sobre o que eu faço na frente do computador. – sobrancelhas, sério, elas pareciam educadamente constrangidas e Stiles quase gargalhou com isso – Mas se você queria ter uma desculpa para me levar para jantar, você podia fazer melhor do que isso. Pelo que eu estou vendo aqui, há dados sobre esse projeto na nuvem da empresa, eu sei, eu atualizei o banco de dados essa semana.

- Não está completo. – três palavras sobre o projeto, ótimo.

- Sim, e nem o que eu estou conseguindo aqui vai estar. Mas você me conhece, estou fazendo meu melhor, você vai ter seu projeto. E você vai pagar a conta do jantar sozinho por causa disso. Minha sexta feira vale mais do que a hora extra que a empresa me dá e eu estou faminto.

- Ok.

Stiles perdeu completamente a concentração no que estava fazendo e girou a cadeira para encarar Derek.

A sala de projetos no setor da empresa em que eles estavam naquele momento era realmente grande, e muito, muito silenciosa àquela hora da noite. Um silêncio que se arrastou em longos minutos enquanto Stiles esperava mais do que sobrancelhas levemente erguidas.

- Ok?

- Ok, Stiles, o jantar é por minha conta. Você já terminou?

- Cara...

- Você já terminou?

Stiles abriu e fechou a boca algumas vezes, tentando se decidir qual a linha de pensamento ele ia escolher para despejar entre todo o fluxo de palavras que passava por sua mente naquele momento, mas a máquina soltou um ruído de derrota e o interrompeu antes de desligar.

- Bem, não parece ser uma decisão minha, mas acho que consegui salvar o suficiente. – ele retirou o pendrive e o esticou para Derek – Não destrua mais computadores por um encontro, ok? Você sabe que eu não sou tão difícil assim.

- Não é um encontro. – Derek disse entre dentes, mas Stiles poderia jurar que a mão dele se demorou mais do que o necessário sobre a sua quando ele pegou o pendrive.

Os dois arrumaram a mesa e saíram do escritório, Derek o guiou para seu carro, uma vez que Stiles sempre ia trabalhar de metrô, e eles já estavam rodando pela cidade há alguns minutos quando o silêncio foi rompido.

- Se você não voltar a falar em breve eu vou começar a realmente ficar preocupado.

- Você está brincando, certo? Você desaparece sem falar com ninguém além do Scott, certamente sem falar comigo, me reencontra anos depois e não se dá ao trabalho de indicar que sequer me reconheceu! Como se eu não tivesse salvado a sua bunda uma dezena de vezes ou você tivesse salvado minha bunda tanto quanto ou não tivéssemos passado por toda a merda que você sabe que... – ele respirou fundo – Eu não quero falar sobre isso. Sabe, você deixou tudo e eu deixei tudo e não é sobre isso que eu vou falar com você. Sobre o que eu tenho tentado falar com você nas últimas três semanas em que nós estamos nos vendo praticamente todo dia. Todo dia, Derek. Todo. Dia. E você só fala de trabalho comigo.

- Nós trabalhamos juntos.

Stiles poderia ter ficado ofendido com isso se ele não tivesse visto a forma como as mãos de Derek se contorceram contra o volante ou se ele não tivesse visto os lábios finos se apertarem contrariados daquele jeito tantas vezes antes.

- Mas não é só trabalho e você sabe disso. Não precisa ser só trabalho, cara. Não precisa ser nada de merda sobrenatural também, eu não estou trazendo nenhum druida ou vampiro escondido na minha mochila com poeira de Beacon Hills nem nada assim. – ele parou para pensar por um momento – Isso não é possível, é? Quero dizer, eu já estou fora de lá por tempo o suficiente para que se algo assim fosse acontecer, já teria acontecido, mas essa perspectiva eleva a necessidade de limpeza do meu apartamento total para um novo nível.

E lá havia um sorriso. Não o sorriso imenso e sedutor que ele já tinha visto Derek usar mais de uma vez. Esse era pequeno e quase com medo de existir, mas Stiles sempre preferia esse.

- Eu senti sua falta. – ele não sabia como as palavras sugiram em seus lábios, mas não teve tempo de se arrepender do que disse porque a resposta de Derek foi igualmente rápida e inusitada.

- Eu senti sua falta também, Stiles.

E dessa vez o silêncio não incomodou nenhum dos dois.

