Capítulo Dois: A viagem no tempo

Faltavam dez minutos para as quatro, por isso, Hermione respirou fundo e engoliu o espesso, líquido roxo, e ao engolir teve o cuidado de evitar que este tocasse na sua língua; o cheiro era terrível, e ela imaginava que o sabor não poderia ser muito melhor. Fechando os olhos, suspirou enquanto esperava pelos efeitos da poção.

Após alguns segundos, começou a sentir os seus ossos formigarem e deslocarem-se dolorosamente. Soltou um pequeno grito chocado, mas esperou que terminasse. A sua pele mexia-se no cimo dos seus músculos, como se houvessem insectos a andar debaixo da mesma.

Quando a dor acalmou, Hermione abriu os olhos e olhou para o quarto decorado de vermelho e dourado de uma perspetiva mais baixa. Voltou-se para o grande e poeirento espelho e descobriu que tinha a mesma aparência de quando tinha treze anos. Desajeitada, com cabelo encaracolado e crespo e dentes incisivos salientes aos quais ela se estava ajustar. Pequenas e claras sardas cobriam o seu nariz.

Era o patinho feio uma vez mais, logo quando estava a começar a ter uma aparência mais bonita, Hermione pensou abanando tristemente a cabeça. Não que ela alguma vez se importasse muito com o seu aspecto, mas ainda assim, era agradável receber um elogio de vez em quando. Agora lembrava-se vivamente do comentário de Snape de como ele não via diferença nenhuma quando Draco tinha enfeitiçado os seus dentes para lhe crescerem até aos joelhos.

Olhou para o tempo e decidiu que estava na altura de começar a dar as voltas.

...~oOo~...

"Hermione!" Remus gritou desesperadamente enquanto subia a escadaria do Número 12 de Grimmauld Place, subindo dois degraus de cada vez, quase correndo. "HERMIONE! O QUE QUER QUE FAÇAS NÃO GIRES ESSE TIME-TURNER!"

Harry e Ron estavam apenas alguns degraus atrás dele e todos gritavam por ela, implorando-lhe que parasse com o que quer que estivesse a fazer. Estavam a verificar freneticamente os relógios, tendo apenas um minuto para as quatro.

Remus encontrou a porta com a placa dourada que lia "Sirius Orion Black III". Em pânico, arrombou a porta, gritando pela rapariga. Remus viu apenas por um instante a rapariga sentada na cama antes de ela desaparecer da sua vista e da sua era.

O relógio bateu as quatro badaladas.

...~oOo~...

Quando Hermione finalmente parou de gitar, estava bastante tonta da horrível sucção da viagem no tempo, e deu por si a oscilar na cama do quarto de infância de Sirius Black, onde se encontrava sentada "à chinês". O quarto não estava agora poeirente e toda a parafernália com o tema dos Gryffindor era nova em folha, em vez de envelhecida e acinzentada. A roupa de cama não era plana e puída, mas era agora cheia e confortável. As almofadas eram fofas e o estrado não estava partido.

Contudo, o quarto estava bastante desarrumado. Era o quarto típico de um rapaz, com meias e equipamento de Quidditch em todo o lado, como se fossem ornamentos.

Hermione estava prestes a levantar-se quando ouviu gritos no piso de baixo. Gritos que ela conhecia demasiado bem, infelizmente, mas que tinha ouvido apenas de um retrato anteriormente. Estes gritos, Hermione conseguia dizer, eram de uma muito viva e muito saudável Walburga Black.

A mulher que Hermione conhecia por gritar insultos depreciativos dirigidos a Muggle-borns gritava, "SIRIUS BLACK, SEU INÚTIL FILHO MEU, VOLTA CÁ NESTE INSTANTE ANTES QUE EU LEVE A MINHA VARIGA A ESSE RABO INGRATO!"

"GOSTAVA DE A VER A TENTAR APANHAR-ME!" um grito muito alto e arrogante fez-se ouvir de um rapaz novo. Hermione arfou quando ouviu a proximidade da resposta - tinha sido apenas a alguns passos da porta fechada, ela imaginou.

