PURGATÓRIO
Arashi Kaminari

Capítulo 01 - Escolhas

Ikki POV

Não tinha certeza se eu queria entrar em casa. Já sabia de tudo o que iria acontecer. Ele chegaria e diria na minha face que eu não prestava. Que eu não honrava a memória de minha mãe. Que eu deveria ser um filho melhor e blá blá blá. Não estava a fim de escutar aquilo. Além do mais, estava super chapado. Achava até que nem escutar direito o que ele iria dizer, eu escutaria. Como se aquilo fosse um problema. Eu nunca o escutei mesmo. Seria até melhor assim. Eu não perderia meu tempo relembrando depois.

Traguei o ar a minha volta. O mundo estava rodando. Mas desde quando? Parecia que algo dentro de mim estava queimando como uma bola de fogo incandescente. Eu estava morrendo?

Caí no chão e não consegui me levantar. Droga. Agora eu estava ferrado. Iria escutar por longas horas depois de recobrar minha consciência. Sem falar que eu estava com cheiro de sexo em mim. Aquilo não iria prestar. Droga. Por que tudo aquilo acontecia comigo e somente comigo? Se ela estivesse aqui, seria da mesma forma?

Eu era admirado como um deus. Todos diziam que eu deveria me honrar. Mas na verdade, eu odiava. E era esse o motivo pelo qual as batidas eram tão perfeitas para mim. Era na pista de dança da boate já conhecida que eu descontava minha raiva. O tesão, eu descontava na primeira presa idiota que passava pelo meu caminho.

Rastejava, dançava, me esfregava, me drogava e fazia tudo aquilo que eu poderia fazer na minha mais completa libertinagem. Todas as noites. As pessoas da vila não me viam com bons olhos, mas o que podiam fazer? Eu era daquela forma e não pretendia mudar tão cedo.

Aquela noite, eu havia ficado com uma garota. Os seus quadris grudaram nos meus e a sensação de enterrar minha carne em sua xota havia sido o melhor. Mais e mais pessoas nos olhavam e era exatamente aquilo que eu queria. Eles queriam me ver como um deus? Um deus a eles, eu daria. Um deus tão pervertido como aqueles que haviam me machucado e tirado tudo o que eu considerava precioso.

Parecia estar perdendo o controle, mas eu tinha plena consciência. Eu sabia o que eu fazia. Era aquilo ou nada. Eu precisava e ela também. Todos nós. O sexo era celestial... E eu apenas o aproveitava.

Não sei a quem agradecer, mas graças a alguma coisa, nunca ninguém havia me visto da forma como a qual eu estava... Além de alguns pescadores que pecavam mais do que eu e Shaka, meu tutor, que sempre me pegava de porre. Minhas companhias? Eu fugia delas antes de me verem naquele estado. Seria um desgosto imenso.

Que azar eu tive. O loiro estava me esperando na porta de casa. Maldito! Mesmo ele sendo cego, eu não conseguia enganá-lo. O que ele era afinal? Algum demônio a fim de acabar com minha miserável vida? Aproximei-me cambaleante e totalmente lascivo. Eu sabia que ele odiava meu comportamento e era por isso mesmo que eu me portava daquela forma? Para ver se eu conseguia tirá-lo do sério.

Eu nem lembrava direito da moto que eu havia pegado emprestada para voltar a minha casa. Levaria outra bronca por isso.

A feição de Shaka não estava nada boa. Por algum motivo parei de pensar em meu próprio umbigo e então, percebi que ele não estava nem aí para mim. Apesar de não conseguir parar de me repreender com sua postura ofensiva. Havia acontecido algo a Shun...

Algo a ele, eu não conseguiria resistir. Deus. Tirei forçar não sei de onde e corri até a entrada. Droga. Shaka apenas ficou imóvel, fingido não ter me visto. Corri para dentro do quarto de meu irmão e o vi se debater na cama, ardendo em febre. O que havia acontecido?

oOo

Shaka POV

Não sabia o que se passava na cabeça dele, mas o que quer que fosse, não era boa coisa. A noite caía todos os dias e ele só voltava no dia seguinte... Isso quando ele voltava. Passava as noites em orgias, como se quisesse se purificar.

Eu já havia dito mil vezes que aquela não era a forma correta. Mas ele não me escutava. Dizia que para alcançar a verdadeira purificação, ele teria que se sacrificar. Preferia fazer coisas que não gostava, apenas para sentir o quão mal um ser humano pode ser. Também dizia coisas que eu não compreendia e aquilo estava me preocupando mais do que eu gostaria.

Havia me dito certa vez, que algo em seu peito apertava toda vez que percebia que estava indo longe demais. Expliquei que aquilo era culpa e ele insistia em dizer que não. Que ele conhecia o sentimento de culpa e aquilo estava longe de sê-la. Era algo muito além. Algo parecido com a morte.

Eu não gostava dela. Então, nunca nos prolongávamos naquele assunto, para minha sorte. Porém, ele sempre fez questão de me dizer o quão doloroso era e eu me sentia mal por não poder ajudá-lo a entender.

