Capítulo 2
WORDS AND DEEDS

Harry pôde sentir os lábios da mulher entreabertos sobre os seus e automaticamente tentou aprofundar o beijo. A boca de Luna era incrivelmente macia, com um distinto gosto de maçã, e deslizava facilmente, provavelmente efeito do batom. Inicialmente pôde sentir a mulher retribuindo, mas então ela parou. Subitamente, percebeu o que estava fazendo.

Luna era a melhor amiga da sua ex-mulher.

Luna Lovegood, a lunática, a menina que usava cordões de rolha de cerveja amanteigada e brincos de rabanete.

Luna Scamander, a renomada naturalista, que tinha descoberto tantas espécies novas de fungos, plantas e animais mágicos em parceria com seu marido.

Sentindo o estômago afundar com o peso da culpa, Harry se afastou dela. Os olhos azuis quase transparentes o encaravam, tão arregalados quanto sempre, e ela parecia ter perdido a capacidade de falar. A mulher respirou fundo, fechando os olhos, e ao reabri-los estavam brilhantes com lágrimas não derramadas.

— Isso foi estupidez minha, me desculpe — falou antes mesmo que ela se movesse.

— Harry, isso... Você... Não.

— Eu sei... Eu só queria — ele olhou em volta, esperando que ninguém tivesse visto aquela, poderia ser um escândalo e tanto. — Cumprir a tradição.

A mulher o encarou com uma expressão confusa, provavelmente a mesma que a olhava quando falava sobre alguma espécie nova ou alguma invenção de seu pai. Harry balançou a cabeça, sem saber o que dizer, antes de apontar para cima.

— Natal. Pessoas em baixo do visco devem se beijar.

— Ah — ela murmurou, desviando os olhos para cima. Ele viu duas lágrimas escorrerem pela lateral de seus olhos. — Certo.

— Sinto muito.

— Vamos esquecer isso. Não foi nada demais.

— Luna... Não chore — era completamente inconcebível a simples idéia da corvinal chorando.

— São os Nargulés — respondeu, abaixando o rosto. — Se me dá licença...

Luna saiu de sua frente, entrando em um dos cômodos perto do salão. Ele esperou por muito tempo, profundamente arrependido do que tinha feito, mas ela não tornou a reaparecer. Cada vez mais parecia a Harry que não conseguia fazer nada a não ser se arrepender de sua impulsividade.

— Eu vi isso, mocinha — falou uma voz divertida atrás dela no banheiro. Levantou seus olhos, vendo Ginny pelo reflexo do espelho. Suas bochechas estavam vermelhas de animação, que não era refletida na amiga. — O que houve... Você está chorando?

— Foram os Nargulés — respondeu simplesmente.

— Esse é o novo nome do meio de Harry ou Kneazle? — perguntou, visivelmente confusa.

— Você...?

— Como Draco disse... Ele sabia que o visco seria útil para alguma coisa.

— Tradição idiota — respondeu a loira, limpando os olhos.

— Isso quer dizer que você não gostou?

— Isso quer dizer que caso você não lembre, Ginny, eu sou casada.

— Claro que eu lembro. Caso você não lembre, eu também era. Por algum acaso, inclusive com o mesmo cara que você estava beijando agora mesmo.

— Me desculpe! — exclamou a corvinal, levantando os braços. — Foi idiotice extrema, eu sei!

— Não foi uma queixa — respondeu, balançando a cabeça negativamente. — Eu quero que ele seja feliz. Se isso te fizer feliz também, é ainda melhor.

— Eu sou feliz, Ginny.

— Você tem certeza? — perguntou a grifinória, encarando-a pelo reflexo do espelho. — Luna... Não faça o que eu fiz por tanto tempo... Não minta para si mesma. Eu vi a forma como você chegou na Villa essa manhã. Eu nunca tinha te visto chorar de tristeza em toda a minha vida, não depois que sua mãe morreu.

— Eu estava irritada, não triste — corrigiu.

— Da mesma forma, nunca tinha te visto chorar por isso — repetiu a noiva.

— TPM — justificou, firme em sua negação. — Eu estava testando uma nova poção para diminuir os efeitos pré-menstruais. Parece que essência de heliopaths não serve.

