Era uma noite fria e nebulosa. O trem partira da Cidade do Porto com destino à Lugar Nenhum já fazia um certo tempo. Nevava para chuchu e os castores uivantes da floresta não gostavam nada disso. Em um dos vagões havia um garoto diferente dos outros, que ficam por aí estudando para o Vestibular, bebendo com os amigos e se divertindo. Ele era um bruxo. Seu nome era Potter, Harry Potter. Sentado ao lado estava um homem bem mais velho, um escritor decadente, de aparência séria, um pouco psicopata, mas ainda assim séria. Ele se chamava Torrance, Jack Torrance.

Quando se apresentaram, Harry soube que Jack era um enorme fã seu e teve que dar um autógrafo: Para Jack Torrance, o cara do trem, com afeto. Harry Cicatriz.

– Você é um personagem fascinante Harry, eu adoraria tê-lo criado.

O jovem não entendeu a perspicaz observação e tentou mudar o assunto.

– Você está escrevendo algo no momento?

– Sim. – Jack respondeu, seus olhos hostis não escondendo o fato de não ter gostado da pergunta.

– Qual é o nome da história?

– Ainda não decidi.

– É sobre o que?

– Nada demais. Um cara fica preso em um hotel no inverno.

– E como é o final?

– O cara mata o garoto que fez perguntas demais.

Harry se calou e achou prudente permanecer assim, afinal o homem lembrava um psicopata. E foi nesse exato instante, mesmo, confie no narrador, que tocou uma sineta e uma voz muito, mas muito estranha, no auto-falante surgiu com um aviso.

– Queridos e prezados passageiros, lamentamos muitíssimo em informar que se a nevasca continuar aumentando, por motivos de força maior, seremos obrigados fazer uma parada de emergência. Desejamos uma boa sorte para todos, quero dizer, uma boa noite para todos.

Dois homens estavam sentados um de frente ao outro no mesmo vagão. Se mantiveram calados até o aviso do auto-falante, quando um deles começou a murmurar:

– Vou morrer. Vamos morrer. Com frio, sono, fome, medo, virgem.

Ele possuía cabelos grisalhos, olhos negros, um penteado desajeitado e uma face jovem. O outro já se encontrava na terceira idade.

– Ninguém vai morrer. Não ainda, pelo que sei.

– Sim, nós vamos.

Aquele sujeito despertava uma curiosidade incomum e o velho ficou curioso a respeito disso. Caiu como um patinho.

– E como você acha que isso vai vir a acontecer?

– A neve vai deixar os trilhos muito escorregadios, o trem vai derrapar, o nosso vagão será o segundo a cair, sentiremos o impacto na hora e explodiremos. Os que por ventura sobreviverem, provavelmente bastante mutilados, serão abduzidos pelas vacas que planejaram isso tudo.

– Vacas? – o senhor questionou, incrédulo.

– Vacas Verdes. Duplo V. Elas penetram algumas sondas pelo seu ânus e estudam o corpo humano. Depois lavam o seu cérebro e te obrigam a dançar música lenta. Isso se os castores uivantes da floresta não nos pegarem primeiro. Eles não gostam do frio.

– Qual é o seu nome, rapaz?

– Psicose. Alfred Psicose.

O velho levantou a sua mão em sinal de comprimento e Alfred a apertou.

– Prazer em te conhecer. Eu sou o doutor Lecter, Hannibal Lecter.

Os olhos do paranóico homem se arregalaram, não conseguia mais libertar a sua mão.

– O... o... canibal?

– Não, é com h mesmo.

– Meu Deus, eu realmente vou morrer.

O velho largou a mão do sujeito e segurou sua perna, prevenindo que este se levantasse.

– Se acalme meu bom jovem. Eu não vou te comer ainda. Acabamos de jantar, se lembra? Agora, se acalme.

– Meu Deus. Meu Deus. Vou morrer. Ele vai arrancar as minhas bochechas, fritar no azeite, salpicar com o orégano e cobrir com uma pitada de alho.

