2. Segredos

- Ah por favor, Sammy! Você não vai contar a história da nossa vida pra esses dois estranhos, não é? - indignou-se Louise, olhando para a irmã.

Sam olhou para Louise, com a expressão confusa.

- Ela tá falando com a irmã dela, seu mané! - retorquiu Dean, cutucando o irmão.

- Por favor, Louise! Eu preciso contar! Se eles disseram que podem nos ajudar, por que recusar? Você sabe muito bem que sozinhas nunca conseguiremos encontrar as respostas para isso!

- DANEM-SE AS RESPOSTAS! NOSSA MÃE MORREU, SEU NAMORADO MORREU! ISSO VAI TRAZÊ-LOS DE VOLTA?

Samantha hesitou. Olhou para os próprios pés, e respondeu baixinho:

- Poderíamos evitar que mais alguém que amamos morresse. Pode reclamar, mas eu vou contar o que aconteceu.

- Ótimo! Fique aí então! Eu vou para o hotel, não vou ficar mais aqui olhando para a cara desse estúpido!

E, decidida, Louise retirou-se, deixando Samantha com os Winchester.

- Foi um prazer ter te conhecido, sua maluca! - gritou Dean, quando Louise virou as costas.

- Bom, conte-nos o que aconteceu - retomou Sam, demonstrando curiosidade e preocupação.

Samantha engoliu em seco e suspirou. Não gostava de lembrar daquilo, mas ela estava cansada. Cansada de carregar aquelas lembranças tão trágicas sem ao menos saber o por quê daquilo tudo. Se aqueles dois rapazes disseram que podiam ajudar, nada restava a Samantha a não ser confiar neles. E depois convencer a irmã a fazer o mesmo.

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Wisconsin, 17 de dezembro de 1989.

Era uma manhã fria de dezembro. Pequenos flocos de neve caíam do céu, numa pequena cidade de Wisconsin. Louise, então com 5 anos, vestia animadamente sua jaquetinha forrada. Ela iria sair com o pai para fazer as compras de Natal. A mãe ficaria em casa cuidando de Samantha, que era apenas um bebê.

- Mãe, tem certeza que você não quer ir com a gente? - choramingou Louise, abraçando a mãe.

- Eu queria, Lou, mas eu não posso. Sammy não pode sair nesse frio, ela acabou de se recuperar de uma gripe forte... Olha, sabe o que eu vou fazer enquanto vocês estão fazendo compras? Eu vou fazer aquele bolo de chocolate que vocês tanto gostam!

- Obrigada, mamãe! Você é a melhor mãe do mundo!

- Vamos, Lou? Antes que a nevasca fique mais forte... Tchau, Kate. Eu te amo. - disse James, o pai de Louise e Samantha, despedindo-se de Kate com um suave beijo nos lábios.

Louise despediu-se da mãe, dando-lhe um forte abraço. Depois, de mãos dadas com o pai, saiu.

Kate foi até a cozinha e separou o que precisava para fazer o bolo. De repente, ouviu um choro distante, vindo do segundo andar. Largou a vasilha em cima da pia e foi rapidamente ver Samantha.

- Está com fome, Sammy? Vem cá, a mamãe vai te dar de comer.

Mas Samantha não parava de chorar, e isso preocupou Kate. Ela colocou a filha de volta no berço, e começou a procurar um remédio de cólica nas gavetas. Se Samantha não estava com fome, só podia ser cólica.

Nisso, a luz do pequeno abajur rosa que se encontrava ao lado do berço de Samantha piscou e apagou-se.

- Que ótimo! Justo agora essa lâmpada queima! - disse Kate, retirando a lâmpada do abajur.

De repente, Kate foi pressionada contra a parede por uma força invisível. E essa mesma força a arrastou para o teto, prendendo-a. Kate gritava desesperadamente, enquanto Samantha mordia seus próprios dedinhos, olhando curiosa para a cena.

Louise saiu do carro do pai, carregando uma sacola cheia de enfeites natalinos. Ela abriu a porta de casa e viu todas aquelas coisas na cozinha. Largou a sacola em cima do sofá e foi direto para lá. Com dificuldade, ela alcançou a colher que estava na vasilha cheia de massa de bolo e, animada, levou a colher à boca, comendo a massa. Enquanto isso, seu pai colocava as outras sacolas em cima do sofá.

