Portugese:
Apresento-vos o primeiro capitulo de "O Mensageiro". "Caminho de Volta a Casa".
Disclaimer: Eu não criei ou tenho direitos de autor sob qualquer uma destas personagens.
English:
I present to you the first chapter of the fanfic "O Mensageiro" (The Messenger). "Way back home".
Disclaimer: I do not own any of these characters.
O caminho para casa foi mais pesaroso que o habitual.
Efetivamente, os ombros largos e musculados, que pareciam capaz de aguentar o peso do mundo inteiro, estavam descaídos, deixando os braços embater suavemente contra o tronco em sintonia com as passadas pesadas.
A noite já se prolongava, fria e escura. Uma brisa fazia-se sentir ao roçar levemente nas árvores, agora meras sombras informes. O silêncio tumular era apenas interrompido com pontuais ramos que se partiam sob a biqueira de aço, ou, então, pela respiração pesada, ainda mais atrapalhada pela sua mais recente aquisição.
Inconsciente do seu ato, Thomas levantou a mão, esta suja de sangue e partículas viscerais, até à nova máscara. A sua primeira máscara...bem, a sua primeira máscara de pele humana, pelo menos. Suavemente, afastou os lábios desta para facilitar a passagem do ar, passando delicadamente contra os próprios lábios. Contudo, o sabor acre, enferrujado e familiar do sangue, que tipicamente o impulsionaria a lamber os dedos grossos num ato irrefletido, passou despercebido, malgrado a sua quantidade.
Com efeito, os seus pensamentos vagueavam por paragens que lhe eram desconhecidas. Na verdade, nem sabia propriamente o que pensar. Em menos de vinte e quatro horas a sua vida, e a vida dos que o rodeiam, mudara completamente: de um momento para o outro, perdera o seu emprego - a sua vida; matara cerca de meia dúzia de pessoas que, se já não o tivesse feito, viria a comer; e, entretanto, ganhara uma nova identidade e uma nova paixão.
Contrariamente ao que possa aparentar a sua cabeça cabisbaixa e marcha contrita, sob os caracóis húmidos e sujos que encobriam o rosto, os olhos azuis denotavam um brilho renovado e intenso. Havia algo, para além de toda a confusão e receio que sentia naquele momento, que o fazia sentir-se...bem. Alguém.
Todavia, o medo impedia que tal estado de espírito se manifestasse mais claramente. Afinal de contas, como estariam as coisas em casa? Recebê-lo-iam de braços abertos ou abandonariam-no para sempre, apelidando-o de monstro quando tomassem consciência de tudo o que foi feito?
Estas questões assombravam a sua mente, já por si confusa e complexa, de modo persistente. O seu raciocínio turvo pela vergonha e pânico dificultavam o andar, fazendo-o tropeçar nos seus próprios pés. O peso da motosserra também não era grande ajuda, de facto. Mas, pelo menos, tinha alguma companhia.
O caminho para casa ainda era longo...
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Luda Mae limpava, lentamente, os óculos à borda da saia castanha de linho. Expirava de forma sonora enquanto os olhos cansados procuravam algo familiar na escuridão noturna. Uma figura informe e volumosa que se dirigia para o alpendre...mas, até agora, nada. O sossego, demasiado sossegado para dizer a verdade, percorria a quinta dos Hewitt. Pormenor este que carregava ainda mais o seu rosto esgotado com preocupação e ansiedade.
Exausta, sentou-se numa velha cadeira no alpendre que rangeu com o seu peso. Depois, apoiou os cotovelos nos joelhos e, assim que levou as mãos ao rosto, um gemido inaudível escapou-lhe dos lábios secos. Controlou a necessidade repentina de chorar, enquanto se esforçava por respirar normalmente e amenizar a dor de cabeça que a atormenta à horas.
"Isto não passa de um pesadelo..." - repetia mentalmente para si mesma - "...Isto é impossível...". Agarrava-se a estas palavras a fim de agarrar a sua própria sanidade mental...se ainda lhe restava alguma. Só agora começava compreender a gravidade do que vira e, inclusive, do que fizera. Não era uma simples cúmplice, e sabia-o. O dia apenas passara demasiado rápido para que reparasse antes, para que pudesse falar...isto, admitindo que fosse falar ou fazer algo. Coisa que, no fundo, duvidava que fizesse. O instinto familiar dominara qualquer argumento lógico, impedindo-a de agir em contrário. Impedindo que o nojo que sentia de si própria e a sua consciência ganhassem voz. Sendo que, agora, aproveitavam o momento para se vingar sem dó, nem piedade.
O conflito interno começava a tomar conta do seu próprio corpo, aumentando a intensidade da enxaqueca, e não só. Uma náusea aguda e imprevista obrigou-a a correr até ao extremo do alpendre. O sabor azedo e áspero do vômito agravava o mal-estar, especialmente após reparar que acabou de expelir a sua mais recente iguaria. Entre o líquido acastanhado e viscoso que cobria um pedaço de relva junto às velhas escadas de madeira, estas também sujas com o sangue do Charlie, estava uma orelha, pelo menos metade de uma, deformada e meia digerida. Uma nova onda de náuseas percorreu-lhe o corpo como choques elétricos. Inconscientemente, levou a mão trémula ao estômago e ajoelhou-se com o intuito de abrandar os enjoos e as dores. Os olhos ardiam-lhe, e, mesmo cerrados com toda a força que conseguia, chorava silenciosamente. Porém, quando parecia finalmente acalmar, tomou conta do espaço a sua volta e sentiu contra, a sua palma, o que aparentavam ser pequenas pedras. Contudo, quando levantou a mão para se sacudir contra a roupa, foi que reparou que não se tratavam de cascalho mas, sim, dentes, ainda ensanguentados e, muitos deles, partidos. O controlo tornou-se fútil e vomitou novamente, acabando por expelir bílis, depois do estômago ter sido esvaziado.