Ouviam-se mais gritos da parte de Walburga, mas tudo o que Hermione conseguia ouvir eram os passos que se aproximavam e depois o ranger da maçaneta da porta e da mesma enquanto um jovem rapaz entrava, murmurando para si mesmo, antes de Hermione se conseguisse lembrar de se mexer.

Este Sirius Black, de treze anos, parou na soleira da porta quando viu a rapariga sentada na sua cama. Sendo um feiticeiro, coisas tão triviais como estas não eram normalmente pensamentos em que se demorasse muito, mas... ela estava no quarto dele.

Hermione sabia que era Sirius à primeira vista. O seu cabelo preto ondulado caía sobre as suas orelhas e testa desordenadamente e os seus olhos muito escuros brilhavam como obsidiana. Ele era já bastante alto para a sua idade, mas forte, e não tinha ainda crescido o suficiente para as suas mãos ou pés. Mas era um rapaz muito atraente, Hermione pensou divertida, obviamente um sinal da sua aparência arrojada mais tarde.

"Um... quem és tu?" Sirius perguntou educadamente.

"Sou... uh... Hermione."

Sirius pensou na situação. "Se estás à procura de Regulos, ele está no quarto ao lado."

"Não estou... à procura... de ninguém," ela gaguejou. "Na verdade, isso é uma mentira. Acho que é suposto estar à tua procura, mas não sei bem porque estou aqui, e tudo é incrivelmente confuso agora."

Sirius olhou-a de alto a baixo, absorvendo todos os detalhes. Ela era bastante magra, com uma juba encaracolada de cabelo cor-de-chocolate e pele clara. Usava uma camisola de malha e calças de ganga e tinha uma caixinha de madeira bonita nas mãos.

"Então... não sabes porque estás aqui?" ele clarificou. Hermione confirmou, abanando a cabeça.

"Bem," Sirius disse. "A única coisa que te posso dizer é que tens mesmo azar em aparecer nesta casa, de todas aquelas em que podias ter ido parar. Mas suponho que tem que servir, certo?" ele piscou-lhe o olho amigavelmente. "Vem comigo, o jantar está quase pronto e acho que a minha mãe vai querer saber que tu vais ficar cá em casa."

Hermione estava completamente chocada. "O quê? Ficar? Em tua casa? M-mas... tu não me conheces! És louco?"

"Um bocadinho," Sirius disse encolhendo os ombros e entrando no quarto, tirando os sapatos e atirando-os preguiçosamente para o canto, onde aterraram no topo de um livro qualquer. "Mas tu pareces-me bastante confusa e perdida, e seria rude da minha parte pôr-te na rua, não seria? E se há uma coisa que os homens Black são, é cavalheiros." ele curvou-se, cavalheiresco. "Agora vamos... Hermione, disseste que era o teu nome? Eu sou Sirius. Sirius Orion Black."

Decidindo que era melhor fazer simplesmente de conta que não sabia nada em vez de iniciar uma longa explicação sobre viagens no tempo, e como ela já sabe quem ele é, ela acenou educadamente e disse, "Prazer em conhecer-te."

"Igualmente," ele respondeu. "Pela maneira que estás vestida, eu diria... muggle-born?"

Os olhos de Hermione quase saltaram em choque, e Sirius sorriu. "Não devias estar tão surpreendida, amor," ele disse simplesmente, dirigindo-se ao roupeiro. "Sendo purebloods, fomos basicamente treinados para vos distinguir. E enquanto isto possa parecer um pedido... pouco convencional, para o teu próprio bem, esta noite serás uma pureblood. A minha mãe pôr-te-ia na rua se fosses qualquer outra coisa, infelizmente. Qual é o teu último nome?"

Hermione tomou uma decisão-relâmpago. Ela não tinha preparado uma história para o seu passdo, mas sabia instintivamente que a história da sua viagem no tempo não deveria provavelmente ser conhecida até ela completar a missão. Então decidiu que iria passar por uma vítima de um feitiço de memória, talvez de um Obliviate.

"Eu... não me lembro," Hermione disse, tentando soar convincente.

