CAPÍTULO 2
Distraída, Lílian preparava o café da manhã, enquanto o marido e o filho ainda dormiam. Da janela da cozinha, ela avistou a figura meio dramática de Severo, vindo por trás do quintal de casa. Magro e abatido, todo de preto, as vestes enfunando atrás de si com o vento, era quase um espectro, uma sombra materializada nos fundos da casa.
Franziu a testa, prevendo problemas. Severo não parecia estar ali por acaso, nem de passagem. Parecia disposto a ficar. Com o corpo meio de lado, contemplando o horizonte, a claridade do amanhecer iluminando a cortina de cabelos pretos que voava sobre o seu rosto. A única coisa nele que se mexia era o seu cabelo, muito escuro e comprido. De braços cruzados sobre o peito, estático, ele parecia querer espreitar o perigo à distância, como um enorme cão de guarda, ou um gárgula nos fundos da casa. Saindo pela porta dos fundos, caminhou devagar até ele:
- Severo! Bom dia... O que está fazendo aqui?
- Esperando... – foi o máximo que ele conseguiu responder.
Ela deu uma boa olhada no rapaz abatido e de expressão impassível à sua frente. Em seguida, tocou de leve o ombro dele, convidando:
- Entre! Vamos, venha tomar um café.
Severo seguiu-a em silêncio e observou enquanto ela servia duas canecas de café e sentava à mesa, à frente dele.
- Então, Severo... Por que está aqui logo cedo de novo?
Ele não respondeu, franziu a testa, unindo as sobrancelhas e olhando fixo para o café em suas mãos.
- Eu pensei que já tivéssemos conseguido ultrapassar essa etapa, pelo menos...
- Sim, nós conversamos bastante ontem...
Pela resposta vaga, desviando o olhar, ele percebeu que as coisas tinham mudado de novo entre eles. Só o seu imenso autocontrole o impediu de se levantar e sacudi-la com irritação. Resolveu, no entanto, insistir:
- Você saiu na madrugada, enquanto eu dormia, sem se despedir... por quê? Por que não esperou, ou me acordou, por que sair sem falar comigo?
Ela continuava em silêncio, séria, encarando-o com uma altivez, uma determinação que ele não conseguia compreender.
Ele, a essa altura, incapaz de controlar a ansiedade e a irritação, e andava de um lado para o outro na pequena cozinha. Enquanto andava, ele vigiava discretamente as reações dela, tentava decifrar a sua expressão.
- Vamos, Lílian, fale! O que você está pensando em fazer? Depois de tudo... De tudo o que foi dito... Depois de tudo o que aconteceu entre nós na noite passada... O que você está pensando? – ele conseguiu perguntar, com uma voz que lhe pareceu firme e profunda. - Em quê?
- Em... várias coisas... – disse em voz baixa, e deu um suspiro. Levantando o rosto, encarou-o e sorriu de leve. – Em primeiro lugar, que eu fico zonza com você andando de um lado para o outro desse jeito. Sente-se.
Ele obedeceu sem contestar. Assim que ele se sentou, ela segurou a mão dele entre as dela, num gesto firme e carinhoso e olhou bem nos seus olhos, de um jeito que fez seu estômago dar um nó.
– E então, Lílian? O que você quer fazer? Diga. – ele perguntou num sussurro.
Talvez fosse o calor das mãos dela nas suas. Talvez fosse a doçura daqueles olhos verdes amendoados e profundos totalmente focalizados nele. Ou aquele esboço de sorriso. Mas ele se viu, de repente, fantasiando, sonhando acordado com alguma coisa mais. Olhando para ela, tentando adivinhar o que ela ia dizer, ele acreditou que ela quisesse fugir. Que fugiria com ele. Que pediria isso a ele. Aquele momento breve de carinho o fez sonhar. Fez com que sentisse que nenhum pedido dela seria grande demais, nenhum sacrifício seria grande demais. Ela merecia tudo o que ele tivesse dentro de si para lhe dar. Seria capaz de aceitar fugir levando junto o menino, o filho do seu detestado rival. Tudo por ela, pelo seu amor por ela. Ela era especial, desde menina. Tomou coragem para quebrar o silêncio e encorajá-la a falar.
- Eu amo você, Lílian! Você me entende agora?
- Eu compreendi muita coisa ontem, Severo... E também amo você.
- Eu vou me arrepender pelo resto da vida pela maneira como terminei tudo, pelo modo como eu a tratei. Eu fui idiota por achar que o único modo de salvar a mim mesmo era machucando você...
- Adolescentes muitas vezes são cruéis, ou tolos, assim mesmo... Eu entendo isso.
Ela deu um suspiro, apertando um pouco mais a mão dele.
- Sabe, você tinha razão quando disse ontem que não precisava do meu perdão, da minha absolvição. Porque não era isso. Eu nunca deixei de gostar de você do mesmo jeito, todo esse tempo. Eu só fiquei... magoada. Triste. Decepcionada.
