Capítulo 02

Um dia. Um dia havia se passado desde o que ocorrera na sala do Chefe de Cirurgia e Administrativo, na sala de Robert Romano. E Elizabeth não tivera paz. Fora sua folga no dia seguinte, podendo usar todo o tempo para ficar com a filha pequena, o que muito a alegrava e deveria ajudar a espairecer. Mas a felicidade é algo fugaz nessa vida. Com o cair da noite, o sentimento de prazer deu lugar ao receio, ansiedade e apreensão. Precisaria voltar a trabalhar no dia seguinte.

Ainda não alcançara sua resposta. Em verdade, passara todo esse tempo com medo de pensar e chegar a um resultado indesejado. A preocupava saber qual era sua vontade, pois, de acordo com o que lembrava, o impulso de seu corpo fora bem claro quanto ao que queria para si. Mas sua mente estava em desacordo. Estava ciente de que Robert era um homem odioso, detestado em todo o County General, por cada um dos funcionários, e tinha motivos de sobra para o ser. Por que, dentre tantos médicos, ela não poderia ficar com os bons moços, como Mark e Peter? Não, ela tinha que abrir as pernas para um homem egocêntrico, maníaco, controlador, prepotente… Poderia passar o resto da noite tecendo adjetivos e ainda assim não seriam o suficiente para descrevê-lo com precisão.

Deitada na cama, tentou dormir, mas apenas se pegou imaginando o que faria no dia seguinte. Agiria como se nada tivesse acontecido? Procuraria por mais? Ou daria uma chance ao acaso? Talvez devesse esperar para ver como ele reagiria, se a procuraria novamente, ou se tivera seu desejo satisfeito, hipótese em que não haveria mais motivo para ficar divagando entre possibilidades. E chegava à conclusão de que não era mais uma garotinha adolescente para ficar esperando que um homem a definisse, que caberia apenas a ela a escolha, sem poder se refugiar em artifícios.

O despertador tocou ao raiar das primeiras luzes do dia. Elizabeth levantou-se lentamente, não conseguira dormir quase nada, estava exausta. Preparou um chá quente e, enquanto afogava o saquinho de folhas, lançava olhares para o telefone. Era um risco que, na condição psicológica atual, estava disposta a correr. Na pior das hipóteses, seria advertida, porém, não acreditava que isso fosse acontecer. Sua mão correu para o fone e logo se viu discando para a recepção do Centro Cirúrgico do County General.

- Alô? Aqui é a Doutora Elizabeth Corday, estou ligando para dizer que não estou bem hoje e que não irei trabalhar - falou para a recepcionista.

Houve um instante de silêncio abafado, em seguida a mulher repetia suas palavras para outra pessoa. Um som rouco foi ouvido do outro lado da linha, como se o telefone fosse tomado, e logo veio a resposta:

- Venha para cá agora, se ainda quiser ter um emprego!

Ela bateu o telefone como se tivesse tomado um choque. Respirando fundo, o eco da voz de Robert ainda a fazia estremecer. Dizia a si mesma que precisava enfrentar esse problema, deveria reverter ao seu favor, e estava decidida, munida de coragem, era o que faria. Se ele pretendia seguir tratando-a mal, como se nada tivesse acontecido, que fosse, ao menos assim poderia trabalhar com certa paz, sem esperar um possível ataque a qualquer instante. Assim, arrumou-se para o trabalho, recebeu a babá da filha em casa e foi para o hospital.

Chegando no County, foi imediatamente para o andar do Centro Cirúrgico. Passou quase como um furacão, mal falando com as enfermeiras, enquanto se dirigia ao vestiário feminino, o local mais seguro de todo o prédio. Trocou de roupa, colocando as vestes de trabalho e o jaleco. Só então desceu para o térreo, o piso da Emergência, onde gostaria de trabalhar todo o restante do seu dia.