Sirius fez uma pausa, mas depois sorriu, "Lamento isso, mas na verdade é perfeito. Desde que não saibas o teu último nome, não tens que dizer pertencer a nenhuma das linhagens de purebloods."

"REGULUS! SIRIUS! O JANTAR ESTÁ PRONTO!" Walburga Black berrou, praticamente abanando a casa.

"Bem, é agora ou nunca," Sirius disse, com um sorriso. "Desculpa se isto é tudo estranho, mas... parece-me que a tua família deve ter sido atacada pelo Quem-Nós-Sabemos. Tem acontecido muito nos últimos tempos. As pessoas ficam sem as suas memórias, vagueando pela Diagon Alley e pelo Ministério. É uma pena, mesmo. Se esse é o teu caso, eu só quero ajudar. Se não confiares em mim - e eu não te culpo por isso - não tem mal." Ele estendeu a sua mão, dando-lhe a opção de sair a correr da casa gritando, ou de ir com ele.

Hermione aceitou a sua mão lentamente, e Sirius sorriu. Ele entrelaçou o seu braço no dela e guiou-a do quarto até à sala de jantar, onde se daria, sem dúvida uma experiência muito interessante.

A sala de jantar estava como ela se lembrava, grande com uma grande mesa de madeira de carvalho e retratos nas paredes. Já sentado à cabeceira da mesa estava um homem alto, com ombros largos, e que tinha parecenças chocantes com o Sirius que Hermione conhecera de antes da sua viagem no tempo e antes da sua morte. Este deveria ser Orion Black. O seu cabelo estava formalmente cortado, contudo, penteado para trás e não era tão ondulado. Ele tinha também um bigode, que estava aparado e bem posicionado debaixo de um nariz aristocrático.

Sentada à sua direita estava uma mulher muito bonita com cabelo longo, preto e encaracolado, e um pequeno nariz numa cara em forma de coração. Toda a gritaria e as rugas das linhas de expressão ainda não se tinham feito notar na sua face, sendo que ela era muito bela, com um ar simultaneamente digno e aborrecido enquanto o seu marido lia o Prophet.

Regulus estava sentado ao lado da mãe, o seu cabelo penteado para trás como o do pai e com um ar definitivamente magricela com a sua camisa e calças de corte. Na verdade, Hermione reparou que os três Black sentados à mesa usavam roupa muito extravagante. Orion usava uma camisa feita à medida e um colete e Walburga usava um vestido que lhe caía pelos joelhos e saltos altos.

Nesse momento, Walburga reparou no seu filho mais velho que tinha acabado de entrar na sala de jantar e olhou levemente surpreendida para a convidada. "Sirius!" ela sibilou. "Não me informaste que tinhas companhia." Ela lançou-lhe um olhar penetrante.

"Eu não o sabia até há uns momentos atrás, Mãe," Sirius disse encolhendo os ombros. "Esta é Hermione.". Hermione acenou levemente, sentindo a cara quente e o coração batendo acelerado.

"Hermione... quê? Qual é o seu último nome?" Walburga perguntou, obviamente procurando saber a sua categoria de sangue.

"Ela não se lembra," Sirius disse firmemente. "Ela não se lembra de muita coisa, pois não?"

Hermione abanou a cabeça.

"Sabem como tem sido," Sirius continuou. "Vocês têm lido o Prophet. Bruxas e feiticeiros têm sido encontrados sem memórias por todo o lado nos últimos tempos. E esta apareceu em nossa casa. Seria rude da nossa parte não lhe darmos uma refeição quente e uma cama para ela passar a noite. E nós não queremos ser rudes, pois não, Mãe?"

Orion pousou a sua cópia do Daily Prophet e examinou a rapariga que se encontrava à sua frente. "Vem, senta-te, rapariga. Temos muito que comer, e quartos vagos mais que suficientes. É uma pena o que aconteceu às tuas memórias, claro, e o meu filho tem razão. Seria indelicado da nossa parte não te convidarmos a passar a noite."

Walburga franziu as sobracelhas, mas chamou Kreacher da cozinha, dizendo-lhe que necessitariam de um lugar a mais na mesa.

