O homem e a sorte
A manhã seguinte foi uma... coisa. Sim, eu sei que tenho tantos nomes falsos e documentos falsos que já é um milagre eu ainda conseguir me lembrar do meu nome verdadeiro (por sinal, é Izabel). Mas aquilo estava se tornando ridículo! Deixei um "Theodore" nocauteado dos calmantes trouxas que eu tinha feito ele beber, e desci pra tomar meu café da manhã. Estava completamente confiante, e até risonha.
Para chegar na sala onde eram servidas as refeições, naquele lugar, você tinha de passar pela recepção. Isso era praticamente um crime do arquiteto que projetou o prédio, pelo menos do jeito que era ali, mas salvou a minha vida. O que eu encontrei nessa ida? Duas bruxas tentando se passar por trouxas, e como eu nunca acreditei muito em coincidências, e minha maré não estava muito boa, lancei um feitiço para escutar de longe o que elas diziam.
- Como assim não tem nenhum Black aqui?
A mulher de cabelos negros gritou para a funcionária. Nada de pânico Izabel, Black é um sobrenome muito comum!
- Calma Belatriz, não precisa assustar a trou...digo, senhorita.
A outra mulher tinha cabelos castanhos claros, e aparentava calma fingida. Uma calma muito fingida.
- Diga...senhorita, já que não chegou nem senhor Black por aqui, nem senhor Cadi, por acaso chegou alguém ontem? Um...casal talvez?
Continuou a de cabelos claros. Ok, Izabel, você pode entrar em pânico agora... Ou melhor, Izabel, você NÃO PODE entrar em pânico. Se você entrar em pânico quem vai salvar você? E quem vai salvar seu "irmão" Theodore! Saí do meu esconderijo e calmamente fui até a entrada, passando pela recepção e pelo sorriso maléfico daquelas duas. Estava na frente do prédio que era o hotel, e não sabia o que fazer. Eu estava salva, bastava pegar um táxi e me mandar dali. Como eu tinha tido o bom senso de inventar um novo nome falso para dar ao hotel, o tal Lord das Trevas nunca saberia quem eu era, e não teria a chance de me perseguir e me matar e matar a minha família. Sim, meu lado racional gritava, implorava e esperneava pra eu pegar o táxi, enquanto meu lado sentimental era só uma vozinha no fundo da minha consciência que dizia: "O quer que ele tenha feito, vão tortura-lo até ele não ter mais forças nem pra gritar, e aí vão mata-lo do jeito mais humilhante possível e deixar seu corpo a mostra de toda comunidade bruxa, pra dar o exemplo". Eu era (sou) do Brasil, mas quem não estava informado das barbaridades que se faz por aqui? Ninguém merecia o que o futuro estava aguardando para aquele homem.
Peguei o táxi. Não podia ficar na frente do hotel até que descobrissem. E se alguém merecia uma morte trágica, era aquele homem, afinal, ele não era um Comensal? E ele não se tornou um com o objetivo de exterminar trouxas, ou pessoas vindas de famílias trouxas, como eu própria?
Ah, se eu soubesse o quanto àquela decisão iria me render... Eu sou uma pessoa cabeça-dura, de gênio forte, medrosa, desconfiada, mentirosa compulsiva e até paranóica. Só que o meu maior defeito ainda é mesmo o meu coração de manteiga, e se juntar com o meu idealismo então, aí é que não tem pra ninguém. E o que eu tinha acabado de fazer? Eu, sem lutar, tinha deixado um homem pra ser torturado e morto por um bando de loucos. Dá pra imaginar a crise existencial depressiva que eu tive logo em seguida? O cara podia até ter feito por onde, mas também podia ser que não, esse "se", mesmo que ínfimo estava me levando às loucuras. E também havia a minha crença de que "qualquer um merece um julgamento decente", nem que seja pra condenar a morte. Maldito filho da puta cheio da sorte! De todas pessoas do mundo que poderiam tê-lo encontrado primeiro, quem foi que achou? A patética Izabel com ética inserida nas veias.
