Ao contrário da casa, do terreno e dos pais, Laura Campbell era uma benção para os olhos. Laurie, como lhe apresentara a mãe, era linda mesmo fazendo caretas de dor e com aquele hematoma imenso na delicada perna esquerda. Uma vaca se assustara e escoiceara a pequena Miss Campbell.

Doutor Watson estava encantado com os cabelos castanho-arruivados e os olhos grandes, de longos cílios, que brilhavam em um tom violáceo. Não pôde recusar tomar um chá com a família e suas mãos não esqueciam o toque da carne de sua coxa enquanto enfaixava-a. e Laurie sorrira quando ele terminou, revelando a ausência de um pré-molar. Ela o desejava também.

Em casa, a companhia de Kate e dos meninos não conseguia fazê-lo se esquecer de Laurie e sequer satisfez-se com sua esposa, à noite, ao constatar quão diferentes eram suas formas. Queria encontrar Laura Campbell mais uma vez, queria tocar seu corpo todo e vê-la arquejar de prazer sob o peso dele. Aguentou três dias e então voltou à chácara dos Campbell. Mr. e Mrs. Campbell eram repulsivos; sujos de esterco de seus animais, da terra de sua lavoura minúscula e de seu suor campesino. Além de terem as mãos calosas da enxada e vestirem-se em farrapos grosseiros, de morarem em um casebre úmido e caindo aos pedaços. Watson perguntou-se por que Deus permitira que uma criatura como Laura nascesse em um lugar como aquele.

Ela estava ainda mais graciosa do que em sua lembrança. Já conseguia caminhar pela casa apoiando-se nas paredes e lavava lençóis sentada em um banco no quintal quando ele a avistou. O sol fez com que os olhos dela ficassem ainda mais perturbadores e seu cabelo, ainda mais acobreado.

"Bom dia, doutor." Sussurrou ela com seu horrendo sotaque pobre e rural. O timbre era tão belo e a pronúncia tão terrível! Ele queria apertá-la nos braços e mantê-la calada, apenas existindo.

"Bom dia, Laurie." Com aquelas seis palavras, começou o romance entre Laura Campbell e Henry Watson.

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Henry era o homem mais feliz do mundo ao amar Laura fisicamente pela primeira vez e saber que ele fora seu primeiro amante. Ela gemeu e reclamou que doía, além de chorar um pouco, mas Henry a acalmou dizendo que a dor e o sangue que lhe escorria pelas pernas era normal. Era parte da expiação do pecado original e passaria depois de algumas vezes, tornando-a uma mulher completa.

"Eu te amo, Laurie. Ninguém nunca vai amá-la como eu." Sussurrou ele enquanto apertava seu corpinho diminuto contra a terra atrás de uma colina que ficava perto da chácara. Laura gemeu e virou o rosto para limpá-lo no vestido cheio de terra.

"Tenho fome." Resmungou. "Não tem pão em casa." Henry enfiou a mão no bolso e deu a ela as moedas que estavam ali. Laura levantou e correu para casa, apertando-as na mão. Era maio. Laura fazia dez anos.

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"Preciso falar com a senhora, Mrs. Campbell. Sobre Laura." Mrs. Campbell tirou umas conchas de sopa fervente da panela e colocou no prato do doutor. Desde que Laurie começara a limpar o escritório do bom doutor, nunca mais faltara comida para as Campbell. "Obrigado, sua sopa é maravilhosa. Sobre Laura…"

"Ela fez algo de errado, doutor? Laura é uma boa menina; meio burra, anda avoada e chora do nada, mas tem bom coração. Diferente da mãe de sangue dela, que largou a menina – filha natural – aqui com meu marido, seu irmão. Que Deus os tenha. Nós a aceitamos como nossa porque eu sou seca por dentro, sabe doutor?"

"Laura não pode mais trabalhar para mim, Mrs. Campbell. Ela puxou à irmã de seu marido, sinto muito, e está corrompida." Mrs. Campbell caiu sentada em um banco, segurando seu avental com força nas mãos.

"O que ela tem?" Balbuciou, tonta.

