Capítulo 2

A digito cognoscitur Leo (Pelo dedo se conhece o leão)

Lady Ana-Lucia Cortez segurou o punhal entre seus dedos e com uma lâmina afiada pôs-se a lapidá-lo até que a ponta estivesse tão fina e sensível que um simples toque pudesse fazer escorrer sangue em abundância. Sua mente imaginando toda a sorte de coisas ruins que poderia fazer com o pretenso novo senhor do castelo. Tomar posse de El viento salvaje não seria tão fácil quanto ele estaria pensando.

Na missiva que o rei Henrique enviara a ela alguns dias atrás dizia que seu noivo e futuro senhor do reino era um homem chamado Lorde James Shephard, nomeado recentemente Conde de Sawyer pelo próprio rei da Inglaterra. Mas Ana-Lucia não se deixava enganar por títulos. Desde cedo aprendera que homens com títulos importantes tendiam a ser mais maldosos, autoritários e violentos. Como seu primeiro marido, Lorde Daniel Cortez. Ela agradecia todos os dias pelo desaparecimento dele e desejava intimamente que Danny estivesse queimando no fogo do inferno.

A carta do rei Henrique também dizia que o Conde Sawyer e sua comitiva chegariam muito brevemente ao castelo e que Lady Ana deveria deixar tudo preparado para recebê-los. Mas ela não se deu a esse trabalho. Sequer comunicou aos criados que receberiam uma comitiva em breve. Deixou tudo exatamente como estava. Não mudaria nada. O conde que fizesse o caminho de volta para a Inglaterra.

xxxxxxxxxxxxxx

A comitiva do conde de Sawyer se aproximou da muralha que protegia o reino de El viento salvaje. Sentiu um embrulho no estômago ao ver as paredes desgastadas da muralha, o mato que crescia ao redor e o lodo que praticamente tomava conta de tudo.

O feudo era muita extenso, exatamente como o rei havia dito, no entanto sombrio e lúgubre como o reino as trevas. Perfeito para os domínios de uma bruxa, Sawyer pensou. Quando a comitiva avançou até os portões, Goodwin, primeiro cavaleiro de Shephard, designado para acompanhar e proteger o conde, e seu melhor amigo, disse a ele, em tom de gracejo:

- E então, James? Ansioso para conhecer sua futura esposa?

- Pode rir agora, Goodwin. Mas se continuar me enchendo com isso, juro-te que te casarei com a primeira filha coxa de um ferreiro desta aldeia.

Os homens seguiram adiante para o portão e Sawyer respirou fundo, seguindo-os. Tinha que ser o cavaleiro à frente da comitiva afinal era o novo senhor do feudo. Ultrapassando os homens da comitiva com seu cavalo e hasteando a bandeira da Inglaterra, o conde chegou até os sentinelas.

- De onde vens, senhor?- indagou um dos soldados, olhando-o de forma pouco amistosa e sem fazer menção de abrir o portão.

- Não estavam esperando por mim e minha comitiva?- Sawyer indagou ofendido

- Não sabemos do que falas, senhor.

- Sua senhora não recebeu a missiva do rei da Espanha?

- Que missiva, senhor?

O conde franziu o cenho, já estava ficando muito irritado com aquela conversa.

- Não importa! Eu sou o Conde de Sawyer, Lorde James Shephard e vim tomar posse desse reino em nome do rei Eduardo I da Inglaterra e com o consentimento do rei Henrique I da Espanha. Esta noite desposarei Lady Ana-Lucia Cortez e serei o novo senhor deste feudo.

Os sentinelas se olharam confusos e o conde mostrou-lhes um pergaminho assinado por ambos os reis, inglês e espanhol.

- Se não me deixarem atravessar este portão agora, teremos que invadir este reino e tomar posse dele, ou então seu rei será avisado de imediato e todo e qualquer homem que tiver se oposto à minha autoridade será decapitado!- Sawyer falou com autoridade e os sentinelas cochicharam entre si antes de abrir os portões.