Enfim, pedi pro motorista voltar. Uma vez em frente ao hotel, e estando com aquele táxi bem longe de mim, eu entrei com toda cautela e segurança que uma mão enfiada dentro do bolso segurando a varinha me davam. Estava mesmo esperando ver bruxos levando o Sr. Black para fora, mas não foi o que eu encontrei. Pensei que talvez eles tivessem desaparatado com ele pra fora dali, e checar o quarto onde estava hospedada. Tive uma surpresa, as duas mulheres que eu vira antes ainda estavam ali! Não descobri sozinha, na verdade, foi a camareira que me perguntou se eu queria que ela arrumasse o meu quarto, porque as minhas duas "primas" não haviam deixado! Dei uma desculpa qualquer a mulher e a dispensei. A camareira foi embora, e eu fiquei ali no corredor, tentando raciocinar. Como sentada eu penso melhor, sentei no chão frio mesmo. Pensei o seguinte: Aquelas duas já podiam ter saído dali a séculos e levando "Theodore" junto. Se elas não tinham ido, e ainda tiveram o trabalho de inventar aquela história ridícula de primas, então elas estavam aprontando alguma... Estapeei a mim mesma, de leve. Elas estavam era esperando que EU, inocentemente, voltasse ao quarto!
Sim, um sorriso triunfante se formou no meu rosto. Corri e avisei na recepção para mandarem o café da manhã na cama para meu irmão, pedi para que o acordassem e dissessem que eu estava tomando café da manhã no refeitório, mas que iria demorar a voltar porque eu precisava comprar uns remédios para ele na rua. Dei um tempo e voltei para o quarto onde estava hospedada, escutando pela porta e olhando pela fechadura e não vendo ninguém, entrei com a confiança de nada poderia ter saído mais perfeito.
Sabe quando você pensa que abafou, arrasou, foi genial, fechou o trânsito, não poderia ter saído mais linda para aquela festa de formatura tão sonhada e esperada e vai curtir a noite toda? Já teve a sensação de que justo nesse momento da coisa, quando você acabou de pôr os pés para fora de casa, veio um carro a toda velocidade e jogou lama todinha em cima de você? Foi mais ou menos como eu me senti. Com a diferença que eu tinha certeza de que o carro ia dar marcha ré e terminar o trabalho me atropelando e me mandando para a UTI, onde eu morreria depois de alguns meses de agonia e seria enterrada num horrível funeral, pois iria chover quando eu fosse enterrada, só para sujar minha roupa de lama uma segunda vez, ou pelo menos, o meu caixão. Lembrete para mim própria: preciso de um psicólogo, acabei de descobrir que tenho um enorme trauma com carros; aparentemente, a morte de Margot me afetou mais do que eu imaginava. Não que isso me importasse naquele momento não, o mais importante era a voz gélida ressoou pelo quarto.
- Olha só quem apareceu para ajudar, Marilyn.
Quando entrei no quarto eu avancei direto para o homem na cama, sem mais preocupações. Ouvindo aquela voz, no entanto, eu parei estática. Estava no meio do quarto, perto de "Theodore", longe da janela, e sem poder sair pela porta que eu havia entrado, pois as duas bruxas que vira na recepção impediam a minha passagem. Não era nenhum pouco reconfortante ver que as duas apontavam as varinhas na minha direção. Izabel, nem ouse desmaiar, disse pra mim mesma! Pense, pense, PENSE!
- Deve ser a senhorita Cadi, Belatriz! – disse a de cabelos castanhos. Cínica!
- Senhorita Cadi uma ova! Você vai dizer logo porque esteve ajudando o Snape, ou quer que eu solte uns feitiços primeiro?
Regra número um de todo marido que trai a esposa: em caso de ser pego na mentira, ou com a amante na cama, negue. Não importa que esteja na cara que você está mentindo. Continue a negar, continue a negar, continue a negar. Por que eu lembrei do meu tio Bio naquela hora, vai saber!
- Snape? O que está acontecendo aqui? Vocês não podem invadir o meu quarto desse jeito! Quem é você?
- Theodore precisa descansar! Saiam. Ou eu vou chamar a gerência!
Belatriz me deu um sorriso predador, levantando a varinha em minha direção. Certo, talvez essa última tentativa tenha sido ridícula.
- Nós não temos pra isso. O Lord quer tortura-lo pessoalmente.
- O Lord quer torturar o traidor pessoalmente, ele não falou nada sobre quem o estivesse acompanhando.
- Você vai arriscar a missão!
