Ei pessoal, sussa?
Antes do segundo capítulo, alguns avisos sobre a história: O site só me deixa marcar um outro anime como crossover, mas essa história vai ter vários. Vários... mesmo. A Kyuubi é um personagem absurdamente complexo, e é por isso que eu gosto tanto dela, e essa história não deixa de ser tão complexa, então é bom ler com atenção. Muita gente fica grilada por eu não colocar o Naruto como principal, mas deem uma chance, a Kyuubi também merece um pouco de amor e atenção de você né?!
E, com essa notinha feliz, apreciem o segundo capítulo.
Depois de matar os cinco ANBU's, tão rápido que aqueles olhos nem conseguiram ver os movimentos, Kakashi foi rapidamente atendido por vários shinobis, que desprenderam minha cadeirinha do seu peito, e imediatamente o levaram dali. Eu esperava, torcia, pra que fosse pra um hospital, e torcia pra que ele conseguisse sair de lá também. Por algum motivo, aquele babaca estúpido era importante, por alguma razão, não queria que ele morresse.
Claro que não.
Ainda estava me esgoelando quando o Hokage me pegou no colo, e saiu andando calmamente dali, mas fui me controlando. Era difícil, mas depois de dois meses, eu tinha um pouco de prática em ir contra os instintos daquele bebê. As próximas horas foram confusas pra mim, e eu não consigo lembrar exatamente o que aconteceu. Ainda estava num dilema comigo mesma, ainda estava tentando entender quando aquela pessoa tinha se tornado importante, qual foi o momento exato em que eu passei a me importar se ele estava vivo ou morto, sadio ou machucado, feliz ou triste. Todas aquelas pessoas. Rin, Kakashi, Mikoto, Tsume (apesar do episódio na banheira), Kenshin...
Himura Kenshin, Hitokiri Battousai, Ishin Shishi, Rurouni... Quando foi o momento em que ele passou de meu mais inconsequente e problemático aprendiz... Para o meu filho?
Como tudo isso aconteceu...
Há muito tempo atrás, youkais não se escondiam como hoje. Andávamos entre os homens, e eles nos respeitavam, nos temiam e se curvavam quando passavam... Podia ser tolice, mas sempre odiei aquela submissão. Como filho de um fazendeiro, eu me curvava pra meros tanukis gordos que andavam em liteiras. Apesar disso, era engraçado ficar imaginando a reação deles, se eu liberasse apenas uma mínima fração do meu youki. Apenas uma cauda, e eles se ajoelhariam, e beijariam a terra abaixo dos meus pés. Entre os youkais, a Kyuubi é um Deus, entre os humanos, um monstro.
Sempre odiei aquela maneira de ver as coisas, por isso quando esses idiotas passavam, eu me ajoelhava e tocava a testa no chão, em submissão. Sempre sorria quando fazia isso, e meu pai - ou o homem que achava que eu era o seu filho - sempre me encarava com um pouco de preocupação e contrariedade.
Mas teve um garoto... Um garoto que estava alheio aquilo tudo. Ele não desafiou nenhum youkai, muito pelo contrário, parecia ser mais submisso que todos os outros. Mas o jeito que ele se abaixou, se curvou, a maneira como tocou a testa no chão. Aquela expressão neutra e responsável de quem esta fazendo algo por que sabe que é sua obrigação é surpreendente. Mesmo depois daqueles tanukis bastardos terem matado as mulheres que cuidavam dele, e eu tê-los matado, ele ainda mantinha aquela expressão.
Mesmo sendo a muitos anos atrás, antes sequer dos samurais terem se difundido uma Era depois, eu já era muito velho. Aquele garoto não me enganava, eu podia ver a tristeza e a raiva por trás da face neutra dele, e era o modo como ele a colocava de lado, sem importância, que me impressionava. Os olhos violeta eram parecidos com os meus, os cabelos vermelhos eram rosados, uma cor leve e discreta, nada como as mechas ruivas cor de fogo dos Uzumakis, mas nele pareciam ressaltar a sua expressão. Ele era todo muito suave e discreto, a gentileza nos seus gestos era quase feminina, mas não deixava de ser atraente. Desde aquele momento, desde antes de sequer falar com ele, eu já o respeitava muito mais que muitos anciões e velhos homens, e ele não passava de uma criança.
–Vá embora garoto - eu disse, embainhando a espada - Nada mais resta pra você aqui, se ficar vai morrer.
Ele não respondeu, mas a expressão suavizou ainda mais, um pouco da tristeza aparecendo enquanto ele olhava pros corpos ao redor deles. Humanos e Youkais, todos mortos e sangrando, o cheiro era insuportável pra mim, e mesmo ele franziu o nariz, incomodado.
Não esperei pra ver o que ia dizer, dei de costas e fui embora. Comprei Sake na vila, e fiquei pensando naquele garoto, nas expressões dele. Ele era uma criança muito singular.
No outro dia, voltei a planice onde eles tinham sido atacados, o cheiro ali devia ser insuportável, mas eu tinha que enterrar aquelas pessoas. No momento que subi a colina, o sol estava nascendo, e pela primeira vez em muitos anos eu fiquei surpreendido de verdade. Por toda a planice, cruzes de galhos amarrados com couro estavam cravadas em pequenos amontoados de solo, dezenas, talvez cem cruzes se espalhando por entre as árvores. Na outra extremidade daquele cemitério, o garoto ruivo olhava pra três túmulos em especial, esses tinham três rochas com nomes escritos neles. As mãos do garoto estavam feridas, e as unhas sangravam, mas ele não parecia se importar.
–Você não fez distinção entre humanos e youkais - eu disse, me aproximando por trás deles - Mesmo esses youkais tendo assassinado sua gente...
Ele não se virou, nem respondeu por muito tempo. Quando ia tornar a falar, ele suspirou:
–Depois que eles morrem não são mais homens, bandidos, ou youkais, são apenas cadáveres...- ele me encarou com os olhos violeta, e não pareceu intimidado pelo vermelho dos meus - E eles não eram minha família, minha mãe e meu pai foram mortos por seres humanos, mercenários, e eu fui vendido como escravo...
Mesmo dizendo aquilo, ele não chorou, mas seus olhos ficaram ainda mais claros. Fiquei observando suas expressões e os túmulos de pedra por alguns instantes.
–Quem são essas?
–Kasumi-san, Akane-san, Sakura-san... - ele apontou as pedras com um gesto delicado da cabeça - Eu apenas as conheci ontem, mas queria as ter protegido, eu ainda sou muito jovem, e não pude fazer isso. Então quis fazer um túmulo especial pra elas, e procurei por boas pedras... Essas foram as maiores que eu pude encontrar... Eu não tenho sequer flores pra colocar aí.
Assenti ao que ele dizia, antes de pegar o Sake que tinha comprado e despejar todo encima das três pedras. Ele me olhou surpreso.
–É uma infelicidade entrar para o Elísio sem provar antes um bom Sake - ele pareceu surpreso - Essa é a minha oferenda pra elas...
–Arigato...
Ficamos encarando os túmulos por um longo momento, o sol já se erguia pela manhã, deixando aquele campo cheio de cruzes banhado pela luz cálida. Era uma visão impressionante, em vários sentidos diferentes.
–Qual o seu nome garoto? - disse por fim, sorrindo com a decisão possivelmente idiota que estava tomando.
–Shinta - ele respondeu.
–Shinta... - eu murmurei, e sorri pra ele, o garoto franziu o cenho - É um nome muito suave para um espadachim... Se quiser vir comigo, de agora em diante vou te chamar de Kenshin.
–Espadachim...? - ele murmurou, depois olhou em volta, e deu um sorriso tranquilo - Hai.
–Deixe os mortos descansarem, e vamos embora.
