Capítulo 1
Alexandria, VA
Segunda-feira, 10 de Maio de 1999
4:32 a.m.
Alguém estava batendo na porta.
Mulder mexeu em seu sono e murmurou, enquanto puxava a manta um pouco mais ao redor dos ombros. Ele não queria ser incomodado. Havia passado das duas horas quando exaustão finalmente o levou, e bem no fundo do seu cérebro obscuramente adormecido, ele sabia que não era de manhã, ainda. Ele só queria dormir.
A batida voltou, e Mulder se sentiu gradualmente retornando à consciência. Ele xingou, sonolento, querendo que quem quer que fosse, fosse embora e o deixasse dormir.
Então, ele ouviu uma chave na fechadura, seguido de um som da porta se abrindo e passos se aproximando. Seu cérebro vagamente registrou a ameaça em potencial, mas ainda assim, ele não conseguia acordar.
E então uma mão estava em seu ombro, chacoalhando-o rudemente.
"Mulder? Mulder, acorde."
Scully. Droga.
Com um suspiro resignado, ele se permitiu abrir os olhos e olhar para a forma inclinada sobre ele.
"Droga, Mulder, acorde!" Ela balançou o ombro dele novamente, mais forte do que antes, e Mulder esticou a mão e agarrou o pulso dela.
"Está bem," ele murmurou. "Está bem, já acordei." Ele piscou seriamente para ela. "O que... o que aconteceu?" Enquanto recobrava a consciência, ele percebeu, gradualmente, que Scully não viria até o apartamento dele no meio da noite sem um bom motivo. "Há algo errado?"
Ela já estava se afastando do sofá; logo o abajur foi aceso e Mulder vacilou automaticamente à súbita intrusão da luz no seu mundo escuro.
"Temos que ir para Atlanta," Scully disse, com a voz rápida e profissional. "Tentei ligar para você, mas acho que estava tão adormecido, que não ouviu o telefone."
"Atlanta?" Mulder repetiu, mas ela já estava indo na direção do quarto dele. Quando Mulder se levantou e alcançou-a, ela já havia retirado do armário a mala de viagem. Ela jogou a mala perto da cômoda e a abriu como se tivesse feito isso uma dúzia de vezes antes. O que ela fez, ele percebeu, enquanto ela começava a guardar as roupas.
Ela abriu a gaveta pequena do lado direito da cômoda e pegou dois pares de meias. "Onde está sua arma?" ela perguntou, enquanto guardava as meias na mala.
"Na gaveta de cima," ele respondeu automaticamente, assistindo enquanto ela pegava a Sig Sauer, retirava o clipe e a checava com movimentos bem praticados. Ela jogou a pistola dentro da mala e a fechou novamente, antes de finalmente guardar o clipe dentro do bolso da jaqueta dela.
Mulder simplesmente ficou na entrada, como se estivesse plantado ali. Ele sabia que deveria estar fazendo alguma coisa, ajudando-a, mas seu cérebro parecia estar em ponto morto, e ele não dava sentido a nada ainda.
Scully se virou para vê-lo parado ali, e suspirou. "Vá tomar um banho e pegar o resto das suas coisas, Mulder, e eu vou fazer um café." O tom dela era paciente, mas seus movimentos eram ligeiros enquanto ela passava por ele e ia para o hall. "Não demore," ela falou, por cima dos ombros. "Nosso vôo parte em menos de duas horas."
Mulder finalmente se colocou em movimento, e 20 minutos mais tarde, de banho tomado, barbeado e com roupas limpas, estava sentado na mesa da cozinha tomando café, enquanto sua parceira revia com ele as informações que ela tinha, até agora.
"Abelhas assassinas, Scully?" ele perguntou, enquanto ela parava para tomar um gole de café. O banho ajudara a acordá-lo, e o café estava ajudando ainda mais, mas ele ainda estava lento de sono e tendo dificuldade em se concentrar nas palavras dela.
Scully assentiu. "Isso mesmo. Lembra-se do caso que você investigou em Payson, há dois anos?"
Payson, Carolina do Sul. Sim, Mulder lembrava. Abelhas. Muitas delas. E todas aquelas crianças...
Ele acenou e Scully continuou. "Bem, é a mesma situação, mas em escala maior. Um enxame foi solto noite passada num jogo de baseball em Columbus, Geórgia. Aproximadamente sessenta vítimas confirmadas a partir da meia-noite, mas é um número preliminar; o número com certeza vai aumentar. Havia mais de mil pessoas no estádio."
Mulder estava completamente acordado agora. "E os sintomas lembram varíola?"
Scully levantou uma sobrancelha. "Aparentemente, não," ela disse, com um tipo de emoção que Mulder não pôde identificar na voz dela. "As vítimas reclamavam de falta de ar, fraqueza nos membros, dor no peito, visão borrada, habilidade motora comprometida..."