- Nem pense nisso! – ela falou pra mim, prevendo meus movimentos – Ela não é de Dumbledore, então não tem a menor chance dele aparecer por aqui! Diga-me. Quem é você? A namoradinha dele?
Disse isso com cara de nojo, apontando o corpo na cama ao lado com a cabeça.
- Crucio
Caí com um baque no chão e fui do céu ao inferno em um milésimo de segundo. O inferno, definitivamente, não é um lugar legal, eu tive certeza naquela tarde. Sua pele arde, queima, seus ossos estalam como se alguém estivesse tentando torce-los, além de que algo como uma mão invisível insiste em apertar e esmagar os seus órgãos internos, todos eles. Ela parou por uns instantes, perguntando de novo quem eu era e porque tinha ajudado Snape. Felizmente ela não teve tempo de me mandar de volta ao inferno, a porta abriu com força e violência, dando espaço a pessoa que não tinha menor chance de estar ali: Albus Dumbledore.
É claro que eu sabia quem ele era! Os jornais mencionavam o nome desse cara mais vezes do que mencionavam o Ministro da Magia. Ainda olhei horrorizada quando a mulher aparatou, fugindo como diabo que acabara de ver Jesus Cristo. Bellatriz, quero dizer, a outra tinha sido nocauteada em tempo recorde. Um feitiço estuporante muito do bem feito tinha saído da varinha de Dumbledore diretamente, e especialmente, para Marilyn. Aí ele olhou para mim estatelada no chão...
- De que lado você está?
O velhinho me perguntou com uma cara tão séria que me deu até medo, mas não havia outra resposta, outra verdade.
- Do seu lado.
E surpreendentemente, ele apenas disse:
- Cuide de Severus.
E saiu de novo pela porta. Não demorou muito para eu ouvir um estrondo. Deixei o tal Severus na maior (sim, eu desobedeci) e fui ver o que tinha acontecido. Antes, lancei um escudo protetor em volta de Severus, claro. Participei de outra maratona, dessa vez até a área de lazer, onde ficava a pequena piscina do lugar. Nada poderia ter me dado impressão maior de caos do que eu vi ali. Trouxas correndo para todos os lados. Feitiços multicoloridos ricocheteando. O tal Dumbledore novamente, com um homem negro ao seu lado. Como descrever a imagem tão nítida e forte que aquele senhor de idade tinha provocado em mim? Ele era um porto seguro em meio à tempestade e mar em fúria, ele era um porto forte, seguro, aberto a receber qualquer navio em perigo que pedisse ajuda. Mas era humano, era só, era único, eu tive certeza de que era único, ele podia mesmo contra toda a tempestade ao seu redor? Não foi o melhor momento para olhar a piscina, e vê-la tingido de vermelho, o corpo de alguém flutuando, alguém que não era Bellatriz, porque eu ouvia o riso negro de escárnio dela, e este era quase palpável.
De repente tudo foi ficando escuro...
E foi a primeira vez que eu desmaiei por ver sangue.
Eu havia falhado.
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Acordei numa cama desconhecida.
Ele era alto, tinha cabelos castanhos, rugas em volta dos olhos, olheiras, um nariz bonito e...um bigodinho ridículo. Aquele bigodinho me lembrava alguma coisa, ou alguém, eu tive de forçar a memória, me lembrava...me lembrava...aquele bigodinho me lembrava... Hitler.