"Laura terá um filho. E eu não posso mantê-la empregada nessa situação." A pobre velha começou a chorar convulsivamente e Henry, sentindo-se incomodado com os gemidos dela, ajeitou-se na cadeira bamba. "Mrs. Campbell, o problema maior é que Laura está louca. Ela insiste que fui eu que a engravidei e um boato terrível desses mataria a minha mulher. Eu me proponho a sustentá-las, já que a senhora perdeu sua casa com a morte de Mr. Campbell, mas as duas devem ir embora daqui. Eu sugiro Bath, talvez os ares marinhos curem-na das loucuras que a atormentam."

Mrs. Campbell parou de uivar quando o bom doutor falou em sustentar sua filha… sua sobrinha, aquela criatura ingrata não era sua filha, louca. Aquele homem era um bom cristão! Como Laura podia fazer aquilo com ele?! Limitou-se então a acenar positivamente com a cabeça, exultante de gratidão. Morariam na beira da praia! Ela, Laura e…

"E a criança? Quem é o pai dela? Que será feito dela?" Henry enxugou os lábios com um lenço e deu de ombros.

"Enquanto ela insistir nessa mentira a meu respeito, o bebê continuará sem pai." Mrs. Campbell balançou a cabeça, recriminando o comportamento da sobrinha inconsequente.

"Sinto muito por tudo, doutor."

"Você é uma boa mãe, Mrs. Campbell, não tem culpa da filha que tem. É o sangue ruim que lhe corre nas veias."

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A menina nasceu no meio do inverno, pouco depois da morte de Mrs. Campbell, e Laura achou que fosse morrer. Ela ainda não tinha catorze anos. Foi morar em um quarto de hotel, tendo como vizinha uma vendedora de flores pouco mais velha, que fugira de sua casa e seu país. Thérèse ajudava Laura nos cuidados com o bebê – que não recebeu nenhum nome cristão, sendo chamada de Fleur de Lis, ou, simplesmente, Lilly ou Lis – e tornou-se sua melhor amiga. Lilly não se assemelhava demais à mãe nem ao pai, tendo cores e formatos próprios – exceto no azul de seus olhos, iguais aos de Henry – e era calma e inteligente. Diferia de Laura, que se tornava cada vez mais infeliz e ignorante – embora sua estabilidade emocional tivesse melhorado com a morte de Mrs. Campbell e a presença de Thérèse – em tudo na personalidade e a mãe era completamente apaixonada por seu bebê.

O motivo de Thérèse ter sugerido chamarem o bebê de Fleur de Lis era a brancura levemente rosada de sua pele, que remetia à maciez das pétalas de um lírio. Além do fator central de serem essas as flores favoritas da jovem florista francesa.

Falar das flores de Thérèse motiva falar de Thérèse em si, personagem tão essencial que carece de um rosto. Essa jovem, nascida na região do Languedoc, não tinha o porte similar aos bretões e gauleses. Seus traços não eram nada excepcionais na opinião de Laura, que achava seu rosto talvez comprido demais com o nariz pouco arrebitado, mas suas cores fascinavam. Seu nome anunciava o óbvio, pois as cores de Thérèse só podiam ter sido extraídas do barro que se tornou cerâmica no forno, como de início fez O Criador. Os olhos, a pele e o cabelo eram tons de uma cor similar ao açúcar caramelado, que variavam de intensidade conforme a quantidade de sol a que Thérèse era exposta. Por ser mais morena do que o estereótipo de uma francesa e do que o resto de sua família, sussurravam em sua cidade natal que a menina talvez tivesse água mediterrânea correndo em suas veias. Alta, compacta e morena, Thérèse cresceu abandonada, sozinha como Laura e sem mãe tampouco, foi essa dor fininha que a fez gostar da menina que nada parecia com ela em corpo, mas com ecos similares de passado.

Passaram a viver em um quarto só, para economizar dinheiro e para Thérèse poder cuidar de ambas nos dias em que Laura não tinha forças para nada e passava prostrada na cama. Eram dias inesperados, que tornavam impossível Laura conseguir qualquer emprego e dificultavam o convívio. Lilly cresceu entendendo que mamãe ficava melancólica do nada e ela devia aguardar quietinha a sua recuperação.