— Pare com isso — falou a outra, colocando as mãos na cintura. — Você nunca, nunca precisou de nada para controlar sua TPM, não ia ser logo agora que precisaria. Não minta, Luna.

— Eu nunca minto — respondeu simplesmente.

— Quantas vezes você viu Kneazle esse ano?

— Seis — respondeu com um suspiro. — Talvez sete.

— E isso é um casamento feliz? Não foi você mesma quem me disse, quando Draco tentou desfazer o noivado, que vocês não brigavam porque não se viam?

— Ele é um homem ocupado, eu admiro os esforços dele.

— E eu admiro Harry e tudo que ele fez e nem por isso estou casada com ele.

— Não tente comparar. Nada justifica infidelidade. Você não foi infiel, nem ele foi infiel a você.

— Merlin sabe que somos grifinórios e honrados demais para isso. Eu achei que você tivesse definido grifinórios como... Quais foram mesmo as palavras? Aparentemente, grifinórios têm a cabeça mais dura do que madeira de lei, se lembro direito. Logo, mostre que você não é tão estúpida quanto nós. Afinal, corvinais são perspicazes, e com um mínimo de perspicácia qualquer um consegue perceber que você não é feliz. Um casamento não funciona só porque uma das pessoas quer, Luna. Lembre disso.

— É diferente.

— É diferente, sim, e é tudo que você sabe dizer. Você sempre ensinou tanta coisa para nós, todos nós, eu, Blaise, Scorpius, Draco, Lily, Harry... Eu esperava ter conseguido te ensinar ao menos isso.

As duas amigas se encararam longamente. O silêncio parecia fazer com que as últimas palavras ecoassem nas paredes.

— Eu e Draco estamos partindo para Merry Maidens — falou, séria. - Mas não ache que não vamos continuar essa conversa.

A ruiva deixou o banheiro, deixando-a sozinha com seus pensamentos mais uma vez.

Harry caminhou por todos os convidados, sem saber direito o que fazer. Não sabia dizer por que raios tinha beijado Luna, e se perguntava se teria se arrependido se a mulher não tivesse começado a chorar. Fazia tantos anos que não precisava pensar em como se aproximar de alguém novo — e nunca tinha sido particularmente bom nisso — que já não sabia lidar com os próprios sentimentos.

Avistou uma garrafa de firewhisky e pegou um copo, virando tudo sem nem pensar duas vezes. Nunca tinha sido de beber muito, mas, parando pra pensar, se todo mundo usava o álcool para esquecer ele também podia fazer isso. Estava cansado de ser tão modelo, de não fazer nada de errado. Ele se sentou sozinho em uma das mesas, sem vontade de conversar com ninguém, servindo-se de mais e mais bebida — mais firewhisky, mais oak matured mead, mais vinho dos elfos. Começava a se sentir um tanto alto e anestesiado quando alguém o chamou e, com a virada do rosto, seus óculos caíram. Ele abaixou para pegá-los ao mesmo tempo em que viu um cabelo loiro surgir à sua frente.

Ele piscou, perguntando-se se Luna tinha vindo bater nele ou o perdoar. Mas então botou os óculos e um sorriso horrível e inconfundível entrou em foco. Usando um conjunto de vestes púrpura, combinando com uma bolsa de crocodilo vermelha e pedrinhas brilhantes nos óculos, Rita Skeeter sorria para ele.

— O que voooocê queeer? — perguntou, sabendo que sua voz estava arrastada.

— Oh, Harry, pobre Harry, abandonado pela esposa, que está se casando com seu inimigo de escola — falou, sorrindo. — Como você se sente?

— Eu me sinto tonto — respondeu, dando um sorriso contra a vontade. — Ela está feliiiiiz. Quem se importa com o resto?

— Quer dizer que todas as mágoas foram esquecidas? Você e a nova Sra. Malfoy mantiveram uma amizade ou apenas se toleram por bom senso?

Harry teve a péssima sensação de que ela estava usando sua pena-de-repetição-rápida, mas já não conseguia controlar sua língua.

— Malfoy é um idiota, massss ele num tem naaada a ver com nada. Se ela 'tá feliz, 'tá bom né? A genteeee se entende, Ginny e eu, na medida do possível, claro.

— Então quer dizer que tem problemas? Que vocês brigam?

— Eu nuuuunca me habituei à pooontualidade britânica — respondeu, antes de cair na gargalhada. — Isso é um probleeema.