Levantei de um salto. A única coisa que eu consegui dizer daí em diante foi "Cadê a minha varinha", e nem em inglês eu dizia. Alguém de fora da situação com certeza iria achar muito engraçado, mas pra mim a situação não era nada menos do que trágica. Eu empaquei no português! É isso mesmo! Eu não conseguia dizer uma palavra em outra língua, e muita menos entender o que estavam me dizendo. É, devo ter parecido uma louca. O cara ainda tentou me acalmar, mas foi só ele se aproximar o suficiente e eu saí correndo na direção dele. Por um momento, tenho certeza que ele pensou que eu ia encarnar o unicórnio e dar uma cabeçada nele (digo isso pela cara de idiota que ele fez), mas meu nome é Izabel, e não Zidane, então eu simplesmente lancei um feitiço escudo sem varinha em mim mesma e passei por debaixo dos braços meio abertos dele, disparando pela porta. Ótimo, eu estava no primeiro andar. Desesperada, e achando estava no meio de um bando de bruxos das trevas, atravessei o corredor no que me pareceu uma eternidade e comecei a descer as escadas nas carreiras. Adivinha o que aconteceu? Havia um outro bruxo subindo as escadas! Maravilha! Fiz uma cara de pânico, apoiei uma mão no corrimão e pulei as escadas. Certo, a aterrissagem não foi das melhores, eu até torci o tornozelo, só que aí eu escutei um barulho de feitiço bem acima da minha cabeça. No estado que eu estava não era preciso muita imaginação para eu sair jurando que o cara tinha acabado de soltar um Avada Kedavra e errara por pouco. Novamente ativei o módulo louca desvairada e saí correndo atrás de uma porta. Encontrei uma sala de jantar, uma sala de estar, um corredor com um retrato de uma mulher tão maluca quanto eu, e, finalmente, a porta da saída. Coloquei um sorriso de felicidade tão verdadeiro no rosto que foi até maldade aqueles bruxos malignos me fazerem desfaze-lo! No momento que eu estiquei o braço para a abrir a bendita porta...ela se abriu sozinha. Uma bruxa de cabelos rosa pink e um bruxo cheio de cicatrizes e um olho de vidro apareceram na minha frente. Dei meia volta e disparei, mas não segui pelo corredor do retrato com a velha gritante, indo parar em outra sala. Dessa vez eu estava sem saída, ali só tinha uma porta, a porta pela qual eu entrara, e não dava pra retornar por ela porque os bruxos das trevas estavam impedindo a passagem. Eram cinco no total. O protótipo nazista que estava no "meu" quarto, o homem da cara cheia de cicatrizes, e o da escada; esse último era um baixinho, meio careca, e de cabelos vermelhos. Havia também duas bruxas, a de cabelos rosa, e uma outra que surgira do nada, bem gorda e de cabelos vermelhos. Merlin, quantos bruxos ainda iam aparecer naquela casa!
Gritei para eles ficarem longe de mim. Mas não adiantou muito, lembre-se, eu estava empacada no português, tudo o que eu pensava em falar só saia da minha boca nesse idioma! Só continuei falando porque talvez eles entendessem que eu os estava ameaçando pelo tom de voz, mas tenho certeza de que falhei miseravelmente, aliás, meio que me confirmaram isso depois. Na minha cabeça eu estava em uma situação desesperada, e situações assim merecem medidas drásticas. Foi o que fiz, eu entrei em frenesi (esse é o nome técnico da coisa). Traduzindo: me concentrei para utilizar todo meu potencial mágico de uma vez. A minha pele ficou extremamente quente, minhas pupilas totalmente brancas, e enquanto o chão começava a tremer levemente, eu conjurei esferas de fogo nas duas mãos. Varinha nunca foi a única maneira de fazer magia; nem ninguém nunca deixou de ser perigoso por estar sem uma. Eles pareceram incrédulos, e eu comecei a atacar. A intenção era levar a casa abaixo se fosse preciso, e lancei fogo não só neles, mas também em tudo que podia espalhar um incêndio pela casa: cadeiras de madeira, os estofados, o sofá, as cortinas. Espera! Cortinas? Cortinas! Onde tem cortina tem janela! Antes de eu conseguir sair pela janela, no entanto, começou a ficar mais difícil controlar aqueles bruxos, afinal, eram cinco contra uma! Principalmente o cheio de cicatrizes, miserável filho de um troll, ele já tinha me atingido um Stupefy e eu só não havia voado de encontro à parede e desmaiado porque eu estava sob frenesi. De repente eu percebi que dois deles (um homem e uma mulher) estavam em cima de um tapete. Ótimo, puxei o tapete magicamente e joguei os dois no chão, em seguida derrubei o lustre da sala. O lustre deveria cair em cima apenas da mulher caída, a magra, mas aí um dos homens que estava em pé se jogou por cima dela, numa tentativa de protege-la. Na hora nem atinei no esquisito da cena, eu só conseguia pensar: dois imobilizados, um caído, corra pra janela que você não vai conseguir acabar com o sujeito das cicatrizes. E não é que deu certo? A janela era de vidro, e melhor assim, eu pulei com tudo nela sem ao menos pensar na possibilidade dela ser daquelas janelas com portas de maneira e estar fechada.
