Cap. 2
A noite no Pearl sun
O senhor Oldacre era, em vida, alguém que se alimentava muito bem e em excesso. Seu cadáver parecia uma grande massa enrijecida espalhada pela placa metálica, e foi necessária a ajuda de dois profissionais para virá-lo de bruços. Não havia mancha alguma na sua pele além da lesão no topo da cabeça, a qual Sherlock agora examinava bem de perto com sua lupa. Molly apenas os observava nervosa e apreensiva em frente aos pés do defunto enquanto John escrevia em seu bloco de notas, parado do outro lado da placa.
- Ele parece ter levado uma contusão na cabeça e houve uma fratura. - Dizia Molly esfregando nervosamente as mãos uma na outra - Pode ter desmaiado na mesma hora.
-Deve ter desmaiado na mesma hora, caso contrário os empregados ouviriam qualquer grito de agonia. - Holmes pensava alto, recuando um passo para olhar o corpo em outro ângulo. - Ninguém ouviu gritos... Ninguém ouviu barulho nenhum... Apenas um mordomo apareceu na hora certa...
John cruzou os braços e inclinou a cabeça pensativo enquanto seu olhar passeava pela cabeça do cadáver. Estava silencioso demais para passar despercebido pelo detetive e absorto demais para reparar que Sherlock agora o mirava.
- John?
- Heim?
Sherlock moveu a cabeça como se perguntasse "e ai?".
- Ah. É só que parece estranho. - Esclareceu o médico - O golpe foi dado no parietal.
- Então também notou a incompatibilidade do golpe com a altura McFarlane? Claro, um assassino controlado pela violenta emoção só atingiria essa área se Oldacre estivesse pelo menos de joelhos.
- Ahn... É, é, mas olhe. - O médico descruzou os braços e apontou para o defunto - Os ossos do crânio são chatos. Não tem medula. Pra ficar no estado que esse aqui está é preciso dar um golpe muito forte. Lestrade disse que ele usou um globo de vidro, não? Bem... Isso até que é possível, mas...
De repente Sherlock arregalou os olhos e cerrou a boca, como se um quebra-cabeça tivesse acabado de se montar em segundos à sua frente.
- Seria preciso que a vítima estivesse de joelhos e McFarlane pesasse três quilos a mais. - Guardou a lupa no bolso da calça e ajeitou o sobretudo. - Bem, acabamos por aqui, John. - De repente seu celular mandou sinal de mensagem - Oh.
- Você pode alcançar seus bolsos agora - Advertiu o médico antes que o detetive o mandasse pegar. No entanto, em segundos o próprio celular de John sinalizou o alerta de sms.
"Se sherlock não me atender, venha falar comigo. Regent Street, 138. MH"
- Que inferno! Sherlock, quer dizer pro seu irmão parar de mandar mensagens pra mim?
- Eu não mando na rainha da Inglaterra, mas você poderia parar de obedecê-la.
- Aff. Pelo amor de Deus, é só pensar em vocês dois que começo a achar Harry muito madura! - Guardou o celular e caminhou até a saída.
- Vai vê-lo?
- É isso ou vou jogar meu celular em você. - Fechou a porta sem delicadeza.
Sherlock suspirou, tirou o celular do bolso do sobretudo e sem ler a mensagem de Mycroft, digitou um outro recado. Molly, que parecia confusa sobre o que fazer no lugar, mirou apreensiva a nuca do detetive e tomou coragem para quebrar o silêncio.
- Então... O que acha que aconteceu com Oldacre?
- Tenho muitas ideias. - Respondeu mandando a mensagem e guardando o aparelho. - Nenhuma delas envolvendo um advogado com sessenta e quatro kilos mal distribuídos - E antes que a moça abrisse a boca para formular outra pergunta, o detetive virou-se para ela e deu umas batidinhas em seu ombro - Acho que terminei por aqui. Vejo você outro dia, Molly - Despediu-se e desapareceu pela porta.
John já estava no táxi quando a menagem chegou.
"Esteja em casa às seis. SH"
E não pôde deixar de olhar pra cima, respirar fundo e desejar um pouco mais de paciência.