Shun estava passando mal e ele, fora de casa. Sempre tive minhas suspeitas para com os dois, mas nunca me intrometi. Shun só se acalmava com a presença do irmão e nenhum dos dois parecia disposto a discutir o assunto comigo. Deixei que resolvessem o problema por eles mesmos, qualquer que fosse ele. Seria melhor assim. Mas a situação estava chegando num momento crítico. Talvez, nem um milagre os salvaria. A Ikki pelos menos não. Deus já não estava ao seu lado.

Podiam dizer que eu era agourento entre outras coisas, mas eu sabia que Ikki precisava de uma religião ou de algo para acreditar. Ele acreditava em si mesmo e aquilo era o bastante, pelo menos para ele. Às vezes, sufocava seu choro em seu travesseiro e fazia pedidos para algo de bom acontecer, porém seus atos iam contra tudo aquilo que dizia em seus momentos de sofrimento.

Mesmo meditando durante todo o dia, eu não via uma solução para o caso de Ikki e aquela noite, eu não sabia mais o que fazer. Os pescadores já haviam reclamado de Ikki mais de uma vez e até mesmo o ameaçaram. E eu estava cansado. Aquela noite eu teria que tomar uma decisão. Assim que Shun melhorasse, eu conversaria com Ikki. Shun precisava de alguém para ajudá-lo e não para preocupá-lo.

oOo

Shun POV

Achava que somente eu entendia meu irmão. Tínhamos respeito mútuo, mas nosso respeito ia muito mais além. Agüentávamos tudo o que viesse, por maior que fosse a pressão. Estávamos tão entorpecidos de nossas dores, que o mundo nos parecia totalmente alheio. Eu conseguia me controlar, mas Ikki não. Aquilo estava nos afastando. E afetando a Shaka e todos os que estavam a nossa volta.

E naquela noite, eu havia visto algo novamente. De forma mais assustadora do que a da primeira vez. Aquilo parecia não ter fim. Eu não agüentaria mais uma noite. Estava cansado e me tornando algo que eu não desejava. Ikki estava sendo alguém que todos queriam, menos a pessoa que ele queria ser... Aquilo estava nos matando.

Na mesma noite, Shaka o expulsou de casa. Sem pena e nem dó. Depois de dezesseis anos o criando, o loiro o havia posto para fora de casa. As palavras ainda ecoavam em minha mente e eu não queria lembrá-las. Era por demais doloroso. Será que só eu o entendia? Aquilo não estava certo.

Shaka o havia arrastado para debaixo do chuveiro logo após d´eu ter me acalmado. Eles pensavam que eu estava dormindo, mas na verdade, eu havia acordado minutos antes. Eu estava dormindo no momento em que Ikki entrou e me disse palavras reconfortantes. Ele sabia o que se passava comigo e dizia que eu deveria esquecer assim como ele, que isso acabaria comigo. Mas eu não conseguia. Ainda mais quando tudo o que eu via era o futuro preocupante de meu irmão.

Ikki foi surrado pelas palavras pesadas de Shaka.

– Não respeita nem mais o seu irmão.

– O respeito que tenho por ele só deve conta a ele. Você não tem nada a ver com isso.

– Se não tenho, o que faz ainda aqui? Por que não revida, então?

– Porque apesar de tudo ainda te respeito. Devo minha vida a você. Nada a mais do que isso. – Ikki disse, lançando sua malícia em seguida – Quer algo, você terá.

– Não ouse me confundir como uma dessas vadias que você toma na noite.

– Não se preocupe, eu tenho experiência com putos também.

– Fora! Eu não quero mais vê-lo. E não tente ver o Shun até ele estar bem.

– Você não tem o direito. Você não pode me separar do meu irmão.

– Eu não estou os separando, só não quero que ele fique ao seu lado por muito tempo. Temo pelo bem estar dele.

– Você não sabe o erro que está cometendo. – Ikki esperneou, enquanto Shaka o arrastava para fora da casa.

– Você não sabe o que comete, Ikki.

– Ele precisa de mim tanto quanto eu preciso dele.

– Duvido. Duvido muito. Ele resistiu até aqui. Ele resistirá mais.

Após dizer aquelas palavras, Shaka fechou a porta atrás de si e deixou meu irmão ao relento. Sem casa e sem família. Sem nada, para dizer a verdade. Ainda pudemos escutar os chamados e as batidas contra a porta. Tapei meus ouvidos. Eu não queria escutar mais.

– Shaka! Shun! Shun! Shunnnnnnnnnnnnn!

Eu podia sentir o coração de Ikki sangrar e aquilo doía em mim. Shaka me flagrou na sala, mas nada disse. Apenas sinalizou seu colo para eu me deitar e dormir. E assim, eu o fiz. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento. Esperava apenas que com Shaka, aquele sonho não resolvesse aparecer de novo.

oOo

Mu POV

Shaka não me parecia muito bem naquela manhã. Encontrei-o cuidando do irmão mais novo de Ikki, a peste da aldeia. Eu nunca havia ouvido alguém falar bem dele desde o seu nascimento e, bem que ele fazia jus a fama. Algo devia ter acontecido na noite anterior.

