2 - O maior tesouro
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Todos os dias eram iguais naquelas montanhas. O clima frio e a subida íngreme e perigosa impediam outras criaturas de se aventurar por lá. Os que se atreviam, conheciam a morte mais cedo do que desejavam, congelando aos poucos antes mesmo de conseguir chegar ao templo lá no topo.
Estas almas perdidas encontravam uma voz suave que as guiavam, flutuando aos poucos até o jardim branco. Era branda a melodia, tranquilizava as almas que rodeavam a jovem que cantava serenamente. As almas – pequenas chamas branco-azuladas – subiam e desciam ao redor da youkai, atraídas naturalmente por ela. Quando a música cessava, elas já estavam sob o domínio da princesa que as libertava, uma a uma secretamente, para que fossem julgadas por Enma Dai Oh… Uma atitude estranha, porém sensato da parte dela! Toda alma merecia o seu descanso. Outra controvérsia era uma youkai conseguir guiar almas, já que naturalmente eles se alimentam delas para ficarem mais fortes, mas isto só era possível porque Shirayuki além de ser um demônio como pai, era uma guia espiritual como a mãe.
A demônio-cão estava prestes a terminar o ritual, quando suas orelhas se levantaram ao ouvir passos se aproximando e pela forma de caminhar certamente era o seu pai, indo verificar se o jantar estava servido. Olhou para as pequenas chamas indo vagarosamente para o céu e abanou as mãos, sussurrando agitada "Xô, xô! Vão logo embora!" antes da porta se abrir.
– Onde estão as minhas preciosas almas?
Kinugami parou, olhando a filha se balançando desajeitada e pegando uma pequenina alma em um pulinho. Ele ficou do mesmo modo por um momento, incerto do que dizer após presenciar aquela cena já que não sabia exatamente como era esse tal ritual das almas de não sei o que, mas pelo visto ela havia conseguido.
– E-eu consegui uma... – a voz tímida refletia o constrangimento de ser pega no ato, sem tempo e a contragosto estendeu a mão, mostrando a alma que se escondia na palma enquanto ele se aproximava com uma carranca.
– Só isso? – curvou-se para poder encará-la nos olhos, completamente sério enquanto ela fazia um pequeno beicinho. – Isto não serve nem para enganar o estômago!
– Sinto muito...
Sempre era o mesmo dilema! Não queria enganar o pai, entretanto não desejava ver as almas sendo devoradas. Com este pensamento martelando em sua mente, lágrimas indesejadas começaram a surgir em seus olhos. Vendo que a filha começaria chorar, Kinugami simplesmente pegou a alma da mão dela e jogou na boca, engolindo-a de uma vez.
– Pronto! – gritou, irritado. – Amanhã você vai treinar mil vezes e então pegará mil almas para mim!
Uma interrogação surgiu na face chorosa da princesa que apenas o viu saindo bufando. Ele era medonho, talvez fosse por causa da altura e o jeito rude de falar. Meneou a cabeça e o seguiu, vendo que ele a esperava na porta.
– Limpe este rosto! Demônios não choram, eles tomam banho nas lágrimas dos inimigos!
– S-sim senhor! – esfregou os olhos e tratou de apertar o passo, olhando para o chão enquanto pensava "Tomar banho nas lágrimas deles? Isto parece ser muito cruel...".
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Os corredores do templo eram iluminados pouco a pouco, os youkais verdes e de braços longos acendiam as luminárias com as chamas alaranjadas do Makai; chamas poderosas que nem mesmo o frio mais severo era capaz de apagá-las; deixando o ambiente ainda mais sinistro. Sombras dançavam para lá e para cá conforme os demônios andavam, preparando as pás para coletarem mais neve novamente.
Shirayuki conseguiu ver apenas eles saindo e continuou a sua caminhada até a sala dos tesouros. Todo dia conferia se não estava faltando algo, era o seu dever e uma forma divertida de passar o tempo. Adorava observá-los vagarosamente e muitos ela nem sabia o que faziam, porém compreendia que eram extremamente poderosos. Parou seu hobby somente quando notou que Kinugami entrava na sala, vagarosamente. O quimono preto que usava estava coberto por uma armadura púrpura, espinhos surgiam das ombreiras curvadas e no peito o desenho de uma fera com as presas a afiadas demonstrando toda a sua imponência e poder. Era o artefato favorito dele, não precisava da armadura para lutar, mas gostava de saborear o medo que a sua presença causava aos inimigos, achava divertido.
– Todos os meus tesouros reunidos em uma única sala... – bradava orgulhosamente, olhando para a sua coleção. – E o mais precioso está bem na minha frente.
– Eles são incríveis. – sorriu docemente sem perceber que ele a encarava fixamente, sem saber realmente o seu valor para aquele youkai.
– Estou indo para a reunião dos reis, mas preciso conferir se você está preparada para proteger o templo. – deu de ombros para a ingenuidade da filha.
– Vamos lutar? – perguntou receosa, se encolhendo.
– Eu quero ouvir o seu rosnado. Somos deuses-cão, nosso rosnado é a prova de nosso poder!
– Mas... – suas orelhas murcharam.
– Eu vou fazer primeiro, apenas tente imitar. Está no seu sangue esta força, apenas coloque para fora.
Seu olhar maligno brilhava enquanto encarava a pequena de cima, como se fosse devorá-la. Seu nariz enrugou e um som rouco e apavorante surgia de sua boca semi aberta; mostrando os dentes brancos e afiados. Shirayuki sentia o chão tremer ou seria o seu corpo reagindo à energia sinistra que transbordava daquele demônio a sua frente? Seus joelhos batiam um no outro e sem perceber havia perdido a voz.