Os olhos de Mulder se fecharam enquanto sua memória retrocedia à exata coleção de sintomas reportada pela voz fraca de Scully, quando ela desmaiou no corredor do apartamento dele. "Estão reabastecendo," ele disse, suavemente, os olhos ainda fechados enquanto sua mente era preenchida por dezenas de milhares de hospedeiros, congelados dentro de uma nave enterrada na neve da Antártica.
Scully não respondeu, e quando Mulder reabriu os olhos, seu olhar foi fixado nas mãos que estavam cruzadas na frente dela, sobre a mesa. Ela respirou fundo e separou-as devagar, antes de falar.
"Eu descobri através da polícia local que as vítimas estavam sendo levadas para dois hospitais," ela disse. "Mas nenhum dos dois forneceu nenhuma informação, e quando liguei para a polícia novamente, ninguém falou comigo."
Mulder quis saber por que ela não ligou para ele, mas ainda sentia que não tinha esse direito, não depois do jeito que ele a tratou três meses atrás. Ele a ignorou, negou, fez tudo menos chamá-la de mentirosa na cara dela, e a parceria deles ainda não se recuperou completamente.
Além disso, ela estava aqui agora, e isso era o que realmente importava.
Ao invés, ele perguntou "Como você descobriu isso?"
Scully ergueu a cabeça para encontrar o olhar atento dele. "Depois de ler o relatório do caso de Payson, eu assinei um serviço de notícias na Internet, usando 'abelhas' e certos sintomas e palavras-chave, entre outras coisas," ela explicou, colocando os cotovelos em cima da mesa e cruzando os braços. "Acrescentei outra informação, quando soubemos mais, e ontem à noite um pequeno relatório chegou da Imprensa Associada. Eu peguei quando chequei meu e-mail por volta das 11 horas, e não havia muita informação, então fiz algumas ligações para descobrir mais. Como eu disse, não fui tão longe. Mas procurei em alguns jornais antigos na Internet, e Mulder, parece com Payson tudo de novo. Só que pior."
Por um longo minuto Mulder ficou olhando para ela, os lábios colados enquanto processava a declaração. Ele sentiu um nó se formando na boca do estômago. Ele não queria encarar isso. Era cedo demais, e eles não tiveram a chance de assimilar tudo o que tinham feito e visto nos últimos três meses, nas vidas pessoal e profissional de ambos.
Mas parecia que eles não tinham uma escolha.
Ele soltou a respiração, apressado. "Ok," ele disse, relutante, segurando o encosto da cadeira, enquanto ficava de pé. "Vamos indo então."
Interestadual 185
Oeste da Geórgia
9:57 a.m.
A viagem para o sul de Atlanta era monótona, mas necessária. Todas as conexões entre Atlanta e Columbus estavam ou lotadas ou canceladas, apesar de questionarem repetidas vezes e não obterem respostas aceitáveis.
O celular de Scully esteve ativo a maior parte do tempo desde que eles entraram no carro. Ela ligou para o Centro de Controle de Doenças, o FBI da Geórgia, a polícia de Columbus novamente, até a patrulha estadual, mas parecia que ninguém estava no humor para conversar.
Seu único sucesso foi deixar uma mensagem para o repórter, um Andy Baker, responsável pela única história, de quatro parágrafos. Ela deu o nome dos dois e os celulares para a mulher que atendeu ao telefone, com o número do escritório de Skinner, como cobertura.
Uma interestadual quase deserta e a falta de policiamento permitiu que Mulder viajasse a 80 milhas por hora, cortando meia hora da viagem. A estrada era plana e em linha reta, e uma vista quase de desenho animado passava pelas janelas, com o que parecia ser as mesmas árvores e gramado se repetindo a cada milha.
"Devemos chegar antes das onze horas," Mulder disse, quando Scully jogou o telefone no colo em desgosto, seguindo outro beco sem saída. Ele arriscou um olhar para ela, e então voltou sua atenção para a estrada à frente deles. "Conseguiu alguma coisa?" ele perguntou.
Ela suspirou. "Nada. Não estão dizendo uma palavra. De fato, quanto mais pessoas diferentes eu falo, menos elas parecem saber."
Mulder encolheu os ombros, os olhos ainda na estrada. "Era o que esperávamos," ele disse calmo. "Até eles arranjarem uma história plausível para acobertar, a frase oficial do dia será 'negue tudo'."
