CAPÍTULO I
— Como um dia é diferente do outro, companheiros! É segunda-feira, dezessete de agosto. Ontem tentávamos descobrir uma maneira de lidar com o racionamento de água e hoje o Serviço Nacional de Saúde diz que haverá uma tempestade no coração do Texas! Fique aqui na sua KDYL para saber mais novidades a respeito de...
Neville Longbottom desligou o rádio um segundo antes de parar o carro. Não precisava ouvir nada acerca do tempo. Uma tempestade mais catastrófica, já explodira sobre sua cabeça. Mas o locutor dissera algo interessante: vinte e quatro horas podiam fazer uma diferença enorme na vida de uma pessoa.
Incrível. No dia anterior, naquele mesmo horário, estava decolando até chegar a três mil pés de altura. E hoje poderia estar fazendo o mesmo, caso seguisse sua escala na empresa aérea Gulf-West. Mas, em vez de pilotar um avião 737, encontrava-se sentado atrás do volante do carro, tentando reunir coragem para enfrentar o futuro.
Se adiantasse alguma coisa, se o ajudasse a colocar as coisas em seus lugares, se o fizesse acordar do pesadelo, bateria a cabeça contra o painel mais de doze vezes. Mas infelizmente não era um sonho; estava acordado e a confusão em que se colocara não o abandonaria tão cedo.
— Essa é sua vida, capitão Neville Longbottom. Não ignore os fatos. Acalme-se e veja o que os anjos solenemente lhe reservam.
Até então, o que mais o afligia era permanecer em terra firme. Sabia da possibilidade de um desastre no céu, mas trabalhava duro e não pensava nessas coisas. Mantinha o autocontrole. Era o tipo de pessoa que fazia as coisas acontecerem. Um participante, não um observador.
Mas onde estava a força de seu pensamento positivo naquele momento? Deslizando para a penumbra.
Ficar sentado, divagando, de nada adiantaria. Nem resolveria seu dilema. Só havia um caminho a seguir: bater à porta de Luna Lovegood e dizer "Ei Luna, acho que é melhor eu pegar o bebê agora".
Nem conseguia falar corretamente. O certo seria dizer "meu bebê" ou "minha filha". Mas suava frio só ao pensar nisso. Se tivesse de pronunciar essas palavras, provavelmente teria um ataque cardíaco. Esse seria um bom fim para alguém que cortava os ares e era considerado o último bom homem disponível para o casamento...
Quanta ingenuidade! Tanto fugira que nem precisara passar pela cerimônia. Fora, sem preâmbulos, diretamente à paternidade. Se fosse sexta-feira, poderia tomar um drinque reforçado, para esquecer da vida.
Um movimento na esquina chamou-lhe a atenção. Viu Luna afastando um pouco as cortinas da cozinha. Sempre observadora! Só os céus sabiam o que pensava a seu respeito...
Houvera uma época em que não se importava com o que ela pensasse. Não achava agradável admitir, mas Luna não era a mulher certa para alguém como ele.
Com um suspiro pesado, abriu a porta do carro esporte e desceu. Não havia como fugir. Se não fosse adiante, se não entrasse, ela sairia. A coisa mais inteligente a fazer era encontrá-la, pronunciar o veredito e suplicar ajuda.
Atravessou os limites de sua propriedade, em direção a de Luna, e aproximou-se da pequena casa pintada de rosa e branco. No jardim, belíssimas flores davam mais vida à residência acolhedora. Vermelhas, brancas, amarelas... Nas janelas, floreiras e cortinas graciosamente se harmonizavam ao colorido. O lugar parecia fazer parte de um conto de fadas. Incluindo Luna.
A casa transpirava tradição. Neville sentiu urgência em afrouxar o nó da gravata e em desabotoar o colarinho, para aliviar o calor. Como regra, evitava aproximar-se muito dali, mas teria de aposentar essa rotina. Seria obrigado a bater àquela porta ao menos duas vezes ao dia, durante algum tempo. Aconteceria um milagre se não entrasse em pânico em algumas semanas.
"Apenas lembre-se de manter o jogo sob controle. Fale a respeito das más notícias, outros comentários, mas mantenha o ar de responsabilidade. Tudo o que está procurando é um acordo de negócios temporário."
Isso mesmo. Tinha de pensar racionalmente. Afinal, a cada dia levava centenas de pessoas, no jato, pelo continente. Certamente poderia conversar com uma mulher ardente por alguns minutos e conseguir o que queria.