- Eu menti, eu fui cruel... Eu sinto muito por isso. Eu me ODEIO por isso.
- Então pode parar. Não existe nada mais triste do que um homem tão jovem e tão amargo... - ela respondeu, fazendo um carinho no rosto sofrido dele.
- Então, Lílian... Fique comigo! Vamos fugir juntos! Estou pedindo uma oportunidade para provar a você que pode me amar novamente. Fique comigo sabendo que eu nunca mais vou magoar você... e aí quem sabe eu tenha mesmo uma chance de ser diferente, de não ter mais amargura.
- Eu pensei muito, Severo...
- Lílian, eu te amo! E sei que você também me ama! Peça o que quiser que eu farei por você, mas vamos ficar juntos... Nada existe que você possa me pedir que eu não aceite fazer com absoluto prazer. Eu preciso de você, Lílian!
- Eu não posso. Existe muita coisa em jogo agora, Severo. Eu amo você, eu confio e me importo com você. Nossa ligação é muito forte, sempre foi. Agora, mais do que nunca. Seria impossível mudar isso. Mas o meu lugar é com meu marido e meu filho, Sev... E essa é a minha escolha.
De repente, a cozinha pareceu ficar mais apertada e sem ar. Será que era algum tipo de piada sádica do destino? Um martelo parecia ter atingido sua cabeça com força, levando de quebra um pedaço do seu coração.
- Espera... eu acho que não entendi. Quer dizer que você vai escolher... o Potter? Mas você ME ama! Você mesma disse... Mais do que isso, eu senti que você me ama tanto quanto eu amo você!
- Eu preciso proteger o Harry. Sev, entenda... Estamos no meio de uma guerra horrível, não dá pra esquecer isso! Eu amo meu filho, mais do que tudo na vida. E tenho que pensar na segurança dele em primeiro lugar!
- Traga o Harry conosco, então! Você acha que eu não aceitaria ficar com o seu filho, só porque ele não é meu também? Eu amo você o suficiente para proteger o menino com você!
- Pois então... Me ajude a proteger o Harry, Severo! Eu sei que você pode fazer isso, ainda mais agora, estando em Hogwarts... Eu confio em você. Eu amo você e, depois de tudo o que ouvi você contar, por acreditar em tudo o que você me disse ontem, confio ainda mais... Mas, Severo, Harry é meu filho e eu o amo acima de todo o resto! Entenda... Mais do que a minha própria felicidade, do que minha própria vida... Por ele, eu daria minha vida, sem pensar duas vezes. E ele não é apenas importante para mim por ser meu filho! Ele pode ser o único bruxo capaz de derrotar Voldemort de uma vez por todas, acabar com a guerra e o sofrimento! Ele não é importante só pra mim... Ele é importante para toda a comunidade bruxa, para o mundo todo! Ele precisa crescer em segurança para conseguir ser essa pessoa especial... O Harry precisa ser protegido contra a ameaça de ser assassinado, sim... Mas ele precisa também do pai ao lado dele. Ele precisa do Tiago, tanto quanto de mim. Eu não poderia ser egoísta e não reconhecer isso... E a verdade...
Ela suspirou, ainda segurando as mãos dele entre as dela. Mantinha o olhar calmo e firme, encarando-o.
- A verdade é que eu também amo Tiago. Não sei se você pode entender isso, se é capaz de aceitar ou não... Mas eu amo muito meu marido. É estranha essa coisa do amor. Quando você me dispensou, eu acabei me aproximando de Tiago porque sabia que ele me amava sem reservas e precisava disso para esquecer você. E o que aconteceu foi que, mesmo sem esquecer... mesmo sem que diminuísse nada, nenhum grama, do que sempre senti por você... Eu passei a amar o Tiago, de verdade, profundamente, também.
Ela fez uma pausa, sacudindo a cabeça e parecendo fraquejar pela primeira vez desde o início da conversa. Quando o encarou de novo, ele pôde ver que havia lágrimas em seus olhos.
- Esse mundo é estranho, não é? Eu fico me perguntando como é que eu fui merecer amar e ser amada, tão intensamente, por dois homens tão maravilhosos? Tão diferentes... tão diametralmente opostos... E ao mesmo tempo, tão... intensos, corajosos... tão fascinantes!!
Severo não se conteve, franzindo a testa com desgosto e levantando as mãos em sinal de frustração:
- Você só está dizendo isso para me fazer ir embora... Eu sei, do mesmo jeito que um dia eu afastei você. Eu não acredito em nada do que disse agora.