Na Regent Street, 138,ficava uma casa de chá que cheirava a ervas e pinho, e onde se reuniam muitos homens de meia idade e alto padrão de vida. Mycroft estaria o aguardando em algum lugar dali, claro. E John não poderia perguntar por ele, claro. O manda chuva da Inglaterra mandaria um sinal usando alguns capangas ou então - a melhor opção - uma moça bem bonita.
E a tal moça se aproximou dele mexendo noSmartphonecomo se o aparelho fosse mais importante que o resto do Reino Unido. John a seguiu para uma sala reservada, e lá estava o irmão mais velho de seu amigo, com o nariz em pé e um dossiê na mão direita.
- Sabe, você deveria ficar no meu lugar. - Resmungou John assim que se viu sozinho com Mycroft - Assim saberia como é irritante ficar entre vocês e seu irmão.
- Isso é muito sério, Dr. Watson. É sobre a morte de Oldacre.
- Quer que Sherlock investigue isso?
- Eu não teria o chamado aqui se o motivo fosse esse. Eu sei que a versão da polícia não convenceu Sherlock, apesar de Lestrade estar certo do contrário.
John ergueu uma das sobrancelhas.
- Deus... Lestrade não perdeu tempo em avisar pra você.
Mycroft espremeu os lábios.
- A empresa Oldacre estava sendo investigada em sigilo pela inteligência britânica há oito meses por produção de medicamentos letais – Explicava como se não tivesse ouvido a declaração do médico – Mas antes que pudéssemos elaborar um parecer final, o principal investigado morreu com um golpe na cabeça.
- Muito azar, não? – Ao ver a fúria nos olhos de Mycroft, John se arrependeu da brincadeira – Ahn... Ok. Então... Hm... Ele estava com alguma coisa importante?
- Sim.Oito meses de investigação. - Depositou nas mãos do médico o dossiê com um relatório sucinto das investigações - Implantamos um agente na empresa e ele informou que os projetos sumiram de lá. Suspeitávamos que estava com Oldacre, mas agora que ele está morto não temos ideia de com quem esteja.
- Já procuraram na casa dele?
- Evidentemente que sim. Lestrade me trouxe todos os pertences do escritório de Oldacre pra investigação e meus homens não acharam nada.
John encolheu os ombros enquanto folheava os papeis da pasta.
- E por que acha que Sherlock vai aceitar bancar seu agente particular?
- Meu irmão vai aceitar, Dr. Watson. Mas caso ele dificulte as coisas por causa da birra, você vai saber convencê-lo.
- Convencê-lo?! Está brincando? Eu nem consigo fazer com que ele limpe a geladeira!
- É porque você não sabe como pedir.
John encarou o outro como se ele tivesse dito algo em outro idioma e precisasse explicar a frase para que ela pudesse fazer sentido. Todavia, tudo o que recebeu de volta foi um aperto no ombro direito e a frase "estamos conversados, doutor".
Baker Street, 221b.
Quando o médico voltou pra casa, encontrou Sherlock afundado na poltrona, de pijamas, com o pensamento longe e os dedos tocando algumas notas do violino.
- Sherlock?
Nenhuma resposta. John umedeceu os lábios, olhou para cima e depois, com a costumeira postura militar, entregou a pasta de Mycroft para o amigo, que pareceu finalmente notar que ele estava lá.
- O que é isso?
- Recado do seu irmão. Parece que Oldacre tinha contas a pagar.
Ao contrário do que Watson esperava, Sherlock arregalou os olhos, deixou de lado o violino e tomou a pasta de suas mãos, passando a folhear os documentos com seus dedos finos e trêmulos. Tudo de um modo tão efusivo que o médico não pôde deixar de ficar perplexo com a cena.
- Eu sabia que tinha algo por trás. Homem convenientemente morto por um advogado de nervos fracos. Claro! Tinha que encobrir alguma coisa. - Sherlock falava consigo mesmo - Meu irmãozinho mandou um presente de natal bem adiantado.