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Um grunhido abafado quebrou o silêncio na pequena floresta junto à fazenda.
Instintivamente, Thomas levantou o olhar para o céu para localizar a origem do som. Poderia ser um animal, porém, havia algo demasiado humano no som. Um sofrimento sufocado.
De imediato, a preocupação, gradualmente, começou a substituir o receio e a vergonha, impelindo a acelerar o passo.
Já via ao longe as tímidas luzes da casa. Apenas uma no primeiro piso, para além de três quartos iluminados no rés-do-chão. Mesmo a uma relativa distância, e, apesar de velho, com uma pintura já gasta, era um edifício imponente. Dominando a vasta planície que rodeava, domínio esse realçado pelas paredes caiadas. Transpirava uma aura sinistra e austera, tanto sob a luz do luar como sob os quentes raios de sol que o banhavam durante o dia. Um aviso para os coitados perdidos que se aventuravam a cruzar aquela paisagem. Um aviso que, a partir daquele dia, escondia alguns dos mais obscenos e estrondosos segredos que a humanidade alguma vez tomaria conhecimento.
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A matriarca já não se preocupava com o barulho. Era uma preocupação ridícula. Monty encontrava-se completamente apático e Charlie mergulhara num estado de dormência depois de ter ficado inconsciente com as dores do ataque.
Chorava desalmadamente com o corpo encostado ao alpendre. As mãos tremiam de forma descontrolada e o seu corpo saltava com os soluços que lhe pesavam no peito e lhe apertavam a garganta. Chorava por anos de sofrimento. Chorava, simplesmente, por chorar. O desespero imperava na mais pequena parte de si.
Efetivamente, a vontade de retomar o pensamento lógico era inútil. Naquele momento, era coisa que não habitava no seu ser. Este estava restrito à angústia, ao sofrimento, ao nojo...
Com esforço, levantou o rosto e respirou fundo a fim de combater a dispnéia. Devagar, abriu os olhos semicerrados e enxaguou as lágrimas. A sua visão ainda continuava turva, os olhos ainda lhe ardiam, e o sabor azedo da bílis ainda a incomodava. Porém, enquanto inspirava o ar noturno, houve algo na paisagem que a distraiu de si mesma.
"O meu menino vem aí..." - disse num sussurro fraco. Uma onda de alívio surgiu no seu peito, ao qual levou ambas as mãos, facilitando a respiração.
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O cheiro a vômito inundou-lhe as narinas, misturando-se com o de sangue. Todavia, não fora isso que o perturbara. Thomas estancou a olhar sua mãe. Nunca a vira assim antes. O desespero e a angústias patentes nos seus olhos vermelhos, o rosto molhado com as lágrimas, os tremores e a hesitação com que se movia.
O choque foi claro para Luda Mae. Os olhos azuis assustados fixaram-se nela e a motosserra escapou-lhe da mão, caindo, acompanhada com por um estrondo audível e pelo ranger da madeira velha. Com as últimas forças que lhe restavam tentou mostrar um sorriso, mas apenas conseguiu uma tentativa débil e frustrada de algo mais parecido com uma careta.
Cambaleante, aproximou-se do menino que vira crescer e que se acostumara a ver como filho. Afinal, era seu. Criara-o. E nunca o deixaria de ver como o menino doce e tímido que era. Recusava-se a vê-lo como um monstro, independentemente do que fizera. Se alguém era inocente naquela família, era ele...ele não o fizera de livre vontade, ele não tinha sequer consciência do que fizera...
"Eu estou bem Tommy." - disse, tentando com parecesse o mais segura possível, mas a sua voz hesitante e fraca atraiçoava-a - "Apenas me caiu mal o jantar...não estou habituada e, com a minha idade tenho que ter mais cuidado com o que como, não é verdade?". Gradualmente, começava a sentir-se mais segura e a sua voz refletia-o. Até conseguiu esboçar um pequeno sorriso. Tentou acalma-lo. Tinha que ser forte por ele.
Suavemente, afagou-lhe o braço. A camisa estava manchada e completamente colada ao corpo. O cheiro a suor conseguiu sobrepor-se às vísceras que o cobria praticamente da cabeça aos pés. Porém, não se acanhou, nem se deixou enjoar.
Felizmente, os seus esforços começavam a mostrar resultados, sendo que as mãos dele já não estavam em forma de punho e a sua respiração voltara ao normalmente. A tensão parecia desvanecer, contudo, o receio e a confusão ainda lhe banhavam o olhar encoberto pela massa de carne que lhe escondia o rosto deformado.
Aquele rosto estranho ainda lhe causava alguma confusão. Dificultava, até, olha-lho nos olhos. Mas, tinha de o fazer. Tinha de lhe mostrar segurança, calma. E, afinal de contas, estava em casa novamente, e, aparentemente, sem qualquer dano.
"Ainda bem que já chegaste...". Foram as últimas palavras a ressoar no silêncio daquela noite.
