Curioso para vê-la mais de perto, Jack pairou em um pequeno e vagaroso redemoinho de flocos de neve até alcançar a sacada, adentrando no palácio antes que a jovem fechasse as imensas portas de gelo maciço. Ele analisou a arquitetura atentamente, maravilhado com as belíssimas estruturas de gelo que a jovem havia criado. Voou na direção do imenso lustre translúcido, apoiando-se neste com o cajado de madeira e, enquanto rodava os olhos pelo salão, Jack expeliu um comentário sobre a arquitetura para si próprio, porém sua voz ecoou pela extensão do cômodo.
"It's amazing! Essa garota tem talento!"
Elsa parou de imediato, ainda próxima a porta ao escutar a voz desconhecida e tão rente de si, erguendo o tronco e se deparando com a figura de um rapaz misterioso agarrado ao lustre por uma espécie de bastão. A rainha expeliu um grito para ele, recuando os passos e mirando ambas as mãos na direção dele, temendo que fosse atacada.
Aquela atitude o deixou completamente confuso. Afinal, por que aquela garota gritara? O que podia tê-la assustado? Jack olhou ao redor e por de trás dos próprios ombros, buscando o motivo para seu pânico, mas não notou nada diferente ou assustador. "Será que ela ouviu o que eu disse?" – pensou isso seria impossível, ninguém tinha capacidade de vê-lo ou ouvi-lo. Afastou novamente estes pensamentos, agora tentando entender o que poderia ter acontecido.
Curioso, ele resolveu se aproximar ainda mais da jovem, pousando em frente desta enquanto se mantinha equilibrado em cima do cajado congelado, que aparentava ser tão frágil.
"Qual é o seu problema?" – disse ele pendendo a cabeça ao lado enquanto a examinava.
Elsa correu os olhos pelo pálido rapaz, o analisando atentamente. Fixou as órbitas azuis tão cristalinas quanto gelo contra as dele, deslumbrada com a semelhança que estas tinham com as próprias.
"Quem é você?" – disse a rainha, alarmada com qualquer movimento do maior.
Ele franziu o cenho com a pergunta, impressionado com a maneira que esta aparentava dirigir a si – e ela estava! – Torceu os lábios, receoso, agora apontando o indicador contra o próprio peito.
"Você consegue me ver?"
"Como faz isso?"
Ambos disseram ao mesmo tempo. Entreolharam-se por alguns segundos e Elsa apontou para o cajado de madeira parcialmente congelado que sustentava o rapaz. Ele arqueou uma das sobrancelhas, porém antes que pudesse voltar a questioná-la esta tocou o bastão receosamente, empurrando-lhe com a ponta dos dedos. Jack desequilibrou, chocou-se contra o piso de gelo e emitiu um pequeno grunhido de dor.
"Ouch!" – exclamou o rapaz, sentando-se no assoalho álgido – "Sério, qual é o seu problema? Por que você fez—"
Jack se interrompeu, observando agora que a garota segurava seu cajado, notando que o mesmo começava a gelificar por conta dos poderes indisciplinados desta. Permaneceu atônito com tal efeito que ela exercia sob o objeto, não conseguindo entender o motivo.
"Espera... Eu que faço as perguntas aqui. Como VOCÊ faz isso, afinal?" – disse Jack, levantando-se e apontando para o cajado que agora jazia nas mãos da jovem.
"Isso...?." – ela desviou o olhar brevemente para o objeto e em seguida para o rapaz – "Isso o quê?"
"Ninguém consegue me tocar ou ao meu cajado. Mas você consegue! Como?"
"Ora, porque ninguém conseguiria?" – disse Elsa enquanto apontava o cajado na direção dele, tocando-o com a ponta do objeto de madeira – "Viu? Você está aqui, bem na minha frente e eu posso te tocar."
As orbes azuis translúcidas do garoto esbugalharam ao toque do cajado contra seu próprio peito, o que fez com que um largo e espontâneo sorriso surgisse nos lábios dele.
"Você consegue me tocar!" – disse enquanto saltava, entusiasmado.
"Obviamente." – respondeu a rainha, em tom irônico, devolvendo o objeto de madeira ao dono.
"Você pode me ver! Pode me tocar!" – ele saltou no ar, soltando uma deliciosa gargalhada. Deu uma volta completa, parando em frente a garota novamente, com um largo sorriso nos lábios.
Elsa observou a estranha e incomum cena sem compreender o que o garoto queria dizer com aquilo, afinal ele estava na sua frente e podia tocá-lo como qualquer outra pessoa. Porém a jovem rainha começava a pensar que ele seria apenas um fruto de sua imaginação. E que bela imaginação, pensou.
"Eu não entendo... Por que diz isso?"
"Porque ninguém acredita em mim. E se não acreditam em mim, não conseguem me ver ou me tocar." – disse, se apoiando no cajado.
"Isso é tolice! Como o fato de alguém acreditar ou não em você interfere na sua existência? Isso não tem lógica alguma."
"Bem, eu nunca entendi isso direito também... Mas o homem na lua—"
"Espere, homem na lua?" – Elsa interrompeu, expelindo um breve riso – "Acho que você bateu a cabeça quando caiu."
"Ele existe, ok?" – disse ele, em um tom inteiramente infantil. Cruzou os braços e desviou o olhar momentaneamente – "Ele que me fez ser quem eu sou."
"E... O que exatamente você é?" – ela arqueou uma das sobrancelhas, curiosa.
"Ah, bem..." - disse ao mesmo tempo em que torcia os lábios, não tendo ideia do que responder. Jack não sabia quem era. – "Não sei explicar o que ou quem eu sou exatamente."