Ele assentiu, e me seguiu enquanto subíamos a colina, deixando pra trás o cemitério iluminado pelo sol da manhã.
"Esse garoto é puro... Sim, tão puro que eu poderia chama-lo de idiota"
–Não - repeti - Não devemos deixar a montanha.
–Mestre - ele tornou a insistir, usando aquele tom diplomático irritante que ele usava quando tentava me convencer de alguma coisa - Enquanto discutimos filosofia, o número de mortos se supera! Proteger os fracos não é o caminho do Mitsurugi-ryu?
–Discípulo tolo... O que pretende fazer ao colocar sua espada no meio desse conflito? - ele não respondeu - Se você deseja criar uma mudança na crise atual, você terá que se juntar a um lado ou outro. Desse modo, você também será usado por aqueles que detêm o poder. Eu não lhe ensinei o estilo Hiten Mitsurugi pra que você o manche desse modo.
–As pessoas estão sendo oprimidas à nossa volta, estão sofrendo - ele trancou o maxilar - Eu não posso e não irei dar as costas pra elas!
–As espadas do Mitsurugi são as mais poderosas de todas, é o navio negro que parte da terra...
–É por isso que devemos usa-las agora! Pra proteger as pessoas do sofrimento dessa era! Esse é o propósito do Mitsurugi-ryu!
–Kenjutsu não passa de um método de assassinato - respondi, e ele arregalou os olhos - Pode decora-lo com todas as palavras bonitas que encontrar, mas nunca vai mudar a sua essência. Mate uma pessoa pra salvar várias. Mate muitas pra salvar todas. Esse é o princípio final de qualquer técnica de espada. Como você sabe, eu já matei centenas de homens malignos, mesmo youkais, mas todos eles eram pessoas. Alguns não tinham escolha, estavam apenas vivendo a sua vida da única forma que sabiam. Se você deixar essa montanha, se tornará um assassino, nas mãos de homens que escrevem a própria justiça, e terá que carregar o mesmo peso que eu carrego... Esta pronto pra isso?
Kenshin olhou pra própria katana na bainha.
–Por tudo que o senhor me ensinou - ele murmurou - Mesmo que seja inútil... Eu quero tentar proteger com as minhas próprias mãos as pessoas que estão sofrendo. Muitas, incontáveis vidas, tantas quanto eu puder. Quero salva-las com essas mãos.
Ele deu as costas, com o olhar obstinado. Caminhou alguns passos antes que eu dissesse:
–Se pisar fora dessa colina, você deixara de ser meu aprendiz - a expressão dele escureceu - Vai ficar por sua conta.
Ele ficou parado um bom tempo. Depois voltou a caminhar. Antes de sair da colina, ele tirou a katana da bainha, e a cravou na árvore que marcava a entrada daquele lugar, depois se virou e se ajoelhou, tocando a testa com o chão.
–Obrigado por tudo, sensei - ele disse, e se foi.
Fiquei observando o passo determinado e suave dele até sair completamente das minhas vistas, depois entrei na cabana, momentos como aquele me deixavam com vontade de tomar Sake.
"Garoto tolo, ele decide viver pelos seus próprios princípios... Por ser tão puro, não pode evitar fazer algo além de seguir o caminho da própria tolice".
Algum tempo se passou até que eu visse Kenshin novamente, e durante todo esse tempo, eu tentei entender o que tinha acontecido ali, naquela sacada, num vale entre as montanhas que séculos depois se tornaria a vila do redemoinho, famosa por sua muralha natural de rocha desgastada.
Aquele sentimento... Era como ver um filho indo embora, a vontade de protegê-lo contra o desejo de vê-lo crescer, me superar. Como espadachim, ele nunca me superou, mas a vontade insana que ele parecia sentir de recolher toda a dor do mundo pra si mesmo, apenas pra evitar que os outros sofressem... Era muito maior do que qualquer Santo que eu já tivesse conhecido, que andava por aquelas terras.
O pouco que eu me lembrava do resto daquele dia, e do próximo, era de estar de frente a uma mesa cheia de velhos com olhos pesados, discutindo meu destino aos berros como se eu fosse um saco de carne. Não me importava muito com isso, e torci pra que os que quisessem me matar conseguissem isso de vez, assim estaria livre pra dar o fora dali. Alguns membros do conselho sugeriam que eu fosse morto, outros que eu fosse trancafiado como uma ameaça para as outras vilas, mas sem ter contato direto com essa – admito que eu não gostava muito dessa opção. Alguns shinobis entre aquela mesa, que provavelmente eram amigos do Yondaime tentaram me adotar. Tsume, Fugaku e sua esposa, e mesmo um cara frio com cabelos compridos que de costas parecia uma mulher, Hiashi. Cada sugestão desse tipo era respondida com um coro de vaias e ordens pra me matar do resto do conselho civil, que me olhava como se eu fosse o Shinigami em pessoa. O Hokage tinha que liberar intenção assassina a cada vez que essas vaias começavam, e a cada vez que ele fazia isso, meus instintos gritavam pra que eu chorasse pra que aquelas pessoas ruins vissem que eu estava desconfortável naquela situação. Mandei meus instintos de bebê calarem a boca, e tratei de ficar o mais quieto possível. Minha atenção escorregava de volta pra Kenshin a cada poucos minutos, relembrando momentos aleatórios dos anos que eu passei com ele. Quando ele experimentou sake pela primeira vez, e quase botou os pulmões pra fora de tanto tossir, ou quando eu o levei a um prostíbulo, pra confirmar se ele era gay ou não – durante os próximos anos, a cada vez que me lembrava disso, eu tinha um ataque de riso. Apesar de ser gentil e meio suave demais pra um homem, ele realmente era um. Também teve uma vez que...
E, a outra metade da minha cabeça estava concentrada na discussão acalorada daquela mesa de conselho, que ficou três vezes pior quando o cara que eu achava ser uma múmia sugeriu que eu fosse treinado por ele, pra ser uma arma da vila. Ele prometeu me manter preso e bem longe da população, e meu poder seria usado pra proteger as pessoas e os civis. Essa ideia teve uma aceitação geral ainda maior que a de me matar, e deu muito trabalho para o Hokage impedir que isso acontecesse. As provas rolaram na mesa como dados, e as pessoas estavam jogando com o que seria a minha sorte.
Minha aposta e esperança estava na sentença de morte, mas não foi bem isso que aconteceu.
Perdendo a paciência, a ira daquele velho explodiu, e ele ordenou expressamente que eu não seria entregue ao grupo conhecido como "Raíz", deixando bem claro que ele deveria ser dissolvido, e qualquer atividade referente a ele, eliminada. Os civis tentaram protestar, mas uma onda maciça de intenção assassina sanguinária calou muito bem a boca de todos eles. Continuando, o Hokage vetou como segredo rank S a minha posição de jinchuuriki – na verdade a posição de Naruto, a minha seria "demônio do inferno", aos olhos deles – punível com a morte pra qualquer um que sequer sussurrar isso.
Isso foi tudo o que ele conseguiu. Eu teria que crescer normalmente, e no tempo certo, servir Konoha como qualquer outro shinobi, nem nenhum privilégio ou discriminação que viessem pela minha condição especial ao resto da vila. No entanto, eu também teria de abdicar de qualquer herança proveniente de meus genitores – achei engraçado a forma como Danzou recitou isso para o conselho, como se eu fosse concordar ou discordar, porra, eu tinha dois meses de vida – E isso incluía qualquer item, propriedade ou dinheiro destinado a mim, e mesmo o meu sobrenome "Namikaze" deveria ser trocado, por qualquer outro. O Hokage, com alguma discussão, conseguiu que me fizessem ser conhecido por Uzumaki. Uzumaki Naruto.
Soava bem melhor.
