Disclaimer: Hermann Hesse criou Demian, por causa do Demian eu criei a Lilith.


II.

As mãos sujas de carvão, os dedos tão brancos ficando negros e a calçada cinza ganhando tons mais escuros, enquanto ela rabiscava um sol, uma árvore e uma casa, a paisagem que via a sua frente. Sabia que, quando a primeira chuva viesse, aquele desenho ficaria desfeito, mas não se importava. Cansou o braço e colocou o carvão de lado, olhando para a mão suja, com todo o cuidado para não encostar na blusa amarela. Conseguia ouvir sua mãe Que sujeira é esse, Lilith Sinclair? Você já tem dez anos!

— Acho que você deveria lavar essa mão — não precisava se virar para saber que era Demian. Deu de ombros.

— Onde? Não há água por perto — respondeu. Demian sentou-se ao seu lado e ela o olhou de relance. Ele olhava fixamente para frente e isso era uma rara brecha que tinha para ver seus olhos. A luz pálida do sol refletia neles, deixando aquele verde claro ainda mais claro, quase inexistente e o cabelo castanho-avermelhado mais vermelho que castanho. Subitamente, ele voltou-se para ela, que conseguiu abaixar o rosto.

— Ainda evita-me olhar nos olhos? Tu sabes que assim posso conseguir facilmente qualquer coisa de ti. Muitas pessoas ficam inquietas com outras olhando em seus olhos. Só mesmo minha mãe consegue...

Lilith ergueu-se e colocou as duas mãos na cintura, sujando a blusa amarela. Aquilo a deixava irritada, principalmente porque conseguia olhar nos olhos dos outros. Às vezes, era repreendida na escola por encarar tanto os outros, por deixar a mente vagar para lugares desconhecidos, deixando os olhos pretos como se fossem mortos. E Demian sabia disso.

— O problema são os seus olhos! Eles não são normais, você sabe disso!

E Demian sorriu, não um sorriso de alguém que tinha treze anos, parecia muito mais velho.

— Mas, apesar de ainda não saber disso, você tem a capacidade de olhar dentro deles. Só precisa se esforçar.

Lilith ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Queria tentar olhar nos olhos de Demian, queria principalmente conseguir, para provar que era forte. Para provar que não era superior, mas era igual. Mas estava com medo de não dar certo. Suspirou, resignada.

— Um dia eu tento, Demian — falou. — E no dia que eu tentar... vou conseguir — e sorriu com confiança para si mesma. Demian sorriu de volta. Ele não tinha dúvida alguma daquilo, dava para ver.

O silêncio instalou-se novamente, mas nenhum se sentia incomodado. Lilith percebeu a blusa manchada e praguejou baixinho. Olhou para Demian, que riu um pouco, e sua raiva logo se dissipou. Odiava aquilo nele. Odiava o modo como ele controlava as pessoas, como era possível fazer aquilo?

— Quantas coisas sobre você eu não sei, Demian?

A pergunta pareceu pegá-lo de surpresa e ele suspirou: — Lilith, você só tem dez anos-

— E você tem treze! — ela cortou. — Não faz diferença alguma, faz?

— Faz toda a diferença.

Ele poderia ainda dizer alguma coisa, mas ela não escutaria. Cruzou os braços na frente do corpo, o carvão sujando-a ainda mais e começou a marchar. Não para casa, iria esperar que sua mãe fosse à costureira – ultimamente, estava indo lá às quatro da tarde, arrumar um vestido para uma festa – para voltar para casa. Simplesmente começou a andar e conseguia sentir Demian andando atrás dela.

— Deixe-me em paz! Eu sou muito inferior para você, não sou? — gritou.