- Muito eloqüente!- debochou Goodwin. – Como se tu tivesses coragem de mandar decapitar os pobres homens...

- Se fosse preciso, meu amigo.

- Estás tão ansioso assim para te casares com a bruxa?- Goodwin indagou.

- A partir do momento em que ela for minha esposa, Goodwin, não será mais chamada bruxa.

- Como queira, milorde.- respondeu Goodwin, formalmente, mas Sawyer sabia que o amigo ainda estava debochando dele. Se não tivessem passado a infância juntos correndo pelos campos do reino Shephard, o conde não permitira tanta intimidade.

À medida que cavalgavam pelo reino rumo ao castelo que se erguia imponente no alto da colina, Sawyer observava com tristeza o estado precário de suas novas terras. As casas na aldeia precisavam de conserto urgente nos telhados, por exemplo. E o pavimento das ruas estava esburacado, prejudicando as patas dos cavalos.

Enquanto a comitiva se aproximava do castelo, os camponeses corriam para vê-los passar, mas não acenavam como em seu lar, ao invés disso, fitavam com hostilidade a ele e sua bandeira. Isso o estava deixando deprimido e sabia que ficaria ainda mais deprimido quando conhecesse sua noiva.

xxxxxxxxxxxxxxx

- Senhora! Senhora!- chamou Juliet entrando às pressas nos aposentos de sua ama, sem mesmo bater à porta. Isso deixou Ana-Lucia ainda mais irritada do que de costume.

- O que quer, mulher? Por que entras desse jeito em meus aposentos?

- É que tem um homens, senhora, invadindo o castelo. Uma comitiva inteira e o líder deles diz que veio para se casar com a senhora e tomar posse de tudo.

- Então eles chegaram?- Ana indagou com um sorriso maldoso.

- A senhora sabia que eles viriam, milady?

- Recebi uma missiva do rei.

- E por que não nos avisou, senhora? Se soubéssemos que eles viriam...

- Mantenha tudo como de costume, Juliet. Se esse homem pretende mesmo me desposar, é bom que seja mais persistente do que eu.

Juliet deixou o quarto de sua senhora, muito intrigada. Foi até o salão principal do castelo e encontrou o mordomo, Benjamin Linus conversando com o líder da comitiva que dizia em altos a brados a que tinha vindo.

- Peço desculpas, milorde, por não estarmos sabendo de sua chegada.- dizia o mordomo com adulação. – Certamente a missiva do rei Henrique há de ter extraviado pelo caminho.

- Só isso poderia justificar tanta incompetência.- disse Sawyer, profundamente irritado. – Onde está a senhora do castelo? Eu gostaria de vê-la imediatamente!

- Ela está em seus aposentos, meu lorde, mas asseguro-lhe de que ela descerá assim que eu a avisar de sua presença aqui...

- Não, não, deixe-a!- disse ele, mudando de idéia. È melhor que eu a veja somente na hora do casamento. Aliás, quero tudo preparado para a cerimônia, tragam o padre e preparem um jantar de comemoração às bodas com muita cerveja, entendeu?

- Sim, milorde. Então não devo trazer a dama agora?

- Não, agora não, minha comitiva precisa descansar. Desejo que todos sejam acomodados no castelo.

- Como queira, milorde. Deseja que um criado lhe seja enviado para ajudá-lo?

- Não.- respondeu Sawyer. – Trouxe meu próprio criado pessoal.

- Resolveu não olhar para a bruxa para não ficar com medo e sair correndo?- Goodwin provocou quando eles subiam as escadas.

- Estou apenas cumprindo a vontade do rei, Goodwin. Se preciso mesmo casar com essa mulher, que seja logo, rápido e indolor.

Goodwin não disse mais nada e eles continuaram seguindo o mordomo solícito até o quarto onde descansariam até a hora do casamento. Durante a caminhada pelo longo corredor, o cavaleiro viu a figura bela e delicada de uma mulher loira, com longos cabelos que os estava espiando desde que estavam no salão principal do castelo.

- Quem é aquela dama que acabou de passar por nós, mordomo?- Goodwin indagou.