— E então? Harry Potter já está pronto para outra? Olhando pros lados? Uma nova namorada, talvez?

— Namorada? Eu nunca fui bom de namorada, né? Eu só faço merda.

A loira sorriu para ele, mostrando todos os dentes, inclusive um de ouro. Ele se sentiu nauseado, mas pegou mais um copo de vinho.

— O que você quer, Rita? — perguntou, percebendo a conversa surreal que estavam tendo.

— Estou apenas cobrindo o casamento, nada de mais — falou, levantando e guardando as suas coisas dentro da bolsa. — Até mais, Harry.

Ainda meio atordoado por ter efetivamente dito algo para a jornalista, olhou em torno do salão. Luna e Blaise conversavam em voz baixa em um canto e seu estômago afundou, pensando se estaria contando tudo para o sonserino. Percebeu que ambos tinham copos nas mãos e ele sorria, com a mão na cintura da mulher, que gargalhava. E se sentiu a criatura mais ridícula e deprimente do universo ao vê-la concordar com a cabeça enquanto ele dizia algo em seu ouvido.

Luna estivera conversando sobre coisas aleatórias com George quando Blaise reapareceu. Para qualquer outro, pareceria perfeitamente composto, mas Luna conseguiu perceber detalhes ínfimos que revelavam que não era bem assim. A raiz dos cabelos dele estava visivelmente molhada, alguns vincos em sua roupa. O sorriso de conquistador, no melhor estilo amante latino, enquanto ele se aproximava dela — os passos leves e ritmados como um gato — e colocava a mão em sua cintura acenando para George o denunciavam.

— Weasley.

— Zabini.

— Se divertindo? — perguntou a loira, com um sorriso.

— Ótima festa, não é? — falou para os dois, enchendo um copo de vinho e o oferecendo para Luna, para depois servir o homem e a si mesmo.

— Bem regada — respondeu George, rindo. — Zabini, eu gostaria de te dizer algo importante.

— O quê? — perguntou o negro sob o olhar atento da mulher.

— Sem mais mágoas entre nós! — respondeu o gêmeo, com um sorriso. — Agora você é praticamente parte da família.

— Ah, obrigado Weasley — respondeu, rindo. — Mas Deus me livre de ser parte da sua família, eu não sobreviveria para tanto se dependesse de Draco.

Os dois homens riram enquanto ela meramente sorriu. George estava alcoolizado e sequer era seu amigo. E Blaise, com quem tinha esperado poder conversar, estava animado demais para ouvir uma coisa daquelas.

— Senhoras e senhores — falou o ruivo, erguendo o copo. — Minha mulher merece mais uma dança, então vou deixar vocês sozinhos.

— Tudo bem — falou a loira suavemente, tomando mais um gole de vinho.

— Comporte-se, Zabini, Luna é uma mulher casada.

A loira corou o suficiente para ser comparada a um Weasley, mas nenhum dos dois pareceu notar.

— Deus me livre de arranjar problemas com Scamander! Eu perderia dinheiro demais.

George riu antes de sair e Blaise se virou para ela, ainda sorrindo.

— Teve uma noite boa? — perguntou, tentando manter uma conversa normal.

— Gabrielle Delacour... Céus, que boca.

— Blaise, eu não preciso dos detalhes. Você está se comportando como se tivesse tomado chá de zonzóbulo com gira-gira.

— Eu me sinto como se tivesse tomado isso — ele falou, rindo. — Vamos, sorria Luna. Kneazle é um idiota e você merece se divertir.

Ela olhou para ele, dando um sorriso desanimado que entendeu como sendo uma concordância, enchendo o copo dela novamente.

— Não é simples assim, Blaise.

— Ah, por favor. Eu já tive drama pro resto do ano que vem inteiro com Draco e Ginny. Vamos lá, vamos fazer algo... Diferente.

A loira ergueu as sobrancelhas.

— Eu não tenho cara de Gabrielle, tenho?

— Vamos encher a cara! — falou em seu ouvido, e ela gargalhou. — Eu estou falando sério, Luna. Você já tomou algum porre?

— Conta chá de gira-gira com raiz de cuia?

— Céus, não. Vamos lá... Você vai começar a achar graça em tudo, eu prometo. Antes que você chegue aos quarenta sem um porre na vida.