Caí toda cortada no meio de uma rua cheia de transeuntes, e todos se assustaram, me dando espaço para passar. Não os culpo, o que você faria se visse alguém no meu estado "saindo" pela janela? Eu até agradeço a reação deles, afinal, eles deram espaço para eu passar! Ninguém tinha feito isso comigo até o devido instante. Desde o fatídico dia em que eu encontrara aquele Comensal quase morto, as coisas estavam finalmente dando certo! E imagina quem eu encontrei na rua a uns duzentos metros daquela casa dos horrores? Um homem negro, alto, lindo, e que reconheci na hora ter lutado do lado de Dumbledore e, conseqüentemente, do meu lado no hotel. A minha reação? Agarrar-lo pelo braço e sair correndo. Ele ainda quis me impedir, fincou o pé no chão, observando com olhos arregalados o meu estado, e perguntou o que tinha acontecido. O homem realmente me fez bem, porque minha capacidade de falar e entender inglês voltara, a prova era que eu tinha entendido o que ele tinha dito. Então eu disse que não havia tempo, que nós tínhamos de correr. Lembro de estar muito nervosa e só ter falado palavras desconexas, algo sobre perseguição/eu/bruxos das trevas. Ele não precisou ouvir mais e saiu correndo comigo. Corremos e corremos e corremos, assustamos os trouxas ao nosso redor e esbarramos em metade deles. Até que chegamos a um parque. Ufa. Sentamos num banco, ou melhor, eu sentei. Ele estava nervoso e quis me perguntar algumas coisas que eu não entendi na hora, ele falava rápido demais. Então ele notou meu estado e que eu não estava entendendo, parou de tagarelar e se ofereceu pra lançar uns feitiços calmantes e outros de cura, falando de um jeito tão devagar e alto que eu posso jurar que ele achou que eu era surda...ou retardada. Só então notei, eu mesma, o meu corpo: minha blusa estava rasgada, minhas mãos estavam queimadas, havia cortes pelos meus ombros e faces, lágrimas no meu rosto... Ele se apresentou, disse se chamar Kingsley Shacklebolt, e nós entramos mais naquele parque, procurando um lugar mais ou menos reservado, onde ele pudesse me fazer os feitiços sem causar pânico nos trouxas. Uns 30 minutos depois, comigo mais calma, Kingsley começou a me questionar de novo.
- Os bruxos das trevas. Você disse que estava perseguindo os bruxo das trevas, onde você os perdeu de vista?
- Ãnh...o que...?
Eu ia dizer que eu não estava perseguindo ninguém, eles que estavam me perseguindo, mas aí Kingsley começou a falar daquele jeito esquisito de novo, então eu desisti e falei onde tinha deixado os bruxos maus.
- Na casa!
- Que casa?
- A casa, oras essa! Eu não sei dar detalhes, ela estava perto de onde eu te encontrei.
Eu diria que ele ficou branco feito uma folha de papel, mas seria a mentira do século, já que o homem era negro. Então eu apenas digo que ele ficou realmente...menos negro? Será que eu posso dizer que ele ficou pálido? Enfim, ele não pareceu gostar nem um pouco do que eu havia dito.
- Eu te indico onde a casa fica! E aí você chama os reforços.
- Não vai funcionar...
- Olha, desculpa eu não poder te ajudar nessa, mas eu tô caindo fora e... como assim?
- A ordem está sob um feitiço de fidelidade. Nós temos de chamar Albus.
- Ordem!
