Segundo Tiro - Livin' on a prayer
Yo ho, yo ho, a pirate's life for me
We extort, we pilfer, we filch, and sack
Drink up, me 'earties, yo ho
Yo ho, yo ho, uma vida de pirata pra mim
Nós extorquimos, nós furtamos, nós chantageamos, nós saqueamos
Esvazie seu copo, companheiro, yo ho
O vento bateu e seus cabelos voaram, tapando sua visão. Queria que eles ficassem lá por um bom tempo. Por toda sua volta via homens estranhos e ameaçadores, vestidos em roupas rasgadas e carregando espadas e pistolas. Eles fechavam o círculo a sua volta e sentia asco de alguns do grupo. Tentou separar as mãos. Estavam amarradas com complexos nós que apertavam ao tentar soltá-los. Tinha sangue em sua roupa, mas não sabia de quem era.
"O que nós vemos aqui?"
"Me soltem, seus bandidos!" Uma gargalhada subiu da turba ante aos apelos infantis.
"Ora, vamos soltá-lo, capitão" provocou o que parecia ser o líder. "Vamos soltá-lo aos tubarões!" ele gritou, seguido de um brado geral.
Ele se sentiu uma criança enganada e com medo dos adultos ameaçadores. Por um momento realmente achou que o soltariam. Se sentia tão inocente. Julian Solo, você é tão inocente.
Uma espada foi desembainhada e a lâmina foi apertada contra seu pescoço. Sua saliva entalou na garganta. Não queria morrer.
"Parem com a palhaçada!" Um homem se destacou no grupo, avançando imponente e derrubando quem o ameaçara ao convés.
Máscara apertou o corte causado pela sua queda junto com a espada. Disfarçadamente pôs a mão no cabo de uma faca guardada entre suas roupas. Afrodite se postou entre os dois, achando que Máscara estava em desvantagem.
"Quem você pensa que é, o capitão!"
"Quem vocês pensam que são!" gritou em resposta. Puxou Julian pelo braço e se colocou a sua frente.
Julian tinha visto sua vidinha perfeita desmontar em pouco tempo. Seu navio fora abordado e afundado, mas não haviam tomado sua vida. Agora estava nas mãos de um bando sanguinário de piratas, apenas para ser ridicularizado em seus clamores pela vida. E quando parecia que alguém finalmente vinha em seu socorro, ele não queria acreditar, não queria ser desiludido novamente.
Seus pulsos doíam, mas só conseguia pensar nos fios verdes revoltos que estavam comprimidos contra seu rosto. Se piratas eram tão sujos e infames, por que aquele cabelo era tão macio e tinha um cheiro tão bom? Quando seu salvador virou o rosto para gritar com outro pirata sujo e infame, viu parcialmente seu rosto. O olho esquerdo estava coberto por um rústico tapa-olho, e por baixo, uma feia cicatriz serpenteava na face.
Enquanto uma firme discussão era formada no convés, Julian virava a cabeça freneticamente, sua memória guardando cada corda cruzada e cada rosto raivoso. Um tiro de pistola se fez ouvir sobre os gritos da multidão. A fumaça da pólvora se dispersou e o capitão surgiu no meio do estardalhaço.
"Calem a boca, bando de moças!"
Os piratas obedeceram como explosões no vácuo.
"Muito bem, meninas!" ele andou entre os marujos, que abriam espaço automaticamente. "Quem é o responsável por essa bagunça? Me digam."
Ninguém fez menção de responder. Algo caiu no mar e fez um barulho surdo.
"Shura!"
"Capitão! Máscara da Morte estava ameaçando o prisioneiro e Isaak interveio."
"É assim que eu gosto." Ele olhou para Máscara caído no chão, o braço ensangüentado e uma faca na mão. Afrodite estava a sua frente, como Isaak estava protegendo o prisioneiro. "Qual o motivo das ameaças?"
"Quem trouxe esse homem a bordo, senhor?" perguntou Afrodite.
"Fui eu. Algo contra, grumete?"
"Não, senhor. Nada contra."
"Issak!" O garoto olhou assustado; mal imaginava que o Capitão sabia seu nome. "Qual o motivo da intervenção?"
"Capitão, o senhor é a autoridade dessa embarcação, as decisões cabem apenas ao senhor. Máscara da Morte queria joga-lo ao mar."
Ele iria lembrar-se de agradecer ao Deus que não acreditava por não ter gaguejado na frente do comandante do navio.
Afrodite engoliu as palavras que se formaram em seus lábios. Puxa saco.
"Bem, temos um lindo desentendimento entre crianças aqui. Máscara, pode, por favor, levantar-se e nos agraciar com suas respostas? Agradecido. Muito bem. Eu tenho motivos para manter esse homem vivo e isso basta para que ele seja poupado de humilhações nessa embarcação. Quem se atrever a violar isso será punido ante a tripulação, muito bem?"