A parte que realmente gerou mais discussão, se é que não houve discussão o suficiente por hora, era a de eu não ser adotado por ninguém. Eu deveria crescer como um órfão, sem qualquer conhecimento da minha condição especial, junto com todos os outros órfãos que cresceriam sem pais devido ao ataque da Kyuubi.
O Hokage foi veementemente contra isso, mas a discussão já se alastrara por horas, e ele achou melhor concordar, antes que a merda batesse no ventilador, e os civis começasse – de novo – a exigir a minha morte.
No fim, já eram três da madrugada, e todos eles se levantaram pra ir pra suas casas. Danzou deixou a cadeira com a pose de um soberano, acompanhado de perto pelos velhotes, como se fossem um bando. Alguns membros ainda brigaram pra me levar imediatamente para o orfanado, mas o Hokage disse que ele mesmo faria isso pela manhã, e uma leve onda de intenção assassina pôs um ponto final na discussão.
-Eu falhei com você, Minato... Me desculpe...
Eu ainda estava acordada, e enquanto o "Deus Shinobi" chorava, as lágrimas escaparam daqueles olhinhos de bebê, sem que eu conseguisse impedi-las.
-Naruto... – ele me pôs sentado encima da mesa dele, me mirando com aqueles olhos que, de repente, pareceram cansados demais – Você vai ter uma vida difícil aqui pela frente. Você não vai se lembrar disso, e talvez cresça me odiando pelo que tenho que fazer, mas eu vou ter a certeza de aliviar o máximo possível o seu fardo. Você é o filho de Namikaze Minato e Uzumaki Kushina, e nesse momento, é a pessoa mais importante de toda a aldeia. Você é a muralha, a bainha que mantem a Kyuubi selada, presa onde ela não pode causar danos, mas as pessoas não veem dessa forma. Apesar disso, é assim que é. Você é um herói Naruto...
Se curvando pra frente, ele beijou a testa daquele bebe, e eu pude sentir os fios de barba como se fossem na minha própria pele. Depois disso, ele me segurou no colo, e me embalou lentamente até que fosse difícil demais ficar com os olhos fechados, e o mundo a minha volta lentamente se resumisse a escuridão.
Fiquei observando o passo obstinado, ainda que meio inseguro de Kenshin até que a silhueta dele ficasse embaçada por causa do sol que batia no meu rosto. Várias horas depois eu ainda estava sentado no mesmo lugar, com o jarro de sakê ainda aberto na mão. O sol já tinha subido completamente no céu, e a alguns minutos tinha descido completamente, se escondido atrás das montanhas no Oeste. Levei o jarro a boca, e surpreso, cuspi no chão. O sakê estava amargo, tão ruim quanto fel. Perdi um minuto pensando naquilo, e então ri, sem motivo aparente.
Apoiando as mãos no joelho, eu me levantei, devia parecer cansado pra quem me visse daquela forma, mas era como... Bem, eu não sabia explicar. Conseguia antecipar todo o sangue que ia jorrar, e sabia que parte dele seria daquele garoto. Mas o que me preocupava mesmo não era quando sangue ele perdesse, é quando sangue ele faria jorrar. Eu já havia treinado algumas pessoas com aquele estilo, que eu mesmo tinha desenvolvido a vários séculos atrás, quando os humanos ainda brincavam com paus e pedras, e todos, sem excessão, se tornaram grandes homens. Alguns assassinos terríveis, outros heróis amados pelo seu povo, mas todos grandes. Kenshin estava destinado a se tornar grande, não tinha um pingo de dúvida que suas ações influenciariam diretamente o sistema de governo atual, e era isso que me preocupava. Poderia acabar sendo um fardo pesado demais pra ele, apenas uma criança tão jovem...
Peguei minha própria katana, a bainha que eu mesmo tinha entalhado, de madeira simples, sem nenhum ornamento, e a finquei até a metade no tronco do carvalho que marcava a entrada da colina, bem ao lado da de Kenshin, formando um "X" que pouco tempo depois eu veria gravado no seu rosto. Atrás da colina, várias montanhas se formavam, ainda eram jovens, mas eu podia dizer com muita certeza que a chuva e o vento as desgastaria até que ficassem lineadas, como uma muralha... Gostaria de ver quando acontecesse. Antes de dar as costas à vida que eu levava a tanto tempo, fiz uma kekkai em volta da árvore, pra que ela nunca fosse destruída, e queimei a cabana. Quando deixamos um lado da nossa vida pra trás, temos que ter certeza que não possamos voltar, senão acabamos nos perdendo, e nunca encontramos novamente nosso próprio caminho...
Quando eu acordei, no outro dia, eu não estava mais no colo do velho Hokage, mas sim no de Mikoto. Ela estava chorando, e as lágrimas pingando nas minhas bochechas foram o que me acordaram.
-Naru-chan... gomen...
Rin estava ali também, mas Kakashi não, e isso me deixou preocupada. E se ele tivesse morrido?! Seria minha culpa!
E por isso isso deveria ser importante? Eu não tinha ideia de exatamente por que não, ainda era muito confuso, mas era, era importante demais.
Kakashi não morreu, e eu vim a saber disso horas depois. No momento, ele estava no hospital, sendo tratado pelos médicos que usaram seu próprio cabelo pra reconfiguar as células destruídas das suas costas, com algum selamento amador que podia mata-lo se desse errado. Me perguntei por que eles simplesmente não reconfiguravam chakra pelas células do seu sangue, isso seria extremamente mais rápido e simples, até me dar conta que eles provavelmente não sabiam disso. Nem toda aldeia tinha selos tão avançados quanto os Uzumakis, e eu era, provavelmente, a última pessoa que me lembrava de todos eles.
Rin, Mikoto e Tsume me deixaram no orfanato logo depois, com uma senhora sorridente que usava um coque apertado. Ela era gentil, e enquanto me levava até uma ala de berçário, começou a contar histórias do filho dela, que tinha sido morto pela Kyuubi na invasão.
De cara percebi que aquela seria a única vez que ela seria gentil comigo. Não deu outra. Os dias foram passando, e contrariando as ordens do Hokage, logo toda a aldeia sabia que eu era a "Kyuubi", ou pelo menos que era o garotinho que a mantinha presa. Tudo isso por que um membro do conselho "acidentalmente deixou a informação escapar" enquanto estava bêbado. Bem, não era nada com que eu não pudesse lidar. Aquela senhora voltou com uma faca de cozinha para o meu berço, com um trilho de lágrimas nos olhos e disse que teria que me matar pra vingar o filho dela. Rin a impediu, escondida de onde ela ainda estava me observando. Durante os próximos dias, várias pessoas tentaram me matar, a maioria deles eram civis, mas havia alguns shinobis que queriam vingar seus companheiros ou entes queridos. Rin e Kakashi impediram todas e cada uma das tentativas, se ferindo gravemente em alguns casos.
Com o tempo, os ataques diminuíram, e passaram pra coisas mais fúteis, como "acidentalmente esquecer que eu devia ser alimentado mais de uma vez por semana", ou me deixar cair no chão "acidentalmente". Coisas assim. Tive que ir no hospital uma dezena de vezes nos próximos meses, mas isso também foi parando enquanto eu crescia. O ódio aberto das pessoas no orfanato diminuiu pra uma frieza cortante e desprezo, mas eu podia lidar com isso. As vezes que Kakashi e Rin vieram me ver não diminuíram durante esse tempo todo, eram sempre esporádicas, coincidindo com as folgas de suas missões, e aconteciam sempre a noite, quando eles imaginavam que eu estava dormindo. Por alguma razão idiota, aquelas visitas se tornaram uma coisa que eu esperava com ansiedade, ver o afeto claro nos olhos de pessoas que eu notei que eram importantes pra mim. Eu tinha consciência que as visitas eram noturnas pra que eu não me lembrasse delas, como o conselho havia deixado claro, eu não poderia ser adotado.