Kingsley começou a falar como papagaio de pirata, e a perguntar por pessoas, Tonks, Remus, os Weasley. Eu não conhecia nenhum deles. Como eu não sabia, ele perguntou; provavelmente eu não estava ligando o nome à cara das pessoas, porque elas estavam todas na casa comigo, concluiu ele. E disse que tinha de chamar Albus, de novo. Não deixei, ele tinha de me explicar tudo antes de fazer qualquer coisa, que eu já estava enfiada até o pescoço nessa guerra de inglesinhos de merda e não ia ajudar mais ninguém enquanto não me explicassem o que estava acontecendo. E ele nem pensasse que ia chamar o velhote antes de abrir o bico, porque eu não ia deixar, eu tinha o direito de saber. Kingsley ainda quis retrucar, mas quando eu falei que nada que ele fizesse nas próximas horas ia mudar o que tinha acontecido naquela casa, ele se acalmou e me deu razão. Ele então me explicou de como estávamos numa guerra civil e o governo não queria aceitar. Nesse ponto eu o corrigir, vocês estão numa guerra, eu não! Ele se surpreendeu muito quando eu disse ser brasileira, pedi pra ele deixar de besteira e continuar a história. Por Merlin. Que manhã (a conversa durou a manhã inteira)! Em pouco tempo eu estava sabendo toda a situação política atual da Inglaterra em pormenores, como Albus Dumbledore tinha criado a Ordem da Fênix, como ele participava da tal ordem, como eles espionavam Você-Sabe-Quem, como eles protegiam Harry Potter, o garoto-que-sobreviveu... Nesse ponto o homem se emocionou, e disse que com a ordem acabada já não sabia como os bruxos de bem resistiriam nessa guerra.
As explicações de Kingsley fizeram as coisas começar a se encaixarem e fazer sentido. Até o fato de eu ter "escapado" ficou mais claro: em primeiro lugar, eu só havia escapado porque estava com uma certa vantagem, nenhum dos bruxos daquela casa queria me atacar e só tinham feito isso em último caso e em defesa própria. Pensando bem, tinha sido mesmo eu quem tinha iniciado o duelo suicida; e só tinha vencido porque ninguém ali queria me atacar! Burra, burra, burra! Mas o que eles queriam que eu pensasse acordando num lugar desconhecido e dando de frente com um protótipo de Hitler na minha frente? O bigodinho! Eu me aterrorizei quando vi aquele bigodinho!
Izabel volte suas atenções para o negro sentado ao seu lado no banquinho. O cara estava chorando como criança! Ah, céus, Merlin, Circe, Zeus, Cleópatra, qualquer um aí em cima, me ajude!
- Kin, querido, não precisa chorar.
Ele continuou chorando, agora enterrando o rosto nas mãos.
- Olha, eu me expressei mal. A Ordem não foi atacada.
Finalmente recebo uma reação dele.
- O que? – e pára de chorar.
- Eu falei de bruxos das Trevas, eu me enganei, achei que estava na base do inimigo ou coisa assim! Por isso eu saí correndo! Estava assustada! Aconteceram tantas coisas nesse final de semana que... Aí eu acordei naquele lugar estranho, depois daquele rolo todo, eu só conseguir pensar: pronto, acabaram com o grande Dumbledore e me levaram de refém, que é que...
Estava ficando realmente nervosa pra me explicar, quando ouço ele rir...Gargalhar! Ele estava gargalhando! Filho de uma quimera... Ele notou o meu olhar em seguida, e nem parou de rir! Rá!
Que homem esquisito, ele passou do choque às lágrimas, das lagrimas ao riso, do riso a gargalhada histérica (essa última transformação em questão de segundos), tudo numa tarde só. Pelo menos ele se desculpou. E perguntou como eu fugi de lá, e porque estava toda cortada, pareceu mesmo estar preocupado. Bom, eu desviei do assunto, não queria contar como ataquei os amigos dele! Disse que estava com fome, e quer saber, eu estava mesmo era morrendo de fome! Ah, ele tinha ficado de ótimo humor, falou de um restaurante por perto e que ficava tudo por conta dele. Ótimo. Quando acabei a refeição quis dar no pé, mas ele não deixou, disse que Albus Dumbledore queria falar comigo. Perguntei sobre o quê e ele não soube responder, enrolou dizendo algo sobre Albus talvez querer agradecer, afinal, eu tinha salvado um dos membros da Ordem.
- Esse tal Severus. Ele é um Comensal da Morte, como pode...?
- É. Isso ainda causa muita polêmica entre a gente. Albus confia nele, mas muita gente da Ordem não! O Sirius, por exemplo... – soltou um bufo pelo nariz – Não quer nem ouvir falar nele!
- E o que você acha?
- Eu? Bom...não confio muito no cara não, mas Albus confia, pra mim é o suficiente.
Sinceramente? Pouco me importava. Eu não pretendia voltar pra tal Ordem de jeito maneira... Até lembrar que minha varinha tinha ficado por lá.
