Renda-se a Mim
Não foi atormentada pelo seu maldito pesadelo que acompanhara nos últimos tempos, embora também não tivera bons sonhos, somente um descanso tranquilo e aconchegante. Curvou-se ainda mais na tentativa frustrada de se esconder da luz da manhã, queria permanecer naquele calor agradável e se afundar novamente no seu sono, mas ao fazer isso sentiu algo extremamente macio fazer cócegas em toda sua pele e uma dor em suas costas.
De repente as suas últimas lembranças vieram à tona. Tortura,. Fuga. Penhasco. Escuridão. Uma luz cálida a chamando e...
Sesshoumaru.
Os olhos azuis imediatamente se abriram para o mundo observando tudo ao redor com curiosidade. Havia uma fogueira pequena crepitante à sua frente, paredes de rochas escuras onde tinha um dragão de duas cabeças descansando no canto junto com uma garota sorridente de olhos castanhos e cabelo negro prendido na lateral. Nunca tive a oportunidade de conhecer direito, mas era deveria ter aproximadamente a mesma idade que seu irmão.
Deu um sorriso ao se lembrar da família, poderia vê-los novamente e não via a hora de fazer isso.
- Bom dia, senhorita Kagome. Finalmente acordou.
- Bom dia, Rin. - disse ainda rouca.
A menina se levantou e sentou sobre as pernas de frente à Kagome que olhava novamente para os lados a procura do Dai-youkai. Queria falar com Sesshoumaru, embora ainda não sabia o que realmente iria dizer, agradecer talvez?
- Sesshoumaru-sama mandou essas roupas para senhorita e mostrou a Rin onde tem um rio perto daqui para se banhar. - olhos azuis confusos caíram para o tecido verde água com detalhes de flores de cerejeira branca nas mãos pequeninas. - Ah, ele disse que a senhorita deve ir falar com ele quando estiver mais apresentável.
Kagome soltou um suspiro, talvez ele pedisse, ou melhor, mandasse embora. Bom ele havia sido gentil em tê-la trazido para uma caverna a protegendo do frio e dos Youkai que tinham na floresta, além de a ter tirado das trevas. Por incrível que possa parecer, ela estaria em dívidas com ele.
Um ronco alto se tornou presente entre as duas, surpreendendo a menina que ficou com olhos grandes deixando Kagome envergonhada.
- Faz dias que eu não como algo.
Rin assentiu em compressão e levantou depois de ter entregado o quimono a morena indo para próximo à fogueira, retornou com um peixe assado preso numa vareta e entregou a Kagome.
- Foi o maior que Rin consiguiu pescar.
- Foi você mesma que pescou? - perguntou surpresa deixando a menina acanhada. - Bom, obrigada Rin.
Agradeceu pela comida e comeu com vontade, até não sentia o gosto do peixe. A sua vontade era de acabar de vez com a fome que já fazia seu estômago doer. Após alguns minutos, parou por causa da falta de ar.
- O que aconteceu com a senhorita?
- Algo que eu não gosto de lembrar. - abaixo o olhar e terminou o que ainda restava de sua refeição. - Bom, então vamos logo, não posso deixar Sesshoumaru esperando.
Levantou-se com um pouco de esforço, foi então que notou que ainda estava com a manta peluda que ficava no ombro de Sesshoumaru e que atravessava nas costas sendo apoiada no ombro direito para não cair, além de estar usando uma yukata de seda branca que ia até o meio das coxas ao invés do seu uniforme branco com verde de marinheiro, ou do que sobrara dele.
- Rin, quem trocou a minha roupa? - seu rosto tomou diferentes tons de vermelho de vergonha com a possibilidade da ideia.
- A senhorita estava dormindo quando chegou, Rin ficou acordada esperando pelo o retorno de Sesshoumaru-sama, ele colocou a senhorita próxima do fogo e tirou sua yukata, disse para vesti-la antes de sair. Rin tirou os panos sujos e a vestiu. A sua roupa estranha está ali.
Seguiu o olhar de Rin para uma mini montanha de tecidos escuros, se já não tivesse lhe pertencido antes tinha absoluta certeza que não reconheceria caso estivesse em suas mãos.
Soltou um suspiro de alívio e agradeceu internamente a Kami por ter sido a Rin quem a trocou. Pegou os trapos e os jogou no fogo, em segundos se transformaram cinzas. Se virou e encontrou a menina à sua espera para saírem da caverna.
