Capítulo I
Chegando em Hogwarts
E naquele início de setembro uma garotinha de cabelos claros e ondulados, vasculhava seu armário enquanto a irmã, deitada na cama, fingia ler um livro, rindo do desespero da mais nova.
— Lynx! Onde você colocou o meu material? — dizia a garotinha, aflita.
— Seu material... seu material... que material?
— Meu material escolar!
— Pirralhas não vão para a escola, lembra?
— Eu vou para a escola! Eu vou sim! Eu já tenho onze anos!
— Não vai não.
— Pare de irritar a Rana, Lynx — disse uma garota alta, de cabelos extremamente negros como os da maioria de suas irmãs, mas ondulados e com duas mexas vermelhas que lhe resaltavam o rosto.
— Eu não estou irritando ninguém, Mira.
— Então devolva o material dela que você escondeu. Nós já estamos atrasadas — disse, saindo do quarto em seguida.
— A Lyra que tem razão, você é um porre... — resmungou Lynx, enquanto fazia um movimento com a varinha e o material da irmã caia do teto, quase acertando Rana.
Enquanto isso, a dois quartos de distância, outras três irmãs terminavam de arrumar seus malões.
— Em que casa você acha que a Rana vai ficar, heim, Serpens? — perguntou uma garota de cabelos negros, presos num rabo de cavalo, que estava sentada na cama em cima de uma perna, dobrando suas vestes.
— Do jeito que ela é puxa saco do papai, com certeza vai ficar na Grifinória, né Sarin. — disse a que parecia ser mais nova, com cara de nojo.
— Bom, mesmo assim vamos continuar sendo maioria — falou a outra ocupante do quarto, muito parecida com a que fizera a primeira pergunta, mas que trazia os cabelos soltos.
— Mas é claro que sim, somos Blacks, afinal de contas. Como a mamãe sempre diz, somos sonserinas por sangue.
Tanto Serpens quanto as gêmeas Sarin e Adara, ou qualquer uma das outras irmãs sonserinas, se vangloriava deste fato, fazendo jus a seus ancestrais. O sangue, como Serpens dissera.
Antes que pudessem continuar, a porta se abriu e uma garota loira, elegante e alta, acompanhada por Lynx que vestia vestes iguais às dela, entraram sem mais nem menos.
— Meninas, temos que fazer alguma coisa, definitivamente — disse a primeira garota que entrou no quarto, parada em frente às duas com as mãos na cintura. E, pelo tom de voz, era a mais velha, com certeza.
— Alguma coisa sobre o quê, Lyra? — Serpens gemeu em sua voz entediada.
— Rana vai acabar indo para a Grifinória.
— Vai. Então?
— Então que se o pirralho-mor da casa seguir os passos do papai também, daqui a alguns anos eles vão empatar com a gente, lembra?
— Ai, falta muito para o Siriuzinho ir para Hogwarts, Lyra. E se Merlin quiser e assim permitir eu estarei bem longe de lá quando isso acontecer.
— Eu certamente estarei, Serpens. Mas você com certeza vai bombar e vai estar no último ano, como eu e a Mira estamos agora, ou seja, vai ter que aturar três irmãos grifinórios, e só você e Lynx na Sonserina.
— Está bem, me convenceu. Eu odeio ficar de igual para igual, pior ainda em minoria... Mas o que a gente pode fazer para que a Rana não vá para a Grifinória?
— Tecnicamente nada! — disse Shaula, a única da família que usava vestes azul e prata, entrando no quarto. — Por isso parem de quebrar a cabeça com essa idéia idiota e desçam logo porque já estão todos na sala.
As garotas desceram silenciosas aguentando a corvinal que seguia reclamando com Lyra.
— Vamos lá, Lyra! — resmungou ela, desgostosa. — Pare de encher a cabeça das pentelhas com isso. O que tem a ver a Rana e o Sirius Jr. irem para a Grifinória? Você e essa sua mania de competição... — ela acenou negativamente a cabeça.
Mas a falação de Shaula não faria a menor diferença.
Um sorriso malicioso tomou conta dos lábios de Lyra, ela se aproximou das demais irmãos e se pois a repetir o discurso anti-grinfinória. Shaula olhou com reprovação e bufou nervosa, saindo do alcance das sonserinas. Elas sorriram deliciadas da irritação da irmã e desceram até a sala.
— Pai! Manda essas malas pararem de encher o saco da Rana! Elas passaram o verão inteiro falando que a Grifinória não presta, e que seria uma desonra se a Rana caísse nessa casa! — exclamou Mira, a mais velha das irmãs, com a cara fechada que lhe era peculiar quando falava das irmãs sonserinas.
O pai sorriu da cara contrariada da filha e deu-lhe um beijo estalado na testa.
— Calma, filha! Você sabe que elas fazem isso só para te irritar. — disse com as sobrancelhas arqueadas.
Mira não respondeu e sorriu para o pai, mesmo que contrariada, seguiu para a sala de espera, junto com Andie, Rana e Sirius Jr. — mesmo este não indo para Hogwarts — para espera a mãe e o resto de suas irmãs que desciam as escadas naquele momento.
O pequeno Sirizinho subiu correndo as escadas e se pendurou nas pernas de Shaula, causando risos nas outras irmãs que estavam ao seu lado.
— Me solta, Sirius! — gritou ela, que não tinha nenhuma paciência com o garoto ou com qualquer outra criança.
Ele, vendo que estava contrariando a irmã, apertou mais ainda e disse em tom brincalhão:
— Ei, suas bobas! — as garotas fecharam a cara. — Andem logo! A Mira, a Rana e a Andie já estão lá embaixo!