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- Ele me traz presentes. – Stiles despejou no telefone no momento em que Lydia atendeu, antes mesmo dela dizer qualquer coisa. Isso era incomum, o protocolo era Stiles checar se estavam todos vivos e bem e se ela não estava acorrentada a alguma árvore sagrada ou dirigindo no meio da floresta antes de falar qualquer coisa. Isso demonstra o nível de perturbação em que ele estava.

- Presentes? Tipo flores e chocolate?

Ela parecia sonolenta, não ferida nem ofegante nem desesperada, e ele queria beijá-la por ter compreendido a situação com tão pouco.

- Eu não sou uma menina, Lydia, e estamos falando de Derek. É incrivelmente mais sutil que isso, e ao mesmo tempo muito mais embaraçoso.

- Ok. – ela fez uma pausa e ele sentiu que ela estava se despertando ou algo assim – O que ele te deu? Quero dizer, além de te pagar o jantar aquele dia, eu não me lembro de você ter dito nada do tipo.

- Ele tem me pagado comida basicamente o tempo todo, tem um copo de café na minha mesa todo dia de manhã e alguns dias surgem frutas depois do almoço. Ele não me chamou para comer com ele, mas mais de uma vez eu fui pagar o restaurante e minha conta já estava paga. Tem havido coisas também, ele me deu um kit de mini-ferramentas para informática que, sério, vou te mandar uma foto depois, é lindo. E um caderno de anotações com capa do Batman, a secretária dele simplesmente deixou em cima da minha mesa hoje.

- Isso é... atencioso.

- Lydia. – não era a resposta que ele esperava. E o silêncio que se seguiu foi ainda mais desconfortável, como se ela não quisesse falar para ele o que realmente estava pensando e ele meio que sabia o que era – É de Derek Hale que estamos falando, ok? O mesmo que investe o que tem em carros esportivos e roupas absurdamente ridículas para cobrir o corpo escultural que ele cultiva secretamente em casas queimadas ou lofts impessoais. Ele não é do tipo que pensa em detalhes ou que divide coisas. Ele não é atencioso.

- Ele era um alfa, Stiles, é óbvio que ele é atencioso.

- Ele era um péssimo alfa. Ele perdeu a coisa toda alfa dele.

- Stiles. – ela suspirou no telefone e fez uma pausa impaciente antes de voltar a falar – Você sabe o que está acontecendo, Stiles, você não é idiota. E eu sei que é por saber que você está me ligando a essa hora...

- São dez horas, Lydia.

- Isso não importa depois do que passamos essa semana e você sabe disso.

- Aliás, como estão as coisas?

- Está tudo bem. Estamos todos bem. Momento de pausa, aparentemente, e seu pai está fazendo todas as refeições e dormindo mais do que eu, não se preocupe. Agora, o que você pretende fazer?

- O que eu pretendo fazer? Como... como...

- Como você não é uma garota que ganha flores e chocolates, você não vai ter o mínimo problema para chamar ele para sair.

Stiles engoliu em seco do outro lado da linha. Então era isso, ele não vinha imaginando cenários e possibilidades indecentes e impossíveis, era realmente isso.

- Stiles, não dificulte as coisas. Você conhece as habilidades sociais do Derek, você conhece o péssimo gosto dele para escolher parceiros sexuais, então faça um favor para todos nós e chame ele para sair porque evidentemente ele quer muito isso, mas nunca vai ser capaz de pedir.

- Você conhece as minhas habilidades sociais.

- Sim, e veja bem que eu estou considerando as suas melhores do que as dele. Você sabe se ele esteve com alguém nesses anos?

- Não, ele é bonito demais para ter ficado tanto tempo sozinho, mas eu não sei nada da vida dele aqui. – ela fez um som pelo telefone que era meio descrença, meio diversão – Ok, eu googlei ele, óbvio, mas não consegui muita coisa que não seja profissional e aparentemente Cora está no Brasil.

- Não mude de assunto.

- Não estou mudando, eu tentei falar com ela, mas ela não respondeu. Ela pode ter abandonado as redes ou não querer mais contato, o que eu total entendo se for o caso, mas ela poderia ter sido uma boa fonte de informações.

- Não se ela estiver fora há muito tempo, eles não pareciam ter uma relação muito próxima. Mas, então, você vai chamar ele para ir em que tipo de encontro?

- Passeio na floresta, talvez? Seria mais fácil com uma floresta no meio de New York, mas posso improvisar uma versão de concreto, eu ainda não tive coragem de entrar no Central Park com todas as possibilidades de criaturas vivendo lá e o cheiro de lobisomens pairando sobre mim.