"Acho que nisso eu entendo você, afinal, nem eu mesma posso dizer quem sou." – disse ela tristemente, enquanto recordava de sua irmã. Soltou um longo suspiro, tentando espantar aqueles pensamentos dolorosos, assim voltando a fitar o rapaz a sua frente. – "Porém posso ao menos me apresentar, não?" – esboçou um sorriso singelo, logo o desfazendo– "Meu nome é Elsa, a rainha da neve e do trono de Arendelle."
"Rainha da neve? Pffff-" – Jack riu, zombando dela – "E depois eu quem bati a cabeça!"
"Me desculpe?" – Ela cruzou os braços, franzindo o cenho, parecendo não aprovar a forma debochada do rapaz.
"Eu vago a muitos anos por estas terras e jamais ouvi falar da existência de uma rainha invernal!"
"Pois agora você sabe que existe uma!" – ralhou ela. – "De qualquer forma, você não me disse seu nome."
"Meu nome é Jack Frost e—"
Antes que pudesse completar a frase foi interrompido pela jovem agora enfurecida.
"Ora, não só tem a ousadia de dizer que eu não existo como tem a capacidade de mentir o próprio nome!" – bradou ela, furiosa – "Jack Frost é um personagem de um livro fictício, e ele não parece nada com você." – a rainha cruzou os braços, voltando a analisar o rapaz pálido, reparando o quanto ele era símile com o personagem das histórias que costumava ler.
E Então Elsa se recordou quando era criança, antes de ferir Anna com seus poderes, na época em que seus pais ainda eram vivos.
(...)
- "Vou lhes contar uma história, meninas..." – dizia sua mãe, a doce rainha de Arendelle – "Era uma vez um rapaz, um belo e carismático jovem que ganhou o dom de poder de criar a neve e trazer o inverno."
- "Como minhas mãos, mamãe?" – perguntava Elsa, com certa de cinco anos de idade. Sua mãe suspirou fundo.
- "Sim, querida. Como suas mãos. Mas... A situação é diferente. A lenda diz que ele tem o costume de desenhar em janelas congeladas, formar belíssimas figuras como nuvens e flocos de neve. – ela sorriu, acariciando as madeixas das ambas garotas que estavam tão entretidas em sua história – "E, se sentirem o nariz formigar em dias de frio, não se assustem, é ele."
- "Qual é o nome dele, mamãe?" – era a voz de Anna, com aproximadamente três anos de idade.
- "Seu nome é Jack Frost."
(...)
Jack Frost. Jack Frost. Jack Frost.
Aquele nome não saia de sua cabeça. Então aquele era Jack Frost? O personagem fictício de sua infância. O dono das histórias e aventuras imaginárias que Elsa criava quando criança e que amenizavam sua solidão no castelo. Como ele poderia existir? E mais, como ele poderia estar bem ali, na sua frente?
"Não estou mentindo, eu sou Jack Frost." – confirmou o rapaz – "E, é sério que existe um livro sobre mim?" – um sorriso travesso se formou nos lábios de Jack que se divertia com a ideia – "I look good in it?"
"Existe sim e eu tenho uma das cópias. Sabe, quando eu era pequena... Não podia ter muito contato com as pessoas e ficava a maior parte do tempo trancada no quarto. As histórias de Jack Frost me faziam companhia durante os dolorosos dias sozinha."
Ela esboçou um singelo sorriso ao se recordar das histórias, o que tornou suas feições tão graciosas, fazendo com que o rapaz pálido ficasse atônito com a beleza que esta emanava.
"E você se imaginava fugindo comigo, huh?" – suas bochechas enrubesceram, contrastando com sua pele pálida.
"Com você não, com Jack Frost!" – Elsa o corrigiu, soltando um longo suspiro.
"Argh! O que eu tenho de fazer pra você acreditar que eu sou o Jack Frost, hum? Já não basta ter me visto voar?" – ele retirou o capuz que escondia parte de suas madeixas, revelando-as, tão prateadas quando a lua.
Elsa arregalou as orbes assim que o rapaz retirou o capuz, notando o quão semelhante ele era ao Jack Frost dos contos de seu livro. O cabelo prateado, os olhos tão azuis cristalinos , sua pele tão pálida e gélida. Porém, não quis dar o braço a torcer, ele teria de provar que realmente era quem dizia ser.
"Faça nevar!"
Jack franziu o cenho e cruzou os braços.
"Por que eu deveria?"
"Segundo a lenda, Jack Frost é um espirito travesso da neve, ou seja, ele trás as nevascas, ou seja, se fizer nevar, vou acreditar que é ele."
Jack encarou a rainha e sorriu travesso, aceitando o desafio. Juntou ambas as mãos e as assoprou, fazendo com que uma esfera de neve com perfeitos padrões fosse produzida. Ele lançou a esfera para cima e ela se rompeu sozinha, assim se transformando em inúmeros flocos de neve que despencaram até o assoalho.
"Neve!" – exclamou ela, alargando o sorriso – "É você mesmo, Jack Frost!"
Agora ela finalmente tinha certeza. Aquele garoto era Jack Frost, o personagem fictício dos livros e de sua imaginação, o companheiro de sua solidão por tantos anos, agora, tão próximo de si.
A partir daquele momento os flocos de neve caiam sem pressa sob os dois em câmera lenta, desaparecendo pouco antes de tocar o pavimento de gelo. Jack e Elsa se entreolharam mais uma vez, agora com um singelo sorriso estampado nos lábios de ambos – eles tinham apenas uma certeza – Não estavam mais sozinhos.