Percebi que shun estava de cama. Deveria ter tido mais um de seus ataques. Apesar de jovem, Shun tinha um problema muito sério... De sono. Ou pelo menos era o que todos pensavam. Dormia depois de tomar doses capazes de derrubarem um batalhão inteiro e às vezes ainda era capaz de apresentar quadros de plena consciência e violência ainda dormindo.

– O que queres, Mu?

– Gentileza. Tens de ser gentil. – brinquei, passando a mão em seu belo rosto.

– Com você? É desperdício de tempo.

– Mesmo cego, tu ainda manténs uma postura que nada lhe ajuda.

– Veio me perturbar novamente?

– Que termo chulo. – eu disse, me afastando um pouco, mas ainda me mantendo de pé perante ele, que estava sentado nos degraus de entrada – Vim saber como tu estás. Não me pareceste bem.

– Desde quando se preocupa?

– Desde quando estás na lista dos favoritos de Hades.

– Às vezes me pergunto porquê ainda estou aqui. Eu deveria ter ido há muito tempo.

– Não eras tua hora. Tu sabes.

– Não, não sei. Se me cegaram como castigo, porque não me negaram o pedido de salvação?

– Porque Deus é justo. Infelizmente para todos os lados.

– Não adianta tentar me matar, não é mesmo?

– Teu amigo daria cabo de ti, antes de nós. – eu disse, me referindo a um jovem médico que havia voltado para a aldeia um pouco mais de cinco anos atrás – Desperdício de tempo. – repeti suas palavras ácidas – Vício. Teu amigo sabe? – alfinetei-o, ao perceber que ele dava mais uma tragada num fumo.

– Creio que sim.

– Tu és a contradição. Hades nunca esteve não certo sobre um humano, como és contigo.

– Eu não entendo o que dizem. Sempre falam de forma confusa.

– E quem disse que era para compreender? Os humanos...

– ... São perfeitos em sua ignorância.

– Aprendeste. Shun, como está?

– Teve um ataque. Ikki chegou a tempo, mas creio que isso você já sabe.

– Sei. Mas gosto de ouvir de tua boca. Por que tu resolveste tomar tal atitude agora? Anos se passaram e agora tomas atitude?

– Porque eu não tenho mais nenhuma responsabilidade para com ele. Cumpri minha promessa. Criei-o. Agora, se ele faz jus aos meus ensinamentos ou não, eu nada posso fazer nesse sentido.

– Já contastes a Shun?

– Ele viu e ouviu. Você sabe disso também.

– E tu? Como estás?

– Dilacerado. Apesar de saber que era o certo, eu não me sinto tão correto assim. Não sou Deus para julgar alguém.

– Mas tu és alguém que podes corrigir outro alguém. Tu não tens noção do perigo que o fazes correr agora.

– Eu sei.

– Não, tu não sabes.

– Sim, eu sei. – Shaka rebateu com tamanha convicção, que me calou de imediato – Se ele já é grande o suficiente para fazer suas escolhas, terá que ser maduro o bastante para suportar o seu destino.

oOo

Ikki POV

Eu subia e descia. Estava escavando que nem uma toupeira. Eu iria chegar ao fundo do poço. Ou será que eu já estava nele... Eu queria viver e tudo o que eu fazia era criar a morte. Minha mãe, Esmeralda... Shun estava prestes a chegar lá.

Eu não estava nos meus melhores momentos. A dor de cabeça veio tão certa quanto a ressaca. Eu quase morri. Não estava preparado para aquilo. Eu tinha que ver meu irmão. Aproximei-me da casa para pedir permissão a Shaka e o encontrei com um homem de longos cabelos roxos. Parecia de alguma forma... Sobrenatural.

O aperto. Aquilo novamente. Eu estava ficando sem ar. Será que a morte era daquela forma?


Por Arashi Kaminari, 07 de setembro de 2005.

Notas da Autora:

Brucz: Obrigada pela sua review e desculpe-me pela demora. Tragédias e dramas também me deixam enjoada, principalmente quando a trama se passa praticamente dentro do hospital. Quanto ao Hades-sama, eu simplesmente o amo! Não é à toa que o coloquei logo no primeiro capítulo. E sim, ele irá aparecer mais vezes e o cara que queria morrer afogado era o Shaka mesmo. Toda vez que aparecer "Pov" logo no início, o nome que vier a frente é o dono da visão dos acontecimentos descritos.

Juliane.chan1: Obrigada pela sua review e desculpe-me pela demora. Curiosidade não era algo que eu havia pensado em despertar nos leitores, mas que bom que eu consegui. Mesmo sem querer. Quanto ao texto ter sido agradável, agradeço novamente. Gosto de escrever textos que as pessoas se sintam confortáveis e não com vontade de terminar de lerem o mais rápido possível.