Antes da luz solar a banhasse pela primeira vez desde que fora sequestrada, o vento fresco da manhã fria balançava o seu cabelo negro e se infiltrou através do tecido dando um leve tremor na pele. Desejou tanto sua calça de moletom e o edredom de sua cama. Desejou a sua casa, a sua família.
Olhou para acima dos galhos das árvores, na esperança de encontrar um céu azul, embora ele foi substituído por nuvens escuras. Mas estava feliz de pelo menos poder sentir os pequenos raios solares que fazia de tudo para passar por entre as nuvens na tentativa de aquecê-la.
Por um momento notou a manta apertar em volta do peito, era estranho e confortável ao mesmo tempo.
- O rio não é muito longe daqui. - comentou Rin apontando para frente atraindo atenção de Kagome. - Vamos chegar em pouco tempo.
Rin tomou a frente em sua caminhada alegre e saltitante. Kagome decidiu levantar uma barreira em volta das duas, não desejava nenhum Youkai fizesse uma aparição, ao fazer isso sentiu a aura de Sesshoumaru por perto.
- É claro, ele não deixaria Rin desprotegida. - sussurrou baixinho.
Sua energia não foi hostil com a barreira vinda Kagome, parecia segui-la a medida que se afastavam da caverna, sentiu-se confiante seguir Rin.
Na medida que andavam por uma trilha estreita e escura no meio da neve branca, Kagome não dava a devida atenção para paisagem que só o inverno trazia ou o monólogo de Rin, pois ela tentava entender o porquê de seus poderes espirituais ficarem oscilando enquanto mantinha a todo custo a barreira firme em volta das duas e se não fosse só isso, a dor em suas costas se intensificou. Tinha notado isso no começo de sua caminhada.
Barreira estava falhando, quase se extinguindo, como se nunca tivesse tido. A ideia estava começando a deixá-la desesperada. Tinha absoluta certeza que não estava fraca espiritualmente, controlou muito bem os seus poderes no cativeiro para ter a fuga perfeita, o ocultando naqueles dias de escuridão. Pensando melhor quase não os sentiam e naquele lugar achou normal, como um treinamento. Mas no meio da floresta, na sua plena liberdade e não tendo nenhum perigo declarado, seus poderes podiam ficar livres.
Talvez seja um efeito colateral? Não havia treinado com Kaede o bastante para saber disso. Achou melhor manter a calma e depois encontrar um meio de consertar isso.
Pronto, havia encontrado um assunto para conversar com Sesshoumaru, talvez soubesse do motivo. Não seria tão fácil falar com ele igual aos seus amigos.
- Chegamos! - Rin exaltou com alegria a interrompendo de seus devaneios.
Finalmente deu atenção para o que estava a sua volta, tinha um rio largo com poucos galhos secos congelados do que antes era arbustos por perto, o som baixo de uma cachoeira podia ser escutado atrás das árvores brancas completava a sua visão bonita do lugar. O vento gelado apareceu novamente lhe provocando arrepios, ficou com saudades da pequena fogueira e da caverna.
- Tomara que não esteja congelando. - comentou Kagome
- Quando Rin veio pescar...
- É melhor não saber ou irei desistir. - interveio antes de Rin continuar.
Decidiu que era melhor não pensar assim voltaria mais rápido para caverna. Com muito custo conseguiu tirar a manta e com ela se foi a sensação de segurança e conforto, quando ia dobrar notou manchas vermelhas em boa parte nela, parecia ser sangue. Engoliu em seco, pensou que a ferida tivesse sarado igual as outras quando contatou ao estar sendo carregada na noite passada. Dor nas costas ficou mais forte, arfou em silêncio e logo a pequenina veio ao seu socorro.
- Senhorita Kagome, está sangrando novamente. - informou Rin com uma preocupação quase chorosa.
- Não se preocupe, é só lavar e colocar uma erva medicinal. Devo achar facilmente apesar da neve. - tentou dizer, mesmo que não tenha conseguido toda positividade que tentava transparecer
- Tenho que chamar Sesshoumaru-sama...
- Não precisa. - se endireitou e colocou um sorriso no rosto. - Não queria que ela andasse por aí sem uma proteção. Vamos fazer assim, eu tomo um banho rápido, limparei a ferida e depois iremos atrás de uma erva para curar essa ferida. Então precisarei de sua ajuda para passar, poderia fazer isso por mim?
Rin demorou para responder, sabia que Kagome estava fingindo que não estava sentindo muita dor e também não podia deixa-la sem ninguém para auxiliar. Somente concordou e assistiu a morena fazer careta enquanto desfazia o laço frouxo e tirava yukata suja de sangue a colocando na neve junto com a manta.