Scully encostou o cotovelo na janela e levantou a mão para coçar a testa. Ela tentava esconder sua preocupação pelo aparente desinteresse de Mulder em investigar esse caso, mas ela não sabia quanto mais ela poderia. Ela sabia que o tinha tirado de um sono profundo essa manhã, mas falta de sono não explicava a contínua falta de entusiasmo. Há seis meses, só a menção da palavra 'abelhas' o teria feito disparar teorias mais rápido do que muita gente poderia pensar.
Mas ele tinha estado anormalmente quieto durante a viagem, permitindo com que Scully cuidasse das ligações e desse a maioria das sugestões. Se ele não saísse desse estado logo, Scully não sabia o que faria. Por mais que a pessoa forte nela odiasse admitir, ela precisava dele com ela em todas as etapas disso. Muita coisa estava em jogo para ele perder o foco agora.
Ela suspirou e respondeu ao comentário, numa tentativa de falar por ele. "Tenho tentado descobrir *com* o que eles encobrirão," ela disse. "Abelhas assassinas, eu presumo, embora normalmente migrem sentido norte, e não tem havido relatórios de ataques entre o sul do Texas e aqui. O estádio tinha algo em torno de 3.000 pessoas, então não faltariam testemunhas. Eles podem ser capazes de cobrir algumas picadas de abelhas, ou atribuí-las a uma colméia próxima, mas não há como relacionar com o volume de abelhas noticiado. Uma 'nuvem' que quase cobriu o estádio?"
Mulder mordeu o lábio inferior, um velho hábito que Scully sabia que significava que ele estava absorto em pensamentos. "Eles podem atribuir a algum tipo de bioterrorismo," ele disse, a voz gradualmente aumentando à medida que ele falava. "De fato, agora que penso nisso, lembro de ter lido uma notícia há alguns meses sobre uma ameaça de anthrax nessa área. Podemos descobrir o que aconteceu; o relatório oficial disso pode relacionar àquela ameaça."
Ele nem precisava sugerir a próxima ligação de Scully. Ela já tinha o telefone nas mãos e discava o próximo número, este mais familiar. Depois de uma conversa de 15 minutos que começou com as palavras 'desligue a gravação', ela desligou.
"Byers lembrou da notícia, também," ela disse, sem preâmbulos. "Ele disse que foi uma ameaça de anthrax, mas na verdade duas delas --- uma em Columbus e uma em Atlanta. Não foi achado nenhum Anthrax, mas vários prédios foram evacuados em ambas as cidades. Ele vai mandar para o meu e-mail uma cópia da história e podemos pegá-la quando chegarmos."
Mulder tinha começado a assentir no meio da história dela e falou assim que ela terminou. "Isso faria uma história de cobertura perfeita", ele disse. "Uma liberação de ar assim afetaria centenas na área imediata, talvez milhares, dependendo da direção do vento. Algo assim normalmente levaria pelo menos alguns dias para descobrir, mas eles ainda poderiam estar em um alerta de baixo nível por causa do susto. Então eles diriam que descobriram depressa e ainda acreditariam neles."
Scully assentiu. "Anthrax apresenta sintomas muito depressa, assim se eles anunciassem a diagnose depois algum tempo hoje, seria aceitável", ela disse.
Mulder olhou para ela durante um tempo. "Eu realmente gostaria de dar uma olhada em alguns desses registros médicos", ele disse, seus olhos focalizados e intensos.
Scully quase sorriu aliviada. Ele estava de volta, pelo menos por enquanto.
Mas ela simplesmente olhou para ele, e voltou a prestar atenção na estrada diante deles.
Escritórios do Ledger-Enquirer de Columbus
Columbus, GA
11:12 a.m.
Mulder e Scully concordaram, quando chegaram à cidade, em tentar o escritório do jornal primeiro, por ter sido onde tinham adquirido a única ajuda todo o dia. No átrio do edifício, eles se aproximaram da escrivaninha de segurança, Mulder puxando o distintivo dele quando pararam.
"FBI," ele disse em tom neutro. "Precisamos ir até a redação."
O segurança, de pele escura contrastando com um cabelo cinzento, acenou rapidamente, os olhos arregalados. "Eu precisarei chamar o Sr. Pryor", ele disse, alcançando o telefone na escrivaninha. "Todas as visitas têm que ser escoltadas."
Os olhos de Mulder vaguearam enquanto esperava, vindo a pousar numa exibição próxima de velhas reportagens de capa. Ele parecia estar lendo as manchetes com interesse, mas qualquer um que o conhecesse saberia dizer que a mente dele na verdade estava longe.
Scully saberia dizer, mas ela escolheu não interromper os pensamentos dele. Ela tinha evitado usar a palavra "colonização" deliberadamente; apesar de suas próprias convicções, ela sabia que isso era o que Mulder acreditava ser o objetivo do Sindicato das Sombras. Ela tinha suas dúvidas, é claro, mas a idéia toda ainda era uma coisa dolorida para ele, como qualquer caso que envolvesse seqüestros de criança sempre o incomodava, por causa de Samantha. A culpa que quase havia feito com que ele desistisse da sua busca há alguns meses ainda estava crua e a última coisa que Scully queria fazer a essa altura era piorar as coisas.
