Tinha se passado cerca de um ano desde que tínhamos decidido nos abrir uma com a outra. Desde que aquela alma fria e selvagem começou a me mostrar o seu lado mais gentil e manso. Desde que eu comecei a pronunciar "Elichi" em todos os dias de minha vida.

A princípio, o seu tom seco e as suas ações e réplicas não tão bem escolhidas me assustavam um pouco, mas era preciso apenas estender-lhe um sorriso compreensivo, para que ela deixasse sair a calidez de dentro de si. Eu passava os dias ensinando-lhe coisas japonesas das quais ela não sabia - comida tradicional, músicas, festividades, roupas... para ela, tudo parecia maravilhoso. Assim como ela também o parecia, para mim.

Conhecer o seu inquietante e interessante modo de ser havia se tornado o meu hobby favorito, sem dúvida alguma. Aquela bailarina russa de feições angelicais me cativava do amanhecer até o anoitecer. Já era uma rotina imaginá-la ao vivo e a cores a cada vez que a noite caía, antes de dormir. Meus sentimentos eram incertos, mas eu preferia pensar em minha Elichi do que em entendê-los.

Eu vou tentar me explicar, mas vai ser complicado me entender, se nunca sentiram aquelas batidas rápidas e fortes, como se o peito fosse explodir, se nunca notaram como as estrelas, com todas as suas constelações, giravam em torno de alguém, inclusive quando lhe telefonavam todas as noites, se nunca sorriram ao escutar a sua voz ou o seu nome.

Sempre nos revelamos um acaso cheio de intenções.

Eu não podia admitir que a conhecia tão bem quanto gostaria; eu mal me atrevia a rotulá-la como amiga, nunca tendo falado sobre o assunto. De qualquer modo, isso, sobre amizade, era algo que eu não entendia muito bem, e, pensando comigo mesma, era uma palavra muito curta para descrever todos os baques que o meu coração dava quando Elichi ria com aquela doce voz que somente eu tinha escutado.

Desde aquele encontro, nós começamos a nos ver todos os dias, na sala de aula, e nos intervalos. Usávamos desculpas bobas, como os deveres ou os estudos, para nos vermos. Todos os dias, eu acordava feliz, sabendo que poderia vê-la. Cada dia era um maravilhoso dia, só pelo fato de ela estar presente nele. Sua personalidade encantadora abria-se para mim a passos lentos, mas seguros.

Elichi mostrava ser uma jovem adorável, com um intenso caráter. Seu coração dourado era muito forte, tanto que, às vezes, era difícil tirá-lo daquela couraça de titânio que o mantinha a salvo.

Eu apreciava aqueles olhares de inveja que uma ou outra garota me disparava, por eu poder passar as horas com ela, eu me sentia afortunada. Elichi era muito admirada por todos, tanto pela sua inigualável beleza quanto pelas suas habilidades físicas e mentais. Às vezes, eu me punha a imaginar porque só conseguia pensar nela. Era irônico, mas verdadeiro. À medida que as tardes avançavam, o tempo que eu tinha para que a imagem dela entrasse e saísse da minha mente era maior. Sonhava em ver os crepúsculos com ela, em contar estrelas ao lado dela, e nunca acabar.

Somos feitos da mesma matéria que os nossos sonhos.

Isso nos torna reais ?

Fazia pouco tempo que tínhamos dado o passo de nos vermos fora da escola, e uma tarde começamos a nos encontrar para tomar um parfait: uma batida gelada de chocolate que Elichi nunca provara antes, e pela qual ela se apaixonou ao primeiro gole.

Os encontros na lanchonete do bairro de Akiba para tomar aqueles deliciosos parfaits tornaram-se, pouco a pouco, algo necessário para que nós nos desestressássemos das aulas e para tirar um sorriso de ambas. Eram parte de nosso dia-a-dia, assim como comer e estudar. Ir juntas para tomar aquele chocolate do qual ela tanto gostava. Ver a expressão de felicidade dela tomando a batida como uma criancinha, me derretia o coração, até mesmo nas tardes mais frias. Eu adorava ver os seus absurdos, desfrutar de seus dias poéticos, que, embora fossem muito escassos, não deixavam de existir, de vez em quando. Eu guardava, dentro de mim, cada uma das lembranças construídas ao lado dela.