– Pronto. – sorriu, maldosamente, voltando ao normal como se nada tivesse acontecido. – Agora faça!
A princesa demorou alguns segundos para se recuperar, não conhecia o real poder de seu pai, nunca havia presenciado suas lutas e o pouco que sabia fora através das histórias que ouvia dos servos. Respirou fundo tentando não demonstrar que ainda estava nervosa e se concentrou, erguendo o rosto para poder fitar os olhos negros dele.
– Garuuuuuuuu...
O olhar sério dela estava fixo em Kinugami, seu rosto mostrava uma mescla de ferocidade com timidez e vergonha. As mãos em garras era uma tentativa de deixar a situação ainda mais assustadora. O cão dourado ficou surpreso, a grande finalização do poderoso rosnado da filha foi quando as orelhas pontudas moveram para cima e para baixo, conforme ela se aproximava com seus olhos pequenos e brilhantes... O grandioso demônio desviou o olhar, fitando a parede.
– ... uuuuuuuuuuh. – ela parou, pensando "Eu consegui? Ele ficou com medo?" e as questões não paravam de surgir e flutuar em sua mente.
– Já chega. – o rosto de Kinugami estava um pouco vermelho, a maldade em seu coração parecia ter derretido um tiquinho com aquela cena, ela nunca esteve tão fofa assim na frente dele. – Você definitivamente não irá rosnar assim para ninguém, entendeu!? Para ninguém!
– Oh! Combinado, combinado! – um sorriso iluminado surgiu, estava feliz por ter conseguido, certamente estava tão feroz e por isso não poderia mostrar isto para mais ninguém.
– Que droga! Eu estou indo embora! – esbravejou, pisando firme até o corredor. – Cuide dos meus tesouros, de todos eles!
– Pode deixar, vá com cuidado.
Ela acenou, despedindo-se com um sorriso que desapareceu quando já não conseguia mais ouvi-lo caminhar pesadamente. Suspirou e voltou a olhar para os tesouros e depois saiu, fechando a porta. Andou pelos corredores sem realmente saber o que fazer agora, não queria treinar, então decidiu que iria novamente com os servos, pediria uma nova história hoje, talvez sobre as batalhas de seu pai.
Ao chegar à entrada viu os três discutindo e acertando as pás uns nos outros, causando uma risada gostosa na princesa que continuou de longe a observá-los. Perdeu alguns minutos apenas vendo o trio, gostava deles do fundo do coração, poderiam ser estranhos, entretanto eram seus amigos. Deu um passo à frente, porém recuou no mesmo instante, lembrando da bronca que havia recebido por estar lá fora com eles conversando. Não queria que fossem repreendidos novamente por sua causa, não desejava mal a ninguém, por isto decidiu que ficaria só mais um pouquinho lá fora e depois voltaria para treinar.
Cumprindo seu dever, Shirayuki voltou para o templo. Logo após os primeiros passos sentiu algo diferente, havia alguma coisa errada. Apressou-se e farejou um novo cheiro ali, era doce e agradável. Tentou imaginar o que poderia ter deixado esse aroma tão gostoso e a única coisa que vinha em sua mente é que poderia ser uma flor, mas então, como ela teria aparecido bem no topo de uma montanha gélida? Alguém teria invadido sua casa? Decidiu que deveria ir até a sala dos tesouros checar se estava tudo bem, e foi exatamente quando entrou no corredor que se depararam, subitamente, quase trombando. Os olhares se encontraram e ficaram perdidos por um instante, surpresos pelo ocorrido.
Ele por instinto recuou e ergueu o chicote de espinhos, pronto para atacar, porém sua ação foi interrompida por aqueles olhos negros como a noite, gentis e ingênuos.
Ela permanecia estática, como se tudo dela tivesse sido roubado por aqueles olhos dourados cheios de vida, gananciosos e perigosos.
– Você…
Notas do capítulo:
- Yōkai (lit. demônio, espírito, ou monstro), também escrito como youkai, é uma classe de criaturas sobrenaturais do folclore japonês, que inclui o oni (lit. "ogro"), a kitsune (lit. "raposa") e a yuki-onna (lit. "mulher da neve"). Alguns são humanos com características de animais, ou o contrário, como o Kappa (lit. "criança do rio") e o Tengu (lit. "cães sagrados"). Um yōkai geralmente tem algum tipo de poder sobrenatural ou espiritual, e assim encontros com humanos tendem a ser perigosos. Um yōkai que tem a habilidade de se transformar é chamado de obake. O termo yōkai é ambíguo, e pode ser usado para designar todo tipo de monstro e criatura sobrenatural.
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Oi, tudo bem?
Acabei decidindo postar um capítulo por semana até chegar ao nono (escrevi até esse) e nesse meio tempo ver se a inspiração volta e concluo a fic que não será muito grande, prometo. A história é bem água com açúcar, divertida (estou tentando) e com um romancezinho quase lá (estou praticando). Tem uma ponta forte no drama da Shirayuki e pode não parecer, mas há muita coisa dentro dessa bolinha de pelos brancos (fofa da mãe). E como eu disse, a coisa vai andando devagar, quase parando.
Quem tiver paciência pra ler, obrigada. E pra quem comenta, valeu pelo feedback! Ele é sempre muito bem vindo e necessário, me ajuda muito mesmo. Sem mais bla bla bla, beijos e até o próximo. Fui ~