- Stiles.

- Eu não sei, ok? Eu não sei o que fazer. – e ele mesmo percebeu a nota de desespero em sua voz e ficou tentado a bater a cabeça em alguma superfície por iniciativa própria dessa vez. Claramente não era um bom sinal.

- Você gosta dele. – ao mesmo tempo em que isso era quase uma acusação, parecia algo muito óbvio na voz de Lydia.

- Estamos planejando um encontro, Lydia. – ele tentou parecer casual ou redundante ou qualquer coisa como se ele não estivesse apavorado com essa constatação. Seu coração não batia tão rápido desde a última vez que ele teve um ataque de pânico.

- Eu não achei que fosse sério. – a garota parecia culpada agora e Stiles sorriu do outro lado da linha, ele sabia o porquê disso.

- Nunca é, não é mesmo? – não havia sido com ela, mesmo por tanto tempo, nem com nenhuma outra pessoa com quem Stiles saiu. Não tinha porquê ser diferente agora.

- Stiles, isso é diferente. É... é Derek. Quero dizer, se eu não conhecesse ele, eu total olharia para a barba e a jaqueta e diria que ele é o tipo de cara que sai em qualquer noite e qualquer lugar e faz sexo no banheiro com desconhecidos ou o tipo que te conquista e termina com você em uma semana. Mas não. Você sabe que não. Você sabe que não é assim. Totalmente não é assim.

- Sim, eu sei. Eu sei. – e de repente Stiles se sentia extremamente desconfortável por ter insistido tanto para quebrar a barreira de Derek e voltar a falar com ele.

Como a sua vida havia se tornado tão complicada?

o0o

- Você sabe que você não precisa fazer isso. – a voz de Derek cortou o silêncio no carro e Stiles pareceu acordar da névoa de tensão que o envolvia desde aquela manhã.

Era algo simples e idiota, quase infantil, e não deveria ser nada demais a nota que ele deixou em um copo de café em cima da mesa de Derek dizendo "sexta feira, eu pago o jantar hoje". Era, obviamente, uma lembrança à noite do computador quebrado. Talvez tivesse mais lógica se fosse exatamente uma semana depois do incidente, mas o fato era que havia se passado três. Pelas contas de Stiles, eles estavam caminhando para dois meses de convívio profissional pós-separação e ele ainda não tinha informações suficientes sobre a vida de Derek para saber como agir. Mas ele queria agir e simplesmente pegou o caminho que parecia mais fácil.

Aquilo podia se tornar um encontro ou podia se tornar uma noite de amigos na semana ou podia se tornar um total desastre. E Stiles não sabia exatamente o que ele estava desejando mais de todas essas possibilidades, Derek não o respondeu, mas na hora que ele saiu do trabalho, o idiota estava encostado no próprio carro esperando por ele e o perguntou para onde deveria dirigir antes de soltar a estúpida frase.

- Eu não estou tentando te pagar nada, cara, não é isso. Eu só...

- Não quer jantar sozinho na sexta à noite? – havia uma tristeza na voz de Derek como se aquilo fosse uma lembrança ruim e Stiles não entendeu, mas isso só provava o quanto o idiota era idiota.

- Eu não estou saindo com você só porque eu estou solitário também. – ele respondeu, irritado – Você por acaso tem se dedicado a assistir romances ruins a cada minuto em que não está trabalhando desde que saiu de Beacon Hills? Porque nenhum plot de sitcom vai se encaixar aqui.

E agora as sobrancelhas estavam tentando entender aquela informação ou o julgando ou os dois ao mesmo tempo.

- Eu posso querer gastar meu tempo livre com você, Derek. Eu posso me sentir bem com isso e espero que eu possa esperar que você se sinta bem com isso também.

Não havia questionamento na última frase, Stiles não tinha essa dúvida. Entre a bagunça com o kanima e a bagunça com o darach ele e Derek haviam tido um monte de conversas e pizza tarde da noite e nada disso se parecia com o tempo que ele gastava jogando videogame com Scott ou fazendo companhia para seu pai na estação, mas era o tipo de momento com Derek e, por mais que boa parte disso eles dedicassem a repassar dados e conversar sobre coisas que podiam potencialmente salvar a vida deles e dos outros, ainda era um momento deles. Eles não eram exatamente amigos, mas Stiles nunca viu aquilo como somente sobrevivência e sabia que Derek também não, ele só não tinha certeza se resgatar isso ali, em New York, poderia ser algo bom.

