–Há três dias, minha deusa, três dias que não sinto nem mesmo o cosmo de Afrodite!

–Ora, Máscara e por que isso o incomoda tanto?! Tenho certeza que está tudo bem, ele deve apenas ter se afastado...

–Se afastou bem até demais, não acha?! Com todo respeito, Atena, isso está estranho.

–Pois bem, se a ausência do Cavaleiro de Peixes o incomoda tanto, dou permissão para que vá até seus aposentos privados procurá-lo.

Máscara da Morte saiu do templo da deusa com um sorriso vitorioso nos lábios, finalmente teria uma justificativa para ir até a casa dos pisciano, não que fosse bisbilhotar ou algo assim, oh não... Isso não era tipico de sua personalidade, quando queria descobrir algo sobre alguém simplesmente perguntava (educadamente...), a verdade é que a ausência do louro realmente estava estranha... Não era apenas faltas aos treinos e reuniões, qualquer um conseguia passar pela casa de Peixes sem nem ao menos pedir permissão. Era muito estranho, ainda mais tratando-se de Afrodite que odiava que as pessoas entrassem em seu templo sem ao menos pedir licença.

Desceu a escadaria de mármore esgueirando-se silenciosamente ao corredor que surgia a frente, tudo parecia normal, os móveis não continham uma mísera partícula de poeira e os vasos que enfeitavam cada canto da casa tinham suas flores no melhor estado que já vira, "Como se ele estivesse aqui o tempo todo... Mas que merda é essa, Afrodite!"Parou em uma grande porta de carvalho trabalhada com a imagem do nascimento da deusa que dera o nome ao cavaleiro, tocou a madeira empurrando-a silenciosamente, o que surgiu a sue frente não era nada menos do que se esperar do mais belo, temível e vaidoso cavaleiro dentre todos eles... Um quarto praticamente forrado de espelhos, pedaços de sedas (de todas as cores e tamanhos) enfeitavam os objetos erotizando o comodo, a cama ao centro era apenas um colchão visivelmente macio, havia malas em um canto do quarto próximo a um grande espelho coberto por seda vermelha, em outro, peças de roupas tão leves e transparentes que Máscara da Morte sentiu seu estômago dar pulos ao imaginar Afrodite naquelas vestes, "Provavelmente é o 'pijama' dessa rosinha fresca...". Analisou o quarto todo sentindo-se um completo estranho, por um momento sentira como se tivesse entrado em um palácio nas nuvens, tudo remetia a leveza e maciez, tudo era doce e o cheiro das flores que ornamentavam o teto causava tontura, não estava acostumado com isso. Balançou a cabeça negativamente saindo o mais rápido possível do local.

–Mais cinco minutos naquele harém e com certeza, enlouqueceria, não consigo imaginar como manter a sanidade dividindo um quarto como aquele com alguém como ele!

Subiu novamente à área comum do templo na esperança de ao menos amenizar o cheiro das rosas impregnado em sua armadura, uma tola esperança, quanto mais subia mais forte o odor se tornava, quase insuportável para um homem como Máscara da Morte que odiava tudo que vivesse e não gritasse para morrer.

–Máscara!

–Aldebaran?

– O que está fazendo aqui?

–Ah eu... Espere, o que você está fazendo aqui?

–Relatórios... Onde está o Afrodite?

–Exatamente, não sei... Atena mandou que o procurasse...- Deu os ombros sustentando a mentira que ocultava a parte que ele pedira para ir até a casa do pisciano. -Não faço ideia de onde aquele adorador de rosas se enfiou e nem me importo.

–Estranho, não? O Afrodite nunca deixa o templo... Lembra-se da época que teve um desmoronamento na vila próxima ao santuário por causa das chuvas?! Nós tivemos que sair dos templos temporariamente, eu me recordo que todos fomos, até você!

–Menos o Afrodite.

–Sim! -O moreno riu animadamente. -Menos o peixinho! É, eu nunca vou entender por que tanta antipatia e...

–Que algazarra é essa?

Aldebaran e Máscara da Morte congelaram instantaneamente, a voz suave atrás de si não era bom sinal, viraram-se encarando duas orbes azuis brilhando em fúria.

–Quem deu permissão de invadirem meus aposentos? Por acaso perderam o juízo? Não temem mais a morte?

–Calma Afrodite... Veja, estou apenas indo entregar um relatório e o Máscara aqui veio te procurar à ordens da deusa!