Alem de Kakashi, Rin e o Hokage – que vinha uma vez por mês durante o dia, pra se certificar da minha condição, além de várias vezes durante a noite – Outras pessoas vinham me ver também. Eu ainda não sabia o nome de todas, mas havia Kurenai – uma garota bonita de olhos vermelhos -, e Anko – uma outra garota mais jovem, que sempre estava no colo de um shinobi que usava um lenço amarrado na cabeça. Eu não sabia o nome dele, mas o reconhecia pelas cicatrizes profundas que adornavam seu pescoç rosto todo, no geral. Eles olhavam pra mim como se fosse uma coisa impressionante, respeito e admiração – não merecidas - dividindo espaço com pena nos seus olhos.
Havia também um garoto meio esquisito que usava um lenço no pescoço e tinha sobrancelhas enormes. Ele quase sempre acordava os bebês e tinha que fugir pra não ser descoberto, por que enquanto murmurava qualquer coisa, ele acabava se excitando e começava a gritar sobre algo relativo a fogo e juventude. Eu sempre ria quando ele me visitava, e por isso apanhava um pouco da velha que tomava conta do berçário. Nada que importasse realmente.
Chegou o tempo em que eu deixei o berçário, por que já era grande o suficiente pra não estar mais ali. Eu comecei a passar meus dias na seção infantil do orfanato, e foi lá que ganhei algumas das minhas primeiras cicatrizes. Era coisa da senhora de coque apertado novamente, ela mandava que alguns garotos mais velhos viessem me perturbar. Eles faziam coisas estúpidas como me derrubar da cama ou jogar coisas encima de mim, mas isso podia machucar bastante se fizessem direito. A maioria das cicatrizes dos meus "acidentes" era em lugares meio escondidos, perto das axilas ou na base das costas, e passariam despercebidas mais facilmente pelos exames mensais do Hokage. Ele ainda vinham sempre me visitar, e trazia brinquedos e coisas do tipo, mas a velhote entregava eles pras outras crianças.
Não tem realmente muito o que dizer daquele tempo, passou meio que em branco, e todos os dias eram iguais. As pessoas que trabalhavam ali tinham medo de mim por que eu nunca chorava, nem quando me machucava, e a velhota apenas dizia que era coisa de demônio. Por mais irônico que fosse, eu tinha que concordar com ela. Eu tinha cinco anos quando vi Kakashi e Rin a última vez, assim como todos os outros, e suas visitas passaram a se limitar as noturnas, enquanto eu "estava dormindo".
Meus cabelos eram longos naquela época, e sempre que alguém tentava corta-los eu tratava de fazer o maior tropé possível, até que simplesmente eles pararam de se importar. Apesar de ser incomodo que os garotos mais velhos rissem de mim e me chamassem de menina, o rabo de cavalo que eu passei a usar me lembrava Kenshin, e eu acabei desenvolvendo um carinho especial por isso.
Quanto aos comentários dos garotos mais velhos, eles pararam quando realmente começaram a me confundir com uma menina. Quer dizer, aquele corte de cabelo era só parte do culpado. Eu tinha pais muito bonitos, e enquanto Minato era forte como o demônio para um ser humano, ele tampouco era viril. Junte isso ao rosto de Anjo da Kushina, mas a influência direta do meu chakra, e você teria um garoto de ruivo de rabo de cavalo com feições suaves e femininas. Podia ter mudado isso se quisesse, mas não importava realmente, era quase idêntico a aparência do Kenshin de quando tinha encontrado ele, tantos séculos antes.
E agora, eu estava acompanhando o Hokage, indo pro que seria o meu primeiro dia na academia.
O Hokage me deixou na porta, ainda bem cedo, por isso não havia muitas pessoas. Ele me deu um empurrãozinho como se pra me incentivar, e tratei de parecer um pouco nervoso, apenas pra manter o papel de "sou um garotinho bobo de sete anos, não uma raposa demoníaca milênios mais velha que você". Tinha um balanço ali, e eu me sentei nele, passando as mangas do quimono pra trás pra que pudesse segurar as cordas e me impulsionar pra frente devagarinho. O Hokage achou estranha a minha escolha de roupas, quando tinha me levado pra compra-las aquela manhã. A maioria dos garotos usavam bermudas e camisetas, o que era compreensível já que aquele era um lugar quente, se país do fogo queria dizer qualquer coisa. Em vez disso, eu pedi um par de calças brancas e o quimono infantil mais simples que pude encontrar, e quando eu digo simples, quero dizer que não tinha personagens de desenho animado estampados nele. Era todo rosa claro com folhas de videira desenhadas em negro, e apesar de ser claramente feminino, era o único que não tinha figuras idiotas nele. Acabei sorrindo comigo mesmo, no fim, pelo menos seria uma boa piada.
Continuei me balançando distraidamente, procurando sinais de shinobis nos arredores. Havia dois ANBU's, uma das quais reconheci como Yugao, uma garota de cabelos roxos que devia ser genial pra estar na ANBU naquela idade, e vinha me visitar às vezes, a noite. O outro eu não reconheci, ele usava uma mascara de carneiro. Conforme os minutos foram passando, os pais vinham e deixavam seus filhos na porta, e mais da metade deles apontava pra mim e dizia pra criança em questão não se envolver comigo. Já algumas outras pareciam me olhar longamente, e algumas acenavam pra mim. Acenava de volta pra elas. Mikoto e Fugaku – ele não acenou exatamente, mas tampouco me esfaqueou com os olhos, ainda era muito sério pra fazer qualquer coisa – E Tsume, que sorriu tanto que deu pra ver até mesmo os molares afiados dela.
-Oi! – disse uma garotinha na minha frente, com cabelos louros curtos presos em chuquinhas – Nós vamos brincar até a aula começar, você quer brincar com a gente?
-Vocês vão brincar de que? – respondi com um sorriso.
-Casinha!
Acabei rindo devagarinho.
-Eu não tenho bonecas, isso é coisa de menina...
Ela arregalou os olhos.
-Mas você...
-Eu sou um garoto...
Ela não acreditou, e chamou as outras pra vir verem. No fim, eu estava cercado me meninas que me olhavam estranho.
-Você é mesmo um garoto? – uma de cabelos negros disse – Mas você é tão kawaii!
Crianças... acabei sorrindo o mais gentilmente que pude, e isso só fez elas duvidarem mais ainda.
-Você é um garoto mesmo? – um garotinho com presas vermelhas pintadas nas bochechas, que eu reconheci como Kiba disse, aspirando o ar em volta de mim – Confuso... Eu não sei dizer pelo cheiro, você não cheira nem como garoto e nem como garota...
-Baka! Pare de cheira-lo, isso é rude!
-Mas...
-Fora, você esta perturbando ela!
-Mas eu sou um garoto!
-Como é o seu nome?
-Naruto...
Imediatamente várias delas se entreolharam, sussurrando umas com as outras. Consegui entender perfeitamente o que elas disseram, e fiquei me perguntando como mais ninguém notou.
-Você ouviu? É ele! Seu tou-chan disse sobre ele pra você?
-Sim, ele disse que não devemos falar com ele... Por que?
-Baka! Ele é um demônio. É por isso que ele se parece com uma garota!
-Então os demônios são garotas...?
-Claro que não boba, eles se parecem como garotas pra enganar as pessoas.
-Assustador...
Cinco minutos depois, eu estava sozinho novamente no balanço, enquanto o boato de eu ser um demônio que me vestia como garota pra comer as pessoas era espalhado por todos os estudantes. A maioria não deu muita bola, mas alguns pareceram assustados de verdade.