As garotas nada responderam, apenas desceram silenciosamente ao encontro das irmãs e do pai.
— Por Merlim, Bellatrix! — gritou Sirius, embora seu tom não fosse de irritação. — Se apresse, senão as meninas vão perder o Expresso!
Uma mulher esbelta, de longos cabelos extremamente negros e escorridos, desceu a escada elegantemente. Parou ao lado do marido e deu-lhe um beijo.
— Uh, mas que pai responsável... — disse seca e sarcasticamente. Sirius arqueou as sobrancelhas com um ar de desentendido e esbanjou um sorriso.
— Vamos! Todos entrem no carro enquanto eu vou pegar os seus malões.
As nove garotas e o caçula se dirigiram ao carro e entraram um a um no banco traseiro; nessa sequencia: Lyra, Sarin, Adara, Serpens, Lynx, Shaula, Rana, Andie, Sirius e Mira.
Obviamente o carro havia sido magicamente ampliado.
Logo após, Bellatrix entrou no banco da frente com cara desgostosa. Sirius entrou depois de colocar os malões no porta-malas do carro. Olhou para o rosto da mulher com um sorriso irônico nos lábios.
— O que foi, Bella? — perguntou ele tentando ser carinhoso, mas a ironia rondava sua voz.
A mulher olhou-o com uma cara de poucos amigos e resmungou contrariada:
— Você sabe que eu não gosto desses artefatos trouxas... que coisa mais ridícula. Imagine, eu, Bellatrix Black, andando num artefato trouxa! Por Merlim, onde esse mundo vai parar?
Sirius sorriu deliciado; adorava aquela mulher, e como!
O resto do caminho até a Estação King's Cross foi normal, levando em conta os constantes resmungos das meninas.
— Uma vergonha total... uma Black andando num artefato trouxa — resmungou Lyra para Sarin, que se encontrava ao seu lado.
Sarin estava tão contrariada por estar andando naquela "joça", como ela insistia em chamar o carro, (mal sabendo que esta era uma expressão trouxa) que apenas bufou raivosamente enquanto escondia o rosto com as mãos.
Serpens colocava-se atrás de Lynx, que por sua vez se escondia atrás das vestes pretas de Shaula.
A corvinal preferia encher o pai de perguntas sobre como funcionava a máquina e como ela era feita.
— Por Merlim, por Merlim! Eu juro que eu fico uma semana inteira sem comer sapos de chocolate, mas não deixe ninguém me ver dentro disso! – resmungava Serpens em um tom baixo.
A estação trouxa fervilhava de gente. Eles precisavam ser discretos para atarvessar a plataforma 9 1/2 e todos aqueles trouxas só estavam dificultando a situação. Não que isso importasse, afinal, eles eram os Black e não precisavam de regulamentos.
— Vai logo, Rana, vai ficar olhando a parede o dia todo, é? — disse Sarin irritada, empurrando a irmã. — Voce é muito lerda, menina.
— Aii.. Sarin.. pare de empurrar, eu já estou indo!
Sem se importar em serem vistos, as garotas e os pais atravessaram a plataforma; Rana ainda sendo empurrada por Sarin, porque parecia insistir em olhar vidrada para a parede.
Do outro lado, vários grupos de alunos conversavam animadamente, matando as saudades das férias. Lyra e Serpens reviraram os olhos para um grupo de lufa-lufas vestidos como trouxas.
Shaula despediu-se brevemente das irmãs e dos pais e foi ao encontro de uma garota corvinal ruiva, Ann, sua colega de classe. Ela era a unica corvinal da familia, tinha tudo para ser desprezada, mas pelo menos não tinha amigos sangue ruins, diziam suas irmãs (as sonserinas tinham adquirido esse costume de chamar assim os nascidos trouxas de sua mãe, muito a contra-gosto do pai). Não que Shaula tivesse algo contra eles, mas, por um acaso do destino, no seu ano todos os nascidos trouxas tinham ido para a Grifinória e a Lufa-lufa.
Depois de todas se despedirem dos pais e do irmão caçula, as garotas ficaram finalmente sozinhas no meio da plataforma.
Rana continuou olhando assustada para toda aquela gente; não sabia o que fazia ou para onde ia. As irmãs pareceram notar isso e se entreolharam sem que a menor percebesse.
— Olha lá, Mira! — gritou Lyra, puxando para o lado e apontando para uma garota — Aquela idiota parece que piorou durante as férias!
Sem perceber Mira se deixou levar para longe de Rana pela irmã gêmea. Ela e Lyra não se pareciam fisicamente, e tampouco na personalidade, mas foram um desempate agradavel para a primeira gestação da mãe, uma totalmente Grifinória e a outra, pura Sonserina. Mas, embora em casas diferentes as duas estudavam no mesmo ano e cumpriam praticamente as mesmas matérias, boa parte delas juntas, o que significava que conheciam as mesmas pessoas no colégio.
Adara e Sarin, a outra dupla de gêmas e terceira gestação de Bellatrix (posterior ao nacimento de Shaula) já eram bem mais parecidas, tanto fizicamente quanto na personalidade e critérios sobre o que era certo ou errado.
As gêmeas Sonserinas seguiram outras duas com o objetivo principal era deixar a Rana sozinha no meio da estação.
Sem muita dificuldade, Serpens e Lynx (as subsequentes na ordem de nascimento) também fizeram com que Andie (a penultima das garotas Black) se afastasse sem querer, lhe falando algo sobre algumas matérias do segundo ano que a grifinoria teria que se empenhar.