- È Juliet.- respondeu ele. – A criada pessoal de Lady Ana.

- Muito bonita a serva da Cortez.- Goodwin comentou com o conde quando eles adentraram o aposento. – Aposto que se sua futura esposa fosse tão bonita quanto esta criada, não precisarias ter medo de te casares com ela.

- Ah, cala boca!- falou Sawyer, cansado de brincadeiras.

Goodwin resolveu então ficar calado.

xxxxxxxxxxxxxxx

Lady Ana-Lucia podia ouvir toda a movimentação que acontecia em seu castelo com a chegada da comitiva do Conde de Sawyer. Mas não ousou sair de seus aposentos. Sabia que o rei da Espanha tinha plenos poderes para decidir sobre sua vida, principalmente agora que não possuía mais nenhum parente direto vivo. Mas isso não significava que ela precisaria ser uma esposa dócil e submissa.

O ambicioso conde poderia até casar-se com ela como desejava o rei, Ana-Lucia não queria aguçar a ira do soberano contra ela, porém, ele se arrependeria disso para o resto de sua vida. Ela o faria querer nunca ter desejado aquele casamento para se apossar daquelas terras. O homem a odiaria tanto que após alguns dias naquelas terras esquecidas por Deus, iria voltar correndo para a Inglaterra e deixá-la em paz.

Novamente batidas na porta. Seria possível que a serva nunca a deixaria em paz?

- O que você quer outra vez, Juliet?- Ana indagou malcriada de dentro do quarto. – Eu já não disse que não quero ser incomodada? Quando eu precisar de ti, a chamarei.

- Mas é muito importante, senhora.- insistiu Juliet.

- Pois bem, entre!

Juliet entrou seguida por mais uma criada, além do mordomo Linus.

- Mas o que é isso? Um complô contra os meus nervos?- Ana protestou. – Por que tantas pessoas em meus aposentos?

- Milady, eu acomodei a comitiva do Conde Sawyer no segundo andar.- disse o mordomo. – Ele deu ordens para que um jantar especial fosse preparado.

- Jantar especial para quê?- Ana-Lucia se fez de desentendida.

- Para as bodas, milady.- explicou o mordomo em voz baixa, temendo a ira de sua senhora.

- Pois eu cuspirei nesse maldito jantar!- a lady gritou fazendo com que o mordomo e a outra criada se encolhessem, à exceção de Juliet que permaneceu no mesmo lugar.

- Lady Ana, o conde também ordenou que o padre fosse chamado e que a cerimônia de casamento fosse realizada esta noite.

Lady Ana-Lucia deu uma gargalhada maldosa ao ouvir estas palavras fazendo com que o mordomo e a criada se encolhessem ainda mais, mas Juliet, porém, manteve a seriedade e os olhos fixos em sua sennhora.

- A cerimônia fúnebre do Conde tu queres dizer, não é Juliet? Pois bem, eis minha resposta para tudo isso, se esse inglês se casar comigo será um homem morto porque o matarei como matei Daniel e depois dançarei em seu túmulo.

- Como queira, senhora.- disse o mordomo fazendo uma mesura e se retirando.

A criada assustada olhou para Juliet, trêmula, seus olhos implorando que a dispensasse do quarto da Lady bruxa.

- Pode ir Bridgte. Não vou precisar de ti agora.

Bridgte fez uma mesura para Lady Ana e deixou o quarto quase correndo.

- E quanto a ti? Vai ficar aqui a olhar-me com essa cara de idiota?- indagou Ana à Juliet. – Não ouviu o que eu disse?

- Ouvi, milady, mas acontece que este homem, a senhora querendo ou não é o novo senhor deste castelo, nomeado pelo próprio Henrique, então que escolha temos senão fazer a vontade dele?

- Ès impertinente, menina!- disse Ana dando-lhe as costas e se voltando para sua janela preferida, da onde costumava ficar observando o reino.

- Eu vim aqui porque preciso prepará-la para a cerimônia, senhora, devemos escolher uma túnica e eu já mandei que a costureira lhe preparasse o véu...