Não demorou muito pra dois chunnins virem até a porta e nos rebocarem pra dentro. A academia era bastante simples, como uma escola normal, exceto que em vez de um parquinho, havia um campo de treinamento prático. Uma pista de corrida, troncos pra treinar arremesso de shurikens, e uma pista de obstáculos pequena.
Os instrutores se apresentaram como Iruka e Mizuki, e pelos olhares, nenhum deles parecia gostar muito de mim. Ambos tiveram que calar os garotos que ficavam perguntando quando eles aprenderiam a usar kunais e shurikens, e alguns outros filhos de civis que pareciam assustados com as histórias que os filhotes de clãs contavam. No meio dessa lenga lenga eu acabei me distraindo, e me ocupei em analisar as pessoas na sala.
Uchiha Sasuke, que eu não via desde que era um bebê estava sentado bem na frente, parecendo prestar o máximo de atenção a cada palavra que os dois chunnins diziam. Ele tinha se tornado um garotinho bonito, e era idêntico a Itachi quando tinha essa idade, exceto os cabelos, que eram mais curtos e arrepiados pra trás. Eu não reconheci mais ninguém que se sentasse na mesa dele, mas pelas expressões, deviam ser filhotes de civis, já que pareciam absorver cada palavra dita e a tomar como uma verdade universal. Logo atrás, havia um garoto gordo com cabelos cor de terra, que tinha aspirais desenhadas nas bochechas, e ficava reclamando sobre quando seria a hora do lanche. O garoto do lado dele, com cabelo de abacaxi, estava quase babando de sono enquanto ouvia os senseis explicando sobre como as coisas seriam dali pra frente.
Mais atrás, tinha uma cadeira dominada em sua maioridade por garotas, e eu não reconheci muito bem nenhuma delas, embora fossem as que tivessem me chamado pra brincar. A quarta fileira tinha uma garota que parecia uma boneca, com olhos brancos típicos do clã Hyuuga, junto com Kiba e uma criança que tinha cheiro de insetos, provavelmente do clã Aburame. O resto da classe também não me era conhecida, havia dois ou três garotos que cresceram comigo no orfanato, mas como todos os outros lá, eles me odiavam, e agora conversavam com outros garotos como eles deveriam me espancar a cada oportunidade que tivessem. Quando perguntaram por que ele queria machucar uma menina, ele insistiu que eu era um garoto, e os garotos ameaçaram contar pro sensei se ele continuasse com isso, efetivamente calando sua boca.
Depois do que pareceram horas explicando sobre o que nós iriamos aprender, e porque, e dizer que nós não estaríamos aprendendo nada relativo a shurikens e kunais – que parecia ser o tema preferido da sala – por algum tempo, ambos começaram a explicar sobre o funcionamento básico de chakra, e pediram que nós anotássemos tudo o que eles diziam.
Assim transcorreu o primeiro dia. E o segundo. E o terceiro, e quando me dei conta, já tinha desistido de contar quantas semanas se passaram.
Foi mais ou menos dois meses depois, que pra empolgação geral da sala, eles nos levaram do lado de fora, pra mostrar como se usa uma shuriken – e isso só após explicar a parte teórica, e fazer as crianças prometerem que não tentariam jogar isso umas nas outras. Só por via das dúvidas, no entanto, as shurikens ali não tinham corte.
Um a um, todos os alunos puderam pegar a shuriken e passar para os próximos, pra que vissem e sentissem nas mãos como era uma, antes de tentarem arremessa-las.
Quando tentaram passar pra mim, e fiz que não e indiquei o próximo garoto do meu lado, que deu de ombros e, ansioso, começou a rodar a estrela de metal no dedo.
Os senseis demonstraram a maneira correta de se segurar cada uma, e em seguida como se atirar corretamente pra não se cortar, caso fosse de verdade. Depois, Iruka – o sensei com cicatriz – puxou uma prancheta e começou a chamar os nomes, pra que cada um tivesse uma primeira sensação prática da coisa.
-Uchiha Sasuke – ele chamou depois de algum tempo, enquanto Mizuki retirava a shuriken do tronco pintado com um alvo, e a entregava pra Sasuke com um sorriso. O garoto mirou bem, e arremessou, enterrando a estrela quase no centro matemático do alvo. – Muito bem Sasuke, foi o melhor resultado até agora!
Ele só sorriu meio sem jeito.
-Uzumaki Naruto – Iruka disse, fazendo uma careta como se tivesse acabado de engolir algo ruim.
-Não...
-O que?
-Não... – eu disse, apontando pro último garoto atrás de mim, Uzushi alguma coisa – Eu não quero jogar.
-O que? – ambos os senseis repetiram, meio surpresos por isso, e agora a turma toda olhava pra mim – Como assim não quer, nós passamos um tempão estudando sobre isso, é o teste prático. Você tem que fazer!
Mizuki estreitou os olhos meio irritado, apertando a shuriken entre os dedos como se tencionasse se as consequências seriam graves se ele a jogasse em mim.
-Não quero – repeti, sorrindo internamente com o caminho que tinha decidido seguir, e quanta confusão isso provavelmente me traria – Eu não quero matar ninguém.
Todos os garotos pareceram surpresos, enquanto os menos brilhantes finalmente se davam conta do que o restante já sabia. Shurikens eram armas afiadas, nós treinávamos pra joga-las em pessoas, pra mata-las.
-Naruto, você não vai matar ninguém – Iruka disse com paciência, parecia ter esquecido por hora que me odiava – Isso é apenas uma prova prática, é um tronco de madeira, você não precisa matar ninguém...
-Eu nunca vou matar ninguém – disse – Não quero treinar pra isso.
Isso pegou algumas pessoas de surpresa, Sasuke e Kiba me olharam curiosos, e no geral, os outros filhotes de clãs. Crianças civis não entendiam muito das coisas nessa idade, portanto, os que não estavam ligando os pontos ou pensando no que eu falei estavam zombando de mim. Por alguma razão, algo me dizia que esses seriam os que morreriam primeiro, e do modo mais patético entre aquelas pessoas.
Como era de se esperar, eu fui bastante resoluto em nem sequer tocar em qualquer shuriken, kunai, ou mesmo em senbons, que os senseis insistiram que não eram usadas pra arremessar em pessoas. Enquanto Iruka parecia muito disposto a continuar insistindo, Mizuki era a favor de me dar zero em todos os testes que eu me recusava a fazer, e até alguns dos que eu fazia, e no geral, me expulsar da academia. Não aconteceu. O Hokage veio um dia conversar comigo sobre o por que de eu me recusar a fazer as provas, e eu disse apenas que nunca mataria ninguém.
Foi a resposta definitiva pra muitas perguntas daquele ponto em diante.
Os meses foram passando na academia, e junto com kunais e shurikens, eu me neguei também a aprender qualquer coisa sobre chakra. Quer dizer, eu já sabia tudo aquilo que eles estavam tentando explicar, e se me dessem uma hora, sabia que conseguiria acostumar aquele corpo a usar shurikens novamente, mas eu não queria. Por alguma razão, não queria matar, pelo menos não daquela vez. Eu já tinha tido tantas vidas como samurais, e mesmo algumas como shinobis e kunoiches antes da formação das aldeias escondidas, já tinha matado muitas pessoas, muito mais do que qualquer um nesse mundo. Não queria fazer mais isso, ou pelo menos não por enquanto, não com aquele corpo, não era pedir demais era?