Como era de costume, a Emergência estava lotada, muitos pacientes aguardando atendimento, residentes e internos passando de um lado para o outro, alguns a chamando para consultas cirúrgicas, outros apenas cumprimentando. Carter foi o primeiro que a parou, pedindo para confirmar uma possível apendicite. Prontamente, ela se dirigiu para o leito, ouviu a apresentação do interno encarregado e examinou o paciente, um rapaz jovem de dezesseis anos, com dor no quadrante inferior do abdome.

- Peça uma ultra-sonografia e uma tomografia com contraste - indicou, depois de realizar o exame de toque.

E continuou, indo para a recepção, se encarregar de outros pacientes.

Era uma das poucas vezes que se sentia tranquila. Gostava de trabalhar, isso ocupava sua mente, porém, não deixava de lembrar da vez em que brigara com Mark, depois de Ella ingerir os comprimidos de anfetamina de Rachel, ocasião em que ela ficara todo o tempo escondida no Centro Cirúrgico para não ter que encarar o marido. Mas isso eram águas passadas, ainda que ela se mantivesse a mesma covarde.

Foi no final da manhã quando o movimento ficou mais intenso, e chegaram dois sérios traumas de acidentes automobilísticos. Elizabeth precisava dar conta dos dois pacientes ao mesmo tempo, contando com a ajuda de Kovac e Pratt em um, e Carter e Chen para o outro. Sua calma foi toda embora quando Luka e Greg começaram a discutir sobre que procedimento adotar e, não fosse pela sua própria capacidade de lidar com o conflito, talvez tivesse sido impossível de levar o paciente em tempo para ser operado. Ficou encarregada de subir com o segundo ferido, encaminhando-o ela mesma para o Centro Cirúrgico. O homem foi rapidamente preparado, e logo ela o estava abrindo para reparar uma grave e extensa hemorragia interna, bem do tipo de procedimento que precisava.

Havia uma certa paz em ficar numa sala de cirurgia. O sangue, as vísceras, tantos órgãos pulsantes à sua frente e que dependiam de seu julgamento rápido para viver ou morrer. Era como usar de suas melhores habilidades para ter o poder de um deus, e isso a deixava feliz, pois podia encaminhar o seu talento para um bom propósito. Sentia-se calma, sendo o único momento em que sua mente se colocava inteiramente focada em um único objeto, não se deixando abalar por fatores externos.

A cirurgia foi longa, mas ela foi capaz de reparar todos os danos. Já era tarde, estava se sentindo cansada, então pensou em terminar as anotações que deixara pendentes. Porém, havia um problema. Como fora encarregada de ser Sub-chefe de Cirurgia, muitos de seus documentos estavam na sala do Chefe do Centro Cirúrgico, visto que ele não se incomodara que dividissem o espaço sempre que ela precisasse. Mas ela não queria entrar lá. Assim, passou primeiro na recepção, se certificou que Robert estaria bastante ocupado por um bom tempo, e foi só então até a sala concluir os seus trabalhos.

Estava de volta àquele lugar. Ligou as luzes e olhou ao redor, tudo meticulosamente arrumado, como se nada jamais tivesse acontecido. E nada havia acontecido, era o que repetia para si mesma durante todo o tempo. Deteve-se alguns segundos na mesa, a mesma em que estivera deitada dias atrás, e que estava agora em perfeita ordem. Então por que se incomodava tanto? Continuou com o que viera fazer. Sentou-se à cadeira do chefe, espalhou suas pastas e começou a arrumar as anotações.

Deve ter sido toda a privação de sono que sofreu nos últimos dias, pois adormeceu que nem foi capaz de perceber. Quando se deu conta, estava com a cabeça deitada na mesa, usando o braço de travesseiro e um casaco preto jogado sobre os ombros. Acordou um pouco assustada, pois a peça não era sua e claramente alguém estivera ali sem que percebesse. Era o sobretudo de Robert, logo reconheceu pelo modelo e, num impulso, segurou-o pelas duas mãos para sentir o cheiro. Ao perceber o que fazia, soltou-o de imediato. No fim, ela não escapara e nada saíra tão bem quanto desejava.