Eles esperaram só alguns minutos antes do elevador próximo ao balcão soar, as portas se abrindo para revelar uma mulher jovem, morena, usando um terno empresarial. Ela sorriu enquanto se aproximava deles. "Olá, eu sou Andrea Baker", ela disse, oferecendo a mão.
Scully escondeu a surpresa dela, enquanto ela e Mulder apertavam a mão e se apresentavam. Ela tinha esperado um homem de nome "Andy" Baker, mas ao invés disso, o repórter era uma mulher só alguns centímetros mais alta que Scully, com cabelo castanho curto e ondulado e olhos verdes profundos, atrás de óculos com armação de arame. Seus movimentos eram afiados e rápidos, dando a impressão de um cadete de escolar militar.
"Agente Mulder, Agente Scully," Andy disse. "Acho que sei o que querem me perguntar, e não sei se serei de grande ajuda, mas certamente estou disposta a tentar." Seus olhos brilhavam, as sobrancelhas erguidas, mas ela gesticulava casualmente na direção de duas portas à sua direita. "Por que não vamos à sala de conferências, onde teremos mais privacidade?"
Ela já estava indo na direção da sala antes de terminar de falar, e Scully trocou um breve olhar com Mulder antes de segui-la. Scully percebeu que obviamente Andy tinha algo para dizer, mas o átrio não era o lugar para isso.
Nenhum deles falou enquanto entravam na sala e sentavam, com a porta fechada. Assim que o fizeram, a máscara agitada de Andy caiu completamente, sua expressão indo num segundo de aberta e amigável para séria e focada --- e até um pouco cautelosa.
"Não sei o que diabos está acontecendo aqui," ela disse, a voz profunda e o olhar penetrante. "Mas, o que quer que seja, é grande. Estive no telefone pelas últimas duas horas, e não consigo uma pessoa sequer para falar comigo. E nos últimos 45 minutos, não consigo nem ligar para o Forte Benning. Com o número de vítimas que eu vi, esperaria que trouxessem médicos do exército e transporte para ajudar."
Mulder chegou para frente. "Você estava no jogo na noite passada?" ele perguntou.
Andy acenou rapidamente. "Eu estava fazendo algumas entrevistas para uma história sobre uma proposta do novo imposto sobre vendas," ela disse, parecendo nada mais do que uma mera testemunha. "Terminei um pouco depois das sete horas e estava indo embora quando ouvi os repórteres saindo das cabines. Quando voltei para lá, estava uma loucura. Havia pelo menos algumas centenas de pessoas que foram picadas, e pelo menos cento e cinqüenta ou mais se queixando dos sintomas que listei no artigo. Eu queria ficar lá e examinar mais atentamente, mas tinha um prazo a cumprir, então coletei tanta informação quanto pude em uma hora e voltei para cá para escrever a história a tempo para a edição desta manhã."
"Essa foi a história que foi para o serviço de assinaturas?" Scully perguntou.
"Certo," Andy disse, acenando na direção de Scully. "Enviamos versões editadas da maioria de nossas histórias para o escritório de Atlanta, e eles escolheram essa para espalhar pelo País."
"E você tem tentado conseguir mais informações," Mulder perguntou.
Andy acenou novamente. "Passei outra hora ao telefone depois do prazo final ontem à noite, e cheguei cedo hoje para começar novamente. Tenho expedido meia dúzia de requerimentos de Atos de Liberdade de Informação desde as nove horas, mas eles têm três dias para responder, então não estou esperando muito. A única coisa que consegui até agora foi que o Centro Médico de Columbus tratou cerca de 120 pessoas, então eu estava indo para lá quando Fred me ligou e disse que vocês dois estavam aqui."
Ela parou e sorriu um pouco tímida. "Temo que sua mensagem tenha se perdido na confusão," ela disse, seus olhos indo de Mulder para Scully enquanto ela falava. "E quando eu a recebi... bem, liguei para um amigo em DC para checá-los primeiro. Não tenho tido muita sorte com agências do governo, hoje."
Mulder assentiu e sorriu brevemente em compreensão, enquanto recomeçava. "Você disse que não consegue falar com o Forte Benning?"
Andy voltou a olhar para ele. "Não, e isso nunca aconteceu, não nos dois anos em que estou aqui. Não importava o que estivesse acontecendo."
Mulder olhou para Scully. "Talvez agora seja uma boa hora para olharmos aqueles registros médicos," ele disse enfaticamente.