Quase se convenceu. Mas então ela abriu a porta e seu riso deslumbrante o fez esquecer tudo.
— Nossa, Longbottom! Parece que você foi condenado à morte e está prestes a ser enforcado!
Aparentemente, as rédeas soltaram-se de suas mãos; as coisas não estavam acontecendo como antecipara. Contemplou-a furtivamente.
— Talvez eu esteja.
Os olhos cinzas de Luna brilharam.
— Então a nenê é sua? Quero dizer, é claro que sim. Qualquer pessoa, ao olhar para um bebê, sabe se é seu ou não. Basta avaliar as batidas do próprio coração. Mas... não houve nenhum telefonema da mãe? O que disseram na polícia? Deu uma parada no hospital, como sugeri?
Há muito tempo ele não via uma mulher tagarelar como uma adolescente em seu primeiro telefonema. Queria que ela o avisasse quando fosse sua vez de falar.
Sabia que isso soava indelicado, mas simplesmente não podia se conter. Quem precisava daquele falatório? E daqueles aromas, que o atacavam quando entrava na cozinha dela? Ficava cada vez mais aborrecido com tanta solicitude!
Tentou não prestar muita atenção à compota de frutas que estava sobre o fogão nem às bolachas e aos pães descansando no balcão. Luna era muito conhecida por suas habilidades culinárias. Era, entretanto, o café cheiroso o problema mais grave. Nesse momento, ele teve vontade de fugir.
No sábado anterior, quase enlouquecera com o cheiro de pão que emanava da janela de Luna. Devia ser muito difícil manter-se no peso ideal estação após estação, ano após ano, mas mesmo assim ela permanecia linda, perfeita, sem um só sinal de gordurinhas extras. Um verdadeiro mistério!
Subitamente Luna abriu a porta do forno e colocou algo sobre a mesa. Neville esticou o pescoço para observar.
— As bolachinhas de manteiga estão prontas.
Só então ele notou a avó de Luna ao fogão. Ela terminava de colocar leite numa mamadeira.
— O que está fazendo? — perguntou Neville enquanto Fiona Lovegood sacudia vigorosamente a garrafinha.
— O que acha? Estou preparando a mamadeira da nenê, é óbvio! Se não percebeu, é porque nada sabe sobre como cuidar de uma criança. Dentro do vidro está o leite, fervido e adoçado. Igualzinho ao que eu dava a Luna quando bebê, porque a mãe dela, pobre querida, não pôde cuidar da filha por muito tempo.
A mulher idosa, baixinha e gorducha, parecia particularmente orgulhosa do que fazia.
— Naturalmente. — Luna deu a ele um olhar com significado especial. — Você sabe que nunca serviríamos nada artificial para a pequenina.
Ignorando o comentário, já que não tinha uma pista do que responder, Neville apenas franziu a testa.
— Tem certeza de que é seguro? Os companheiros do hospital deram-me algumas latas de leite e disseram que deveria ser a única coisa a alimentar o... Quero dizer, a nenê.
Fiona grunhiu de uma maneira que não deixou dúvida do que pensava a respeito das pessoas ditas conhecedoras do assunto.
— Dê uma olhadela nele — murmurou para Luna. — Não sabe nem mesmo que hábitos alimentares pobres podem ser prejudiciais à saúde. Aposto como nunca experimentou uma refeição saudável, feita por sua própria mãe. Não ficaria surpresa em saber que compra comida em qualquer lugarzinho no meio do caminho.
— Vovó não é de entrar em lojas de conveniência e comprar qualquer coisa — explicou Luna.
Neville decidiu que não se importava muito com os hábitos de Fiona. Ela dificilmente teria algo interessante para lhe dizer em circunstâncias normais, agora, aproveitava-se da situação para criticá-lo e deixá-lo absolutamente fora de controle.
Às vezes não sabia qual das duas mulheres era pior: Luna, com sua imensa energia e eterna disposição para agradá-lo, ou Fiona, sempre de mau humor.
— Será que poderíamos parar com esta conversa? Há uma criança presente — Neville falou.
— Agora ele se preocupa com sua imagem... — Fiona balançou a cabeça, em sinal de desaprovação, e mediu-o da cabeça aos pés. — Não se preocupe, meu adorável senhor. Não vai ouvir mais nenhuma palavra de minha boca. Tudo o que eu queria dizer era que este bebê iria saber, pelo menos uma vez na vida, o que é ter uma boa alimentação.