- Na verdade ele quer que você ache uns projetos. – John sentou-se na poltrona e apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos – As indústrias Oldacre produziram medicamentos letais, mataram pessoas e conseguiram acobertar tudo. Mycroft acha que os projetos ainda estão em algum lugar.
- E pegá-los me levariam diretamente ao verdadeiro assassino. Tsc. Mycroft consegue estragar a diversão. Só pra deixar claro, eu já desconfiava da existência de alguma dívida, mas me resta prová-la. Agora sabemos mais sobre o assassino.
- E os projetos?
- Sim, são um meio de prova. - Balançou a cabeça como se fossem insignificantes.
- Sherlock, isso é importante! Isso precisa ser encontrado!
- Por quê? – Sherlock largou a pasta na mesa de centro, ajeitou-se no sofá e uniu os dedos na direção dos lábios.
- Porque pessoas podem ter sido mortas! Não pode ignorar uma coisa dessas!
- E provar a culpa de um morto vingaria os outros mortos?
- Bem... É uma questão de honra.
- Pfff. John, John... Você é tão ingênuo. Meu irmão está longe de ser um bom samaritano.
O médico abriu a boca para replicar, no entanto sua mente brutalmente começou a raciocinar sobre as palavras do amigo. E Sherlock Holmes, como se tivesse lido seus pensamentos, lançou-lhe um olhar enigmático.
– Mycroft não gosta de me passar os principais detalhes – Murmurava Sherlock. – Tudo o que temos ao nosso favor é uma casa limpa por Lestrade e um advogado usado como testa de ferro.
– Por que justamente esse advogado? Oldacre era rico, poderia chamar advogados muito mais experientes.
– Agora está fazendo a pergunta certa, John.
John coçou o queixo e passou a assistir em silêncio ao seu amigo mergulhado em sua cadeia de ideias e esquecendo que o mundo existe. Pelo menos até o médico se lembrar do sms.
- Por que queria que eu estivesse em casa às seis?
- Hn?
- As seis, Sherlock. Você me pediu isso.
- Ah, sim. Lembra-se que vimos um motel na esquina da Lower Norwood?
John tentava se recordar.
- Pearl sun. - Explicou o detetive - A dona de lá é a sra. Warren e ela me deve um favor depois d'eu ter livrado-a de um hóspede problemático, que na verdade estava encobrindo uma mulher... Enfim! Ela disse que eu tenho direito a uma noite gratuita quando quisesse, então pensei em irmos lá essa noite.
De repente Watson arregalou os olhos e ficou pálido na mesma hora, como se estivesse vendo uma visagem no lugar de Holmes.
- Então? - O detetive parecia ansioso pela resposta. - O que acha?
- Que estamos indo rápido demais.
Sherlock franziu o cenho e moveu a cabeça sem entender, e John quis bater na própria cara quando percebeu o que havia dito.
- Digo - o médico fechou os olhos e respirou fundo, procurando uma forma de reparar a garfe - Por que temos que vigiar a mansão de lá?
- Porque é o esconderijo perfeito.
- Mas é um motel, Sherlock!Viajantes dormem em motéis, mas pessoas que moram em Londres vão pra lá pra outra coisa! E se alguém nos ver?
- Isso prova que estaremos em vantagem de qualquer modo.
John afundou o rosto entre as mãos. Convivia há muito tempo com Sherlock, mas nunca conseguia entender a dificuldade do detetive de compreender coisas tão simples como a imagem de um ser humano perante à sociedade. Ou então fingia não compreender.
E fingia bem.
- E se a gente acabar ficando num quarto que não dê vista para a mansão Oldacre? - Watson tentou argumentar.
- Não se preocupe. Reservei o quarto 132. Pelas informações dadas pela sra. Warren, de lá teremos uma ótima vista para a rua.
- Só não diga que falou meu nome.
- Ela queria muito saber o nome do meu acompanhante.
- Droga.