Eu já tinha idade o bastante pra moldar chakra. Não teria se fosse uma criança comum, mas naquele corpo Uzumaki, eu podia. Já tinha chakra o bastante pra fazer um jutsu rank A sem cair de cansaço, e podia ter rasgado o selo em qualquer momento que eu desejasse. Não fiz isso. Por aquelas pessoas, pelo Hokage, pela Rin, pela Anko, pela Yugao, pelo Ibiki, pela Mikoto, pela Tsume, e principalmente pelo Kakashi, eu viveria como humano. Cresceria como humano, e protegeria aquelas pessoas como humano. Usaria aquele corpo que eles amavam pra proteger todas as pessoas que o amavam. Eu sentia que devia isso a eles, e que devia isso a Kenshin.
Kenshin... eu demorei tanto tempo pra entender. Aquela ânsia desesperada que ele sentia de proteger as pessoas ao seu redor. Agora eu entendo, e ia seguir seus passos. O meu mais inconsequente, idiota, problemático e amado aprendiz.
Assim, que quando o Hokage veio conversar comigo de novo, me perguntando por que eu não queria aprender a usar chakra, e se eu não queria ser um shinobi, eu apenas o interrompi.
-Hokage-sama, eu posso aprender a usar uma espada?
-Uma espada, Naruto-kun? – ele deixou os ombros caírem – Você quer aprender?
-Sim!
-Mas você não usa kunais ou shurikens, por que uma...
-Uma Shinai – eu disse, o surpreendendo um pouco – Posso treinar com uma shinai?
Eu detestava usar shinais, mas era isso ou nada. Naquele momento, tinha certeza que isso era a única coisa que faria sentido pra ele. O Hokage acabou concordando, embora pela sua cara eu pudesse dizer que ele achava que era só o capricho de uma criança, ou um interesse passageiro.
Quase ri comigo mesmo com a desilusão que aquilo seria pra ele.
Outra coisa sobre a academia: Havia algumas classes separadas, já que nem todas as matérias eram necessárias para o currículo de shinobi ou kunoiche padrão. Uma dessas classes era a de Kenjutsu, e era também a que mais tinha alunos, juntamente a que mais tinha mais alunos que desistiam depois de algum tempo. O pensamento, apesar de tolo, era bastante compreensível quando se tem em mente que estávamos lidando com crianças:
"Se eu posso usar uma kunai pra matar alguém de longe, por que usar uma espada?"
Era isso que a maioria pensava, por isso a cada ano, só um ou dois estudantes se formavam com Kenjutsu em seus currículos. A maioria preferia a classe de estratégias de assalto ou taijutsu, já que pareciam ser mais objetivas.
Levou uma semana, e eu já podia me dizer o melhor aluno de Kenjutsu da academia. Apesar de ser extremamente irritante ter que aprender aqueles katas praticamente inúteis com uma shinai mais irritante ainda, eu me foquei nisso, e foi muito fácil. Eu já tinha vivido como samurai dezenas de vezes, e tinha pessoalmente criado vários estilos de espadas, algumas tão poderosas que foram classificadas como sagradas. Nenhuma, no entanto, era tão formidável quanto a minha obra prima, o Hiten Mitsurugi ryuu, a espada sagrada que voa pelos céus. Durante séculos, cada aprendiz cujo ensinado esse estilo era tido como o samurai mais poderoso da época. Alguns deles foram assassinos terríveis, outros santos que inspiraram gerações. Mas todos tinham uma coisa em comum, eram órfãos, e sempre traziam uma mudança nos ventos da sua época. A última pessoa a usar esse estilo foi Kenshin, e ele, como Battousai, mudou o regime de governo no continente a séculos atrás. Era hora do mundo sentir mais uma vez o peso dessa espada.
Por me manter resoluto na minha posição de não aprender nem como usar armas shinobis, ou chakra, eu era com muita certeza o pior aluno da sala. Minhas notas eram tão baixas que eu começava a achar que nem notas eu teria se não fosse meu desempenho prodigioso em Kenjutsu, então eu também podia me gabar de ser um gênio, e ao mesmo tempo, um perdedor. É, se as coisas fossem simples demais, perderiam a graça. Nas classes de Kenjutsu, o sensei – um cara da idade de Kakashi, chamado Gekko – sempre me usava como exemplo, e acabamos desenvolvendo o costume de ter uma partida no fim da aula, o que acabou por inspirar os alunos a continuarem na sala dele, pelo menos alguns dos mais obstinados. Depois de alguns meses ele decidiu que não tinha mais nada que eu pudesse aprender com Shinai, e passamos a usar espadas de madeira, que imitavam a forma e o peso de uma katana real. Não mudou em nada o meu desempenho, se não, apenas melhorou, por usar algo mais parecido com uma katana de verdade do que shinai. Já tinha um ano que estávamos na academia, quando duas coisas aconteceram. Uma delas mais importante que a outra.
Primeiro: Todo o clã Uchiha foi massacrado, por Itachi.
Segundo: Hayate-sensei decidiu que eu era bom o bastante pra aprender o estilo dele, algo chamado Shigure Soen Ryu.
Quanto ao estilo de Hayate, ele era tão simples quanto efetivo. Se tratavam apenas de oito formas básicas, quatro ofensivas e quatro defensivas, que podiam ser desdobradas em milhares de combinações, se usadas corretamente. Era um estilo interessante, eu tinha que admitir, mas não chegava perto de nenhum dos que eu tinha criado, e passava a léguas do Mitsurugi ryu. Ainda assim, eu estava grato por aprender, novos estilos sempre eram bem vindos para espadachins.
Quanto a Itachi e o clã Uchiha... Eu não acreditei em uma palavra do que disseram. Itachi tinha sido nomeado como um nukennin rank S, e que qualquer shinobi de Konoha deveria fugir imediatamente caso topassem com ele, exceto os Hunter-nin, que deveriam atacar com intenção de matar. Eu não entendia o que poderia mover Itachi, o gentil Itachi, que vinha me visitar toda a semana no orfanato, a cometer um genocídio contra seu próprio clã. Mas tinha algo de errado nisso, alguma peça fora do lugar, algo que eu descobriria, e eu tinha a estranha certeza que Danzou poderia me dar algumas pistas.
Mas por hora, eu tinha que me formar.
O assassinato de sua família devastou Sasuke. Ele passou de uma criança gentil, apesar de séria, para um cara completamente frio que não gostava de ter alguém num raio de cinco metros dele. Por alguma razão, isso só fez com que todas as garotas da sala se apaixonassem por ele, e passassem a persegui-lo e lutar pra ver quem se sentaria com ele.
-Problemáticos... – era o que Shikamaru murmurava nessas situações.
O quimono com folhas de videira não me servia mais, então fui comprar um novo. O dono do estabelecimento não me deixou entrar, e só quando ameacei trazer o Hokage comigo, é que ele, de má vontade, permitiu que eu escolhesse algo pra vestir. Havia poucos quimonos, e os que haviam eram femininos em sua maioria – não que eu me importasse realmente, mas acabei encontrando um bem simples, branco e bem fino, pra usar junto com um azul escuro, um pouco mais pesado. Os comprei imediatamente, mesmo o vendedor tendo me cobrado dez vezes mais do que o preço real deles. Eles eram bem grandes, mas eu calculava que seriam exatamente do meu tamanho quando me formasse, no próximo ano... Isso se me deixarem passar só com kenjutsu e taijutsu no currículo.