Sirius puxou uma cadeira para Hermione, a diretamente em frente de Regulus, sentando-se depois ao seu lado, à frente da mãe. O silêncio era pesado na divisão enquanto Kreacher punha os pratos e as travessas. Hermione sentia-se desconfortável ao deixar o elfo-doméstico - mesmo um tão desagradável como Kreacher - servi-la. Ia contra as suas crenças, mas ela manteve-se calada.

"Hermione..." Walburga começou. "Não tens qualquer recordação de uma família?"

Hermione abanou a cabeça, continuando a sua história. "Não, de todo, infelizmente."

"Então suponho que seria melhor levar-te ao Ministério amanhã," Orion afirmou. "Assim, se tiveres sido descrita como desaparecida podes ser devolvida à tua família."

"Mas e se ela não estiver nos registos de pessoas desaparecidas?" Sirius inquiriu, levantando uma sobrancelha. "E se a família dela é uma daquelas que se esconde do Quem-Nós-Sabemos? E se eles foram mortos e ela não tem para onde ir?"

"Os orfanatos existem por uma razão, Sirius," Walburga informou-o enquanto cortava a sua galinha com a faca de uma maneira muito refinada.

Sirius lançou-lhe um sorriso de escárnio. "Ela não pode ir para um sítio desses! Já é mau o suficiente que ela não se lembre de nada do seu passado, mas tu ainda a queres pôr num orfanato onde ela estará com pessoas que ainda lhe são mais estranhas do que nós. Não." Ele cruzou os braços. "Não deixarei que isso aconteça."

"Não fales assim com a tua mãe, Sirius," Orion repreendeu-o sem qualquer levantar de voz. Ele parecia ser um homem muito calmo, bastante austero. "Mas consigo ver o teu ponto de vista. Seria errado da nossa parte pô-la noutro sítio estranho depois da situação que já tiveste sem dúvida que viver." Ele pausou. "Sabes a tua categoria de sangue, rapariga? Certamente essa é uma coisa que ninguém nunca esqueceria, mesmo estando sob as mais horríveis circunstâncias."

"Sou... bem, sou uma pureblood, senhor," Ela disse docilmente. Sirius piscou-lhe secretamente o olho, e ela suspirou de alívio, sabendo que o tinha dito de maneira credível.

"Então não vejo razão," Orion continuou, levantando o seu copo de vinho, "para que, se não tens família, não te adotemos e te tornemos numa Black."

Walburga parecia horrorizada. "Orion! Não a conhecemos! Ela pode ser perigosa! Ela acabou de sair das ruas, pode ser instável -"

Orion levantou uma mão, o que fez com que Walburga se cala-se automaticamente. "Ela é apenas uma criança," Orion disse firmemente. "Duvido muito que ela seja perigosa. Afinal, ela parece não ser mais velha do que Sirius. Por isso, ela será uma Black se o Ministério o permitir. E com um pouco de elegância, não tenho dúvidas que ela seria uma esposa adorável para Sirius um dia."

O jovem Sirius Black soltou um latido de riso. "Estás preocupado que se eu não casar com ela, casar-me-ei com uma half-blood?"

"Estaria preocupado que tu casasses com lixo, isso era o que preocuparia," Orion sorriu sarcasticamente. A sua face acalmou um momento depois, quando pigarreou. "Ela será educada aqui na nossa sociedade pureblood. Casamentos arranjados são comuns, não preciso de vos relembrar. Se Hermione o permitir, nós faremos com que ela faça parte da nossa família e iremos recebê-la de braços abertos. Certo Walburga? Regulus?"

Ambos a esposa e o filho mais novo assentiram relutantemente.

"Então está decidido," Orion disse com finalidade. "Se o Ministério não conseguir encontrar a tua família, passarás a fazer parte da nossa."

Hermione engoliu em seco. Isto definitivamente não era o que ela esperava que tivesse acontecido.

...~oOo~...

Hermione acordou num quarto que não lhe era familiar. Levou-lhe alguns minutos a lembrar-se de onde estava e do dia que a esperava. Ela suspirou ao pensar que era como um cachorrinho que Sirius tinha trazido para casa, mas decidiu que para a sua missão, era uma coisa boa. Se ela estivesse na família Black, conseguiria aproximar-se de Sirius, e depois James e Remus, como consequência. Ao fazer isto, ela estava muito perto da primeira etapa da sua missão.