— Não, não é — ele disse e as palavras a pararam sem que ele precisasse tocá-la. Ainda sem se virar para olhá-lo, ela escutou. — Você é infinitamente superior, Lilith, mas você ainda não conseguiria entender isso. Por favor, compreenda. Posso lhe contar uma história? — como ela ficou em silêncio, Demian suspirou. — Já ouviste a história de Caim e Abel? Claro que já... Mas imagino que seu professor contou do mesmo modo de sempre, Deus e o pecado e essas coisas. Mas eu creio que essa história possa ser interpretada de outra forma, de uma forma completamente diferente. Essa história do sinal de Caim nunca poderia nos satisfazer como é, não achas? Um homem tão furioso a ponto de matar o próprio irmão, mas ainda tão humano que depois sentiu medo e tão covarde quando se humilhou...

— E daí? — Lilith cortou, simplesmente para irritá-lo, já que estava achando a história um tanto quanto curiosa. Não tinha dúvidas que Demian sabia disso.

— E daí que havia este homem que no rosto era visível algo especial, um sinal, que aterrorizava os demais. Naturalmente, o sinal não era material, como suas mãos sujas ou um carimbo de correio. Tratava-se possivelmente de algo sinistro e apenas perceptível, como um pouco mais de vivacidade ou audácia no olhar. Então, como era mais cômodo achar, começaram a tachar as criaturas com o tal sinal como pessoas suspeitas e malignas, pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Entende?

— Quer dizer que Caim era bom e que a Bíblia está errada? — Lilith não agüentou mais ficar de costas e se voltou para Demian. — Mais outra história que você bagunça! E a morte de Abel, não foi real?

— Seguramente, foi real. Um homem forte matou outro mais fraco. Talvez fosse heróico, talvez não. Seja como for, os outros homens fracos sentiram medo e se uniram em seus clamores contra Caim, falando que ele fora marcado por Deus e transformaram um sinal de força em uma maldição. E hoje, quando você encontra alguém com esse sinal, você fica em alerta e, no meu caso, feliz.

— Você tem esse sinal — Lilith disse o óbvio. Demian sorriu como se tivesse muito mais que o sinal, como se houvesse ainda muito mais coisas a serem reveladas, mas preferiu assentir.

— E você também — disse com simplicidade. Lilith franziu as sobrancelhas e não disse nada. Era como se fosse difícil aquela informação entrar no seu cérebro. — Ou você achava que eu estava contando essa história simplesmente para bagunçar seus conhecimentos bíblicos?

—... Talvez... — ela respondeu lentamente.

— Entende agora por que eu nunca lhe conto tudo? Algumas coisas não deveriam precisar ser explicadas.

— Você é absolutamente detestável, Max Demian — Lilith resmungou e olhou novamente para a mão suja, soltando um suspiro. — Já deve passar das quatro. Até mais.

Dessa vez, Demian não a seguiu.

X

Olhou-se no espelho, procurando algo de mais. Não enxergava nada. Era uma simples pele branca demais, cabelos castanhos longos e cheios demais, olhos pretos escuros demais. Começou a fazer caretas, buscando algo assustador no rosto. Algo poderoso. E não encontrava, parecia simplesmente alguém normal. Como Demian pudera falar algo assim sobre ela?

— Não tenho nada de especial — falou para o espelho, mas as palavras soaram como mentiras. Franziu a testa. — Não tenho nada... — repetiu e continuava não acreditando naquilo, como se aquela voz não fosse a dela, como se a estivessem acusando de algo que não era.

Pegou um vestido qualquer e o enfiou de qualquer jeito pela cabeça, nem penteou os cabelos e saiu correndo escada abaixo e porta afora. Beatrice a chamou e Lilith simplesmente gritou "Demian!", o que pareceu bastar. Correu, sentindo os olhos arderem por causa do vento frio, queimando os pulmões. Correu até chegar na frente daquela casa que só ousara freqüentar algumas poucas vezes e bateu na porta. Eva abriu e surpreendeu-se ao ver o rosto corado da garota, mas algo pareceu fazer sentido em sua cabeça e ela sorriu.

— Olá, Lilith. Max está nos fundos, meditando.

— A-ah... — sugou ar com força, tentando diminuir as batidas do coração. — Desculpe, é que...