Grunhidos foram ouvidos, mas o Capitão era Lei no navio e eles nada podiam fazer. Nenhum outro conseguiria substituir Milo em capacidade e respeito.
"Por falar nisso..." ele girou sobre os calcanhares, fazendo todos congelarem novamente. "Issak, traga seu amiguinho para minha cabine. Conversas esclarecedoras precisam ser formadas."
Os Piores Três Dias Da Sua Vida.
A incerteza do futuro, o medo da embarcação, tudo.
Passou três dias em uma pequena e úmida cela, sendo chamado à presença do capitão quando menos esperava. Ou quando mais esperava, pois era necessário apenas o tempo de encontrar paz em suas idéias confusas.
Três dias sendo xingado e ameaçado educadamente, de uma forma que, quando você compreendia o sentido das palavras, o assunto era outro e não adiantava pensar muito.
No final a conclusão foi simples: não havia mais barcos sob seu comando, não havia mais ouro a ser roubado. Prisioneiro inútil e condenado à prancha.
Um soluço escapou por seus lábios trêmulos e suas costas arranharam na parede que estava apoiado. Assim a vida acabava. Na mão de homens que o mantiveram vivo apenas para saber se tinham mais lucro adiando sua morte. Agora sabiam que não; e ele iria morrer.
Algum consolo? Ia tentar não chorar, pelo menos.
Camus logo descobriu qual era a Lei que regia o Caribe: O mais forte, com mais balas no pente, ganha.
De fato, era uma lei que vigorava muito.
Sua busca por qualquer ponta de informação do bando tinha sido completamente inútil. Ninguém falava nada, e ninguém tinha visto nada. Se você perguntasse, eles te expulsavam do lugar e fechavam todas as casas da rua. O pavor que Milo descobrisse quem abrira a boca era maior que o brilho do ouro que Camus trazia do Continente.
Ele estava começando a ficar frustrado.
Seu diário era o grande alvo dessas frustrações. Anotações como "ninguém parece colaborar", "pessoas que não sabem o valor de um suborno" ou "a Bíblia estava errada; o Inferno pode ser encontrado ainda em vida" eram muito freqüentes.
Pelo menos parecia que a tripulação estava feliz. O chão não balançava sob seus pés, não havia ordens a seguir ou trabalho a fazer. Estavam bem felizes, até. Dohko dizia que isso era bom para os marujos, eles precisavam sair um pouco da monotonia do mar. Uma cidadezinha no fundo de algum buraco parecia uma ótima escolha.
Camus suspirou. Estava tentando escrever em seu diário, mas precisava parar o tempo todo para enxugar o suor que se acumulava em sua testa. Sua caneta pingou e manchou todo o papel, colaborando para seu mau humor. O tinteiro pagou caro por algo que não tinha feito e se espatifou contra uma parede qualquer. Como odiava aquele clima!
Agora era de verdade. Agora ia mesmo ser jogado da prancha. Não sabia o motivo pra tanto drama; todos morriam um dia qualquer. Só não queria morrer hoje.
Seus pulsos estavam novamente amarrados, e estava novamente circundado por um bando de assassinos sanguinários. Não havia progresso nenhum. Apenas no fato que o capitão estava presente e que seu salvador da pátria não iria salvar nada. Não havia progresso nenhum.
Decidira encarar tudo como o homem que não era. Respirou fundo e subiu na base de madeira suspensa sobre o mar. Ouviu um brado de vitória. Se lhe dessem uma arma, se mataria de uma forma que não trouxesse divertimento a ninguém. Seus olhos não estavam vendados, o que provava apenas que queriam que ele visse quando tubarões lhe mordessem os membros, não apenas sentir o que acontecia. Não podia chorar.
Virou para encarar todos os malditos sádicos que permitiam isso, cada rosto marcado a ferro em sua memória. O que o ameaçara antes só não parecia estar se divertindo mais que o capitão. Máscara, chamava. Shura, um que por pouco não se metera na briga, dias atrás, mantinha uma expressão séria, mas ele sabia, sentia, que o pirata estava mordendo os lábios para não sorrir com seu sofrimento. Ouviu um barulho nos cordames, e foi apenas desviar o olhar para cima e avistou um homem se sustentando pelas cordas. Desgraçado, queria assistir com uma visão privilegiada. O marinheiro acenou para ele, e voltou a olhar para frente revoltado. Localizou um rosto familiar e odiado. O capitão havia chamado de Afrodite. Ele usou todas as forças para odiar a expressão de êxtase que o pirata apresentava.
Então era divertido vê-lo sofrer.
"Vamos andando?" Milo provocou. "Pela prancha..."
O riso subiu novamente, fazendo a cacatua empoleirada no mastro se agitar.
"Vamos!" gritou Julian no desespero. "Vamos andando!"
O silêncio se instalou no convés e algo remexeu a água próxima ao casco.