— Ah, vamos entrar logo, Adara. Daqui a pouco não vai ter nenhuma porcaria de cabine vazia — disse Sarin com a voz aborrecida, depois de ter se separado da irmã mais nova.
— Isso é fácil de se conseguir — disse Mira, carregando seu malão em direção ao trem.
— Seus amigos, seus amigos, nós já sabemos — Lyra gesticulou entediada, sabendo bem o que sua irmã ia falar. — Você vive falando deles.
— Bem, ao menos eu TENHO amizades. — Mira deu de ombros, antes que um sorrisinho divertido despontasse em seus lábios, fazendo as outras fecharem a cara — E o papai gosta deles também.
— Ah, claro, só porque você está na Grifinória é a queridinha do papai, junto com a Shaula... claro, como poderiamos esquecer da Shaula? — resmungou Adara, acenando com uma falsa animação para a irmã mais velha da Corvinal, que nem imaginava que estavam falando dela.
— Sempre sai favorecida — Sarin cruzou os braços aborrecida. — E depois ainda chamam os sonserinos de trapaceiros. Humfp!
— Eu não saio sempre favorecida! - negou Mira, maneando a cabeça em negativa. — Quem sempre sai favorecida são vocês, já que é óbvio que quem manda lá em casa é a mamãe.
— Se fosse mesmo, eu e Serpens não teriamos ficado de castigo por termos trancado a Rana no armário — disse Adara cruzando os braços emburrada.
— Mas vocês passaram dos limites. Francamente, trancar a própria irmã no armário... — Mira meneou a cabeça em negativa, novamente, sem querer pensar como se sentiria se aquilo fosse com ela. — Pobre Rana.
— Nós não trancamos por trancar... estávamos brincando — respondeu Serpens, que se aproximava, maliciosamente.
— Ah, claro, brincando de tentar matar a caçula dos Black — Mira revirou os olhos, antes de virar a cabeça para todos os lados, observando o movimento. — Ei, onde diabos se enfiaram as outras?
— A Lynx acabou de entrar, sua cega — Sarin respondeu com ironia. — A Lyra, claro, foi se juntar aos seus amigos monitores sonserinos poderosos, bah. A Andie ta com o povinho da sua casa e a Rana deve ter ido atrás... – disse tentando despistar a preocupação de Mira.
— Vamos entrar logo, Sarin — Adara a puxou pelo braço. — Vá procurar sua turma, senhorita popular.
— Eu não sou popular! Só simpática, é diferente — retrucou Mira, indignada.
— Oras, você é a queridinha de todo mundo! - exclamou Serpens. — Só porque é o máximo e blá blá blá.
— O exemplo de toda garota — ironizou Sarin, imitando a voz de McGonagall.
— Eu valorizo as pessoas, diferente de vocês!
— Tocante — zombaram as três jovens, enquanto entravam no trem.
Mais adinate Lynx apareceu atrás delas quando procuravam uma cabine.
— E, ai? Acharam alguma vazia?
— Mal começamos a procurar — respondeu Sarin com desinteresse.
— Bom, então vamos por aqui... — Lynx agarrou o pulso dela, a puxando.
Sarin fez cara de revolta para Serpens e Adara que simplismente riram, indo atrás das duas em seguida.
No meio da estação, Rana olhava meio assustada para todos os lados. Ser a ultima das filhas não era uma coisa muito legal. Haviam a deixado sozinha.
Decidiu entrar no trem sem esperar por ninguémporque se dependesse da ajuda das outras ela jamais pisaria em Hogwarts.
Se pois a pensar na sua posição de caçula. Ela não seria a primeira grifinória da família, o que teria despertado o orgulho de seu pai tão querido. Ela apenas seria a filhinha mais nova com a qual as irmãs mais velhas implicavam.
Era sempre assim; as irmãs gostavam de implicar com a mais nova. Foi andando, mas, sem tirar a atenção de sua procura pelas irmãs e sem querer esbarrou em alguém.
— Ai, tome cuidado! — disse o garoto.
— Desculpe, é meu primeiro ano — Rana disse meio chateada consigo mesma — Eu nem sei o que faço e...
— Eu também estou no primeiro ano. — o garoto de cabelos ruivos e olhos verdes esticou a mão atenciosamente — Arthur Weasley, prazer!
— Weasley? Hei, eu conheço você! Você é filho de Hermione e Ronald Weasley, não?
— É, eu mesmo? E você, quem é?
— Rana Black.
— Também conheço você, é a ultima filha dos Black não é?
— Isso...
— Por que não está com suas irmãs?
— Por que elas adoram rir da minha cara e me deixaram sozinha.
— Bom, pode ficar na minha cabine, se quiser.
Rana apenas sorriu. Logo adiante, numa outra cabine:
— Droga! Mil vezes droga! — resmungou Serpens mal humorada entrando novamente na cabine onde Sarin, Adara, Lynx e Lyra já estavam. Todas se calaram quando a garota entrou, a olhando como se esperasse alguma explicação pelo mal humor repentino.
— O que há? Nunca me viram não?
— Ela viu algum lufa-lufa patético — deduziu Lyra sem dar importância.
— Antes fosse. Eu acabei de ver a pirralha da Rana conversando com um garoto.
— Ela não nega ser uma Black — falou Adara sorrindo, seus olhos negros brilhando de malicia. Lynx deu uma risadinha forçada – Rapida não?
— Ah, ela nega sim, querida irmã. Ela estava conversando com ninguém menos que um Weasley.
— Como você sabe? — uma Lynx perplexa perguntou, piscando os olhos seguidas vezes.