Eles haviam fugido de tudo isso. Agora eles precisavam ser algo diferente.

Derek estacionou o carro e só então Stiles percebeu que haviam chegado ao restaurante. Era um japonês não muito tradicional, havia muitos pratos chineses e tailandeses também, mas o ambiente era climatizado e o lugar agradável. Ele havia vindo aqui com seu ex logo que chegou a New York como um agradecimento pela indicação de emprego e ele se sentiu aconchegado ali de uma forma que ele simplesmente não esperava que New York pudesse ser.

Derek pediu mesa para dois e, para surpresa de Stiles, preferiu uma das mesas fechadas em espaços reservados do que as mesas sociais na frente do restaurante. Uma senhora japonesa os guiou até lá, esperando que eles se acomodassem, e trouxe chá, toalhas quentes e o cardápio. Derek ordenou uma série de sushis e sashimis e agradeceu o atendimento em japonês. Stiles se limitou a encará-lo durante todo esse processo.

- O que? – Derek perguntou, suas sobrancelhas pareciam realmente incomodadas.

- Um: Lydia estava certa, eu totalmente sou uma garota com você abrindo portas e escolhendo pratos para nós dois. Eu realmente não me incomodo com isso, vou encarar como uma gentileza. – as sobrancelhas estavam rindo e isso era simplesmente fantástico - Dois: você fala japonês?

- Algumas expressões só. Havia um pack de kitsunes em Beacon Hills quando eu era criança, eles frequentavam a minha casa.

- Eu suponho que eles te ensinaram a comer sushi também. Sério, você e, bem, pessoas da sua família – Derek fez um leve aceno com a cabeça entendendo referência aos lobisomens. Isso ainda era um restaurante em New York, Stiles não ia ficar falando sobre coisas sobrenaturais se pudesse evitar – Imaginar vocês comendo sushis só me faz lembrar do leão Alex de Madagascar e a genialidade dos pinguins.

- Pelo jeito você ainda vive mergulhado em ficção. – Derek estava sorrindo e não havia nenhuma crítica ali. Stiles considerou isso uma vitória.

- Claro. Sempre. Cada vez mais. Aliás, eu vi esses dias um conto do Neil Gaiman que eu acho que você pode gostar sobre ficção e realidade. Isso total é uma linha muito tênue, cara, especialmente no nosso caso.

Derek tomou um gole de chá e o encarou por alguns momentos antes de perguntar.

- Por que você está aqui, Stiles?

E Stiles sabia que a pergunta certa era "por que você não está em Beacon Hills?".

- Eles escolheram me salvar. – Stiles optou pela verdade sabendo que Derek entenderia. Mais do que ninguém, Derek entenderia.

E ele fez um gesto indicando que entendia e estendeu a mão por cima da mesa baixa, pegando a sua em um aperto quente como as toalhas úmidas que haviam usado há pouco, porque Stiles havia começado a bater os dedos contra a mesa e eles estavam tremendo como tremiam no passado e ele sequer havia percebido. Mas Derek entendia.

A japonesa voltou com a comida e sorriu ao vê-los de mãos dadas, ainda que se separaram quase imediatamente para pegar guardanapos e hashis e se prepararem para comer. Stiles começou a falar curiosidades sobre a comida e a cultura japonesa e eventualmente alguma coisa sobre o ex que o trouxera ali e como ele nunca tinha esperado vir para New York, apesar de já estar fora de casa há anos fazendo MIT.

Derek comia e sorria e eventualmente fazia comentários. Stiles não deixou escapar o fato de que ele não falou muito sobre sua vida e sobre os anos que haviam se passado desde a última vez que conversaram livremente daquela forma, mas Stiles sentia que ele poderia perguntar agora, e talvez houvesse alguma hesitação, mas Derek lhe contaria. Ele só não quis fazer isso naquele momento.

No fim da noite, Stiles se sentia quente e leve. Ele estava cansado, também, mas cansado de forma que ele sabia que teria uma boa noite de sono, não da forma que ele simplesmente não sabia se seria capaz de acordar, como tantas vezes se sentiu.

Derek insistiu para dividirem a conta. Na verdade, ele insistiu para pagar, mas Stiles não permitiu nem uma coisa, nem outra. Ele aceitou a carona para casa, porém, se jogando preguiçoso e satisfeito no banco do carro de Derek enquanto o homem conduzia pelas ruas quase desertas da madrugada de New York seguindo suas instruções. Stiles mexia no rádio aleatoriamente, passando as músicas que estavam em um pendrive, e parava eventualmente quando Derek começava a cantarolar.