As coisas começaram a se complicar com o crescimento da menina, as roupas e sapatos e comida e brinquedos de que ela precisava. Como Laura era instável e Lis muito pequena para tomar conta da mãe e dela mesma, Thérèse quase não trabalhava mais e só podiam contar com o dinheiro que Henry mandava periodicamente para vestir e alimentar duas pessoas onde havia três. A florista, para completar, era assombrosamente bonita e muito vaidosa, detestando usar roupas velhas e sapatos gastos. Detestando a pobreza em que viviam.

Isso posto, Laura e Thérèse decidiram mandar uma carta ao doutor ameaçando denunciá-lo aos jornais caso ele não aumentasse a quantia enviada a cada mês. Diante da chantagem, Henry apareceu sem avisar em uma tarde quente de junho.

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O hotel em que moravam era pior do que a pocilga dos Campbell. As paredes descascavam com as bolhas de umidade e a poeira fazia tudo feder. Henry achou por um instante que viu uma barata correr para um buraco na parede e forçou-se a esquecer o pensamento. No quarto, encontrou duas mulheres na saleta; Laura e uma escura que nunca tinha visto e que o olhava com o rosto cheio de desdém. Laura estava horrorosa. Nada sobrara de sua pureza encantadora ou de seu corpo andrógeno, a gravidez e a amamentação alargaram suas formas e tornaram-na uma mulher feita e claramente burra. Olhou para a escurinha e teve certeza, ao ver o cinismo em seu rosto e a inteligência faiscando em seus olhos amarelos, que era ela quem comandava e manipulava Laura. Laura e sua criança. Henry sentia ânsias de vômito só de pensar em um menino sugando os mamilos que antes ele sugara. Odiava seu filho e odiava toda a moral rígida de sua alma que o impedia de abandoná-lo.

"O que você faz aqui?" Perguntou Laura em seu sotaque horroroso. A voz esganiçada fazia-o ter certeza de que ela sabia estar errada e temia a punição que ele pudesse lhe aplicar.

"Vim conversar, Laurie. Eu lhe ofereci sustento de boa-fé, a lei não me obriga a isso. E chantagem é algo muito feio. Você quer sustentar os luxos da sua amiguinha e ameaça contar aos jornais que tivemos um caso? Quer jogar meu nome na lama?" Tentava não mostrar-se irritado demais, mas estava furioso com o mau-caratismo e a estupidez pobre daquelas duas.

"Nós não tivemos um caso! Eu tinha 9 anos e você me cercou, esperou meu pai morrer e a gente cair na miséria, nos deu vários presentes, me amarrou com gratidão, me deflorou sem nenhuma intenção de honrar o que você fez com casamento, me emprenhou e, não contente em me abandonar, virou minha mãe contra mim! E nós… eu tenho certeza de que não fui a única! Pagar pelos nossos gastos é o MÍNIMO que você deve fazer!"

"Não se faça de vítima, Laura! Você sempre teve a semente corrompida e corruptora. Você é uma filha natural! Me seduziu desde o primeiro instante, eu só a amei e tentei ser bom para você! Sou um homem! Como eu devia controlar meus instintos?! Foi você, pequena Eva, suja Salomé, que estragou tudo e se virou contra mim! E é tão burra que nem vê que esta mulher que você toma como amiga a açula contra seu único bem-feitor!"

"Chega!" Gritou a escura, ficando de pé. "Caso ou não, eu não vou permitir que você continue a gritar com ma petite amie assim! Não, Laurie, não vamos conseguir convencê-lo, não se desgaste assim, chérie." A mulher virou-se para Henry e a forma como ela falou com ele – com aquele desprezível sotaque francês – reafirmou porque detestava mulheres, diferentemente de meninas, e comerciantes. "Escute aqui, docteur: crianças crescem e comem cada vez mais. Você precisa de mim para que eu cuide da saúde de Laura e do bebê. Você vai dar mais dinheiro porque senão passaremos fome e a história de alguém como você na tradicional família Watson renderia bastante dinheiro a um jornal e seus informantes. Eu não quero esse escândalo por Laura e Lis e você não quer esse escândalo por motivos óbvios, d'accord?"

Henry piscou os olhos algumas vezes, absorvendo a informação.

"Lis? Você teve uma menina, Laura?"

"Mérde." Rosnou a francesa, caindo sentada no sofázinho.