— Acabei de ver, sua burra. — Serpens revirou os olhos e antes de abrir a boca, novamente a porta se abriu e Mira entrou na cabine.
— Nossa, um círculo de sonserinos! Humilhando quem?
— Bem que gostaríamos — Sarin resmungou, se recostando no banco. — Rana. Vai ser mais um problema, assim como vocês. Isso é vergonhoso, sabia? É humilhante ter irmãs grifinórias... Espero que o Siriuzinho não dê esse desgosto para a gente — continuou, olhando pela janela.
— Se o Siriuzinho for como o papai... — Serpens fez uma careta.
— O que tem demais no Siriuzinho ficar na Grifinória? — Mira cruzou os braços aborrecida. — É uma casa muito boa, melhor que a Sonserina, se querem saber.
— Humfp. 'Tá bom — debochou Serpens.
— Se você não sabe, foi a Sonserina que ganhou a Copa das Casas no ano passado — disse Lyra com arrogância. — Nós ganhamos, não vocês! Ainda bem, devo acrescentar.
— Mas nós ganhamos a taça de quadribol — Mira estufou o peito.
— Só porque o nosso apanhador estava machucado na partida — disse Serpens.
— Nem invente, vocês não sabem perder.
— Estamos tão acostumadas a ganhar que às vezes a gente esquece — respondeu Adara com um sorrisinho irônico.
— Acostumadas a ganhar? Olha, sem querer cortar o barato de vocês, mas já cortando, no ano retrasado a Copa das Casas foi nossa! — exclamou Mira.
— E a de quadribol nossa.
— Grande coisa! Trapaceando como voces fizeram no último jogo contra a Lufa-lufa, até eu sozinha ganhava...
— Depois nós que não sabemos perder... – disse Linx. A troca de elogios continuou.
Enquanto isso a pouca distância dali, Rana estava conversando animada com o novo amigo, até que lembrou de uma coisa.
— Arthur, eu tenho que ir informar para minhas irmãs que estou bem. Tsc, elas ficarão chateadas ao saberem que me arranjei sozinha.
— Mas elas são suas irmãs! Ficariam chateadas se você estivesse mal, não?
— Elas são as perfeitas, não se importam com a caçula chata que segue o pai e é o desorgulho da familia... Se gostassem de mim, a Serpens não teria quase me matado ao me trancar no armário — disse a pequena, com um suspiro ao se lembrar do fatídico dia.
— O que? Mas isso é um...
— Crime? Isso é normal comigo. Eu vou e já volto, OK? Se eu demorar muito é porque elas me trancaram lá.
E saiu da cabine para procurar as irmãs. Depois de vagar um pouco pelo Expresso, dando passos meio tortos por o trem estar em movimento, ela as achou. Abriu a cabine e começou a falar:
— Estou numa cabine lá na frente com um amigo e...
— Rana! Onde você estava? — Mira perguntou, ela a olhou com cara de "estava justamente dizendo isso" — Sim, com seu amigo, mas em qual cabine? A caçula abriu a boca, mas foi Serpens quem falou primeiro.
— Você estava com seu amiguinho Weasley, não é?
— Estava sim, e daí?
— Ele é um Weasley, traidor de sua própria raça! Negou sua linhagem! E mamãe os abomina! — Sarin berrou.
— E daí? Mamãe nunca se importou comigo mesmo! E, além disso, papai gosta dos Weasley! Eles nunca reclamaram do casamento de nossos pais, diferente de tia Narcisa e tio Lucio, por exemplo... — Rana disse, sentindo um pinguinho de coragem, o que não era tão comum nela.
— Essa sua amizade é nojenta — comentou Sarin, fazendo uma careta de nojo.
— Nem pense em levar esse bastardo para dentro da nossa casa! — exclamou Lyra concordando com a irmã — Vai poluir o ambiente inteiro, e depois nós vamos ter que ficar trocando os móveis todos de tantos vermes que vão se criar neles!
— Não sei como o papai agüenta esses ruivos pobretões... — Adara fez uma careta. — São todos burros, idiotas e amantes de trouxas.
— Cheios de mestiços para todos os lados. Não vai ser estranho se tiver um lobisomem na família, como aquele amigo chato do papai — comentou Lynx, abominando a idéia tanto quanto as demais.
— Você não pode ficar amiga daquilo! Blacks não são amigos de pobres! — exclamou Lyra.
— É uma desonra para nossa familia! — disse Sarin.
— Cheeeeegaaaaa! - interrompeu Mira com a voz autoritária. — Nunca ouvi tanta baboseira na minha vida! Ela fica amiga de quem ela quiser!
— Ah, mamãe estava certa ao dizer que você é igual ao papai, sua trouxa! — rebateu Lyra.
— COMO VOCÊ É ESTUPIDA, LYRA! — Rana gritou fechando os olhos antes de sair da cabine, as faces já rubras de raiva. Ela detestava quando as irmãs se juntavam para dar aqueles sermõezinhos.
Certas vezes as pessoas simplesmente não podem controlar a raiva quando esta vem à tona, na maioria das vezes por uma coisa que depois julgariam boba. Controle seus sentimentos, diriam eles. Mas suas irmãs sonserinas sem sombra de dúvida estavam na casa certa, e elas e Rana eram respectivamente o azedo e o doce.
— VOCÊS TODAS SÃO ABOMINÁVEIS! – gritou novamente antes de sair da cabine.
— Isso foi um chingamento? – perguntou Serpens sarcástica.
— Vindo dela, eu tomo como um elogio... – disse Lyra, antes de gargalhar.