O final da tarde trouxe uma chuva fraca e fria, abrindo a noite com um belo céu violáceo e anil que se formava juntamente com a despedida do sol. O motel Pearl Sun era um lugar discreto com um acabamento propositalmente rústico na faixada, formada por pedras. Luzes cálidas em tons amarelos iluminavam a entrada, e todos os três andares continham janelas quadradas em vidro fumê cobertas por cortinas. O táxi entrou diretamente na garagem abaixo do solo e estacionou lá. Sherlock pagou a corrida e se dirigiu à recepção com um John excessivamente tenso em seus calcanhares.
- Por que disse pro taxista nos levar diretamente pra garagem? - Questionou o médico.
- Pensei que estivesse preocupado que nos vissem.
- Pensei que não estivesse nem ai.
- Todo cuidado é pouco.
Passaram pela recepção com piso de marfim e vasos com hortênsias nos cantos, e o detetive só precisou mostrar seu cartão para que lhe passassem a chave da suíte 132, localizado no segundo andar.
O quarto era um lugar aconchegante. Bem mais que o flat deles, certamente. Era amplo, com um sofá oposto à janela, um espelho que ocupava boa parte do teto, um bar com champanhe e outros tipos de bebidas, um frigobá cheio de quitutes, uma televisão de quarenta e duas polegadas grudada na parede, uma grande cama circular vibratória de casal e um banco retangular acolchoado rente à janela, dando espaço suficiente pra duas pessoas observarem a paisagem do lado de fora.
Quado Sherlock ia abrir a boca para declarar o quão conveniente o local era, olhou para John e o viu se livrar do casaco.
Acabou esquecendo o que ia dizer.
- É um desperdício vir pra um lugar desses apenas vigiar. - Dizia o médico despindo a própria camisa.
Sherlock ergueu as sobrancelhas e engoliu em seco discretamente pálido, mas nada disse. John caminhou até o banheiro e abriu a porta, sorrindo satisfeito ao ver uma banheira.
- Pode começar a vigília sem mim? Vou aproveitar um pouco essa banheira.
- Ah... Elementar.
O fechou a porta e tudo o que se ouviu depois era o barulho de água escorrendo. Sherlock permaneceu submerso nos pensamentos, até que se lembrou de por que estava ali. Sacudiu a cabeça e abriu a sacola tirando um par de binóculos e deixou apenas as luzes dos dois abajur acesas. Largou duas almofadas da cama no banco da janela. Mais alguma coisa? Sim. John iria querer jantar. O detetive pegou o menu de cima da cama e sentou-se perto do telefone.
- John!
- Oi! - Respondeu o médico de dentro do banheiro.
- O que acha de... - Começou a olhar as opções - Filé a Wellington? - O som que ele ouviu deu a entender que o amigo estava refletindo - E... Petit gateau de sobremesa?
- Hm...
- Então?
- Parece bom.
- Ótimo. Pedirei seu jantar.
E rapidamente telefonou para a recepção dizendo apenas para trazerem o prato com urgência. Era melhor garantir que ninguém teria mais motivos para abrir a porta no momento que a vigília realmente começasse.
Meia hora depois John saiu do banho exalando um cheiro forte de xampu e loções que fez o detetive desviar involuntariamente sua atenção da janela. O quarto estava semi iluminado e perto da cama havia um carrinho metálico com uma travessa fumegante com carne bem temperada. O prato e os talheres haviam sido arrumados na mesa por Sherlock, juntamente com a sobremesa e os acompanhamentos. O médico sentiu a boca salivar.
- Obrigado. - Sibilou John.
Sherlock sacudiu a cabeça sem entender.
- Por... - O medico tentava esclarecer - Arrumar tudo... Enfim, esqueça.
- Não podíamos perder tempo. Essa porta não se abrirá até amanhã de manhã e você precisa comer.
- Você também precisa.
- Não. Hoje é terça. Estou bem. Coma agora, provavelmente o interessante só vai aparecer mais tarde.
John se serviu e levou seu prato para perto da janela, a fim de que isso despertasse o apetite de Sherlock, o que não aconteceu. O detetive mirava a paisagem como se não tivesse sido totalmente sincero ao afirmar que somente mais tarde qualquer pista interessante daria as caras.