Neville sentiu-se enrubescer.
— Podemos caminhar um pouquinho? — perguntou a Luna. — Sozinhos. — Fez questão de salientar a última palavra.
Ela mordeu os lábios por um momento antes de estender a mão para a outra mulher, que ficou imóvel durante alguns instantes. Depois, entregou-lhe a mamadeira.
— Ótimo. Preciso voltar para minha máquina de costura — disse Fiona. — Além disso, já équase hora de meu banho.
Então saiu, não sem antes dar à neta um olhar significativo. Constrangido, Neville permaneceu em pé, aguardando, enquanto a mamadeira esfriava.
— Vovó não quis ser tão rude. É que, além da epidemia de bebês que parece ter atingido New Hope, você veio à nossa porta com uma criança nos braços. Foi a surpresa do século.
— Como acha que eu me senti?
— Imagino. Você tentou me dizer antes, quando pediu para que ficasse com ela, mas não tenho certeza se entendi corretamente. Disse que alguém a deixou no degrau de sua casa, certo?
— Naquele cesto. — Fez um gesto em direção à mesa.
Ele imaginava que, quanto mais longe se mantivesse, maiores seriam as chances de um milagre acontecer. Quem sabe alguém chegasse e dissesse que fora um engano...
— E havia também o bilhete, que dizia "Tome conta do seu bebê". A palavra seu estava sublinhada.
— Sem nenhuma assinatura? Sem indicação de quando a mãe voltaria para pegar o bebê?
— Eu não sei se ela pensa em voltar. Não havia nada mais no bilhete. — Toda vez que Neville pensava nisso, sentia um pavor intenso e um frio na barriga.
— Quem faria uma coisa dessas? E bárbaro, cruel.
— Deve haver alguma explicação. A mãe deve estar aturdida com o que aconteceu. — Testando a temperatura do leite no pulso, Luna foi em direção à mesa.
— Venha aqui, meu amor. — Levantou a criança nos braços, enquanto colocava a mamadeira nos lábios pequeninos. A menina fez alguns barulhinhos. — Que linda, Neville... A cada minuto fico mais convencida de que deve ter sido seqüestrada. Nenhuma mãe desistiria de um presente como este. Não tem uma pista de quem possa ser?
— Acha que seria tolo em ir até a polícia ou ao hospital, se tivesse? Não possuo uma única pista!
Após um olhar aturdido, a expressão de Luna tornou-se fria. Dirigiu-se a uma cadeira confortável, para poder segurar melhor o bebê.
— Elementar. Você simplesmente deve voltar no tempo nove meses, adicionar alguns dias e lembrar-se de com quem esteve naquela época. Assim chegará à mãe da criança. Deu para entender ou gostaria que eu repetisse?
Será que Luna estava zombando dele, aproveitando-se de seu pavor?
— Ouça, tenho incomodado bastante Harry Potter para que me ajude a descobrir. — Ele e Harry haviam ido à escola juntos e seu amigo, pai de gêmeos, ousou mostrar-se imensamente feliz em saber da novidade. — Posso contar com ele.
— Bem... e então?
Luna estava ansiosa por uma resposta que Neville não tinha. Ele estudou o rosto delicado, pensando no que fazer. Descobriu, embaraçado, que nunca a havia observado com atenção. Sua pele era tão clara e sedosa quanto o leite que alimentava o bebê; o rosto, adorável com seus olhos imensos e um sorriso de parar o coração. Ironicamente, Luna sempre o aborrecera. Não era o tipo de mulher com quem namoraria ou gostaria de ter esse tipo de conversa.
— Não sei de nada.
— Por que não?
Porque estava apavorado. Porque não queria acreditar no que acontecera. Porque ela era a última pessoa com quem queria falar sobre isso.
Como não houvesse resposta, Luna fez um gesto em direção à parede, onde havia um telefone.
— Há um calendário bem ali. Ela só podia estar brincando.
— Luna, não importa a quais conclusões cheguemos, nem sei se o bebê é meu.
— Quer dizer que a polícia vai permitir que fique com a criança de outra pessoa? E o hospital não insistiu para que a levasse até lá, a fim de lhe dar cuidados especiais? — ela indagou, levantando as sobrancelhas. — Achei que fosse muito inteligente em deixar a pequenina comigo enquanto saía por uma hora ou duas, mas continuar evitando chamá-la de sua enquanto convenceu as autoridades a não pegá-la... Por que está agindo assim?
