2.

Ela podia ser o Fantasma de Harrenhal, mas até fantasmas se sentem sozinhos, por isso ela desceu até a cozinha para ver Torta Quente antes do jantar certa noite. O garoto sempre entrava em pânico quando a via - ele ainda não tinha aprendido a fingir, não como ela tinha aprendido - mas era mais fácil chegar até Torta Quente nas cozinhas do que até Gendry na forja. Arya se esticou para apanhar uma torta de limão, reprimindo a lembrança da irmã, quando Torta Quente disse, "O Touro tá doente."

"Como assim, doente?"

Ele encolheu os ombros. "Doente, oras. Ouvi o Meistre falando. Vários no castelo estão com um tipo de febre, e ele pegou."

Esquecida da torta em sua mão Arya perguntou, "E é sério?"

"Duas pessoas já morreram." Disse lutando com um saco de farinha. "O Meistre disse pra gente ter cuidado, se a gente ficar doente pode passar pra comida."

"Ele ainda tá na forja?"

Ela sabia que os cavaleiros e as pessoas mais importantes do castelo eram tratadas em suas câmaras, mas Gendry não tinha uma; ele dormia num quartinho escuro e quente nos fundos da forja. Por um momento teve medo que o ferreiro o tivesse mandado para a ala dos doentes em uma das bases, um lugar para onde pessoas eram levadas e nunca mais voltavam.

"Como eu vou saber?"

Arya revirou os olhos, "Inútil", e saiu, indo silenciosamente em direção a forja.

Se a pegassem andando pelo castelo depois de escurecer seria punida; as coisas podiam até ter melhorado desde que Bolton tomara o castelo, mas ela ainda era só a copeira, a pequena Nan. Torta Quente ainda a chamava de Arry, a maioria dos que estavam em Harrenhal a chamavam de Doninha; Gendry raramente a chamava pelo nome, mas quando ela o irritava ele a chamava de milady, e isso sempre funcionava para deixá-la nervosa.

A forja ainda estava quente quando ela entrou, mas Arya sabia que o ferreiro estaria no seu quarto, gastando seu dinheiro com mulheres ansiosas em ir pra cama com ele; todos em Harrenhal sabiam que o mestre de Gendry adorava a bebida e as mulheres mais que qualquer coisa. Ao se desviar de uma bigorna ouviu alguém tossindo no quarto do fundo e seu coração se apertou com medo.

O medo fere mais profundamente que espadas,ela repetiu enquanto puxava a cortina que separava o quarto de Gendry do resto da forja.

Seu amigo estava deitado em sua cama, nu, salvo pelas roupas de baixo, todo seu corpo coberto por uma fina camada de suor; seus cabelos negros estavam grudados na testa e havia uma palidez estranha na sua pele. Uma vez em Winterfell Arya tinha visto Meistre Luwin tratando alguém naquele estado. Quando o homem morreu Robb disse que a febre tinha cozinhado seu cérebro.

Arya pressionou suas mãos contra a testa do garoto e a retirou ao perceber como estava quente.

Ao seu toque Gendry abriu os olhos, eles pareciam desfocados e confusos, o brilho azul agora mais parecia um cinza escuro. Abriu a boca, mas levou muitas tentativas até conseguir falar, "Arya?"

"Porque você foi ficar doente?" ela murmurou, se surpreendendo com a rudeza em sua voz. Na hora ela quis se desculpar, tentar explicar que ela não estava mesmo zangada, só assustada, mas Gendry a interrompeu tossindo.

"Desculpe-me, milady. Não tinha a intenção."

Arya pegou um pano em cima da mesa, verificando se estava limpo, o mergulhou num balde de água usado para esfriar o metal e o colocou na testa de Gendry do jeito que sua mãe fazia quando ela ficava doente. Gendry pareceu agradecido por sentir a água gelada, então Arya repetiu a ação, pressionando o pano em seu rosto, pescoço, seu peito; cada parte dele queimava e Arya tentava se lembrar do que Meistre Luwin fazia para fazer as pessoas melhorarem.

"Você vai arrumar problemas," ele sussurrou enquanto Arya esfregava sua pele com a água gelada. Ela queria poder levá-lo a um banheiro, mas eles ficavam do outro lado do castelo e só os cavaleiros podiam usá-los.

"Não se preocupe," ela respondeu surpresa ao perceber que não se importava mesmo. Todos os planos de escape se foram, tudo o que importava era se assegurar de que uma das poucas pessoas que a restavam não morreria naquele lugar imundo.

"Você é tão burra," ele disse ao ver Arya deitar-se ao seu lado no colchão, ainda pressionando o pano molhado contra sua pele. Ela queria ter ficado brava com o insulto, mas ele disse aquilo como Robb costumava dizer, como se ela fosse uma coisinha engraçada, mas ele a amasse do mesmo jeito.

Ele não te ama, lembrou a si mesma enquanto afastava o cabelo dele da testa, e você não o ama. Você só não quer que ele morra porque precisa de alguém forte no seu bando.

Ele continuou indo e voltando do sono, seu peito tremendo a cada ataque de tosse. Arya deitou a cabeça sobre o peito dele, ouvindo o som de líquidos em seu pulmão. Mas apesar da respiração irregular seu coração continuava batendo forte em seu peito. Ela não sabia nada sobre saúde, mas sabia que o coração nos matem vivos, e o coração de Gendry parecia tão forte quanto seus braços.

"Não morra, por favor." Ela suspirou. Não sabia se o pedido era para Gendry, ou se era para Jon, Robb, Bran, Rickon, Sansa ou sua mãe, se era para Nymeria ou se era para ela mesma.

Ela não percebeu quando dormiu, mas quando acordou ainda estava escuro lá fora. Julgando pela posição da lua ela sabia que o sol nasceria em mais ou menos uma hora, ou seja, ela tinha que voltar para o seu quarto. Ao tentar se esquivar de Gendry o garoto abriu os olhos, encarando-a um momento antes de suspirar seu nome.

"Eu tenho que ir." Ela disse, "mas vou tentar te trazer um caldo depois."

Arya congelou quando a mão do garoto subiu, acariciando seu rosto. "Eu tive um sonho... porque você não pode crescer mais rápido?" E seus olhos se fecharam de novo, enquanto sussurrava, "Eu não posso esperar até você ter idade o suficiente."

Idade o suficiente pra que?Ela pensou enquanto voltava silenciosamente pro seu quarto.

Quando ele melhorou, ela o perguntou, sentada em uma bigorna que não era mais usada, seus pés balançando. No momento em que as palavras saíram da sua boca Gendry ficou tão vermelho que ela pensou que ele estava com febre de novo.

"Como nos sete infernos eu vou saber?" ele rosnou, soando muito pouco como Gendry e mais como um estranho. "Eu nem me lembro de você ter vindo aqui."

Arya sabia que ele estava mentindo, mas como ele nunca se importou com as mentiras que ela contava pra ele, deixou pra lá.