Kagome se dirigiu com o corpo nu para o rio gelado, ignorou o choque térmico ao entrar. Resmungou da ardência quando a água tocou no corte. Lavou-se no melhor que pôde se livrando de todas sujeiras que tinha, não demorou muito, pois os dentes trincando poderia ser escutado à longe.
De repente enquanto se aproximava da margem sente uma forte energia demoníaca vindo na sua direção com rapidez. Saiu do rio e vestiu rápido o quimono ignorando seu tormento, notou que não possuía mais tempo para fugir depois de ter fechado o faço, então puxou Rin para si. Teria que lutar mesmo sem o seu arco e flechas, intensificou a barreira e pedia mentalmente a Kami que quem estivesse vindo naquela direção passasse sem dar atenção à elas ou estariam em apuros.
Desceu do céu causando um grande estrago no solo e nos galhos secos das árvores, um estrondo pôde ser ouvido seguido por baixo rosnado. Um grande cachorro de longa pelagem branca, principalmente, nas orelhas se pôs diante delas, seus olhos rubros combinavam perfeitamente com a pequena lista rosa debaixo deles e tinha uma meia lua na testa.
Kagome tinha absoluta certeza que não era Sesshoumaru, pois o cão possuía as quartas patas o apoiando na cratera que fora feita pelo impacto.
O cão farejou o ar e começou a rosnar mais alto para as duas, então uma explosão de luz saiu do cachorro. Kagome se amaldiçoou por ainda estar sentindo dor e não ter o seu arco e flechas, como poderia "lutar" ou ser um pequeno problema para um youkai daquele tamanho? A única coisa que poderia fazer é ser uma isca e assim dar tempo para Rin fugir. A morena trouxe Rin mais perto de seu corpo.
- Quero que fuja. - sussurrou próximo ao ouvido da menina.
- Eu não...
- Salva-se, lhe darei tempo...
- Como se não fosse possível escutar o seu plano. - uma voz feminina saiu de dentro da luz que já diminuía a intensidade permitindo ver uma forma elegante. - Diga-me humana, onde está Sesshoumaru?
Era uma youkai de longas madeixas prateadas presa em dois rabo-de-cavalo, vestida como fosse da realeza. Ela caminhava calmamente para mais perto das duas. Sua voz era igual a sua expressão facial, linda e indiferente. Ela parecia ser uma versão feminina de Sesshoumaru, pois possuía a mesma meia lua na testa e olhos dourados, embora debaixo deles tinha somente uma pequena lista rosa.
- É uma falta de educação quando não responde quando lhe faz uma pergunta. - a repreendeu com ameaça nos olhos.
Kagome achou melhor responder logo de uma vez, se ela fosse tão parecida na personalidade quanto era fisicamente ao Sesshoumaru, seus minutos estavam contados, porque não os esticá-los ainda mais? No momento que as palavras sairiam de sua boca, ela sentiu a presença do Dai-youkai se aproximando e no mesmo instante notou algo de errado.
O Inu-youkai saiu dentre as árvores com toda sua prepotência emitindo uma raiva palpável se pondo na frente da Miko e Rin. A youkai se aproximou ainda mais e deu um abraço carinhoso nele, mas ele não devolveu o afeto.
- Certo, agora as coisas estavam começando a ficar estranho. - murmurou Kagome.
- Kagome-chan? Ela é tão linda, será que é a irmã de Sesshoumaru-sama?
Uma risada alegre, embora parecesse forçada foi ouvida e a fêmea se afastou do Youkai e olhou para Rin.
- Apesar de ser uma humana, a pequena sabe como elogiar alguém. - olhou novamente para Sesshoumaru - Se odeia tanto os humanos, porque têm duas com a presença da energia de Tenseiga e o seu cheiro?
- Isso não lhe dizer ao respeito.
- Está enganado, filhote. No começo da madrugada sinto Tenseiga utilizar toda sua energia igual quando salva 100 vidas e também senti que meu filhote ficou fraco, mas não se preocupe, isso aconteceu com o seu pai quando ele um reino inteiro e se tornou muito mais forte depois de isso aconteceu. Pelo que eu vejo, você não retirou 100 vidas da morte somente uma. Um desperdício de...