Sirius estava já a agir como se a conhecesse há muito mais tempo do que apenas algumas horas, ela pensou com satisfação. Mas Sirius sempre fora conhecido por fazer o que quer que chateasse mais a sua mãe, e Hermione percebeu que era isso que ele estava a tentar fazer. Primeiro era ser escolhido para Gryffindor, a seguir era infiltrar uma muggle-born na sua casa, mesmo debaixo do nariz de Walburga.

Ouviu-se alguém bater à porta, e o visitante não esperou por uma resposta para entrar. Walburga já estava vestida para o dia, num vestido simples preto e um cordão de pérolas ao pescoço. O seu cabelo espesso e preto estava preso num nó elegante no topo da sua cabeça.

"Bom dia," ela disse friamente. "Trouxe-te algumas roupas para usares para o Ministério até podermos ir às compras. É um vestido de quando eu era nova. Imagino que esteja largo em ti, mas nada que algumas alterações não arranjem." A mulher segurava num vestido preto com uma saia pelo joelho; era apertado na cintura, tinha um pouco de decote e mangas compridas.

Hermione levantou-se e pegou no vestido, examinando-o lentamente.

"Bem, veste-o," Walburga incitou-a.

Corando, Hermione relutantemente começou a despir-se, tirando as calças de ganga com que tinha dormido. Era bastante embaraçoso que Walburga quisesse que ela se despisse à sua frente, mas ela queria agradar a mulher e obedeceu. Ela vestiu o vestido e percebou que lhe ficava largo no peito, mas era tudo. A cintura estava confortavelmente ajustada, bem como as mangas.

Agitando a varinha, Walburga fez com que o vestido se ajustasse ao peito pequeno de Hermione.

"Senta-te na cama e vira-te de costas para mim," Walburga ordenou.

Hermione fez o que ela lhe disse e sentiu as mãos frias da mulher começarem a manipular o seu cabelo incontrolável.

"Se vais ser uma Black," Walburga disse, "o que suponho que vais, visto que o Prophet não tem registo nenhum de uma rapariga desaparecida de nome Hermione, tens que prestar atenção às regras. Somos uma família muito poderosa no mundo mágico e não toleramos preguiçosos ou traidores de sangue. Somos respeitosos para com os mais velhos a todo o custo, mas não permitimos que ninguém nos intimide. Eu ensinar-te-ei as regras de etiqueta adequadas e eventualmente vais frequentar jantares de gala. Se eu tenho que permitir que vivas na minha casa, espero que sejas uma boa filha, compreendes, Hermione?"

"Sim, senhora," Hermione respondeu automaticamente, aterrorizada com o que Walburga faria se ela dissesse algo diferente.

"Oh, minha menina," Walburga disse simplesmente, "é Mãe agora."

Hermione suspirou, mas disse, "Sim, Mãe." A palavra deixou um gosto terrível na boca de Hermione e ela teve um ataque de saudades da sua mãe, a mulher sem memórias que estava na Austrália quando ela partira. Hermione sabia que ela nunca a veria outra vez, mas forçou as lágrimas que ameaçavam surgir nos seus olhos, desaparecer.

"Pronto," Walburga disse, soando satisfeita. "Terá de servir."

Hermione sentiu com a mão a longa trança francesa em que a mulher tinha prendido o seu cabelo. Caracóis ainda escapavam da trança, mas era o melhor que conseguiria.

Hermione levantou-se e dirigiu-se ao espelho para se examinar e achou que parecia que estava pronta para assistir a um funeral.

Walburga apareceu por trás dela, e pousou a suas mãos com longas unhas pintadas nos ombros de Hermione. "Tens potencial," disse contragosto.

"Obrigada, Mãe."

Quase mecanicamente, Walburga baixou-se e beijou-a no topo da cabeça. "Boa menina. O pequeno-almoço estará pronto brevemente e iremos imediatamente depois ao Ministério."