— É um plano — respondeu, sorrindo.

— Então, vamos lá. Não podemos deixar sobrar nada do que Narcissa comprou.

Harry notou, de repente, que a festa começava a esvaziar. Alguns casais mais jovens passeavam pelo jardim e poucos continuavam a dançar. Lucius e Narcissa pareciam muito entretidos, dançando um com o outro e sussurrando em seus ouvidos com sorrisinhos. Tentou, em vão, não invejar a felicidade dos dois. Pouco depois, viu Blaise — visivelmente alcoolizado — conduzindo uma Luna muito tonta em um tango. Não combinava com o ritmo da musica que tocava, mas nenhum dos dois parecia se importar. Os olhos da corvinal brilhavam e ela ria enquanto ele a abaixava. Aquilo incomodou o grifinório profundamente: a dança era sensual e os dois pareciam se divertir, mesmo sem ser apropriado.

Ele levantou, surpreso com o controle que ainda tinha de suas pernas, e andou até os dois. Nenhum deles pareceu notar sua caminhada até que estivesse próximo o suficiente para encostá-los.

— O que você quer, Potter? — perguntou Zabini, parando de dançar.

— Posso dançar com você? — perguntou diretamente à loira.

— Potter, não é hora para debater sua dor de cotovelo.

— Luna?

— Certo — ela falou, sorrindo tontamente.

— Luna? — repetiu o negro, parecendo espantado.

— Harry também é meu amigo — respondeu, mas o negro não a soltou.

— Ele é um chato quatro-olhos!

— Blaise! — disse em tom de alerta. — Esse tango está me deixando tonta.

— Certo — falou, soltando-a e olhando em volta. — Comporte-se, Potter. Não quero ver Luna chateada.

— Longe de mim, Zabini.

— Gabrielle, aí vou eu de novo — falou, olhando para a corvinal e rindo antes de sair.

— Luna... — ele começou, incerto.

— Vamos dançar — respondeu, colocando os braços atrás de seu pescoço.

Pela primeira vez realmente reparou no quanto Luna era mais alta que Ginny. A cabeça da loira conseguia se apoiar em seu ombro e ele sentia a respiração dela em seu pescoço. Abaixando as mãos, encontrou a cintura fina dela e a viu se remexer como em um arrepio quando deslizou para as costas. Os corpos estavam tão próximos que conseguia sentir os seios dela encostando em seu peito conforme dançavam e tinha que usar toda concentração para evitar um constrangimento ainda maior. Ela se movia com leveza, tão típico parecer despreocupada enquanto ele se descabelava. Podia sentir o rosto dela se mexendo, encostando em seu pescoço, e percebeu que ela cantava.

I'll boil you up some hot, strong love

To keep you warm tonight

Seu rosto esquentou com as idéias que aquele trecho trazia em sua mente, mas fez toda a força possível para se controlar — "tenho que me desculpar, não criar mais problemas", pensou repetidamente. Continuaram dançando mais algum tempo e Harry já começava a se sentir tonto pela mistura do balanço e do álcool quando parou, pousando as duas mãos sobre as faces da amiga.

— Eu sinto muito — falou, sério.

— Não sinta — respondeu, ainda se movendo ao som da música.

— Eu te desrespeitei — murmurou, sentindo o rosto corar.

— Não, você não desrespeitou nada, fui eu quem desrespeitei meus votos...

— Eu te beijei — falou em um sussurro.

— E eu quis ser beijada, Harry. Não importa.

A loira virou as costas, afastando-se em passos curtos e rápidos, mas sua afirmação tinha deixado o homem tão atordoado que apenas a observou por algum tempo antes de segui-la. Percy lhe deu um olhar medianamente confuso antes de pará-lo.

— Harry! Que bom te ver. Fico feliz que você esteja tão bem acomodado com essa situação estranha.

— É — respondeu apenas, distraído. — Escute, tenho que ir.

— Atrás de Scamander? — perguntou, tentando esconder um sorriso de deboche.

— Luna está bêbada, quero levá-la para casa.

— Como você consegue dizer a diferença dela bêbada para normal? Ela é completamente fora de órbita de qualquer forma. Grande pesquisadora, claro, mas totalmente fora de órbita.

— Bom, eu sei que ela está, então vou levá-la para casa antes que... Antes que não consiga desaparatar.