— Está tudo bem, entre — Eva afastou-se, deixando-a passar. Lilith olhou para ela de relance. Algo naquela mulher era incrível, como se fosse inumanamente especial. A garota não teve coragem de avançar, não com o olhar de Eva sobre si. — Você nunca conheceu seu avô, não é mesmo? Emil Sinclair, não o outro.

— Não... Mas mamãe disse que vocês já tinham ouvido falar da nossa família...

— Sim... — o olhar de Eva era perdido. — Eu estou de saída agora, Lilith, mas posso lhe dizer uma coisa?

— O quê?

Eva andou até a porta calmamente. Lilith não conseguia ignorar a elegância daquela mulher.

— Acho que será você a primeira a tirar meu filho de mim. — e saiu.

Lilith arregalou os olhos e corou. Ficou parada, vendo a porta fechada e esperando o coração acalmar. Então, pé ante pé, foi aos fundos da casa. Nunca tinha visto Demian meditar – na verdade, nunca tinha visto ninguém meditar, então não queria atrapalhar Demian.

Nem seria possível. Sua boca se abriu lentamente ao vê-lo. Estava sentado no chão, as pernas cruzadas e as mãos juntas. Só que não parecia... vivo. Sua pele estava branca e morta, seus lábios vermelhos estavam cinzentos; e, por uns instantes, ela pensou que ele estivesse de olhos fechados de tão mortos, vazios e parados que estavam, mas reconheceu aquele tom verde – só que agora era verde pálido, verde morto. E, estranhamente, ele não estava flácido – as juntas das mãos estavam impossivelmente mais brancas que o resto do corpo, como uma fortaleza. Foi então que reparou no cabelo dele, a única coisa que parecia viva, com aquele tom de vermelho.

Não ousou chamá-lo e nem respirar alto, fazia-o bem baixinho. Era como se o Demian que conhecia há três anos fosse apenas um meio-Demian. Aquele parecia ser o Demian real, o Demian frio, o Demian pétreo, o Demian completamente inumano.

Sentou-se de frente para ele, tentando ser o mais suave possível e aproveitou aquele instante, olhando em seus olhos. Agora que estavam mortos, não lhe assustavam. Ou melhor, ainda lhe assustavam, só que de modo diferente. Davam-lhe desespero porque ela queria despertá-lo, não o queria daquela forma. Por alguma razão – talvez pelo local, talvez por estar um de frente para o outro – lembrou-se da vez em que quase o beijou. Sorriu um pouco, aquela parecia uma maneira divertida de acordá-lo, sobressaltando-o.

Lilith estendeu a mão, mas não o tocou. Foi aproximando seu rosto devagar e, antes de encostarem os narizes, parou. Não tinha coragem para tanto. De tocar aqueles lábios que pareciam mortos. Ela não queria aquele Demian. Foi estranho quando abaixou a cabeça, até a testa tocar no ombro dele. Sentiu que ele se moveu.

— Lilith... Está tudo bem? — ele murmurou. Ela fechou os olhos, assentido, o coração descompassado.

— Nunca mais fique desse jeito na minha frente, está bem? — falou com um tom um tanto quanto sôfrego. Não conseguia conceber a imagem de Demian morto em sua mente. As mãos foram parar nas costas dele e ela o estava abraçando – ela o estava tocando, algo que nunca fizera. Não pôde ver, mas os olhos de Demian estavam surpresos.

— Eu estava desejando sua vinda, sabia? — ele murmurou. — Esse é outro truque que eu vou te ensinar um dia...

Mas Lilith não queria saber daquilo.

Nunca mais, Demian.


Nota de uma Autora as 02:07 da manhã de 1º de janeiro de 2010: Desculpa, Hee, não consegui aguentar e tive que postar. Coisas que o Demian disse para a Lilith sobre Caim foram extraídas do livro, claro que eu modifiquei um pouco, mas enfim. Bom 2010 para vocês.

N/A²: Postando agora revisado. Obrigada, Anne.