– Manteiga.

– Hã?

– Eu vou fritar na manteiga.

Alfred soltou um grito.

– Não se preocupe! Eu não já te disse, homem, que já jantei? Não vou te comer.

– Meu Deus.

– Seu Deus não vai te ajudar. Ele está de licença prêmio.

Psicose não se acalmou com o tempo, mas sua face adquiriu uma convincente aparência serena, com certeza forçada, que agradou imensamente o canibal.

– Entretanto, você sabe que há sempre um espaço reservado para a sobremesa.

Outro senhor de idade olhava pela janela, pensando no último jogo de sua vida. Sem engenhocas, ferro, relógio, vídeo, ou bonecos. Apenas pessoas e escolhas. Apenas a conveniência iria se ocupar de causar a loucura, a angústia, a dor e a morte. O nome era Kramer. John Kramer. Aquela seria a sua obra de arte, seu testamento. Ele tentava se concentrar, se manter focado no plano, mas um infeliz, a três bancos do seu, não parava de cantar. A nevasca aumentou.

Ultrapassado o ponto de não retorno

Nada de olhar para trás

Os jogos que fizemos até agora

Nos prepararam para o derradeiro final

O cara não sabia rimar em português, mas cantava bem, isso ele tinha que admitir. John se lembrou de seus tempos áureos, quando até mesmo a polícia o temia, quando ele podia pegar quem ele achasse melhor, e subvertia-os ao caminho da redenção. Ele possuía esse poder naquela época. Tudo mudou quando ele buscou os aprendizes errados, muito errados, que acabaram se mostrando ser tudo o que ele mais desprezava. Se ele não tivesse feito a escolha errada, não teria que se sujeitar a isso. Se tivesse acertado logo no início.

Passando todos os se e quando

Se torna inútil resistir

Abandone a sua vontade

E deixe o sonho existir

Aquele sujeito era realmente um indivíduo que se destacaria numa multidão. Usava uma máscara branca, cobrindo apenas metade do rosto, e capa preta, como se estivesse atuando em uma peça de teatro. Sua música entrava em sua mente e o acalmava de alguma forma, transmitia certa paz. Era como se aquele homem pudesse ler os seus pensamentos, se o conhecesse. Sua hora estava chegando, seu tumor o comia por dentro, suas forças se esvaíam para sempre. Sua hora se aproximava. E assim seria.

Ultrapassado o ponto de não retorno

O derradeiro final se aproxima

Que quentes e indizíveis segredos

Descobriremos!

Ultrapassado o ponto de não retorno!

O auto-falante voltou a anunciar a sua existência por aquela voz muito, mas muito estranha:

– Prezados passageiros, este é o seu condutor falando. Eu fico feliz em anunciar que essa viagem não chegará a seu destino nessa gelada noite por causa da nevasca. Devido a esse inconveniente nós os guiaremos a um sobrado a alguns metros daqui, para o desespero, quero dizer, para a segurança de todos. Obrigado por escolherem a Slow Death Tours e tenham todos uma ótima, prazerosa e bastante aconchegante morte, quero dizer, noite.

Em outro vagão, um homem, se podemos caracterizá-lo como um, conversava com um coelho. Ele se chamava Smith. Agente Smith.

– Com tudo que te falei, não concorda que os seres humanos são depreciativos? - perguntou.

– Uaaaaaaaaaaargh! - o coelho respondeu.

– Certamente. Eles são como um vírus de computador. Vão para uma área, a desgastam completamente, utilizam todos os seus recursos para depois se moverem para outra, recomeçando o processo.

O coelho retirou um desentupidor de pia debaixo da almofada e o enfiou na própria cara.

– Uaaaaaaaaaaargh!

– Compartilho plenamente de sua opinião, meu amiguinho histérico monocromático. O mundo, o universo, o banco de dados, seria melhor sem eles. Eu mataria um por um se pudesse, mas eu já tentei e falhei. Eu não suportaria falhar novamente. Eu não agüento mais.