A barreira rosa desapareceu e Kagome desabou sobre o chão por não conseguir mais mexer o corpo, somente sentia a dor dilacerante no corpo e agonia pela falta de ar, sua mente só processava o que acontecia ao seu redor e no seu corpo. Viu Rin debruçar sobre ela com lágrimas descendo em cascata, queria poder se mexer só para consolá-la.
- Qual é o veneno que paralisa o corpo lhe dando uma morte lenta em agonia enquanto chega ao coração? Não possui odor e nem gosto, é impossível de ser detectado além do olfato apurado de um Inu-youkai, mas somente quando estar na sua verdadeira identidade. - enigmou a youkai enquanto se aproximava da garota. - Fugu é um veneno bastante difícil de encontrar em Edo, quem te venenou deve ter muito conhecimento sobre isso e deve te odiar muito, mas não considerou que seus poderes iriam impedir que o veneno chegasse ao coração e quando usou nessa barreira deu a oportunidade de espalhar pelo corpo.
- Tem como salvar a Kagome? - perguntou Rin desesperada.
- Não existe antídoto. - disse Sesshoumaru.
- Mas Tenseiga... - houve um pequeno brilho de esperança nos olhos castanhos.
- Tenseiga só pode trazer a vida uma única vez. - interrompeu a youkai que ficou na mesma altura da menina. - Há um meio de salva-la, mas eu não sei o quanto ela é importante para Sesshoumaru.
As duas olharam para o Dai-youkai, ele simplesmente olhava para a Miko, estava atento aos batimentos fracos e o olhar perdendo o mesmo brilho. A morte à reivindicaria pela segunda vez e não haveria volta. Aproximou-se de Kagome e ajoelhou ao seu lado, rasgou a parte de cima do quimono dela deixando evidente a grande ferida na diagonal na pele branca de suas costas.
- Garota problemática.
Mordeu sua mão até que uma fila de sangue escorrer para a ponta de sua garra já verde pela sua energia demoníaca, passou sobre a ferida dela. Seus olhos começaram a ficar rubros enquanto se abaixava, sentiu o gosto doce do sangue de Kagome e do veneno no seu corpo. Viu a ferida começar a se fechar ficando no lugar uma cicatriz rosada e saliente.
Um grito ecoou no lugar depois de uma pulsação forte sair da Kagome, ela gritou de novo ainda mais alto quando o poder dela explodiu. Imediatamente a youkai pegou Rin nos braços e pulou para longe da explosão.
- O que está acontecendo? - perguntou Rin observando a massa brilhante rosa com duas sombras dentro.
- A humana está reagindo contra a energia de Sesshoumaru, imaginei que purificaria somente a energia maligna dele dentro dela. Mas o seu poder é extremamente forte, está purificando tudo, até você pequena, se estivesse lá sairia prejudicada.
- Kagome-chan nunca faria isso, Kagome-chan cuida de Rin.
- Pensei que ela fosse sua mãe.
A youkai comentou sem tirar os olhos para o que acontecia dentro da luz rosa, estava curiosa e maravilhada pela Miko. Se fosse qualquer youkai menor ou um humano normal teria morrido em minutos e se fosse as Mikos que conhecia já teria morrido assim que o sangue de Sesshoumaru entrasse no corpo. Ela era diferente e intrigante.
- Ela não é, mas... - o tom melancólico saiu de Rin.
- Queria que fosse? - interrompeu a youkai trazendo Rin para mais perto e afagou o seu cabelo. - Não se preocupe. Se depender de meu filho, ela ficará bem. Embora ele seja daquele jeito, Sesshoumaru é bastante parecido com o pai.
O poder que ela emanava era muito forte e estava começando a fazer queimaduras na sua pele, ela estava se transformando numa bomba atômica pronta para explodir à qualquer momento e ela o levaria. Kagome gritou com mais força antes de outra pulsação e explosão de luz sair do corpo, Sesshoumaru a trouxe para mais perto de si, a abraçando para impedir que se debatesse.
- Deixe agir.
- Não! Está queimando! - disse com dificuldade.
- Renda-se a esse Sesshoumaru, der seu sofrimento, sua dor.
Kagome se afastou, rosto contorcido pela dor, os olhos azuis haviam sumido pela luz rosa, fitavam diretamente para os olhos vermelhos dele. Ele nunca havia visto alguém emanar poder a ponto de ser mostrado através dos olhos. Sabia que a Miko era poderosa, mas não a esse ponto.
- Por quê eu deveria confiar?! - vozes saiu dela que ecoaram pela floresta.
- Porque, esse Sesshoumaru irá te curar, irá te salvar.