Levantou-se, recolheu seus papéis e os guardou de volta numa gaveta. Continuaria outro dia, naquele momento não estava com cabeça para esse serviço. Deixou a sala, fechando-a, e se dirigindo à recepção. Enquanto olhava as fichas dos pacientes, procurando por algo interessante para fazer, ouviu ser chamada:

- Finalmente acordou! Espero não estar te pagando pra dormir, pois já basta o que este hospital paga aos internos para não fazerem nada.

O tom era irônico e a irritava profundamente, em especial por ter sido pega desprevenida. Poderia ter levado mais algum tempo na sala, poderia até nunca ter cochilado, mas agora era tarde. Virou-se para encarar Robert com um sorriso falso, o mesmo que aprendera, desde que chegara, a exibir em tais situações desagradáveis, enquanto respondia como se não tivesse ouvido nada do que dissera:

- O que deseja?

- Bom, para começar, que os médicos entendam que não devem dormir no hospital, em especial na minha sala. Segundo, que a incompetência daqueles sub-médicos da Emergência não esteja afetando o seu juízo. Terceiro, que ser for para você ser inútil, vá para casa e descanse, e pode não voltar mais.

Ele falava quase sem respirar, o que não dava a menor oportunidade a Elizabeth de se defender ou mudar de assunto. Ela estava ficando enfurecida e a cada segundo apenas repetia em sua mente todos os adjetivos que listara no dia anterior, lembrando-se os motivos para o querer bem longe de sua vida. Quando finalmente encontrou uma brecha e pode responder, falou com frieza, deixando transparecer seu descontento:

- É só isso? Pois estou voltando para a Emergência.

- Não, negativo, você vai entrar na apendicectomia que o Doutor Carter lhe designou, mas que você, pelo visto, esqueceu.

Elizabeth apertou os dentes com força. Estava tão desnorteada desde que acordara que realmente se esquecera de conferir os resultados com Carter e isso fora uma imensa falha sua. Não disse mais nada, nem poderia na frente dos funcionários que passavam no corredor. Simplesmente perguntou:

- Qual sala?

- Sala um. Mas corra, eu já havia designado outra pessoa em seu lugar.

O diálogo foi seco, fazendo com que ela se afastasse tão logo sabia para onde ir. Chegou ao lavatório e tratou de ir se higienizando, enquanto dizia uma lista de impropérios em sua mente. No entanto, para sua surpresa, ela não estaria sozinha. Robert entrava também no ambiente e já começava a se preparar para a cirurgia.

- Você vai operar? - Ela perguntou um tanto surpresa, visto que o atendente ainda não realizava procedimentos devido à recuperação do braço.

- Não, mas você vai - foi a resposta.

- Não preciso de sua supervisão - ofendera-se, visto que, desde que aceitara o cargo de Sub-chefe, já não era mais nenhuma residente.

- Deixe-me colocar desta maneira: Eu sou o Chefe Administrativo desde hospital e, enquanto o for, eu vou entrar na cirurgia de quem eu quiser, fazer o que eu quiser, e se isso te incomoda, sua presença em nosso pessoal não fará falta.

Não havia necessidade de se dizer mais nada. Elizabeth terminou de lavar entre os dedos, enxaguou e fechou a torneira. Entrou na sala de cirurgia, onde a enfermeira colocou a capa protetora sobre sua roupa, bem como os óculos e as luvas. Estava tudo pronto, podia começar, não fosse a presença desagradável de Robert à sua frente, do outro lado do paciente, observando cada um de seus movimentos.

A porta da sala abriu-se mais uma vez. Para completar o quadro nauseante, eis que Doutor Dale Edson, agora plantonista de cirurgia no County General, entrava inteiramente pronto para participar.

- Ah, Doutora Corday, Doutor Romano, não esperava encontrar nenhum dos dois aqui. Mas muito me alegra saber que já está de volta às cirurgias, Doutor Romano. Se me permitem, posso perguntar o que estão fazendo com o meu paciente? - Ele se aproximava também, com um ar superior.

- Eu estou para operar o meu paciente, que eu consultei na Emergência - Elizabeth respondeu com frieza. - Agora que estou aqui, creio que seus serviços não sejam mais necessários, Doutor Edson.