Rana fechou a porta e começou a correr. Nessas horas pensava odiar as irmãs. Ela sempre tentara ouvir Mira e seu pai, que tentava convencê-la de que suas irmãs eram meio duras, mas se importavam com ela. No entanto, isso não lhe parecia possível.
Correu. Não queria ficar na cabine junto com Arthur — por um lado queria ficar sozinha; até que ficar trancada no ármario uma hora dessas não seria má coisa.
Sentou-se no chão mesmo e ficou ali. Não, ela não ia chorar, até porque não conseguia. Ficou por um tempo ali até que viu dois lufa-lufas passando. Achou que era hora de agora esquecer aquilo e ir para a cabine de Arthur, pois nenhuma de suas irmãs ia se intrometer em sua vida pessoal, não mesmo!
— Olha só o que vocês fizeram! — Mira ralhou, realmente enfezada com as outras. Elas sempre faziam aquilo, e este fato era degradante — Vocês não conseguem ser seres civilizados?
— Deixe de drama, Mira. Ela nos chamou de adomináveis também! — Sarin disse irritada. — Olha o caminho que nossa irmã está seguindo!
Mira sentiu o sangue lhe subir à cabeça, mas se controlou; não adiantaria nada discutir com aquelas cabeças duras. Ao invés de explodir, o que não estava muito longe de acontecer, a garota saiu do vagão murmurando palavras desconexas como "arrogância", "prepotência" e "papai vai saber disso".
As garotas não se importaram, pois já estavam mais do que acostumadas a receber castigos vindos do pai. Não que ele não gostasse delas, claro que gostava, mas é verdade que elas quase sempre passavam dos limites mesmo.
Quando Rana ficou presa no armário foram necessárias horas para achá-la, e pode-se dizer que ela encontrava-se meio traumatizada, afinal não era para qualquer um ficar preso por horas em um armário, especialmente quando se tratava de um armário dos Black, onde nunca se sabia o que se podia encontrar dentro.
— Bom, eu vou procurar algo para comer. A mulher que vende doces não deve estar muito longe... – disse Serpens se levantando e saindo da cabine também.
Um bom tempo depois de o trem começar a andar, Shaula saiu a procura da mulher dos doces, porque estava morrendo de fome. Aquela mulher parecia ter evaporado justo na hora que precisava dela! Já estava quase chegando na frente do trem e nada da mulher.
De repente, escutou um barulho numa parte isolada da locomotiva. Olhou pela porta da cabine ao lado e viu um garoto sentado encolhido no banco. Não se lembrava de quem era ele. Parecia ter mais ou menos a sua idade e ela nunca tinha reparado nele em Hogwarts.
Ele estava chorando? Que coisa. Normalmente o Expresso era tão agitado e tão cheio de risadas que era até estranho ver alguém... chorando.
Sentiu um desejo de entrar e ir consolá-lo, mas ao mesmo tempo queria deixá-lo lá, pois o problema dele não era da conta dela. Isso era um pensamento absolutamente frio, ela deu-se conta — era impossível a convivência com as irmãs sonserinas não surtir algum efeito na cabeça dela. Mas o lado um venceu e ela entrou na cabine sentando-se ao lado dele.
— Tudo bem? — perguntou tentando ver o rosto dele.
Ele não respondeu, apenas a encarou. Ela não disse mais nada, só o abraçou carinhosamente. Abraçou um garoto que nem conhecia. Isso era... estranho.
E se fosse um sangue ruim? Não que isso fosse uma coisa ruim, mas o que as irmãs iriam dizer dela? Tinha que sair logo dali, mas...
— AAAHHHHH! Gente, a Shaula está dormindo com um garoto! — gritou a voz de Serpens, fazendo o maior escandalo no meio do trem.
— O quê! Como assim? — veio outra voz conhecida também exageradamente alta.
— Deixe-me ver! Ahahaha!
Shaula abriu os olhos que por algum motivo estavam pesados e levou-os para a porta. Sentiu o sangue ferver ao ver Lyra, Adara, Sarin e Lynx se amontoando atrás de Serpens, para uma tentar ver mais que as outras.
Olhou rapidamente para a janela, já estava anoitecendo. Ela tinha dormido! Dormido abraçada com o tal garoto estranho.
E o garoto tambem tinha dormido! Que moleque maluco! Ela se levantou assustada com a platéia que se esborrachava de rir, empurrou todas elas e saiu corredor a fora, tentando não ligar para as irmãs. Já estavam quase chegando em Hogwarts. Faltava pouco para ela ir para seu salão comunal e não ter que ouvir risadinhas.
— Há há há há, não acredito que mal chegamos na escola e ela já está arrumando amante! — debochou Sarin entre risadas.
— Que garoto horrível! — Lynx fez uma careta de repugnância.
— Parece que nem é da Sonserina. A Shaula tem que ser mesmo muito boazinha para namorar um moleque que não é de lá. Imagina só o escandalo — Lyra deu várias risadas. — Uma Black dormindo com um zé ninguém.
— Eca, vamos sair daqui logo, vai que ele resolve chegar perto da gente... — Serpens deu alguns passos para trás.
E foi ainda rindo e debochando da irmã da Corvinal que tomaram rumo de volta para sua cabine, inventando as mais mirabolantes mentiras e diálogos de como os dois haviam se conhecido, sem ligar para os demais alunos que lançavam olhares estranhos a elas pela sonoridade das risadas, que ecoavam altas pelos corredores.