— Sempre salvando os outros — respondeu Percy, condescendente.

Saiu andando em passos largos, cruzando rapidamente as portas até alcançar os jardins da Mansão. Andou um pouco antes de encontrar a loira abaixada, acariciando um dos famosos pavões albinos que Lucius Malfoy mantinha para ornamentar o lugar. Ele se aproximou, fazendo barulho, mas ela não se mexeu, concentrada no animal.

— Luna?

— Eu sempre gostei dos pavões de Lucius — falou, aérea. — Nunca pude ter pavões, claro, os heliopaths não se dariam bem com eles.

— São bonitos — respondeu simplesmente.

— Mas tenho lebres — falou, suspirando. — Eu tenho muitas lebres, na verdade.

— Você sempre gostou de lebres — respondeu, distraído. — Seu patrono é uma lebre.

— Era — falou, calma. — Era uma lebre.

— Não é mais? — perguntou, confuso, lembrando dolorosamente de Tonks e Snape.

— Você viu que o patrono de Ginny mudou?

— É mesmo?

— Uma doninha — falou, rindo. — Muito apropriado.

— Como você soube?

— Ela me mandou uma mensagem por patrono outro dia. Devo dizer que ela mesma ficou chocada.

— Eu devia ter desconfiado que não ia dar certo quando vi aquele cavalo — falou, sério.

— Isso não quer dizer nada — respondeu, olhando para o céu. — O patrono de Blaise é uma lebre e nem por isso ele é meu verdadeiro amor.

— Parece ser, às vezes — respondeu, sério.

Ela levantou, ficando frente a frente com ele. Seus olhos azuis semitransparentes estavam arregalados como de costume, mas, como sempre, era difícil dizer o que estava pensando.

— Nunca houve nada entre mim e Blaise, nem nunca vai haver. Somos amigos e apenas amigos.

— Diga isso para Rita Skeeter se ela viu aquela dança de vocês. Ou para Kneazle.

— Ele não tem nada com isso, não está aqui e não pode falar nada do que eu faço ou não faço se não está aqui.

— Ele não é menos seu marido porque está longe.

— Ele é menos meu marido, sim, se não deita comigo, não vem me ver e me deixa meses sozinha — respondeu, e pela primeira vez desde que a conhecera, Harry a estava vendo honestamente irritada.

— Não fale assim — ele disse, colocando a mão na lateral do rosto dela.

— Me leve pra casa — ela pediu, abraçando-o.

— Luna... — sussurrou novamente contra os cabelos dela. — É melhor que...

— Ginny estava certa, você pensa demais — cortou a corvinal, antes de o beijar ferozmente, apenas um segundo antes que sentisse o incômodo conhecido da aparatação perpassar seu corpo, ainda abraçado ao dela.

Abriu os olhos novamente, vendo o conhecido pátio circular da casa de Luna e Kneazle. Um arrepio de culpa passou em suas costas, mas a loira continuava com os lábios grudados nos dele. Uma parte de sua mente dizia que aquilo era errado — e absurdo —, mas seu corpo reagia imediatamente, beijando-a de volta, puxando-a contra si. As mãos da mulher começavam a arranhar suas costas e ele sentiu que estavam andando, embora seu senso de direção estivesse completamente alterado pela bebida.

Ela riu marotamente para ele quando o soltou, puxando-o pelo colarinho das vestes.

— Sabe o que eu gosto muito de fazer quando estou chateada? — perguntou, rindo.

— O quê? — respondeu, visivelmente atordoado.

— Correr — disse, girando o corpo por um instante antes de sair correndo para dentro da casa.

Era estranho e surreal, Harry se sentia impelido a segui-la, como se a brincadeira fosse uma espécie de caça. Ouvia as risadas histéricas de Luna ecoando por todas as paredes e se perguntou se nenhum dos vários pesquisadores que moravam na casa se incomodaria. Talvez estivessem mais acostumados que eles às excentricidades da mulher, convivendo tanto com ela. Seus pés pareciam leves conforme corria em direção à moça, até ver o reflexo de seu cabelo loiro passando por um dos corredores circulares e acelerar para chegar até ela.

— Peguei — falou, rindo, e a encostou na parede.