Os olhos do outro apertaram-se em desconfiança, passando do tourino ao canceriano, sabia que havia mentiras ali, mas não estava disposto a começar uma guerra por algo banal, contanto que nada estivesse quebrado, estaria tudo bem. Suspirou, cruzando os braços.

–Pois bem, têm permissão para se retirarem agora, ambos.

As palavras saíram rispidamente dos lábios vermelhos, Aldebaran acenou para o colega seguindo em direção ao templo de Atena enquanto Máscara da Morte seguia em um rumo oposto, tentando manter a indiferença ao passar pelo guardião da décima segunda casa.

–Se você arruinou o aroma da minha casa com esse cheiro repugnante de podridão que você exala, considere-se morto, Angelo.

Ignorou as palavras do louro e seguiu rumo à própria casa, conhecia Afrodite bem o suficiente para acreditar nas palavras, mesmo assim ignorou completamente o sueco passando por ele sem lhe direcionar o olhar, "Ainda me chama pelo primeiro nome... Putanna!".

Afrodite assistiu a partida do colega imaginando de quanto nomes em italiano poderia estar sendo xingado naquele momento, pudera, provocara o outro usando seu primeiro nome, "Angelo... Nome de anjo, corpo de pecado e mente demoníaca... Cheio de contradições, não?!". Inspirou o ar, retorcendo a bela face ao perceber o odor de sangue que ainda continha na casa, não que o incomodasse, a alcunha de cruel não fora dada à toa, Afrodite amava a morte tanto quanto a si mesmo, mas aprendeu a respeitá-la e temê-la, não gostaria de voltar ao inferno tão cedo e se possível nunca...

–Ah minha deusa... O que eu faço?

Os olhos tremeram levemente e um sutil embrulho no estômago instalou-se causando-lhe arrepios, por que ninguém via que mudara?! Não era mais tão arrogante e muito menos pré-potente, não diria que se arrependeu das traições, tinha seus motivos para tal, motivos movidos pelo coração... "Saga me evita até hoje...". Aliás, parando para pensar, todos os cavaleiros, dourados ou não, o evitavam desde a sua volta. Como não percebera antes?! Não existia mais olhares admirados, não havia suspiros entre as amazonas, não existia olhares de ambição... Não, as pessoas não o desejavam mais... Elas o repudiavam!

Se tocar de algo tão obvio fez com que seu corpo bambeasse para os lados, apoiou-se em uma das pilastras do templo segurando-se para não cair em um choro/riso com a angustia que sentia naquele momento, ficaria assim mesmo, sozinho.

–Ora, ora... E eu que sonhei que você tivesse morrido...

–Ah, que agradável surpresa... Milo!

–E aí projeto de gente, ainda não foi mandado de volta ao inferno?!

–Não querido, estou te esperando, sabe, para me acompanhar! Se quiser pode levar sua namoradinha também.

Os olhos azuis cerraram com as palavras do pisciano, Milo sorriu ironicamente, os lábio retorcendo o rosto numa feição de puro nojo e desprezo.

–Você é a escória do santuário Afrodite, a escória.

–E você é a vadiazinha que tem inveja da escória certo?

–Poutána... Meça suas palavras para falar comigo peixe!

–Não venha me afrontar em minha própria casa, se você tem algo a tratar comigo, que seja na arena. Não admito que pessoas como você sujem meu chão com seus pés imundos e palavreado pobre, agora se você quer apenas passar, fique a vontade, não tem que falar comigo para isso posso perceber suas intenções pelo seu cosmo. Sendo assim, retire-se, a-go-ra.

–Tsc... Só não acerto essa sua carinha branca em respeito à Atena e ao templo de Peixes, você envergonhou todos os guardiões que passaram por aqui.

Milo virou-se e voltou por onde tinha vindo, o coração de Afrodite apertou-se levemente, aquelas palavras doeram mais do que deveriam. "O pior de todos, é?". O lábios caíram em um triste sorriso, o corpo curvou-se sutilmente e os passos que o levaram até seu quarto foram tão silenciosos que não se ouvia nem mesmo o atrito da armadura de ouro com o chão de mármore.

E pela primeira vez em anos, o santuário não foi banhado pelo aroma das rosas durante o por do sol.


Notas finais do capítulo

Obrigada a todos que estão se dando ao luxo de lerem ( se é que isso está acontecendo...). Logo teremos mais! See ya!

Continua...

Tia Evye!