- Ora, doutora, deve estar havendo algum erro, pois eu fui designado pelo próprio Chefe de Cirurgia. Correto, Doutor Romano? - E voltava-se para o outro cirurgião.

Foram instantes tensos, nos quais Elizabeth desviava o olhar de um para o outro, detendo-se em Robert. Perguntava-se se ele seria capaz de dar esse prazer a Dale, depois do período em que a designou e fez sofrer como interna do mesmo. Algo em sua mente já a fazia aguardar pelo pior, porém, ela também não era a mais ética das pessoas e esperava que o último encontro houvesse servido de algo para influenciá-lo em seu favor. Praticamente qualquer arma valia se fosse para ser usada contra Dale.

- Doutor Edson pode ficar para assistir à operação - foi o veredicto. - Agora, Lizzie, você vai começar ou devo pegar o bisturi e fazer eu mesmo?

Ele continuava a ser rude, como sempre fora, porém isso agora a irritava ainda mais, se possível. Mas o que ela esperava? Enquanto cortava o abdome de seu paciente, sentia-se ser olhada, quase violada. Não era mais como antes, quando simplesmente escolhera ignorar os constantes ataques à sua pessoa, ou se recusara a prestar depoimento por assédio de seu superior.

Algo havia mudado para sempre nessa relação a partir do momento em que ela havia cedido à única vontade que a mantinha superior a Robert. Era difícil não conseguir ver a si própria como uma mulher miserável, tendo entregue seu bem mais precioso, o seu corpo, a alguém que não fazia em nada por merecer.

- Não há necessidade de duas pessoas para proceder uma apendicectomia - ela respondeu com indignação, visto que o outro atendente não estava fazendo absolutamente nada na sala, mas tão somente esperava.

- Vai contrariar a decisão do Chefe de Cirurgia, Lizzie? - Robert a perguntou muito sério, deixando-a sem escolha, a não ser ceder.

- Claro, Lizzie, não vejo problema algum em trabalharmos juntos, afinal, os casos mais simples são os que constroem as bases para os bons cirurgiões. Estou certo? - A voz de Dale soava irritante e forçada.

- Não me chame de Lizzie - Falou com agressividade, erguendo o rosto para o colega, e só depois voltando ao que fazia.

- Ora, doutor Romano lhe chama de Lizzie - Ele ria, achando graça da forma como ela se irritava sem motivo.

E foi um momento em que Elizabeth precisou parar para pensar. Ela realmente jamais reclamara com Robert pelo fato de chama-la de Lizzie e ser o único em todo hospital a fazer isso. Porém, esta não era a primeira vez que o fazia com Dale. Mesmo quando a convivência com Romano tornou-se quase impossível, nada disse a esse respeito. Imaginara, na época em questão, que apenas tolerava tal nome, como aos demais abusos, por se tratar de seu superior, de quem precisava, por bem ou mal.

Então por que ainda mantinha? Ela já era uma atendente, contratada, sem necessidade de bajular ninguém para sobreviver no County General. Ergueu os olhos por instantes, apenas para constatar que Robert a olhava, era como se ele também quisesse saber a resposta. Mas não daria essa graça.

E continuava a cortar, pele, carne, músculo, gordura, cortar e cortar mais, até alcançar os órgãos. Essa era a sua terapia.

- Me diga, Doutora Corday, por que não optou por realizar o procedimento por meio de laparoscopia?

Não bastasse já tê-la perturbado antes de iniciar a cirurgia, precisava fazê-lo durante também. Ela soltou um ruído quase inaudível de desprezo, incomodada com a pergunta tão básica que lhe era feita, e respondeu quase como um livro técnico:

- O paciente apresenta o apêndice inflamado, correndo o risco de estourar a qualquer minuto, expandindo assim a infecção. Ainda que seja uma técnica mais invasiva por ser necessário um corte mais extenso, é mais segura a remoção do apêndice por meio da laparotomia do que pela laparoscopia, situação em que há um risco maior do rompimento do apêndice - e acrescentou, num tom um pouco mais baixo, com um lampejo venenoso em seu olhar - Guarde essas perguntas para os seus internos, isso não é digno de você.