Eu adorava conhecer coisas a respeito dela, eu sempre insistia a esse respeito e me empenhava ao máximo para conseguir, chegando a tal ponto que acabei por saber sobre ela mais do que a sua própria irmã; Arisa. Elichi morava com ela em um grande apartamento, perto do bairro em que eu me estabelecera. Elas também moravam com os seus pais, mas mal os viam, por causa do trabalho, tanto na Rússia, quanto no Japão. Eu não vi muitas vezes a pequena Arisa, mas ela parecia ser uma jovenzinha muito alegre, e com uma grande paixão por música pop e pelas Idols, que tanto estavam na moda agora.

Uma das muitas coisas que me chamavam a atenção em Elichi era o seu extremo vício por chocolate, de todos os sabores, mas preferencialmente negro. Eu me acostumei a levar sempre um pouco para a classe, para alegrar-lhe o dia, se ela estivesse de mau humor, mas acabava dando-o a ela, de um jeito ou de outro. Eu não conseguia resistir àquele olhar, minha doce Elichika merecia tudo isso e muito mais.

A sua incrível força de vontade fazia dela uma excelente aluna, com maravilhosas notas em todas as matérias. Eu apreciava demais o seu ser. Apreciava as suas palavras, o seu corpo, as suas expressões, o seu riso...

- Nozomi.

Levantei a vista do parfait de chocolate com amoras que eu estava bebendo para deparar-me com os lindos e inquietantes olhos azuis dela.

- Eu estive pensando em me candidatar para presidente do Conselho Estudantil...

Era uma proposta estranha, vinda da parte dela. Levando-se em conta a sua enorme dificuldade para mostrar um pouco de amabilidade com os demais estudantes, querer ocupar um cargo tão... aberto como esse simplesmente não encaixava com a personalidade dela. Ou pelo menos com a que ela mostrava às outras pessoas, já que comigo era diferente.

- Tem certeza disso, Elichi ?

Ela olhou para mim, confusa com a pergunta. Não devia ter entendido porque eu a fizera.

- Você vai precisar ter muito mais contato com as pessoas...

Um pequeno sorriso formou-se nos lábios dela, quase impossível de se ver.

- Não se preocupe com isso, eu estou fazendo isso para que todos possam mudar as suas opiniões sobre mim.

Ela parecia estar convencendo a si mesma com aquelas palavras. Dava a impressão de que pretendia acreditar em algo que até mesmo ela sabia que era impossível.

- Elichi.

- ...Sim ?...

- Não minta para mim.

Ela agachou a cabeça e colocou as mãos formalmente sobre o seu colo. Tinha uma expressão triste; com o olhar perdido no nada e uma careta de insatisfação.

- Por que você quer fazer isso, Elichi ?

Ela apoiou os dois cotovelos sobre a mesa, e, em seguida, o rosto entre as mãos. Tentou não me olhar nos olhos, mas não conseguiu. Assim como eu procurava freqüentemente os seus olhos azuis, ela procurava freqüentemente os meus olhos verdes.

- Sinto que posso evitar que fechem a escola... - ela procurou manter-se firme e não levantar a voz - Só é necessário alguém competente, que ponha motivação em seu trabalho...

Há alguns meses, havia se espalhado o boato de que a nossa escola secundária estava em processo de fechamento. Era um edifício tradicional, antigo e pouco moderno, a maioria dos estudantes preferia se matricular na nova escola do bairro de Akiba, a qual havia ficado famosa graças às suas instalações futuristas, e ao seu grupo de Idols conhecido nacionalmente: A-Rise.

Em suma, Elichi era aquele tipo de pessoa que iria lutar por nós todas, que faria o impossível e colocaria todas as suas forças para tornar realidade os seus objetivos pessoais. Desde que ela chegou, tenho sentido esta escola muito próxima, eu não estava nem um pouco surpresa que ela quisesse dar o seu melhor para salvá-la.