— Há há há há, que piada! — Adara levou as mãos aos olhos, limpando as gotinhas de lágrimas que começavam a teimar em cair. — Justo a Shaula que sempre foi a queridinha dos professores! Esse mundo é muito maluco mesmo.
— É ela que tem que estar maluca para pensar em abraçar aquele... aquele nada — Serpens fez uma careta.
— Ao menos valeu para a gente dar umas boas risadas — Sarin riu. — Imagine só quando a mamãe souber disso. Rana amiga de um pobretão, Shaula dormindo com um babaca não-sonserino... que comédia.
— A mãe vai ficar fula quando descobrir sobre as amizades da Rana — comentou Lyra mas séria — Ela odeia os Weasley.
— Ela odeia todos que não são sangue puro — corrigiu Lynx.
— E os Weasley, mesmo eles sendo sangue puro. — disse Adara.
O diálogo continuou por um tempo, e logo Sarin, Adara e Serpens estavam sozinhas na cabine, pois Lyra fora fazer suas terafas de monitora, enquanto Lynx fora fofocar com alguns amigos do terceiro ano da Sonserina — não exatamente amigos, afinal, como dizia Serpens, sonserinos não tinham amigos, tinham comparsas.
— Tédio! - Serpens resmungou, interrompendo o silêncio enquanto brincava com um sapo de chocolate. — Vamos sair para rir dos lufa-lufas?
— Fizemos isso há minutos atrás, Serpens — Sarin suspirou, tão ou mais entediada que a irmã. — Essa viagem nunca acaba? Temos que ficar horas nesse maldito trem e quando chegamos na escola ainda teremos que ouvir aquele mesmo discurso chato.
— Sem contar a música daquele chapéu estúpido — Adara lembrou.
As três suspiraram, faltava muitas horas de "chatice" para aturarem até que pudessem, finalmente, deitar para dormir.
A viagem não estava sendo tão cansativa para as irmãs menores. Rana e Arthur conversavam numa cabine junto a Andie, resolvera ficar ao lado da irmã assim que a encontrou.
Eles não se conheciam muito bem e não tinham muito o que conversar, mas Andie achara o garoto legal.
— Sua mãe é jornalista, não é? — perguntou Rana ao garoto.
— Sim, e a mãe de vocês? — perguntou ele animado.
— Mamãe não precisa trabalhar. Ao contrário dos Weasley, os Black têm bastante dinheiro, sabe. — a voz ironica de Lynx falou antes de a garota dar uma risada e fechar a porta da cabine atrás de si.
— Ninguém te chamou aqui! — Rana retrucou vermelha de raiva e vergonha, enquando Andie pedia mil desculpas ao garoto.
— Eu não preciso ser convidada, pirralha. Aliás, o que foi aquela cena mais cedo?
— Vá para o inferno, Lynx! — Rana retrucou.
— Vou, claro. Todos os Black vão para lá no final. — Lynx sorriu maliciosamente e Andie bufou inconformada. — De qualquer forma, só passei aqui para avisar a vocês que o trem está chegando e, claro, lembrar a Rana que seria totalmente vergonhoso para mamãe ter mais uma filha na Grifinória.
— Cale a boca! — Andie se pôs de pé.
Lynx, porém, a ignorou e continuou falando, os olhos negros brilhando.
— Pense nisso na hora da seleção, maninha.
E saiu depois de uma risada fria e um tanto teatral, fechando a porta.
— Sua irmã é... terrivel — Arthur disse assustado. — Como pode dizer isso para você?
— Arthur, essa é a minha família, está bem! — Rana disse irritada.
Todos diziam que ela iria para a Grifinória, e no fundo ela queria isso, mas por outro lado... ela nunca fora uma filha admirada pela mãe; ir para a Sonserina poderia ser uma ajudazinha, não?
Ela fechou a cara, pensativa e Andie se pois a se desculpava com Arthur, discretamente.
— Não ligue... a Rana tem uns disturbios emocionais, mas ela não é bipolar, não, é só que...
— Tudo bem, não tem problema. A propósito, estamos chegando.
— É, estamos mesmo, e se quiserem falar de mim, falem, mas falem alto o suficiente ou sejam mais discretos! — Rana se irritou e saiu da cabine carregando a mala.
O Expresso finalmente parou na estação de Hogsmeade com um estrondo. Os alunos saíram apressados; aquela viagem tinha sido cansativa e eles estavam famintos demais para andarem de um modo civilizado. As carruagens aparentemente sem cavalos já estavam à espera deles.
— Vamos, suas lerdas! — disse Sarin correndo em direção à uma carruagem. — Eu estou com fome, e ainda temos que esperar a droga da seleção!
— Eu iria se conseguisse andar! — Adara gritou em meio a um grupo de alunos mais novos. — Ha! Lá vem o gigantão idiota — disse observando Hagrid mais adiante, que chamava os alunos do primeiro ano.
Depois de uma gloriosa vitória na luta para chegar primeiro às carruagens, as irmãs se dividiram em dois grupos: Sarin, Adara, Serpens e Lyra numa carruagem, e Mira, Lynx, Andie e Shaula — ainda emburrada — na outra.
Todos entraram apressadamente no Salão Principal e se dirigiram às mesas de suas casas. O clima era até animado para quem havia acabado de sair de uma viagem tão cansativa. Vários alunos andavam pelo salão cumprimentando seus colegas enquanto os alunos de primeiro ano não chegavam da travessia pelo lago.
— Alá! — berrou Lynx se levantando e apontando para a mesa da Lufa lufa. — O amante da Shaula! Ele é um lufa-lufa!
— O quêêê? Então era sério mesmo? — disse Lyra espantada. — É mesmo um sangue ruim! Não creio...