Assim que Walburga saiu do quarto, Hermione começou a chorar. Da mesma maneira que ela tinha feito à noite, antes de adormecer. Da mesma maneira que, ela imaginava, ela choraria imensas vezes antes de se conseguir habituar a este mundo.

Ela não se tinha apercebido do quão alto estava a fungar até que a velha porta rangeu abrindo outra vez, e Sirius entrou no quarto. Ele estava um bocadinho embaraçado por ter encontrado a rapariga a chorar, mas a maior parte dos rapazes ficavam assim quando as raparigas choravam.

"Estás bem?" ele perguntou.

Hermione, com rastos de lágrimas ainda a percorrerem as suas bochechas, abanou a cabeça levemente.

"Não é tudo mau aqui," Sirius disse, tentando ser ótimistico. "Bem... okay, sim, é tudo mau aqui, mas tens que ver o lado bom. Dentro de um mês tu e eu vamos para Hogwarts. Tu... talvez... lembras-te de Hogwarts? Ou qualquer escola que tenhas frequentado?"

Ela tinha que jogar pelo seguro, por isso abanou mais uma vez a cabeça.

"Bem, Hogwarts é uma escola, percebes. E ficas lá o ano todo." Ele sorriu abertamente. "Eu vou introduzir-te aos meus amigos, e farás alguns amigos teus também. Vai ser fantástico, prometo. Hogwarts é como o Céu para o Inferno da casa Black."

Hermione sorriu com esta frase, "Okay, eu acredito em ti," ela disse, porque era tão verdade.

"A única parte má é que Regulus também estará lá." Sirius franziu as sobrancelhas. "Ele é um Slytherin, o que não é ótimo. Não tens que te preocupar, acho que és uma boa rapariga e boas raparigas nunca são escolhidas para os Slytherin. Sabes, há Casas em Hogwarts..."

Sirius continuou explicando tudo o que Hogwarts tinha para oferecer de uma maneira quase reverente, como se estivesse a falar da sua religião. Hermione, é claro, já sabia todas essas coisas, mas foi preenchida por uma excitação quando se lembrou de que estaria lá outra vez, quando Hogwarts não estava em ruínas e repleta de guerra. Ao ouvir Sirius falar sobre Hogwarts com tanta admiração ficou tão ansiosa como uma aluna do primeiro ano outra vez.

Só um mês, Sirius tinha relembrado múltiplas vezes. Então Hermione estava a meio do Verão, percebeu. Ela encolheu-se ao pensar que teria que passar um mês inteiro em Grimmauld Place, mas valeria a pena, disse para si própria.

"... Mas já chega por agora," Sirius disse. "Não quero derreter o teu cérebro com demasiada informação."

Hermione riu por entre os dentes. Como se o seu cérebro pudesse derreter com demasiada informação. Ela atulhava-o de informação desde que aprendera a ler.

"Vamos para baixo tomar o pequeno-almoço," disse ele, batendo ao de leve no topo da sua cabeça. "E depois podes ser adotada. Talvez haja uma festa."

A rapariga gemeu.

Sirius levantou uma sobrancelha. "Não queres uma festa?"

Hermione abanou a cabeça enquanto eles começavam a dirigir-se para o piso de baixo.

"Bem, receio que terás uma de qualquer maneira," Sirius informou-a gentilmente, entrelaçando o seu braço com o dela. "A minha mãe gosta muito das produções para o público. Ela vai querer informar o mundo que adotou uma pobre rapariga órfã com amnésia."

Suspirando, Hermione disse, "Suponho que não há como o evitar, então. Não tem mal."

"Talvez eu a consiga persuadir a convidar alguns dos meus amigos, para que tu possas conhecê-los," Sirius contemplou. "Pelo menos James. Tu vais gostar de James. Ele é um palhaço, e o seu cabelo é tão espetado como um porco-espinho. Apenas olhar para ele já é divertido."

Hermione e Sirius riram-se e o som ecoou nas escadas onde eles estavam, e Walburga conseguiu ouvi-los na sala de jantar.