E ele havia levado a criança lá porque acreditara que Luna Lovegood apenas fosse tomar conta da garotinha... Onde estava a eterna boa samaritana, capaz de grandes feitos sem nada julgar? Neville percebeu que se encontrava em um mundo de fantasia quando pensara nisso. Luna queria saber quem era a mãe e não o deixaria descansar enquanto não descobrisse.
Mas, a despeito desse aborrecimento, a culpa que Neville sentia era intensa. Mais uma vez baixou a cabeça, envergonhado.
— Está bem — Luna falou com um suspiro. — E o que Potter disse?
— Exatamente o que você já adivinhou. Contei-lhe o que aconteceu e ele me falou que, se eu continuasse a insistir que a criança poderia não ser minha, então deveria deixá-la sob a guarda do Estado enquanto tentavam encontrar-lhe os pais biológicos ou arranjar alguém interessado em adotá-la.
— Mas você não nega que é o pai, nega?
A pergunta era um forte desafio e ele sabia que, se respondesse, se continuasse a pedir-lhe ajuda, as coisas nunca mais seriam as mesmas. Estava em uma encruzilhada; o caminho que escolhesse poderia mudar sua vida drasticamente, bem como o relacionamento com as vizinhas.
— Ei, Luna, não posso falar sobre isso.
— Ora, eu sei de onde vêm os bebês e como são feitos! Além disso, você precisa conversar com alguém, desabafar.
Neville deveria saber que a poderosa Luna era um pilar de lógica. Sempre desejou ser assim também; entretanto, parecia se dar melhor em assuntos subjetivos. Pessoas, especialmente mulheres, quando muito objetivas, deixavam-no nervoso. Pareciam tão seguras em suas teorias...
Fechou os olhos e sacudiu de leve a cabeça. Se Luna queria a verdade, então a teria. Talvez, se inundada com uma boa dose de realidade, parasse de olhar para ele como se esperasse uma solução mágica.
Luna contemplava Neville Longbottome sua luta em tomar uma decisão. A situação não era nova. Vira-o debater-se para lhe dar respostas sobre diversos assuntos ao longo dos anos em que eram vizinhos.
Neville era um norte-americano perfeito: muito bem-apessoado, olhos escuros e um belo sorriso, enfeitado pelo bigode. Vestido com o uniforme da Força Aérea, tornava-se uma figura devastadora.
Era, entretanto, igualmente mortal quando vestia jeans e camisa de flanela abotoada na frente. As fofocas de New Hope diziam que as mulheres se derretiam quando em sua presença, e ele parecia gostar do furor que causava. Sempre havia rumores a respeito de ter sido visto com uma vencedora de concurso de beleza ou uma bela divorciada. Infelizmente, Luna nunca estivera entre as felizardas.
Anos atrás, depois de recusar um convite para acompanhá-la a uma festa, Neville havia deixado muito claro que não pretendia namorá-la. Usara como pretexto o fato de serem vizinhos. Dissera também que ela, uma moça muito correta, era perfeita para grande amiga. Era típico de Neville agir assim. Tinha uma maneira toda especial de prender o coração das mulheres, fazendo-as guardar alguma esperança de um dia conquistá-lo. Ao menos fora assim nos últimos dez anos. Mas Luna nunca o vira levar uma garota para casa, o que a deixava mais tranqüila.
Tinha um pressentimento: a despeito do que Neville lhe dissera tanto tempo atrás, ela o perturbava. Talvez não tivesse a aparência cosmopolita que tantas mulheres prezavam, mas às vezes o flagrava olhando em sua direção com um brilho estranho nos olhos. Não era fácil definir; duvidava até mesmo que ele fosse capaz de decifrar aquilo. Mas certamente Luna o deixava pouco à vontade, hesitante, inseguro quando estavam a sós.
Não, ela não era desse tipo, mas planejava ser. Um dia. Talvez, porém, nem fosse preciso. Talvez bastasse apenas ter confiança em si mesma, a mesma fé que a ajudara a construir seu modesto mas promissor negócio. A chave de tudo era a paciência.
Há muito tempo sua avó lhe ensinara que o melhor pão não crescia antes do tempo. Da mesma maneira, quando fosse a hora certa, Neville abriria os olhos e perceberia que seria muito bom ficarem juntos.