Eu sorri com gratidão, diante de sua atitude de preocupação.

- Você acha que realmente poderia conseguir ?

- É claro que sim ! - ela franziu o cenho ao dizer isso, como se não esperasse que eu não lhe desse total crédito. Deixei espaçar um leve risinho, diante da reação dela.

- Então, conte com a minha ajuda, Elichi - gentilmente, agarrei a mão dela, dando-lhe segurança e apoio. Ela me sorriu com aqueles lábios tão desejáveis... quer dizer, delicados; como demonstração de calma diante da situação.

Continuamos conversando sobre coisas sem importância, até que o entardecer começou a cair sobre o céu; então, pegamos os nossos livros e caminhamos juntas até à encruzilhada na qual nos separávamos, para irmos às nossas casas.

Era o momento do dia que eu mais odiava; o momento em que eu tinha que me despedir dela para só voltar a vê-la no dia seguinte. Parecia absurdo, ser tão exagerada com algo tão simples e normal quanto isso. Afinal, ela tinha de ir à sua casa para encontrar-se com a sua irmã, Arisa. Eu tinha de ir à minha casa, mas ninguém estaria me esperando quando eu chegasse.

- Bem, Nozomi, até amanhã.

- Até amanhã, Elichi.

Comecei a andar em direção à minha rua, embora após poucos passos, eu tenha parado e me virado para vê-la. Ela dava passos firmes, rápidos e seguros na direção contrária. Enquanto caminhava, o seu rabo-de-cavalo loiro movia-se para os lados. A saia dela também se movia, com o balanço das suas nádegas, ao caminhar. À medida que as nádegas se moviam a cada passo que ela dava, a saia bailava da esquerda para a direita, e, às vezes, subia um pouco...

"Por que eu estou pensando nessas coisas ?"

Pude sentir as minhas bochechas arderem, provavelmente eu estava vermelha como um tomate. Voltei a caminhar em direção à minha casa, e, quando cheguei, me joguei por cima da cama, tentando esquecer o que eu havia pensado antes. O que me foi muito difícil.

Eu escondi o rosto no travesseiro, tentando deixar a vergonha impregnada no tecido e assim poder ver-me livre dela. Como era de se esperar, não funcionou; por isso, decidi estudar, para tirar essas coisas da minha mente. A lição que estávamos tendo era muito tediosa, não demorou muito tempo até que eu começasse a ler monotonamente, sem nem mesmo saber do que se tratava. Eu passei assim grande parte da tarde, até que chegou a hora de fazer o jantar, então fui para a cozinha.

Eu não estava com muita vontade de cozinhar, ou melhor, sem nenhuma vontade. Abri o armário no qual eu guardava os legumes e esse tipo de coisa, e tirei uma embalagem de espaguete pré-cozido. Só precisei esquentá-lo no microondas, e pronto. Vantagens de se viver só; não era preciso preocupar-se tanto com a qualidade do produto, ou com sua estética.

Depois de jantar, eu fui novamente para o quarto e tirei o meu uniforme escolar para pôr o meu vestido de noite, um pouco similar a uma camisola curta, muito mais elegante e bonito. Desamarrei o rabo-de-cavalo para fazer uma trança, e, bem antes de eu me deitar, o telefone tocou.

- Alô ? - eu atendi, um pouco intrigada por receber um telefonema àquela hora, ainda mais por tê-lo recebido assim, do nada. Só os meus pais me telefonavam, muito de vez em quando.

- Boa noite, Nozomi.

Era a sua voz. Aquela voz tão suave e animadora, que eu tanto gostava de escutar. Sem perceber, eu comecei a sorrir como uma autêntica idiota. Pus o celular ainda mais perto do meu rosto, e respondi.

- Boa noite, Elichi ! - acho que meu tom de voz pareceu um pouco doce e meloso em excesso, mas não consegui evitar - A que se deve este telefonema ?

- Não posso falar com você, se eu quiser ?