Shaula, da sua mesa, parecia saber que o assunto era ela, porque encarava as irmãs da Sonserina com uma careta de " calem a boca, suas...", mas não ousava dizer nem fazer nada. Não era da natureza dela.
Finalmente as portas do salão se abriram e, para o alívio de Shaula, os alunos do primeiro ano entraram.
Todas as Black vira a pequena Rana entrar no salão numa fileira de alunos do primeiro ano, todos assustados.
Rana estava tremendo involuntariamente. Não queria admitir, mas estava meio apreensiva por estar sendo observada por todas aquelas pessoas, principalmente pelas irmãs.
Os alunos pararam em frente à mesa dos professores sentindo todos no salão fixarem seus olhos num banco de madeira. A Profª McGonagall, uma senhora muito velha e de aparência severa de quem Rana sempre ouvira sua irmã Serpens falar mal, se aproximou e depositou em cima do banquinho um chapéu velho e remendado.
Todos os alunos do primeiro ano ficaram curiosos olhando para o chapéu. Rana olhou desacreditada; as irmãs falaram que ela iria passar por uma seqüência de testes contra feitiços que só funcionavam em sangue ruins — se você fosse bruxo sairia ileso, se não fosse...
Um rasgo abriu-se no chapéu e ele começou a cantar uma música que falava sobre as casas de Hogwarts e seus fundadores. Serpens e Sarin se entreolharam durante a canção, segurando o riso. Lyra, vendo as irmãs, chutou o pé de Sarin, repreendendo-a, mas ela também estava achando aquela música patética. A cada ano piorava — já estava na hora de aposentarem aquele chapéu estúpido, pensou Adara.
Lynx, que não vira o movimento das irmãs, olhava para Rana. A caçula estava totalmente pálida e mordia o lábio inferior com tamanha força que Lynx não se surpreenderia se começasse a sangrar.
Mas, enfim, aquela música torturante acabou e McGonagall apanhou um pergaminho e se adiantou com a voz severa de uma senhora que, assim como o chapéu, já deveria se aposentar. Ela começou a chamar os alunos que seguiriam para o primeiro ano.
— Arckbald, Mary.
Uma garotinha de cabelos negros, presos em duas tranças, se adiantou e se sentou no banquinho.
— Corvinal! — gritou o chapéu segundos após tocar a cabeça dela.
A garota correu para a mesa da Corvinal onde os alunos aplaudiam monotonamente. Passaram-se alguns poucos minutos até que a já conhecida voz chamasse:
— Black, Rana!
A loirinha engoliu seco e fechou os punhos para que não percebessem que estava tremendo. Rana andou a passos rápidos, pegou o chapéu e colocou-o na cabeça. Logo, tudo ficou escuro.
— Hum, vejamos o que temos aqui — disse ele em um tom sábio. — Mais uma Black.
Rana tremeu ligeiramente, sentindo todo o seu corpo endurecer depois. O chapéu continuou:
— Vejamos... inteligente! Hmm, Corvinal seria uma boa escolha...
Oh, não, Corvinal não! Já basta a Shaula para ser aporrinhada pelas outras, ela disse a si mesma.
— Corvinal não, hein? Sim, também acho, o melhor mesmo seria... GRIFINÓRIA! — essa última palavra ele gritara para todos.
Rana sentiu suas pernas pesadas quando se encaminhou para a mesa da Grifinória, onde Mira já estava de pé aplaudindo. "Eu não vou olhar para elas, não vou, não vou" pensava a todo instante, consciente dos olhares desgostosos das outras irmãs em si.
— Ah! Rana, parabéns!— disse Mira, enquanto abraçava a irmã.
Ela apenas sorriu e sentou-se entre Mira e Andie, que estavam esboçando sorrisos a todos. As irmãs da Sonserina fecharam a cara, enquanto todos os outros sonserinos aproveitavam para debochar delas.
— Mais uma na Grifinória, Lyra? — gozou Matt Avery, rindo da garota.
— Melhor que a sua irmã, ou pensa que eu me esqueci de que ela foi da Lufa-Lufa? E acho melhor você ficar quietinho — continuou ela mal-humorada — ou então eu acho que toda a nossa casa querida vai ficar sabendo de algumas coisinhas suas...
O rapaz aquietou-se; não era muito bom mexer com as Blacks, principalmente as da Sonserina.
Lyra percebeu uma movimentação de alunos e se levantou.
— Tenho que ir, a reunião dos monitores vai começar mais cedo hoje.
As outras mal a escutara, só pensavam em como era humilhante ter mais uma irmã NÃO sonserina.
"Caracas, eu fiquei na Grifinória! Eu estou completamente ferrada." Rana pensava constantemente, enquanto olhava fixamente para a mesa a sua frente.
— Você não devia se sentir culpada ou ficar assim por causa delas — Mira disse, depois de aplaudir uma menina loira que tambem foi para a Grifinória.
— Aham... — Rana disse, sem se mexer.
— É! Não ligue! — Andie também apoiou.
— Claro... — Rana murmurou, olhando para os colegas ao lado dela. Então ouviu:
— Weasley, Arthur.
Na mesma a hora o "Grifinória!" soou pelo salão. Ela viu Andie e Mira o receberem muito bem como os outros, e ele se sentou em frente a ela.
— Parabéns. — Rana disse num fio de voz.
— Para você também. Ficamos juntos afinal...
Ela fez que sim, meio sem vontade e os dois não se falaram mais.
A seleção não tardou mais a acabar, e, depois de um discuro chatíssimo (e, na opinião das Black sonserinas, totalmente dispensável) os pratos se encheram de boa comida e conversas borbulharam pelo salão.