"Não é o que vocês querem!"
"A criança está brava porque tiramos seu brinquedo" Milo se apressou em cortar. Ninguém podia gritar mais que ele naquele navio. "Agora chega." Ele abriu caminho entre os corpos e se postou de frente para o prisioneiro. Sua expressão se fechou em algo como raiva e prazer. "Pule."
Julian deu um passo para trás. Viu os cabelos verdes de Isaak e fixou o olhar nele. Virou-se e sentiu algo que imaginou ser o cutelo do capitão bem no meio de suas costas. Encarou o infinito azul a sua frente. Esperava que morrer não doesse.
Parou exatamente um passo antes da queda. Ia pular de olhos abertos, encarando os desgraçados. Não conseguiu. Seu olhar voltou para o profundo verde e o tosco tapa-olho. Seus pés escorregaram e não havia mais madeira abaixo de si. Só... nada.
A água fria o envolveu e percebeu que seus olhos continuavam abertos, fixos na amurada tremulante. Uma silhueta estava debruçada e ele não precisava estar de olhos abertos para imaginar um brilho verde e melancólico fixado nas ondas por onde tinha afundado.
Maraud and embezzle, and even high-jack
Drink up, me 'earties, yo ho
Fraudamos e desviamos e até seqüestramos
Esvazie seu copo, companheiro, yo ho
Oh, que emoção! Eu amo terminar capítulos e postar. É tão divertido!
Bem, eu só tenho a agradecer mais ainda, a quem leu e gostou, quem me disse que tinha gostado, todo mundo. XP
Esse capítulo vai especialmente para... ahn... pro Julian! E o Isaak.
Pobre Julian. Eu sou muito sádica. Só não me matem que eu prometo que arrumo todas as coisas.
Uma notinha especial de agradecimento a duas pessoas especiais, K e Calíope, que me incentivaram e me ajudaram tanto. Muito Obrigada, minhas fofas!
Oh, eu amei as reviews e as ameaças! Muito obrigada.
Calíope: Sim! Outro capítulo sim. Depois vem o mais outro. Mas eu estou indo bem, olha só. As ameaças surtiram efeito! Muito obrigada por gostar e pelo comentário lindo que você fez tantas e tantas vezes, pra mim, na review, no seu blog, enfim. Muito, muito mesmo! (Então quer dizer que o Camus vai vir puxar meu pé de noite e você espera que eu mande o lindo pra sua casa... No chance, esse é meu XP)
K: Meu anjinho! Sua review foi estraçalhada pelo inescrupuloso ff, mas eu captei o sentido! E sim, vou esperar você ler o maldito capítulo antes de postar, apenas leia logo... Lavar o convés parece mesmo uma bela idéia em qualquer um desses navios transbordantes de homens lindos. Sinto próximo mais um desmaio épico...
Kitsune Youko: Muito obrigada, tia! Pode deixar que eu estarei sempre aqui para escrever. Até em época de provas, que foi o que eu fiz exatamente... Quanto à narrativa, vou tentar fazer algo marítimo e ondulante, para combinar, que tal?
Ilía: Desistir? Agora é tarde demais para isso. Well, eu não vi Mestre dos Mares, mas sou fan de carteirinha de Peter Pan! Eu não sei quanto à Jolly Roger, o que eu sei é que as bandeiras com as caveiras maníacas se chamam assim. Vou colocar sobre isso no meu recém revivido blog... Eu acho que nesse capítulo ainda não tem Milo suficiente para nós, mas vamos melhorando!
Lili: Oh! Que ótimo que você gostou! (Você gostaria de nomear a Calíope como Tradutora Universal de Vontades Íntimas? Vamos para o mar! XP) Não só ter o mar a frente, mas preferencialmente, em algum dos navios lotados de Cavaleiros perfeitos. Oh, Milo, Camus, todo mundo! Mais desmaios épicos.
Hakesh: Está ótimo assim! Vamos lá, mais energia para ameaçar a autora! Iêi! Well, sério agora. Sim! O mais que você queria está aqui! Yeah, eu também precisava desse mais. Muito perfeitos esses piratas... Ei, você já é minha conhecida, muito obrigada pelas reviews nas minhas outras fics!
Rafaela: Atualizado e com direito a pipoca. Bem, eu não curto muito o Hyoga... Tenho a impressão que não vou me aprofundar muito nos dois... Eu sou completamente Camus e Milo 4ever. Eu também tenho a impressão que vou adorar o desenvolvimento e o fim. Vamos esperar para ver o que sai da minha cabecinha. XP
Thank you para todo mundo, e se quiserem, dêem um pulo no meu blog, eu coloquei fotos dos navios dos lindos. Quem quiser me ajudar com nome, eu fico honrada!
E, K, não me odeie, ok? Você sabe que eu preciso de você, não sabe? Gêmeos não são substituíveis, meu anjo.
16 de Abril de 2005
Saga