- Não coma tudo, Lou. Senão não vai sobrar bolo para ninguém.

Nesse momento, os dois escutaram os gritos de Kate, e subiram as escadas correndo. Encontraram Kate no teto, já imóvel e pingando sangue. Louise começou a chorar copiosamente. Inexplicavelmente, um incêndio começou na casa. James pegou Louise e Samantha no colo e saiu correndo da casa, lágrimas de dor escorrendo em seu jovem rosto e no de Louise.

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- Caramba, por um momento pensei que você estava contando a minha história e do Sam! - disse Dean quando Samantha terminou de falar.

- Se eu bem me lembro, sua irmã disse que o seu namorado também morreu...

- Esfaqueado. Não tem nada de paranormal nisso. É a Louise que tem essa idéia fixa. E por favor, não gosto de falar sobre isso. A lembrança ainda dói demais! - respondeu Samantha, com a voz dura.

Sam e Dean entreolharam-se desconfiados. Pela reação de Samantha, estava claro que ela estava escondendo alguma coisa sobre a morte do namorado.

- E tem mais uma coisa... Venham comigo - retomou Samantha, voltando para o café, sendo seguida por Sam e por Dean.

Samantha foi até o caixa e pediu mais um brownie. Ela se concentrou, pensando repetidamente: "me dá um brownie de graça".

- Olá, Sammy! O que você deseja? - perguntou o atendente, todo sorrisos.

- Um brownie, por favor.

- Claro! E por conta da casa!

Samantha olhou para os irmãos, que prontamente entenderam. Ela era capaz de controlar as mentes das pessoas, para que elas fizessem qualquer coisa que ela desejasse.

Samantha pagou o brownie no caixa ao lado, o que deixou Dean atônito.

- Você conseguiu o brownie de graça, por que pagá-lo?

- Porque diferente de muita gente no mundo, eu sou honesta. E eu não uso esse "poder mental" se eu posso evitar. Quero conseguir as coisas por mérito, não por trapaça.

- Quando foi que você percebeu que tinha essa habilidade? - perguntou Sam, parecendo mais interessado na conversa do que nunca.

- Eu tinha uns 16 anos. Achei o máximo na época. Consegui muitas coisas com essa "habilidade". Mas com o tempo fui percebendo que eu estava agindo errado. E eu agradeceria se vocês não contassem isso pra Louise. Ela ainda não sabe que eu posso controlar a mente das pessoas. Obviamente, eu nunca controlei a dela.

- Olha, você parece até alguém que eu conheço! Só falta você dizer que fazia Direito em Stanford! - disse Dean, olhando de esguelha para Sam.

- Não. Engenharia em Harvard.

Dean fez uma expressão de surpresa. Ele não sabia se Sam estava pensando o mesmo, mas ele tinha certeza que Samantha estava escondendo algo muito sério. E ele duvidava que ela tivesse sido admitida em Harvard por mérito. Teria sido fácil para ela feito isso. Era só controlar a mente do entrevistador e estava tudo certo.

- E eu não usei meu "poder" com o entrevistador de Harvard, se é que você está pensando isso, Dean - disse Samantha, com a expressão divertida.

- Mas o que que é? Anda lendo meus pensamentos? - revoltou-se Dean.

- Eu não controlo mais as mentes das pessoas, mas não consigo evitar ler os pensamentos delas. E... Eu não consigo ver o que você está pensando, Sam. Que estranho. - indagou Samantha, voltando-se para Sam, franzindo as sobrancelhas.

- Nem queira saber o por quê - admitiu Sam, com um sorriso.

Samantha despediu-se dos rapazes e voltou para o hotel. Ao ver que ela estava suficientemente longe, Dean alertou Sam:

- Temos que tomar cuidado com essas duas. Elas me parecem ser dissimuladas e trapaceiras. Principalmente a tal da Louise.

Sam apenas olhou o irmão, incrédulo, e disse:

- Como se fôssemos muito diferentes...