Por outro lado, quem disse que uma moça não pode ser feliz sozinha? Ficou observando enquanto ele se aproximava do calendário e então percebeu que o bebê tinha acabado de mamar.
Neville virou as páginas várias vezes e subitamente as costas largas e fortes tremeram. Ele sabia, Luna adivinhou, sentindo um nó na garganta. Seria alguém conhecida? Gostava dela? Seria muito difícil lidar com isso, um verdadeiro pesadelo.
— Oh, não!
Foi apenas um murmúrio, que não teve o menor significado para Luna.
— O quê?
— Não posso acreditar!
— Estou com a prova disso nos braços. Você se importaria em me dizer a que conclusão chegou?
Quando ele finalmente se virou e a encarou, tinha o olhar vago.
— Ela não queria ser mãe, assim como eu não estou pronto para ser pai.
— Ela quem?
Sob o belo bigode, a boca tornou-se um risco de tensão.
— Savannah Sinclair.
Dentre todas as pessoas... logo ela! Luna sentiu-se ultrajada, e era demais pedir que ficasse em silêncio.
— Não! Oh, não, não e não!
Neville a encarou, atônito.
— Não?
— Diga que está brincando...
— Muito engraçado. Só porque ela é popular, não significa, que seja, digamos, promíscua.
Falava como um homem que perdera a cabeça e tinha de justificar sua atitude. Luna tentou se lembrar das histórias que ouvira a respeito da loura esguia, cuja ambição de fama e fortuna incluíam participar de todos os concursos de beleza.
Savannah tinha desenvolvido uma reputação questionável desde o minuto em que atingira a puberdade. Não fora nenhuma surpresa, portanto, o fato de ter deixado New Hope para tentar a sorte em Hollywood.
— Onde você a encontrou? — Luna perguntou, sem se importar em esconder o desgosto.
Neville a fitou como se estivesse confessando algo obsceno.
— Na reunião de ex-alunos, no outono passado.
— Ela veio, é? O que aconteceu? Por que não participou de um comercial de pasta de dentes naquele final de semana?
— De onde vem tanto veneno? — Ele deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos, andando de um lado para outro. — De qualquer forma, você era apenas uma criança quando estávamos no colegial. Nem a conheceu.
Luna estava muito furiosa para conseguir se lembrar direito, mas Neville devia estar certo. Naquela época, havia acabado de chegar à cidade para morar com a avó, após a morte trágica dos pais em uma viagem de negócios.
Suspirou. Era melhor amansar o jeito apimentado como se referira a Savannah; não tinha o direito de tirar conclusões precipitadas a respeito da moça que não conhecera, exceto pela reputação e por vê-la na cidade. Qualquer reação negativa seria apenas fruto de um ciúme descontrolado.
Olhou para a nenê, grata por ela não ter nenhuma semelhança com aquela mulher. Seria mais fácil perdoar Neville.
— Está certo. Foi há muito tempo.
— Não estou dizendo que Savannah foi perfeita.
Boa idéia fazer esse comentário; isso o salvou de receber uma mamadeira vazia na testa.
— Eu não deveria tê-la condenado com tanta rapidez — respondeu Luna com um sorriso doce. Poderia, entretanto, imaginar o que a avó diria a respeito. Suas últimas observações sobre Neville o haviam pintado como lobo em pele de cordeiro:
— As duas únicas coisas boas que se pode dizer a respeito do homem, Luna querida, é que não finge ser o que não é, e que tem uma aparência magnífica quando veste aquele uniforme.
Não, sua avó não gostaria de saber que a mais notória exibicionista de New Hope juntara-se ao lobo da cidade para fazer aquela adorável criança. Novamente teria de ouvir uma palestra enorme sobre como desperdiçara anos de sua vida sonhando com ele.
— Não estou negando que Savannah seja uma mulher muito sensual — Neville disse, evitando encará-la.— A coisa é... Bem, onde quer que ela vá, a reputação a segue.
— Você sempre a quis — Luna acusou, embora odiasse admitir.
— Aos dezessete ou dezoito anos, com meus hormônios saltitando? Por favor, Luna! — Fez uma careta. — Acho que voltei àqueles tempos quando ela olhou para mim na reunião.