As horas se passaram...
O silêncio imperou no quarto. Os pratos estavam vazios em cima da mesa e agora tanto John quanto Sherlock estavam munidos do binóculo. O movimento urbano ficava cada vez mais fraco e o bairro começava a dormir.
Num dado momento, o médico olhou de relance para o amigo e pensou em puxar algum assunto, no entanto desistiu imaginando que o caso era importante demais para uma conversa trivial. Não que não estivesse acostumado a fazer vigílias silenciosas. Durante a guerra, não foram poucas as vezes que fazia isso com pessoas excessivamente introspectivas, todas com rostos cujas lembranças deixaram o médico várias noites sem dormir.
- Bonita vista, não? - Murmurou o detetive.
John baixou o binóculo e olhou pela janela procurando ver a que Sherlock se referia. A Lower Norwood entrava gradativamente numa atmosfera pacata, típica das madrugadas fora dos centros de encontro. Havia uns poucos carros trafegando. Quase nenhum pedestre. Um céu cheio de estrelas fazendo daquela paisagem uma bela vista. Uma lua na forma de uma unha se destacava no céu e conseguia pratear o calçamento com um brilho cálido.
Em frente a uma casa qualquer, uma moça saía do táxi e descalçava os escarpin vermelhos para colocar um par de sapatos pretos ortopédicos antes de entrar. Em outra, um velho abria as cortinas na surdina e jogava pedaços de pão pela janela. Coisas aparentemente triviais que de alguma forma ganharam por poucos segundos a atenção do médico.
- Por que será que estão fazendo isso?
O detetive sorriu de canto, sem desviar a atenção da mansão Oldacre.
- John, se pudéssemos voar de mãos dadas sobre esta cidade e espiar todas as coisas esquisitas que acontecem por aqui, você acharia as ficções sem graça, corriqueiras e desinteressantes.
John sorriu. Não tinha o mesmo poder de observação do amigo, mas o conhecia melhor que qualquer um, e ainda assim se surpreendeu ao perceber que Sherlock tinha devaneios fantasiosos e que um deles abrangia ambos num voo surreal pela cidade.
O médico se tocou do que estava pensando e sacudiu a cabeça rapidamente.
- Por que diz isso?
- Porque ficções tem conclusões óbvias enquanto a realidade pode ser mais assustadora e improvável do que as pessoas poderiam imaginar.
Aquela conclusão era bastante engraçada. Sua convivência com o detetive havia lhe acostumado com o imprevisível, mas ainda assim era comum a mente do médico caminhar direto para o óbvio.
- Estava tocando violino hoje a tarde. - Comentou Watson - Estava resolvendo um enigma?
- Não... Era Verão, de Vivaldi. Melodia agitada. Prefiro tocar músicas mais lentas quando preciso me concentrar. Quanto mais suave, mais inspirador.
- Então... Estava apenas se livrando do tédio?
- Não consigo tocar quando estou entediado.
Silêncio. John esperava que o amigo esclarecesse o motivo, o que não ocorreu.
- Então?
- Hn?
- Se não estava entediado ou pensativo, qual o motivo da música?
Sherlock deu de ombros.
- A música também me ajuda a despejar algumas emoções inoportunas.
- Hm. Sei bem como é isso.
- Sabe?
- Eu ainda me lembro de você tocando violino sem ligar pra mais nada quando achava que Irene Adler tinha morrido.
- ...
Então Sherlock o fitou. Uma mirada tão fixa e tão indescritível que Watson não pôde deixar de se sentir desconfortável. Aliais, muito desconfortável, como se tivesse falado algo extremamente idiota. O médico fechou os olhos e respirou fundo.
- Ok. Pode dizer.
- Dizer o que? - Sherlock inquiriu.
- Qual foi a besteira que eu falei.
- Eu sabia que A Mulher estava viva. Percebi isso quando Molly me mostrou o corpo do cadáver, mas seria melhor mentir. Seguir você só fez com que eu confirmasse minha teoria. - Voltou a olhar pelo binóculo - Eu estava tocando violino porque queria descobrir a senha. - Sacudiu a cabeça e por pouco não revirou os olhos - Eu achava que você me conhecia um pouco mais. Estou decepcionado.