– Uaaaaaaaaaaargh!

O agente admirava aquele pobre animal, tão sábio, ingênuo e perseverante. O coelho estava com dificuldades de se livrar do desentupidor.

– Isso mesmo! Eles têm o prazer de estarem vivos e não aproveitam esse dom. Se eu estivesse vivo eu até me mataria de vergonha por meu fracasso. Mas sou apenas um falho programa de computador. Destino. Não existe tal coisa, são só dados vagando pelo programa cumprindo suas determinadas funções em seu subconsciente. Nada mais, nada menos que isso. Contudo, eu tenho um plano que já tratei de por em andamento. Você talvez verá.

– Uaaaaaaaaaaargh!

O coelho havia conseguido vencer a sua épica batalha contra o desentupidor. Smith olhou para a paisagem ao redor do trem, tão branca, tanta neve, um mar de leite.

– Estou cego. – refletiu.

Um robô, que havia sido construído para entender e reproduzir de formar sem igual a personalidade humana estava sentado ao lado da janela, lamentando a sua existência. Uma mulher que possuía, entre outros vantajosos atributos, um dedinho bastante selvagem, o havia observado desde o começo da viagem sem dizer uma palavra. Uma hora não agüentou e foi sentar-se ao seu lado.

– Olá, Robozão, como você se chama? - ela perguntou, repousando a sua mão na perna do robô.

– Quem se importa? É Marvin. Somente Marvin. Nem dá para fazer a analogia escrota com 007. Não é deprimente?

O nome dela era Betsy. E apenas isso bastava.

– Eu sempre quis transar com um robô. – confessou, animada.

– Hã? Um robô?

– Sim, você sabe, aposto meu rabo como as engrenagens me levarão à loucura. E a sua cabeça, que cabeça! Tão desproporcional, lembra uma melancia. Eu adoro chupar os caroços. Diversas vezes.

Se uma máquina conseguisse imitar as feições humanas de nojo, surpresa, medo e esperança, batesse tudo no liquidificador e olhasse o que tivesse dado, o resultado não conseguiria se sobrepor à que Marvin fez. Naquele exato momento, o amontoado de peças, chips e parafusos fez seu criador orgulhoso. De dentro do túmulo.

– Eu quero me matar.

– Depois que eu terminar com você, querido, faça o que quiser.

O robô não sabia o que falar, pensar, ou fazer. Era uma máquina, por mais que fosse seu objetivo, não sentia atração por ninguém. No entanto, aquela mulher despertava nele algo que não conseguia identificar e isso o deprimia ainda mais.

– Você me dá medo.

– Eu vou te dar outra coisa, Mau-Mau.

A mulher cruzou a sua perna na dele e abaixou a mão. Ela vestia uma camiseta sem graça e uma calça jeans um tanto quanto justa.

– O que você está fazendo?

– Te possuindo, Mau-Mau. Pense que sou um vírus e que estou a penetrar ardorosamente todos os seus bancos de dados, infectando tudo. Comendo tudo.

– Você é nojenta.

– Nojenta, suja, doente, louca. Eu sou muito mais do que a paródia do que faço, meu amor.

Marvin processou todas as maneiras de se livrar daquela situação em uma fração de segundos, mas algo o impedia de botá-las em prática, mais tarde só pôde concluir que teria sido o delo dela. Nesse momento, o trem parou bruscamente e a estranha, mas muito estranha, voz no auto-falante voltou.

– Última estação: Mansão Mal-Assombrada. Estação terminal, desembarque pelo lado direito. O desembarque será obrigatório. Por favor, caiam no vão entre o trem e a plataforma. Posso assegurar que terão uma ótima estadia, quero dizer, noite. Novamente, a Slow Death Tours agradece a preferência. Choo-Choo!

Betsy olhou no que deveria ser os olhos do Robô, arriou a calça jeans e disse:

– Como essa voz me deixa excitada! Olha o tamanho que o meu pau ficou!