Ana deu outra risada maldosa e disse à Juliet:

- Sim, és mesmo impertinente!

Juliet permaneceu de pé, sem intimidar-se por sua senhora, esperando que a Lady tomasse alguma atitude condizente com a situação que estavam vivenciando agora. Ela não poderia simplesmente ignorar o conde. Um homem como aquele não podia ser ignorado. Além de belo, viril e altivo, o conde de Sawyer era um homem de ação que não se deixava intimidar, Juliet pôde ver quando ele deu ordens à Linus no salão principal. Como se adivinhasse seus pensamentos, Lady Ana-Lucia perguntou à criada:

- E então, como ele é?

- Perdão, senhora?

- Estou perguntando como é este homem, o conde de Sawyer.

- Bem...eu diria que ele é incomum, milady.

- Como assim, incomum?- ela perguntou com curiosidade.

- Oh, ele é muito belo, senhora, e muito alto também. Bem mais alto que qualquer um dos soldados do reino.

- Ele é mesmo um inglês?

- Com toda a certeza, milady. Ele adentrou o castelo segurando a bandeira da Inglaterra.

- E de que cor são seus cabelos? E seus olhos?

A criada estava surpresa com o teor das perguntas de Ana, mas não ousou questioná-la a respeito disso, sabia que a paciência de sua senhora tinha limites para sua impertinência.

- Os cabelos são dourados como os campos de trigo na primavera e as madeixas chegam-lhe até os ombros. Os olhos são de um azul anil brilhante.

- E quanto à barba? Suja, comprida e pegajosa?

- Não, senhora. Achei-lhe a barba muito peculiar, diferente dos homens que conheço. Ele não usa a barba longa como um ancião, sua barba dourada apenas roça-lhe o rosto alvo. Ele também possui ombros largos e as mãos são grandes, de dedos longos, como as de um guerreiro que usa com freqüência sua espada.

Lady Ana-Lucia deu um sorriso malicioso e disse à criada:

- Devias casar-te com ele, Juliet. Falas desse homem com tanto interesse.

- Estou apenas respondendo suas perguntas, milady.

- Então ele é mesmo tudo o que diz?

- Sim, senhora. E me permite um pouco mais de franqueza?

Ela ergueu uma sobrancelha e assentiu.

- Ele não é como nosso antigo senhor, milady. O conde é diferente. Apesar da firmeza com que tratou o mordomo Linus, não o vi maltratá-lo ou a qualquer outro servo nesse castelo.

- E quanto às servas hã?- ela indagou, maldosa. – Aposto que ele pediu que algumas fossem mandadas para o seu quarto para banhá-lo e depois...

- Nada disso, senhora. Linus ofereceu-lhe um criado e ele disse que já possuía um criado pessoal. Depois, Linus mandou que Josias fosse até o quarto deles e ofereceu-lhe algumas servas, mas o conde não aceitou. As criadas é que ficaram desapontadas por não poder ver o conde mais de perto em toda sua glória, milady.

Lady Ana-Lucia estava começando a ficar intrigada sobre o tal conde. Mas sabia que nada do que a criada estava dizendo importava. Ela conhecia os homens muito bem e eram todos iguais. Homens como seu pai, como seu primeiro marido, como os cavaleiros do reino. Todos eram violentos, grosseiros, malcheirosos e sua atividade preferida além da guerra era fornicar.

- A senhora deseja saber mais alguma coisa sobre o conde?- indagou Juliet diante do silêncio dela.

- Não, não quero saber mais nada. Esse homem não me interessa em absoluto. Agora vá!

Mas Juliet ainda ficou parada.

- O que eu preciso fazer para que tu entendas que quero ficar sozinha, criatura?

- È que preciso escolher a túnica para a cerimônia, milady. O que deseja vestir?

- Uma mortalha.- Ana respondeu e voltou-se para a janela novamente, dessa vez ignorando Juliet por completo.

Sabendo que não a convenceria, não com palavras, Juliet foi até o baú de vestes de sua senhora e escolheu uma túnica branca com bordados dourados que pertencera à Lady Raquel, mãe de Ana-Lucia. Era a túnica mais bonita que sua senhora possuía.