Apesar da sala toda não me ver com bons olhos por causa: A: Dos pais deles que diziam que eu devia ser evitado como a praga, B: Por que era o pior aluno, C: Por que mais da metade ainda acreditava piamente que eu era uma menina, eu consegui o feito de fazer alguns bons amigos. Kiba era alguém interessante de se ter por perto, ele era hiperativo, cabeça oca, e falava qualquer coisa que lhe viesse a cabeça, pra depois pensar sobre ela. Apesar disso, era uma pessoa daquelas que se pode contar pra estender a mão e te puxar pra cima quando você cai. Shikamaru era preguiçoso, e reclamava sobre ter que fazer qualquer coisa que não dormir ou observar as nuvens, mas tampouco se absteria de estender a mão ou dar metade do seu lanche pra um cachorro faminto. Chouji era o seu melhor amigo, e apesar de ser forte como um adulto, perdia a maioria das lutas por não ter coragem de bater em alguém. Ino era o que você poderia chamar de uma patricinha mimada, que passava metade do tempo dela bolando dietas estranhas a base de coisas mais estranhas ainda, e a outra metade correndo atrás de Sasuke, mas ela era uma boa pessoa pra se conversar. Sakura nem tanto, ela só sabia falar sobre o Sasuke, e então ela e Ino começariam a brigar. Alem disso, pra chamar atenção, ela tinha desenvolvido o hábito irritante de zombar de qualquer pessoa com notas mais baixas que a dela, independente do caso se essa pessoa teria uma facilidade extrema pra fazê-la comer terra ou não. Com essa mentalidade, duvido que sequer chegasse a chunnin. Então decidi que não adiantaria fazer amizade com um cadáver ambulante como ela.
Sasuke era uma incógnita, ele seria um bom amigo se não agisse como se tivesse um pau enfiado no rabo, e no geral, passasse noventa por cento do seu tempo tramando vinganças ou imaginando fantasias em que ele derrotasse Itachi de maneiras mirabolantes. Decidi que deixa-lo com seu espaço era o melhor a se fazer.
O próximo e último acontecimento digno de nota aconteceu alguns meses antes da minha formatura. Eu estava com doze anos, meus cabelos chegavam até o meio das costas, e Mizuki veio ter comigo na hora do almoço.
-Ei Naruto, eu soube que Hayate-sensei esta te ensinando como um aprendiz pessoal, isso é verdade?
Aquilo já tinha quase dois anos.
-Sim, Mizuki-sensei.
-Você deve estar se dando bem na aula dele, eu soube que ele nunca aceitou nenhum aluno como aprendiz, pra aprender o estilo pessoal dele. Dizem que é o mais poderoso do país do fogo.
Estreitei os olhos, mas tentei parecer uma criança doce e inocente... Não tanto, uma vez um garoto tentou me beijar por eu parecer doce demais, não queria nada do tipo voltando a acontecer.
-Hai, foi uma honra ele me escolher entre tantos...
-Bem, não é nenhuma novidade, você é o melhor aluno da classe dele – ele disse com orgulho, mas algo nos seus olhos me chamou a atenção, eram tão falsos quanto um estuprador que convida uma garotinha pra comprar doces, e a leva pra um beco escuro – Mas você sabe que só com isso não vai passar, não?!
-Não?
-Não, é muito pouca coisa. Você insiste em não aprender a usar chakra ou armas, então tem que mostrar que pode dar conta de ser um ninja, em missões de verdade...
-Como eu faço isso? – queria só ver onde ele ia chegar...
-Bem, eu não devia te contar isso, é um teste secreto da aldeia, mas como odiaria ver um estudante brilhante como você reprovar, eu vou dizer...
E ele me veio com a mentira mais estupida que eu já ouvi na minha vida toda. E isso contava com os milhares de anos fora daquele corpo. Supostamente, havia um pergaminho escondido na torre Hokage, que "supostamente" escondia todas técnicas secretas das aldeias, e "supostamente", se um estudante conseguisse rouba-lo e levar fora do perímetro da vila, antes de ser pego, e entregar a um instrutor, ele receberia um bônus pra se tornar gennin, e dependendo do desempenho, podia passar até mesmo pra chunnin.
Fiquei me perguntando que tipo de idiota cairia num truque tão estúpido desses, mas tratei de me fazer de sonsa... sonso – eu tinha treinado pra me referir a mim no masculino, pra que não cometesse erros estranhos quando conversasse com alguém, não era difícil, apesar de não fazer isso a muito tempo – e fingir que tinha caído na conversa dele. Mizuki combinou a hora que eu deveria encontra-lo fora da aldeia pra entregar-lhe o pergaminho, e me deu algumas dicas de como passar pelos testes – a segurança.
Depois da aula, em vez de voltar para o meu apartamento, – não sei se cheguei a mencionar isso, mas agora eu tinha um. Ficava num bairro civil perto do distrito Inuzuka, e era bem barato. Yugao, a ANBU que tomava conta de mim (secretamente) desde que eu sai do orfanato morava no apartamento ao lado do meu – eu discretamente fui até a mansão Hokage, e depois de brigar por meia hora com a secretária, eu consegui entrar no escritório do Hokage. Contei a história toda pra ele, e o velho, com um sorriso diabólico, me deu minha primeira missão, uma rank A.
Eu sabia que ele ficava entediado ali dentro, mas ao ponto de tramar algo daquele tipo...
Bem, chegando a noite, eu passei por toda a segurança – O Hokage decidiu que seria um bom teste pra mim – e depois corri por Konoha com o pergaminho amarrado nas costas. Um ANBU com máscara de Urso fez uma vistoria na área, e fez sinal pra mim avançar, como tínhamos combinado. Troquei rapidamente o pergaminho verdadeiro por um falso, que ele jogou pra mim, e sai pelo portão, correndo por cima dos galhos até chegar numa clareira no meio da floresta. Agora estava por minha conta (apesar de Yugao estar por perto, como sempre, é claro, sem eu saber).
Mizuki parecia extremamente ansioso no meio daquela clareira, e eu por um momento me perguntei como diabos ele tinha se tornado um shinobi. Tratei de montar uma expressão boba no rosto, antes de pular para o chão.
-Mizuki-sensei, eu trouxe o pergaminho pro senhor, isso quer dizer que eu passei?
Vi ele esconder uma kunai nas costas, enquanto se voltava pra mim.
-Claro Naruto, me entregue o pergaminho, e eu vou te mostrar sua recompensa...
-Claro!
Fiz que ia lhe entregar o pergaminho, mas no momento em que ia joga-lo bem na cara dele, e sacar a espada de madeira das costas, Iruka pulou para a clareira. Parecia extremamente zangado, e por sinal, não sabia o que estava se passando ali.
-Naruto! Como você pode – ele parou de falar ao notar Mizuki ali – Mizuki-sensei, o que você...
Por estar distraído com a aparição súbita de Iruka, não pude evitar que Mizuki tomasse o pergaminho das minhas mãos. Ele me acertou uma cotovelada no rosto, e atirou uma kunai com papel bomba na clareira, antes de se virar e correr.
Imediatamente pulei e arrastei Iruka pra trás de uma árvore, enquanto a explosão enviava terra e lascas de madeira pra todo lado.
-Iruka-sensei, por que veio pra cá?
-Por que?! Você pergunta por que?! Você roubou o pergaminho e ainda...
-Espere, o Hokage não disse nada pra ninguém?!
-O que? – ele pareceu verdadeiramente confuso.
Droga velho... estava tão entediado assim?! Podia apostar que ele estava rindo muito, vendo a cena na sua bola de cristal.
-Te explico no caminho, temos que pegar o Mizuki.
Ele não teve tempo de concordar, e eu já estava na frente dele, então tudo o que lhe restou foi me seguir, pelos galhos.
Pelo seu cheiro, eu podia dizer exatamente em que direção estava indo, mas fingi estar um pouco confuso, antes de segui-lo, afirmando que ele estaria tomando o rumo mais curto possível pra fora do território do país do fogo, e de fato estava. Iruka correu ao meu lado e perguntou o que estava acontecendo, e eu lhe expliquei por alto que aquela era uma missão, e que o pergaminho com Mizuki era falso. Disse pra ele sobre o suposto "teste" que Mizuki me contou no horário de almoço na academia, e sobre como tinha achado aquilo estranho e contado para o Hokage. Levou todo o caminho pra explicar, e no final encontramos Mizuki correndo devagar. Se estava cansado ou se estava confiante que tinha nos eliminado com um simples papel bomba eu não sabia, o fato é que não tinha ideia de como ele tinha se tornado um chunnin.