"DESPACHEM-SE, VOCÊS OS DOIS!" a mulher gritou. "O PEQUENO-ALMOÇO ESTÁ A FICAR FRIO!"

"Como se não existissem feitiços de aquecimento para esses casos," Sirius murmurou para si mesmo. Hermione sorriu, e eles apressaram-se para chegar à sala de jantar. Regulus não estava à vista, mas Walburga e Orion estavam lá, sentados a beber o seu chá, os pratos vazios.

"Onde está o meu irmão?" Sirius perguntou.

"O meu querido Regulus está a dormir," Walburga disse com um sorriso de adoração. Era óbvio quem o filho favorito era.

Comeram o pequeno-almoço em silêncio, e assim que terminaram, Walburga olhou longamente para Sirius, observando-o de cima a baixo. "Estás a planear ir ao Ministério vestido assim?"

Sirius olhou para o seu conjunto de calças de ganga e uma t-shirt. "Hm... sim," ele disse como se fosse óbvio.

Walburga abanou furiosamente a cabeça. "Volta lá acima e veste-te decentemente: uma camisa, o teu colete vermelho e calças decentes. Estás a perceber?"

Sirius suspirou, como se soubesse escolher as suas próprias batalhas e levantou-se da mesa.

"Vem, esperaremos por ele à porta," Walburga disse, gesticulando para que Hermione a seguisse. Orion estava mesmo atrás delas quando entraram no vestíbulo.

Walburga tirou dois casacos do vestíbulo e deu um deles a Hermione. Era um casaco grande, pelo joelho, feito de pele que era obviamente verdadeira. Hermione hesitou em recebê-lo mas sabia que devia calar-se e aceitar a "hospitalidade" de Walburga. Antes que Hermione conseguisse pegar nele das mãos de Walburga, Orion agarrou-o e abriu-o para ela de uma maneira cavalheiresca.

Orion Black era um homem calado, de tal maneira que poderia fazer qualquer um desconfiado. Mas Hermione lançou-lhe apenas um pequeno sorriso enquanto enfiava os braços no casaco para que ele pudesse fazer o mesmo à mulher.

Sirius desceu as escadas cabisbaixo, com um ar miserável. Usava uma camisa às riscas pretas e um colete vermelho por cima com riscas também. As suas calças e sapatos estavam perfeitos e brilhantes, quase como se nunca tivessem sido usados. Hermione sorriu porque apesar de a sua versão mais nova parecer odiar as roupas, isto era algo que o Sirius mais velho não hesitaria em vestir.

Chegou à última escada e disse, "Vamos lá acabar com isto."

Tentando melhorar o seu humor, Hermione comentou, "Estás muito elegante."

Walburga sorriu secamente. "É verdade, Sirius. Tirando esse teu cabelo. Não podias ter feito o esforço de o pentear, pois não?" Ela fungou levemente, e dirigiu-se à rede de Floo.

Minutos depois, estavam no Ministério. A última vez que Hermione estivera ali, tinha bebido poção Polyjuice e quase que tinha sido presa. Ela olhava para toda a gente à sua volta de uma maneira quase paranóica. Velhos hábitos são difíceis de perder.

Levou cerca de uma hora ao Ministério para confirmar que não havia nenhuma pessoa desaparecida com o seu nome, mas confirmaram que tinha havido um massacre recente, não muito longe de Londres, em que os três sobreviventes tinham sido encontrados sem memórias. Disseram que se ela fosse outra sobrevivente desse acontecimento, que não teria definitivamente família viva. Imediatamente após ouvir isso, Orion exigiu papéis de adoção.

Em menos de uma hora, Hermione tinha um certificado de nascimento, que lia "Hermione Walburga Black.". Apenas olhar para esse nome fazia com que ela se arrepiasse.

"Bem vinda à família," Sirius disse baixinho, soando não excitado, mas mais com pena dela.

Hermione assentiu, agradecendo e recebeu outro beijo na cabeça da sua nova mãe.

"Agora vamos comprar-te algumas roupas," Walburga disse, as suas longas unhas apertando o ombro de Hermione de uma maneira que era suposto ser afetiva, mas apenas doía, deixando pequenas marcas na pele de Hermione Black.