- Não, Sev. Na noite passada nós dissemos muitas coisas, fizemos e sentimos... Eu pensei muito sobre aquilo tudo. Quanto mais pensava, mais chegava à única conclusão possível: você deve voltar para Hogwarts, para Dumbledore, e para as missões importantes da Ordem. E eu tenho que recomeçar a fugir e me esconder, com meu marido e meu filho... Meu lugar é ao lado deles. Não, não é culpa sua que tenhamos que sofrer. A culpa é de Voldemort, dos Comensais... dessa guerra louca. Você sabe como seria devastador para o nosso lado se nós os abandonássemos agora, não sabe? Com quase certeza você acabaria em Azkaban, ou morto. E eu provavelmente acabaria morta amanhã. Você sabe que é verdade. Já existe tanta traição, tanta desconfiança... imagine se nós também contribuíssemos para aumentar! É isso o que Voldemort quer, a nossa desunião!
Segurando mais uma vez nas mãos dele, ela se aproximou ainda mais. Os rostos ficaram muito próximos, os olhos mergulhados um no outro. Ele pensou se não seria melhor se afogar de uma vez naquele verde líquido do olhar dela.
- Mas... e nós?
Ela sorriu por entre as lágrimas que agora corriam livres pelo seu rosto e respondeu com uma entonação de voz impostada:
- "Nós sempre teremos Paris"
- O quê??
Ela achou graça da expressão perplexa dele:
- É uma fala de um filme famoso, Severo! Cinema. Você nunca ouviu falar em Casablanca? Tudo bem... coisa de trouxa. Você sempre odiou essas coisas, eu sei... O que eu quero dizer é... Nós temos as nossas boas lembranças, o nosso tempo de namoro em Hogwarts... coisas boas que estavam perdidas e foram resgatadas ontem. Nós temos a certeza do amor, do nosso amor. Esse amor, esse tipo de amor, dura para sempre. Nós não tínhamos nada disso até que você viesse a Godric's Hollow. E nós temos a noite passada... Tudo o que dissemos, fizemos, sentimos... pode nos sustentar pelo resto das nossas vidas...
- NÃO!! Não... Eu não concordo com isso... Eu não aceito, não posso aceitar! Eu nunca mais vou deixar você, Lílian! Você não percebe? Eu não posso! Agora, depois da noite passada, eu não vou poder viver sem ter você comigo!
- E nunca vai precisar, mesmo... Meu amor por você, as lembranças... Isso vai acompanhar você para sempre. Do mesmo jeito que o seu amor, seu coração, sua paixão, sua coragem... isso tudo também vai me acompanhar para sempre! Mas você sabe que agora nossos caminhos vão ter que se separar de novo: você tem coisas importantes a fazer, outras vidas para salvar... E eu tenho que seguir, me preparar para o que vem por aí.
- Eu não sou nenhum herói, Lílian! Eu não sou nobre... Não sou uma boa pessoa, nem penso nos outros. Tudo o que eu tenho feito, é por você! Só você importa.
- Não, Sev... Eu sei que você é muito melhor do que se julga. Você é forte, é inteligente, talentoso. É capaz de atos de coragem enorme... de bravura, mesmo... quando concentrado em algo.
Por um momento, nenhum dos dois disse nada. O olhar de Lílian estava fixo nele, ansioso. Lágrimas discretas ainda molhavam seu rosto. Severo não conseguiu sustentar seu olhar. Atordoado, confuso, estava se aproximando mais uma vez do desespero.
- Agora vá, Severo! Harry vai acordar num instante esperando seu leitinho, Tiago vai descer para o café... Você precisa ir. Mas antes, só uma coisa: Eu quero que você me faça uma promessa, Severo... Quero que você me prometa que... haja o que houver, você vai colocar a proteção, a segurança do Harry em primeiro lugar. Eu confio em você. A minha maior prova de confiança é lhe pedir isso, confiar a segurança do meu filho a você. Por favor, Sev. Prometa que vai protegê-lo, como se fosse a mim. Por mim. Prometa que fará todo o possível para protegê-lo do mal... E que se, ou quando, for necessário... você o ajudará na missão que ele tem que realizar... Você pode prometer isso? Em nome do nosso amor, do meu amor... É em nome desse amor que eu quero que você me prometa. O amor é a força mais poderosa que existe, Severo... E eu sei que você tem essa força dentro de você...
- Eu prometo. - ele respondeu num fio de voz.
Levantou-se, pronto para sair. Mas antes, ainda se virou para ela mais uma vez, quase como em desafio:
- Tudo bem, eu vou, agora. Mas isso, Lílian... ainda não terminou! Proteja-se, por enquanto. Posso aceitar isso, por enquanto. Você não pode me dar o que eu quero... por enquanto. Mas escute bem uma coisa: Essa história... A NOSSA história... ainda não terminou!
Ela sorriu, seus olhos verdes brilharam como nunca quando ela respondeu:
- Ah, Sev... Você nunca escutou aquele ditado? "As verdadeiras histórias de amor nunca terminam"...
Ele saiu apressado e feroz, suas vestes enfunadas para trás. Lílian ficou ainda um tempo parada, enxugando as lágrimas e observando-o sair em silêncio.FIM