Chegara em um ponto no qual sabia estar comprando briga e não se importava. Queria ver do que ele seria capaz, queria que lhe desse mais e mais motivos para detesta-lo, pois ela o faria com prazer. "Devia ter decepado a cabeça em vez do braço", lembrava de ter ouvido falarem algumas vezes, e não conseguia sentir a menor pena. Ergueu os olhos, e ele a encarava, não ao que ela estava fazendo, como deveria, mas a ela mesma em seus olhos. Imaginava que estaria maquinando alguma coisa cruel e vil, uma nova forma de puni-la depois do que dissera, porém, jamais saberia de verdade.

- Sucção - ela pediu.

- Dale, segure o sugador - Robert ordenou.

- Mas Doutor Romano… - Dale ria, imaginando ser apenas uma brincadeira.

- Agora - mas o chefe não estava achando graça e parecia estar falando muito sério.

Contrariado, Dale pegou o sugador e auxiliou Elizabeth no procedimento, tudo sob estrita supervisão. A cirurgiã desejou rir, lembrando-se da última vez em que os três estiveram naquela mesma sala, juntamente com Peter Benton, ocasião na qual Robert tentou de todas as formas reduzir a participação da mulher e maximizar a de Dale, apenas para irrita-la e a Peter. Fizera até mesmo com que ela fosse encarregada do sugador. Agora parecia o momento da vingança, ausente apenas mais um pequeno detalhe.

- Edson, você se contaminou - ela disse sem motivo algum.

- Eu não - o outro respondeu surpreso com a acusação, olhando para o chefe a espera de suporte.

- Saia, Dale, você se contaminou - Robert seguiu a história, ainda que estando mais do que claro ser uma mentira.

- Não podem estar falando sério - Edson tentava argumentar.

Era o que faltava, ainda que não fosse uma retribuição a altura por tê-la tirado de todas as cirurgias durante seu internato. Apenas essa pequena humilhação e o olhar furioso que o rapaz a dirigiu seriam suficientes por vez. Imaginou qual seria o jogo de Robert com tudo aquilo, hora a apoiava, hora a contradizia. Deveria estar sendo algo muito divertido, coloca-la sob diversas situações. Começara a imaginar se o privilégio de inferniza-la era exclusivamente dele e para isso Dale deveria ser apenas uma peça, mas nunca um jogador. Ao menos o raciocínio explicaria o comportamento dos últimos anos.

Terminou a cirurgia em silêncio, dizendo apenas as ordens necessárias ao deslinde adequado do procedimento. Fechou o paciente e o mandou para a sala de recuperação, seguindo para o lavatório mais uma vez. Fizera tudo e fizera muito bem, poderia se limpar, tomar banho e ir para casa ficar com sua filha. Ou ao menos assim esperava que fosse, pois a rotina no hospital podia ser sempre uma surpresa.

Não foi diferente. Passava pela recepção, a caminho do vestiário, quando foi chamada e informada de que precisaria ir na Emergência, pois novos traumas haviam chegado. Certamente o destino se encarregara de sua punição muito mais do que seu chefe. Rumou para o último andar, precisando atender a mais pacientes, dessa vez um caso de atropelamento de uma bicicleta por um carro.

O atendimento emergencial em si foi rápido, o problema foi a cirurgia. Estava se lavando mais uma vez, quando a babá de sua filha telefonou, dizendo que precisava ir para casa devido ao adiantado da hora. Era em dias assim que se arrependia de ser médica. Pediu então para trazer a menina e deixa-la na creche do hospital, se ainda estivesse aberta. Estava tão nervosa que nem conseguia pensar direito e, quando levantou os olhos, Robert a observava através do vidro e se retirava. Imaginava que ele fora constatar pessoalmente que seu intento de arruinar a noite dela se realizara com sucesso.