- Como assim? Você é um enigma! Nunca vou conseguir entendê-lo!
- Eu não sei. Ainda não cheguei a compreender aquilo de que você é capaz e aquilo de que não é. Há possibilidades inexploradas que eu vivo tentando descobrir...
- Pare de falar como se eu fosse seu objeto de estudos.
De repente a escuridão varreu a rua. Todas as luzes, das casas e dos postes, se apagaram bruscamente. John sentiu o sangue gelar e antes que abrisse a boca, Sherlock o alcançou para tapá-la com a mão.
- Shhh. – O detetive muniu-se do binóculo para observar a casa – Fique alerta.
O médico apressou-se em pegar os binóculos e se concentrar na mansão. Estava escuro demais pra enxergar os detalhes da construção, mas não o suficiente pra esconder o contorno de uma figura que pareceu ter brotado da casa.
- Tem uma pessoa saindo de lá... - O médico murmurou enquanto concentrava os binóculos nela nervosamente.
- Interessante.
- O assassino... Acha que pode ser ele?
- Observe antes de formar hipóteses. Essa pessoa acabou de sair. A pergunta é como ela entrou?
Os olhos do médico se abriram ainda mais.
- Ela já estava na casa.
-Ele. - Corrigiu o detetive - Há uma diferença entre ombros masculinos e femininos. Saiu sem malas, sem pacote, com um andar acelerado de quem está claramente se escondendo. As mãos estão ocupadas agarrando a aba do sobretudo. Anda encolhido e ainda usa um chapéu que convenientemente cobre boa parte da cabeça. Se está levando uma série de projetos, então eles têm que estar no mínimo em um pen-drive. Planejou passar despercebido pela escuridão, e saiu segundos depois das luzes se apagarem o que significa que ele já esperava que isso acontecesse.
- O que? O apagão? Acha que a companhia elétrica está envolvida nisso?
- Não. Mas tenho certeza que quem causou o apagão está envolvido nisso. – Quando a figura desapareceu da vista, Sherlock voltou a analisar a casa – Ele deve ter saído pela porta dos fundos sem arrombá-la, caso contrário nós veríamos a movimentação dos empregados. Também pode ter saltado uma janela, já que elas se abrem por dentro.
- Ele pode ter estudado a casa para saber como sair sem ser visto. Estava escondido esse tempo todo, mas onde?
- Depende se algum dos empregados é cúmplice ou não. Na segunda hipótese, o esconderijo teria que ser bem elaborado e invisível aos olhos de todos os... – E então, quando seus binóculos passearam mais uma vez pela casa, sua mente agiu rápido demais e o detetive parou de falar – Oh.
John abandonou os binóculos e mirou o amigo.
- Ok, você faz isso toda vez que descobre uma pista óbvia. O que descobriu?
Ao ouvir aquilo, Sherlock quase deixou transparecer sua surpresa. Nunca admitiu (e jamais o faria) que sempre se espantava com o modo como seu médico conseguia ler facilmente seus movimentos e tirar conclusões que até então eram ignoradas por ele próprio.
Desordenado, o detetive desviou o olhar para um canto qualquer e procurou voltar à linha de pensamento.
- Você se lembra de como era o escritório de Oldacre, não lembra, John?
- Ahn... Sim. Um pouco. Mas você não viu nada suspeito.
As luzes da cidade voltaram a se acender. E Sherlock foi obrigado a admitir algo que não gostaria.
- Talvez eu estivesse errado.
Continua
Prontinho! Segundo capítulo! Espero que tenham gostado, e se for o caso, comentem!
Obrigada pela review, Nanda Malfoy. Me inspirei no conto "O Construtor de Norwood", em que Watson conta que vendeu a clínica pra um médico que, mais tarde, descobriu ser parente de Sherlock e que o dinheiro usado pra comprar a clínica foi mandado pelo próprio detetive. Imaginei que John teria um troço quando descobrisse. kkk
Abraços!