Colocando a túnica nos ombros para ser levada à lavanderia para que fosse engomada, Juliet ainda disse à Ana-Lucia:

- Voltarei em meia hora com Bridgte trazendo a tina para o seu banho, senhora. Depois escovarei e pentearei seus cabelos.

Ana-Lucia nada disse, e mesmo que ela estivesse de costas, Juliet fez uma mesura e deixou o quarto. Quando se viu sozinha, Ana-Lucia continuou se perguntando sobre quem era realmente o Conde de Sawyer.

- Cabelos dourados como o trigo na primavera...olhos azuis da cor do anil...brilhantes... – ela murmurou para si mesma. Nunca tinha visto em viento salvaje um homem com essa descrição. Todos eram morenos, queimados pelo sol, cabelos escuros como a noite e olhos maldosos. – Ele ainda é um homem!- ela gritou para si mesma. – Não se deixe enganar pela face de um anjo. Ele é o anjo da morte, Ana-Lucia, o anjo da morte!

xxxxxxxxxxxxx

Arthur, o criado pessoal do conde Sawyer terminou de engraxar-lhe as finas botas de montaria e as trouxe para calçá-las nos pés do lorde. Enquanto realizava esta tarefa, o mordomo Linus bateu á porta. O conde autorizou que ele entrasse.

- Boa noite, milorde. O jantar em comemoração ás bodas já está pronto e será servido logo após a cerimônia. O padre Juanez também já está no castelo e as criadas estão enfeitando o altar com flores.

Sawyer apenas assentiu com a cabeça, em seguida perguntando o que mais gostaria de saber desde que chegara ao castelo e que fingira não dar importância quando falou pela primeira vez com o mordomo.

- E minha noiva?

- Ela ainda está em seus aposentos, meu senhor.

O conde assumiu uma expressão zangada e o mordomo gaguejou:

- Mas sua criada pessoal já a está preparando para a cerimônia, portanto o senhor pode ficar despreocupado que ela descerá quando chegar a hora.

O mordomo saiu com uma mesura e Goodwin passou por ele, entrando no quarto.

- Estive olhando tudo lá fora como me pediu. Deu uma boa volta no castelo e...

- Encontrou a dama?

- Não, não a vi em nenhum lugar e a quem eu perguntava sobre o paradeiro de Lady Cortez, os criados diziam que a senhora estava em seus aposentos.

- Já estou farto disso!- Sawyer bradou, assustando o pobre rapaz que lhe calçava as botas. – Oh, desculpe Arthur.

- Não tem porque se desculpar, milorde. – respondeu o rapaz e continuou o serviço.

- Eu queria ver o rosto dessa mulher, saber se tudo o que dizem sobre ela é verdade!

- Bem, a única pista concreta que pude ter sobre a aparência dela foi quando cheguei aos domínios da lavanderia. Eu vi aquela moça de cabelos dourados que o mordomo bajulador diz ser a criada pessoal da lady. Ela entregava para outra criada uma túnica branca e dizia que devia ser engomada com urgência para Lady Ana.

- A túnica de casamento?- Sawyer indagou.

- Sim. E posso dizer com total segurança que não era uma túnica pertencente à uma matrona. Boas notícias não? Pelo menos sabemos que ela não é gorda.

- Preferia que ela fosse gorda e dócil, a magra e intratável. A mulher não veio nos receber, ficou trancada em seus aposentos, é uma grosseira.

- Talvez esteja com medo.- disse Goodwin.

- Pelo que falam dela, Goodwin, duvido muito disso.

Arthur terminou de calçar as botas no conde e Sawyer levantou-se para ajeitar a capa sobre os ombros.

- Usou perfume?- Goodwin debochou.

- Sempre uso perfume, homem. Não é porque irei casar-me com uma bruxa que me casarei cheirando a uma lhama.

Goodwin riu do comentário espirituoso do conde, o primeiro que ele fazia em semanas, desde que partiram da Inglaterra rumo à Espanha.