A operação foi longa, durando mais de cinco horas. Cansada de ficar em pé, Elizabeth saiu da sala de cirurgia com o que restava de suas forças e rumou para a creche, constatando que estava fechada. Perguntou para as recepcionistas onde estava sua filha, mas ninguém sabia dizer. Foi em direção à Emergência, pois lá seus colegas conheciam e menina e poderiam saber de alguma coisa. Não houve erro, a pequena estava sentada numa maca, vez que o movimento no setor estava baixo, e sendo observada por Abby.

- Sua babá a deixou há algumas horas e como a creche fechou e você estava em cirurgia, Doutor Romano me mandou cuidar dela - a enfermeira informou.

- Ele mandou foi? - Perguntou enquanto exibia um enorme sorriso para a filha, que era imediatamente retribuído. Pegou-a no colo e a abraçou bem forte, fazendo cócegas na barriga. - Pois diga a ele que não será mais necessário, pois eu estou indo embora e levando Ella junto - o que mais desejava naquele momento.

Elizabeth conduziu a filha de volta ao andar do Centro Cirúrgico, para trocar de roupa e pegar os seus pertences no vestiário. Passou na recepção brevemente, apenas para se despedir dos funcionários, quando uma das enfermeiras a entregou um bilhete com uma nota de apreensão na voz:

- Sinto muito, Doutora Corday, mas se a senhora não vier comigo, Doutor Romano vai demitir nós duas.

Aquela ameaça já era tão típica que chegava a parecer uma brincadeira depois das primeiras dez vezes, ainda que ela soubesse se tratar de algo real. Inconformada, pediu para que cuidasse de sua filha enquanto ia resolver seu chamado.

Bateu antes de entrar por mero hábito, não que ele merecesse ou partilhasse dessa consideração para com ela, e abriu a porta. Robert se encontrava sentado à sua cadeira, falando no telefone com alguém, mas tão logo a viu, desligou, e fez um gesto convidando-a para que se sentasse diante dele. Ela não o fez, apenas se aproximando um pouco e ficando parada, em pé, à frente da mesa. Queria o mínimo de contato possível, tanto com o ambiente quanto com o dono, e ir logo embora dali.

- O que houve, Robert? Já passou em muito da minha hora e Ella precisa ir dormir - perguntou cansada do jogo que estava prestes a recomeçar.

- Não me interessa o que você faz com seus coleguinhas da Emergência ou de Cirurgia, realmente não me importo com o que queira fazer com Dale, mas eu não sou seu colega - começou com uma voz imperativa, que chegou a surpreendê-la um pouco, pois foi completamente inesperado. - Eu não te coloquei nesse cargo para que pense que somos iguais ou que pode me dizer o que fazer. Eu sou seu chefe e você vai me respeitar como tal e fazer tudo que eu mandar.

- Você pode ser meu chefe, mas eu já provei diversas vezes que sou competente para conduzir uma sala de cirurgia sozinha e que não preciso de sua assistência, em especial para um procedimento de rotina - retrucou de forma mais enérgica do que pretendia, pois sabia que estava correta em suas colocações.

- Não me interessa o que você ache! Se ainda quiser ter um futuro como atendente neste hospital, comece a fazer o que eu digo! - A conversa começava a ficar mais perigosa a medida em que o tom de voz se elevava.

- Está me ameaçando de novo? - Elizabeth não podia acreditar que ainda tivesse essa audácia, depois de todas as ameaças que sofrera, depois de ser coagida e ceder para conseguir o cargo de residente de volta. De fato, ainda ainda se arrependia amargamente da primeira conversa que tiveram "sobre seu futuro no hospital".

- Eu não ameaço. Apenas digo para não estragar sua carreira sendo insubordinada - ele fava de forma mais branda, mas não era menos perigoso.

Elizabeth abriu a boca para contestar, mas logo a fechou e seguiu para a saída. Caminhou com passos firmes, tomada pela fúria, mas, antes de tocar na porta, voltou como se conduzida pelo fogo do próprio inferno. Tantas emoções, tantos sentimentos de anos e anos de abusos pareciam tomar forma em seu peito, que, talvez fosse só o cansaço, mas a única vontade que possuía era de vomitar tudo diante daquele homem.