Eles chegaram rápido demais no seu apartamento, na opinião de Stiles. Ele poderia passar o resto da noite naquele carro com Derek tranquilamente.

Ele se virou para se despedir de Derek, meio sem saber como, mas ele já havia descido do lado do motorista e Stiles se apressou porque ele não permitiria que o idiota abrisse a porta do carro para ele ou algo assim. Na verdade, ele tirou a jaqueta e jogou sobre seus ombros porque estava assustadoramente frio do lado de fora e, entre ele e o lobisomem, ele poderia ficar doente, Derek não. Os dois andaram lado a lado até o hall climatizado, parando em frente ao elevador.

- Obrigado. – ele retirou a jaqueta e estendeu de volta para Derek.

O homem deixou seus dedos deslizarem sobre as costas de sua mão em um carinho leve antes de pegar a jaqueta, sem prestar nenhuma atenção ao que estava fazendo porque seus olhos estavam fixos no rosto de Stiles, como se tentassem desvendá-lo. E Stiles retribuiu o olhar, sabendo exatamente do que aquilo se tratava, mas sem saber o que fazer.

E então já não importava e não importava quem foi que deu o passo que faltava em direção ao outro porque eles estavam se beijando. A mão de Derek era quente em sua face e ele podia sentir a outra mão apoiada sobre suas costas, mas ele não sabia ao certo porque o corpo todo de Derek era quente e estava colado ao dele e seus lábios eram quentes e sua boca era quente e o beijo não era lento demais ou feroz demais, era exatamente o que Stiles precisava naquele momento e muito melhor do que tudo o que ele já pode esperar.

Stiles rompeu o beijo tentando normalizar sua respiração e acalmar um pouco as batidas que ele não sabia se eram mais fortes no seu peito ou no peito de Derek, colado ao seu. Ele sorriu, beijando de leve os lábios de Derek mais uma vez, e abriu os olhos para encontrar os olhos verdes ainda fechados, a testa apoiada contra a sua e a mão acariciando de leve suas costas, a jaqueta abandonada no chão aos seus pés.

- Eu sinto muito. – a frase veio baixa e Stiles pensou não ter entendido em um primeiro momento, mas então Derek se endireitou e se afastou minimamente, engolindo em seco antes de repetir – Eu não posso fazer isso, Stiles, eu sinto muito. Eu não posso.

E Derek se virou sem mesmo abrir os olhos, como se não suportasse olhar para ele, e em um segundo ele estava de volta no carro e saiu.

Ele simplesmente foi embora.

De novo.

-:=:-

NA: Hey, eu estou viva o/

Sorry not sorry pela demora em atualizar, guys. Eu entrei no doutorado e espero que vocês entendam quando eu digo que isso não é algo que me deixa muito tempo para coisas divertidas como fanfictions (apesar de eu pesquisar fanfictions, mas estão me fazendo mergulhar no fandom de novelas e eu não estou muito feliz com isso, mas vou sobreviver).

Enfim, processo de escrita absurdamente lento aqui, mas é pelo bem da humanidade. Por favor, tenham paciência e não me abandonem ._.

Sobre a fic: acho que está bem claro que eu estou ignorando solemente toda a season 3b. Se informações interessantes surgirem (como surgiu a Paige na 3a, por exemplo), eu posso adicionar aqui, mas isso será feito de forma coerente, prometo, e provavelmente como pequenas referências (como as mãos do Stiles, por exemplo).

Além disso, queria deixar duas referências: a música Silhouette, Active Child feat. Ellie Goulding, que faz parte da trilha sonora da série e tem me dado o ritmo certo para escrever essa fic, e essa art ( goo . gl / Mue0qi) que foi na verdade a minha inspiração inicial para o plot. O próximo capítulo vai ser sob o ponto de vista do Derek, então talvez essa imagem faça mais sentido XDDD

E o conto do Neil Gaiman que o Stiles recomenda para o Derek nesse capítulo é "Noivas proibidas dos escravos sem rosto na casa secreta da noite do temível desejo", presente no livro "Coisas Frágeis" vol. 2. Recomendo o livro inteiro para quem tiver disposição, os dois volumes.

Até o próximo e espero comentários amáveis S2