— Maninha, agora você vai aprender o que é ser uma Black da Grifinória — disse Mira toda feliz, abraçando a mais nova — Há algumas coisas que você vai notar, nos dão muito mais vantagens que ser da Sonserina.
— Como o quê? — perguntou a mais nova.
— Somos diferentes... — disse Andie — Papai adora... — completou com um sorrisinho cínico que era comum a todas — Mamãe fica bufando de raiva... E sempre acabamos fazendo uma festa quando a mamãe fica bufando de raiva. Lembra quando a Shaula foi para a Corvinal? A gente fez uma puta festa, não é, Mira? O pai deu até uma vassoura nova para ela, tudo porque ela não tinha ido para a Sonserina.
Mira e Andie caíram na gargalhada, enquanto lembravam da cara de brava da mãe naquele dia. O pai adorava tirá-la do sério e a melhor oportunidade era quando usava o exemplo de alguma filha para isso.
— É... — disse Rana, pensativa. — Eu não queria deixar a mamãe bufando de raiva. Ela já gosta tão pouco de mim...
— Isso não é verdade. — contou Mira. — A mamãe adora a gente. Ela só não dá o braço a torcer muito fácil, sabe? Se desse, a gente não tinha levado tanto tempo para nascer... — falou piscando o olho para Rana — O que eu particularmente gosto muito. — Ela deu um olhar para a ponta da mesa da Grifinória, onde um rapaz de cabelos ruivos e compridos conversava animadamente.
Neste instante, o tal ruivo olhou para elas e sorriu ao ver que Mira o observava. Ela se surpreendeu ao vê-lo levantar de onde estava e seguir em direção a elas.
— Oi, gente. Será que eu posso dar um abraço no meu primo?
Arthur sorriu e se levantou rapidamente.
— Parabéns, garoto... seguindo os passos da família, não é?
— Não ia ter muita graça um Weasley em outra casa mesmo — disse Andie olhando em volta — Falando nisso, onde estão os gêmeos?
— Garanto que estão aprontando algo para o nosso primo aqui — ele despenteou o cabelo de Arthur enquanto falava — Se prepare, viu? Aqueles dois puxaram o pai deles e o tio Jorge. Eles tinham dito que te fariam uma surpresa se você conseguisse ficar na Grifinória.
Arthur gemeu baixinho; sabia bem do quê os primos eram capazes de fazer.
— Não vai adiantar dizer que o padrinho Gui vai brigar com eles, não é?
— Duvido muito. Nem meu pai consegue por ordem quando eles resolvem aprontar, você sabe. — Finalmente ele se virou para Mira.
— Oi — disse sorridente. — Você também deve estar feliz, não é? Mas uma irmã na Grifinória.
— Graças a Merlin, Will, graças a Merlin. Mas a Rana aqui não está muito animada.
— Não? Jura? — ele parecia realmente surpreso. – Garota, você não está feliz de não ter ido para o meio daquelas cobras? Grifinória é a melhor casa!
— Como você pode saber se você é um Weasley e todos os Weasley sempre ficaram na Grifinória? — perguntou a garota um pouco mais ríspida do que pretendia.
William Weasley riu antes de encarar Mira e os dois dizerem juntos, divertidos:
— É o sangue.
Rana ficou olhando. Que Mira gostava daquele dali não era novidade; ela comentava demais sobre aquele garoto nas férias. Olhou para frente irritada. Arthur apenas deu um sorriso desacreditado para ela.
— Eu quero me matar. — Rana disse baixinho.
— Por quê? — Arthur perguntou, espantado.
— Não é da sua conta!
— Não é mesmo, mas se você continuar assim não terá amigo nenhum!
— E eu sei disso! Agora amigo que é amigo aguenta os defeitos do outro, e se alguém for meu amigo vai ter que aguentar meus ataques — Rana disse raivosa.
— Isso é uma advertência para eu te agüentar? — o garoto disse risonho para receber um sorriso de resposta dela.
Enquanto isso, na mesa da Sonserina:
— Olhem lá, mais um Weasley! — Serpens disse fazendo uma careta, enquando Sarin e Lyra se viravam para ver Mira conversando com um ruivo. — Mira se conformou em chegar realmente ao fundo do poço. Ela não larga mesmo desse pobretão.
— Céus, onde vamos parar? Shaula, depois Rana e Mira também? Mamãe vai ficar furiosa! — Adara comentou, fazendo gestos impacientes com a mão.
Elas começaram a se levantar da mesa, já haviam terminado de comer.
— Irritada? Mamãe vai ficar irritada quando descobrir que Rana foi para a Grifinória. Mas quando souber que Rana, Shaula e Mira andam com a escória, mamãe vai ter um ataque, nem quero pensar. — Lynx disse pensativa, para depois sorrir maliciosamente.
— Sim, é verdade, mas papai vai ficar pulando de alegria. Lembra que ele deu uma vassoura para Shaula? Para nós ele nunca fez nada do tipo — Sarin concordou com um aceno.
— Nem mesmo quando a Lyra virou monitora! — completou Lynx.
— Aquela pirralha na Grifinória! Se o Siriuzinho for para lá... — Adara reclamava, enquanto íam em direção à sala comunal.
— Tá, mas vamos dar nossas boas vindas para a Rana amanhã, não é? — Sarin falou, com um sorriso malicioso no rosto.
Adara, Serpens, Lynx e Lyra riram também. Aquilo não ia ficar barato, não mesmo, a pirralha ia pagar.