Os dois se olhavam nos olhos, ambos ofegantes, Harry sentia sua cicatriz molhada de suor. A franja bagunçada de Luna estava grudada em sua testa. Podia sentir sua respiração forte pelo ritmo em que seus seios tocavam nele e, não pela primeira vez na noite, tomou a iniciativa de beijá-la. Era forte, desesperado, um beijo com desespero. As línguas se tocavam freneticamente, os lábios se arrastando de uma forma tão diferente e ao mesmo tempo tão sensual que era o suficiente para que não conseguir controlar suas reações.

As mãos de Luna puxavam sua cabeça mais para perto, aprofundando o beijo cada vez mais, e ele, como se acontecesse com outra pessoa, sentiu suas mãos a puxar mais pra perto pelo quadril. Os lábios de Luna fugiram dos seus, alcançando o lóbulo de sua orelha, esfregando-se nela, deixando-o ouvir os sons que ela fazia conforme a puxava mais para si, fazendo o corpo da mulher comprimir o seu. Uma de suas mãos subiu, puxando o cabelo loiro para baixo, afastando-o de seu ouvido, para trocarem mais um beijo. Aquilo era insanidade completa, mas não conseguia parar. Luna arranhava suas costas com força, beijando-o de volta com vontade e, decididamente, pegou sua outra mão e a levara até seu seio direito. Sem conseguir pensar direito, apertou com força e a ouviu gemer contra seus lábios. Afastou-se dela, pensando ter machucado, mas ela riu da sua cara, mordendo seu pescoço e trazendo suas duas mãos para os seios novamente.

Ele a apertava com todo desejo contido de meses sem sexo e ela levantava o rosto para ter certeza que ouvia seus pequenos gemidos. As mãos de Luna corriam por seu peito, arrancando sua camisa sem se preocupar se estava estragando ou não, e ele mesmo já não conseguia se importar com nada a não ser com tocar mais perto de sua pele, puxando as alças do vestido, deixando-o escorregar para longe de seu colo. A pele dela estava quente e suada e não pôde conter um gemido quando ela desceu a mão, segurando-o por cima da calça com força, e a ouviu dar um risinho.

Abriu os olhos para vê-la. Luna sorria, sem roupa até o quadril, os cabelos loiros bagunçados, completamente livres do coque que tinha, os olhos fechados. Passou alguns segundos observando o formato dos seios pequenos, os bicos perfeitamente em pé, sem uma marca manchando a palidez da pele. Passou as pontas dos dedos por ele, vendo-a se arrepiar e achando graça daquilo. Ela segurou sua cabeça com as duas mãos, beijando-lhe novamente. Era um beijo quase primitivo, intenso, e apertava os mamilos entre seus dedos, puxando-os para si. A loira puxou sua cabeça, conduzindo-o para seu pescoço, onde deixou um rastro de beijos e mordidas fortes, vendo-a murmurar em concordância. Seus lábios se demoraram, brincando em torno dos mamilos rosados, enquanto ela se mantinha segurando sua cabeça com a mão direita, usando a esquerda para estimulá-lo mais um pouco.

Perdendo o controle, Harry mordeu os seios antes de sugá-los. A mulher gemeu, puxando-o ainda mais para si por alguns instantes, para depois descer as mãos e abrir sua calça, deslizando os dedos por dentro da cueca para poder segurar mais firmemente. Conforme deixava seus lábios e língua provar cada parte da pela sensível e firme da mulher, sentia a mão dela subir e descer, levando-o à loucura.

O homem gemeu e ela o empurrou, afastando-se um pouco, antes de puxá-lo pela mão. Parecia não se importar de estarem seminus no meio de um corredor, e a viu abrir uma das portas rapidamente, mostrando um quarto vazio. Harry mal teve tempo de perceber que as paredes eram todas azuis e não tinha nada indicando que fosse usado constantemente por alguém quando ela o empurrou contra uma cama. Ele riu, excitado pelas atitudes dela, e a puxou para junto de si, derrubando-a por cima de seu corpo. Luna o beijava com desejo e ele respondia quase instintivamente, sem conseguir pensar em mais nada que não fosse o futuro próximo daquela situação. Viu a mulher tirar a varinha da lateral do vestido, onde estivera encostava na perna, e fazer com que as roupas de ambos desaparecessem com um aceno e sem um único som.