Como era minha missão, Iruka não tentou nada, apenas ficou por perto caso eu precisasse, assim como Yugao – "sem que eu me desse conta disso" – estava fazendo. Pulei no galho a frente de Mizuki, e ele parou de correr, um sorriso insano pintando seu rosto:
-Então você descobriu não, Naruto, que esse não era um teste?
-Por que o senhor quer o pergaminho proibido Mizuki-sensei? – decidi seguir meu papel na jogada, já que era a coisa mais simples a se fazer.
-Por que? Você é idiota – ele riu – Alguém que não sabe nada de chakra como você não deve ser capaz de entender, mas qualquer um que dominar os jutsus desse pergaminho pode fazer qualquer coisa. Eu vou dominar todos, e então me tornar forte o bastante pra fazer o que quiser!
Iruka pulou pro galho ao lado do meu antes que eu pudesse responder, irritado o bastante pra esquecer que aquilo seria uma missão.
-Mizuki! Devolva esse pergaminho pra nós, e volte pra Konoha!
Ele apenas riu como um maníaco.
-E por que eu faria isso? – ele se voltou pra mim – Ei Naruto, você sabia, que tem uma coisa sobre você que todo mundo sabe, um grande segredo que é proibido a você saber?
Jura...?
-Segredo...? – tentei parecer surpreendido. Iruka ficou com uma expressão grave ao meu lado.
-Mizuki pare! É contra a lei!
-Você sabia Naruto, a razão por todos te odiarem, é por que você...
Iruka pulou e lançou uma ressalva de kunais em Mizuki, que apenas usou o galho como impulso pra pular ainda mais pra trás, sacando uma fumma shuriken das costas.
-Você é a raposa de nove caudas, que matou o pai de Iruka, doze anos atrás!
A shuriken acertou um galho, e ficou fincada nele. Eu tentei parecer surpreso, e notei que Yugao se pôs em posição pra intervir a qualquer momento necessário. Não foi preciso.
-Naruto, não acredite nele! – Iruka gritou, trocando socos com o, até então, parceiro – Você não é a raposa, você é um shinobi da vila!
-Não Naruto! É por isso que todos te odeiam e querem te matar! Você matou os pais do Iruka, e dezenas de outros shinobis naquela noite – Mizuki sacou a segunda Shuriken moinho das sombras das costas, e acertou um chute no queixo de Iruka, que foi mandado pra trás – Mas não se preocupe! Eu vou te livrar da dor de ser um demônio!
Pude notar Yugao segurar ela própria uma shuriken gigante, pronta pra desviar aquela caso eu desse sinais de que não iria reagir. Iruka tentou se jogar na frente, mas eu apenas o contornei, e agarrei a shuriken pelo lado sem corte dela.
-Ne... Mizuki – eu disse, do modo mais frio possível – Você me fez quebrar meu juramento.
Laguei a shuriken no chão, e saquei a espada de madeira das costas, correndo em direção a ele. Foi tão fácil que seria ridículo chamar aquilo de uma luta. Bastou três golpes, o primeiro, nas costelas, desviando de um soco, o segundo, na dobra do joelho, o fazendo cair, e o último na nuca, o pondo pra dormir em menos de cinco segundos. Peguei o pergaminho, conferindo se havia qualquer armadilha nele, mas estava limpo, e o joguei pra Iruka, que ainda me olhava com cara de tacho.
-Missão cumprida.
-Naruto, eu...
-Não se preocupe com isso Iruka – sorri, colocando a espada de madeira de volta na bainha de bambu amarada as minhas costas – Eu já sabia disso.
Mesmo Neko, cinco galhos acima de nós, pareceu surpresa.
-Mas... como...?
-Bem, eu nasci no mesmo dia que a Kyuubi atacou a aldeia, e vendo como todo mundo parecia me odiar, decidi pesquisar um pouco – ergui o quimono, revelando o estomago liso. Bastou concentrar um pouco de chakra, pra que a espiral do selamento ficasse visível – E além disso, é fácil de perceber quando se tem as pistas certas.
-Entendo...
Ele pegou o pergaminho, e caminhamos lado a lado em direção a vila. Parecia que ele estava tentando dizer alguma coisa, mas sempre que abria a boca pra falar, acabava ficando quieto de novo.
-Ne... Naruto – ele disse por fim – Quer comer um ramen?
Apenas sorri pra ele:
-Hai.
A notícia de Mizuki ter roubado o pergaminho proibido, e ter sido preso, estava correndo de boca em boca no outro dia, mas todas as versões diziam que eu tinha o ajudado, e que no final, Iruka conseguiu prender nós dois. Por mais que ambos negassemos, ninguém parecia acreditar, e os pedidos de que eu fosse preso e interrogado, ou mais preferencialmente morto por traição irritaram o Hokage ao ponto dele revelar que tudo tinha sido uma missão de treinamento, e ponto final. Hayate me deu uma katana de verdade quando eu dominei completamente o Shigure soen ryu, e criei minha versão do oitavo movimento, Hyosho no Ame, chuva de lâminas de gelo.
Eu aceitei a katana grato, era uma bela espada, mas também disse a ele que nunca a usaria, já que tinha prometido nunca matar. Ele pareceu meio incrédulo disso, mas acabou dando de ombros. Disse que a espada era minha pra fazer o que quisesse, e que de qualquer forma, estava orgulhoso de mim.
O resto do ano passou sem nenhuma complicação, e quando me formei, foi como o pior entre os piores alunos, mas o melhor entre os melhores praticantes de kenjutsu do ano. É, se fossem simples, as coisas perderiam a graça. A bandana que eu pedi tinha uma faixa negra não muito comprida, e ficou amarrada em torno do meu bíceps direito. Eu iria coloca-la em torno do pescoço, mas alguém me deu um cachecol de presente.
Quase ri do jeito meio besta que Kakashi escolheu pra me dar o meu presente de formatura sem ser notado. Era um lenço de seda azul claro longo, com um bilhete preso nele, e ele arrumou de certa forma que simplesmente se chocasse com o meu rosto por causa do vento, sem tocar no chão ou sujar, claro.
"Parabéns por se formar, quem quer que seja você" – estava escrito no bilhete. Acabei rindo, e o enrolei em torno do pescoço. Com o dinheiro que tinha reunido no mês passado, comprei guardas de punho e antebraço, feitos de couro macio e maleável, bastante confortáveis e que não atrapalhavam os movimentos de punho ao se sacar uma espada.
Agora... faltava apenas a espada, então estaria pronto. Mas não podia ser qualquer espada, só havia uma que serviria realmente. Uma que eu mesmo tinha feito, após o Bakumatsu, séculos atrás, e entregado a Kenshin pessoalmente, quando ele decidiu se tornar um Rurouni.
"Gostaria de ver você ser um espadachim com essa coisa" – eu disse, jogando a katana pra ele. Agora, eu mesmo seria um espadachim com ela.
A "Rurouni no seishin", cujo nome nunca contei a ele. O espírito do andarilho, a única espada que não tirava vidas, a única lâmina que nunca provou sangue, a Sakabatou.
E no momento, ela estava a cinco dias de distância, no país do redemoinho... Tudo bem... Eu chegaria lá em três. O problema era arrumar uma desculpa pra sair da vila.
A resposta veio quase dois meses depois, mas isso não é importante agora, vamos chegar lá no devido tempo. Por hora, era apenas eu, uma espada de madeira, uma fã-girl enlouquecida de cabelos rosa e um Uchiha com um pau enfiado na bunda.