- Desejo-te boa sorte em seu matrimônio, meu amigo, apesar das circunstâncias desse casamento.

- Obrigado, Goodwin. Mas não serei o primeiro, nem o último homem a casar-se por conveniência, além disso, para que existem as concubinas?

Os dois riram juntos e deixaram os aposentos. A hora da cerimônia estava chegando.

xxxxxxxxxxxxxxxx

Tudo estava pronto. O altar decorado com flores. O padre de pé segurando a bíblia sagrada. O conde trazia as alianças de ouro gravadas com o brasão da família Shephard, mas nem sinal da noiva.

Sawyer já estava bufando de ódio. Quem Lady Cortez pensava que era para deixá-lo esperando? Irritado ao extremo, ele mandou que o mordomo fosse aos aposentos da dama e a trouxessem para o salão.

O mordomo obedeceu e alguns minutos depois apareceu com uma expressão temerosa no rosto, esfregando as mãos uma na outra.

- E então, onde está minha noiva?- Sawyer perguntou sem paciência.

- Ela disse que não vai descer, senhor.

- Como disse?

Linus repetiu a resposta e achou por bem ocultar que ela tinha cuspido no chão quando disse isso, logo após pronunciar o nome de seu futuro marido com desprezo.

- Pois eu irei buscá-la agora mesmo.

Goodwin se ergueu.

- Eu irei contigo.

- Não preciso de um soldado para proteger-me de minha noiva.- frizou Sawyer e ordenando ao mordomo que o levasse até os aposentos de Lady Cortez, o conde subiu as escadas.

xxxxxxxxxxxxx

Nos aposentos de Lady Ana-Lucia, Juliet tentava convencê-la de que deveria descer e se casar com o conde antes que o homem ateasse fogo ao castelo tamanha a sua fúria pelo atraso dela.

- Já disse que não irei descer!- respondeu Ana, mas estava vestida com a túnica branca que pertencera à sua mãe. Os cabelos negros cuidadosamente penteados, com uma guirlanda de flores enfeitando-os. O véu branco cobrindo-lhe as costas e ocultando seu rosto.

Batidas violentas foram ouvidas de repente no quarto e uma voz grave disse em tom intimidante:

- Lady Ana-Lucia Cortez, minha noiva, a senhora precisa descer imediatamente ao salão principal para casarmos!

Ana-Lucia sentiu um estranho arrepio ao ouvir aquela voz, mas não deu nenhuma resposta. Juliet ficou nervosa e disse a ela:

- È melhor descermos, senhora. O próprio conde veio buscá-la!

- O meu carrasco tu queres dizer?

- Abra esta porta, senhora ou a porei a baixo e a levarei arrastada para o salão.

- Que faça então!- Ana disse baixinho e voltou-se para a janela.

Com medo de represálias, Juliet correu a destrancar a porta e implorou ao conde cujo ódio brilhava nos olhos azuis:

- Ela está assustada com o casamento, milorde, por favor, não machuque minha senhora.

- Saia da frente, senhorita!- ele ordenou e Juliet colocou-se de lado, temendo o pior.

Linus apressou-se em fugir dali correndo, de volta para o salão com medo de que o conde descontasse sua fúria nele caso a lady continuasse insistindo que não desceria. Juliet ficou espiando da porta o que ele iria fazer.

Sawyer a viu, parada de costas diante da janela. Observou sua silhueta esguia, ela era pequena, mas não podia vê-la realmente porque o véu branco de casamento a cobria até os pés.

- Senhora, queira me acompanhar, por favor?- ele pediu com o último resquício de educação que lhe restava, antes que a fera que habitava dentro dele saísse e se mostrasse.

Mas a mulher continuou sem pronunciar palavra, estranhamente quieta. Impaciente, Sawyer desejava ver-lhe o rosto e tocando-a delicadamente no braço ele a virou de frente para si e ergueu-lhe o véu.

Os olhos azuis se alargaram em surpresa. Ele não estava preparado para ver tanta beleza diante de si.

Continua...