— Você precisa me ensinar isso — murmurou, sentindo o corpo quente dela pesar contra o seu.

— Eu posso te ensinar muitas coisas — respondeu, sussurrando em seu ouvido, antes de se sentar.

Ele a olhou, medianamente surpreso mais uma vez. A corvinal estava completamente nua, sentada sobre seu quadril, deliciosamente perto de seu sexo. Os seios se mostravam, empinados, e ela não parecia ter a menor vergonha da posição dos dois conforme o indicava para chegar mais perto da cabeceira da cama. Conforme ele se arrastava pelo colchão, ela usava as unhas para arranhar seu peito e sua barriga, chegando cada vez mais perto de si mesma, agora se erguendo nos joelhos, esperando que ele se movesse.

Quando estava com a cabeça devidamente apoiada em um dos travesseiros da cama, ela puxou novamente a varinha, rindo novamente, antes de conjurar algemas com um movimento que não conseguia acompanhar, seus óculos provavelmente caídos no corredor. Ele se espantou, arregalando os olhos, ao se ver preso, mas ela apenas sorriu, engatinhando até ele e o beijando. Nunca tinha imaginado Luna fazendo uma coisa daquelas — mas ao mesmo tempo estava feliz de se descobrir completamente sem poderes para impedi-la de fazer o que quisesse, especialmente conforme passava a beijar sua barriga, descendo cada vez mais. Mantinha os olhos fechados, completamente anestesiado pela sensação da boca macia cada vez mais perto de onde mais a queria sentir, mas assim que ela o tocou em um beijo delicado, a mulher tornou a se erguer.

Abriu os olhos, confuso, e a viu voltar para cima dele, arrastando seu corpo no dele, beijando-o novamente. A mão leve dela o segurou firmemente por alguns instantes, antes de abaixar o corpo, conduzindo-o para dentro de si. Harry soltou um gemido de satisfação, mas ela não deixou muito entrar em si antes de se erguer novamente, sorrindo para ele. Uma vez e mais outra ela repetiu o gesto, deixando-o a cada momento mais desesperado para que continuasse. Tentou erguer os quadris, obrigando-a a não sair, mas ela foi mais rápida, tirando-o completamente de si. O homem soltou um murmúrio de insatisfação conforme repetia a mesma coisa pela quinta vez.

— Por favor — gemeu, quase incoerente. — Eu faço o que você quiser.

— Tem certeza? — perguntou, a voz leve.

E então ela se abaixou completamente, soltando um gemido que foi ecoado pelo próprio grifinório. Ele já não sabia o que estava acontecendo à sua volta, só sabia que Luna estava sentada em cima de si, os quadris se movendo em movimentos circulares e frenéticos. Ele a ouvia gemer e tentava se segurar ao máximo. Ela parecia se aproximar rapidamente do clímax, sabia que estava apertando e arranhando forte, mas não conseguia sentir nada a não ser que estava à apenas um segundo do orgasmo. Ouviu a corvinal gemer mais e se sentiu ser apertado por todos os lados, e só anos de treino tinham permitido que se segurasse. Ela parou por alguns segundos, recuperando o fôlego, antes de continuar a se mover da mesma forma.

Não havia mais nada, só a forma como os quadris dela se moviam, os olhos dela o observando, a forma como seu cabelo caia na direção dele. Viu a forma como os seios dela balançavam com o movimento e automaticamente tentou tocá-los, apenas para lembrar que estava preso. A loira continuava a se mover cada vez mais rápido, ele novamente podia a ouvir gemer, agora meio abaixada sobre si. Era ensurdecedor a voz dela ecoando no quarto, a forma como ela se mexia e, quando a sentiu o apertar mais uma vez, deixou-se levar. Luna passou ainda mais tempo parada, tomando fôlego novamente, e ele respirava pesadamente junto com ela.

Ela o beijou, ainda cheia de vontade, antes de beijar sua testa. Aproveitou a oportunidade para capturar seus seios com a boca, mas ela se afastou.

— Você disse que faria o que eu quisesse — falou, ainda ofegante.

— Eu faço — respondeu, sentindo a garganta seca.

— Eu fico presa agora — murmurou, soltando-o com a varinha.

E, com uma risada, ele concordou, apoiando-se sobre ela e a beijando, mal sentindo seus pulsos doloridos.