Era muito difícil para mim tentar tirar aquele sorriso estúpido. Tentei falar como se não estivesse tão exageradamente contente, ou algo assim.

- Ah, sim, é claro que pode, Elichi - eu deixei escapar um risinho. Ouvi outra risada como resposta, do outro lado da linha.

- Você sabia, Nozomi ? Outro dia, eu me encontrei com Kotori Minami, a filha da diretora, e falei com ela sobre o Conselho Estudantil, e...

Elicchi começou a falar sobre um monte de coisas. Eu não tinha muita certeza de quais coisas, porque eu me perdia em sua voz, em seu tom, em sua respiração. Eu imaginava-a como se ela estivesse à minha frente, ou ao meu lado. Sussurrando-me ao ouvido.

- Você está me escutando ? O que você acha ?

- Sim, é claro. Parece fantástico, Elichi !

"Não, me desculpe. Eu não estava lhe escutando..."

O que você é me distrai daquilo que você diz.


Na manhã seguinte, depois de tomar o café da manhã e de me preparar, fui caminhando para a escola. Havia um pouco de vento, e bastante frio. Poderia se dizer que o inverno estava chegando naquele momento, por isso decidi pôr um cachecol para me proteger um pouco do mau tempo. Havia uma ou outra revoada de pássaros nos fios de alta tensão; todos juntos, dando calor uns aos outros. Naquele momento, eu invejei-os um pouco. Era uma boa desculpa para...

"Eu já estou pensando nisso de novo ! Tenho que fazer algo a esse respeito".

Pouco tempo depois, uns dez ou quinze minutos, eu cheguei ao local. Rapidamente, tentando passar o menor tempo possível ao ar livre, entrei no edifício e fui para a minha classe. Elichi já estava lá; sentada na minha mesa.

- Bom dia, Elichi !

- Bom dia, Nozomi. Espero não tê-la aborrecido muito ontem à noite...

- Oh, não, de jeito nenhum ! Eu adorei falar com você.

"Acho que soou como se eu estivesse eufórica por causa de ontem... tenho que fingir melhor".

- Bem, eu fico contente. Então, você acha uma boa idéia ir falar com Kotori Minami-chan para saber mais sobre o assunto ?

- Sim, é claro - "Perfeito; eu a incitei".

Tivemos aulas de Matemática e de Literatura antes do intervalo do meio da manhã. As duas matérias me pareceram muito tediosas, por isso eu me limitei a memorizar as dobras da jaqueta do uniforme de Elichi. Depois, no intervalo, nós fomos procurar essa tal Kotori Minami.

Aparentemente, ela era uma aluna do ano anterior ao nosso. Perguntamos para todas as garotas que nós vimos, e só o que descobrimos foi que ela tinha os cabelos castanho-acinzentados e os olhos dourados, um laço verde nos cabelos e a voz muito fina e doce. Mesmo sabendo como ela era fisicamente, encontrar alguém em meio a tantas pessoas que desconhecíamos, incluindo seus nomes, era quase impossível.

- Com licença, você conhece Kotori Minami ? - perguntou Elichi a uma garota que passava ao nosso lado, naquele momento.

- Ah, sim. Ela e Honoka foram atrás de suas jaquetas, elas voltarão logo. Precisam que lhe diga algo de sua parte, ou preferem esperá-la ?

O modo de falar daquela jovem me fascinou, ela era muito educada. Tinha os cabelos longos, de cor azul-marinho, e os olhos castanhos. Ela transmitia tranqüilidade. Parecia uma boa pessoa.

- Vamos esperar por ela, então.


N/T: Bem, não demorou tanto assim, mas aqui está o capítulo de fevereiro. Não sei o que acharam do capítulo 1, mas eu espero que tenham gostado dele, e que gostem deste...

E, só para deixar claro: para algumas pessoas, os primeiros capítulos da fic podem não encorajar a continuar a leitura, por ela se tratar de uma longfic; inclusive comigo, por pouco, não foi assim. Mas depois acontece uma reviravolta nela, e foi essa reviravolta que me incentivou a continuar, e, depois, a pedir a autorização da autora para traduzi-la.