- Não, eu não vou mais deixar que me ameace! - Falou finalmente. - Eu sei o quanto valho e sei como sou boa no que faço! Se quiser me demitir, vá em frente, eu já não ligo mais. Apenas saiba que estará fazendo isso por simples perseguição à minha pessoa, como já fez antes. Você é um covarde, mal-caráter, incapaz de aceitar a derrota, e que só sabe usar de seu cargo para atacar as pessoas e obrigar a fazerem as suas vontades. Pois, veja só, eu cansei! Cansei de ser pisada, humilhada e sub-aproveitada! Cansei de ter horas e mais horas privadas de estar com a minha filha. Nenhuma residência vale o que você me fez passar como interna, mas eu aguentei porque tinha Peter e Mark. Também nenhum cargo de atendente ou sub-chefia vale o que está me fazendo passar agora, mas a diferença é que não tenho mais motivo para ficar.

Finalmente ela parou, estava ofegante e impressionada com as próprias palavras. Não acreditava no que havia dito, que acabara de informar seu pedido de demissão. A julgar pela expressão de Robert, ele parecia tão chocado quanto ela, e isso era bom. Quando ele se pronunciou, foi para dizer apenas duas frases:

- Tire o dia de amanhã de folga. Volte depois e conversamos sobre isso.

Mas ela estava decidida, resoluta com as palavras que já havia jogado ao vento e agora não poderia mais voltar atrás:

- Não, Robert, acabou. Eu não consigo mais conviver com você, não consigo suportar a pessoa que você é. Por vezes eu fico confusa, e você é bom, bom até demais comigo, o que me faz pensar, mas em outros momentos… Em quase todos os momentos… Eu me importo com você e sei que está passando por uma situação complicada. Mas não é em mim que vai descontar as suas frustrações. Adeus.

Sem esperar que lhe dissesse mais nada, tornando-se incapaz de ouvir qualquer coisa que ele pudesse ter dito naquele momento, deixou a sala sentindo-se leve. Pegou a filha na recepção e encaminhou-se para casa.

Esta seria uma boa noite de sono. Seus problemas haviam acabado, Robert Romano sairia de sua vida, poderia voltar a respirar, ainda que isso significasse procurar um novo emprego. Mas quem se importava? Ao menos era agora a chefe de sua própria vida, e o mundo era imenso de oportunidades.

N.A.: Vamos falar de coisas boas! Primeiramente, não há de quê! Eu estava louca pra me vingar de Dale desde o primeiro instante em que ele apareceu como o residente de Elizabeth, enquanto interna. Na verdade, acho que todo mundo estava esperando ela dar o troco que, para minha infelicidade, os produtores da série nunca colocaram. Eu até gostaria de ter usado mais Dale, porém, tenho muito bem em mente que ele é um covarde e jamais enfrentaria o status de Elizabeth, muito menos o de Robert, então achei suficiente como fiz. Quanto à conduta de Elizabeth em si, eu escolhi fazer esse capítulo todo sob a perspectiva dela, diferente do anterior que ficava variando, pois, em minha opinião, o lado de Robert da história é muito mais divertido quando visto sob o prisma da própria Lizzie (eu ainda acho que ela gosta desse apelido), além de que, foi preciso mostrar toda a insegurança e a confusão dela (o seriado já mostrou que ela é assim), que se viu tragada pela situação imposta por ele. Queria colocar detalhes sutis, como o lance do sobretudo. Eu realmente acho Robert um personagem fantástico em seu relacionamento com Elizabeth, pois eu poderia separar os problemas da vida dela em duas categorias: Problemas causados por Robert (não precisam ser explicados) e demais problemas (que ele sempre interfere, buscando ajuda-la). Acaba sendo um personagem "bipolar", pois hora ele ajuda, hora machuca, parece mesmo que ele deseja ter o controle dos danos causados a ela, que apenas ele pode feri-la, mas não o resto do mundo. Sobre a apendicectomia, me perdoem, não sou médica, fiz o que sabia baseada em minha experiência enquanto paciente (e essa porra dói!). Espero que gostem. :)