Luna entendia a atitude dela. Vira Savannah em alguns comerciais e tinha de admitir que estava com uma aparência maravilhosa para seus trinta anos.
— Valeu a pena?
Neville considerou a pergunta durante alguns momentos, o olhar finalmente pousando no bebê.
— Pelas circunstâncias, não acho ser essa uma pergunta que deva ser respondida.
Certo novamente. Luna decidiu que deveria redirecionar a conversa, afastando-a de Savannah. Pelo menos no momento.
— Quer dizer que hoje não trabalhou?
— É claro que não. Ser piloto de linha nacional não é exatamente como dirigir carros em um estacionamento. Se não faz seu vôo, simplesmente não consegue pegar o próximo disponível e assim por diante.
— Mas você ligou para explicar que houve uma emergência. Certamente eles compreenderam.
— Sim, mas não querem que seus funcionários habituem-se a arranjar desculpas para não trabalhar.
— Quer dizer que está com problemas?
— Não exatamente, mas preciso colocar minha vida em ordem, e depressa. Você sabe, sempre há muitos profissionais qualificados aguardando para pegar seu emprego. — Viu Luna colocar a cabeça pequenina em seus ombros. — O que está fazendo agora?
— Ajudando-a a arrotar. — Com muita suavidade, dava tapinhas nas costas da criança, e em segundos um barulhinho se ouviu. Luna sorriu ante a expressão aturdida de Neville. — Ouviu?
— Sim.
— As vezes um pouquinho do leite volta, e então é necessário colocar um guardanapo ou uma fralda nos ombros, para não sujar as roupas.
— Onde aprendeu isso?
A pergunta soou como se o aprendizado só pudesse ter ocorrido se ela fosse membro de uma sociedade secreta. — Algumas de minhas amigas já tiveram bebês, e há diversos programas de televisão, revistas e jornais dando essas informações. Não tem prestado atenção ao que ocorre à sua volta, Longbottom? Ele a fitou, sentindo-se culpado.
— Acho que não. Obviamente vou ter de fazer um curso. A menos que coloque as mãos em Savannah. — Os gestos indicavam que queria enforcá-la. Confuso, repreendeu-se: — De que estou falando? Que diferença faz descobrir a velocidade com que conseguirei aprender a tomar conta de um bebê? Tenho um emprego que me leva a todo o país e me deixa, muitas vezes, quatro dias da semana longe de casa. Não posso levar uma criança em um jato 737!
Luna não podia ter pedido uma oportunidade melhor.
— Gostaria que eu tomasse conta dela enquanto estivesse fora?
A expressão dele foi um misto de alívio e incredulidade.
— Quer me ajudar? Mesmo sabendo quem, provavelmente, é a mãe desta criança?
— Fico feliz que tenha colocado as coisas dessa forma. — Luna era honesta o suficiente para admitir que não gostava daquela mulher. O bebê sorria, tranqüilo. — Mas o caso é que a menina não tem culpa do que aconteceu e... eu realmente gosto de um de seus pais.
— Oh, Luna! — Neville ajoelhou-se em frente, a ela e pegou-lhe uma das mãos. — Não posso nem expressar o que sua ajuda significa para mim. E vou lhe pagar, é claro.
Luna ficou indignada. Tirou a mão que estava entre as dele.
— Não vai, não! Para sua informação, adoro crianças e tê-la ao meu lado não será uma inconveniência.
— Mas, querida, você tem seu negócio para tocar.- Luna forçou-se a manter a calma.
— Não se importe com meus afazeres, não se preocupe. Caso não saiba, as mulheres têm provado ser muito capazes de fazer ambas as coisas há séculos. Tudo o que lhe peço éque pense duas vezes sobre localizar Savannah. Ela já provou que tipo de mãe é. O que acha que vai acontecer se lhe devolver a menina? Provavelmente vai enviá-la para adoção. Sua filha!
Neville começou a tremer um pouco, os olhos repletos de raiva.
— É melhor que a maldita não faça isso! — Mas acreditava que Savannah poderia fazê-lo. — Seria um absurdo.
Não havia dúvidas de que a mãe vira o bebê e a maternidade como algo que poderia atrapalhar sua vida social, algo que a faria parecer mais velha, menos sedutora do que uma aspirante a atriz deveria ser.
Luna deu de ombros.
— Talvez... De qualquer forma, pense bem. E, enquanto cuida disso, importa-se em me dizer como devo chamar este pequenino anjo?
