— Eu quero metade do Lil's Beach em troca da quantia à vista.
— Metade?
Lily ficou atônita. Ela não tinha pensado numa percentagem tão grande, mas também não havia avaliado a oferta em detalhes.
Ela se levantou para evitar o olhar fixo de James. Cruzou o escritório e foi até a janela e se pôs a olhar os iates, sem, na verdade, conseguir enxergá-los.
A ideia de abrir mão do controle do Lil's Beach era assustadora. Ela se virou para encará-lo.
— Isso significa que eu teria de compartilhar todas as decisões sobre o restaurante com você?
— Com certeza — respondeu ele calmamente. — Mas também significa que você vai salvar o Lil's Beach sem ter de apelar para a sua família, além de poder contar com a minha experiência no ramo.
— Você e eu teríamos de trabalhar muito proximamente, todos os dias — disse ela.
— Isso nunca seria um sacrifício para mim, Lily — disse ele lentamente.
Aquelas palavras aceleraram os batimentos cardíacos de Lily. James a estava provocando, mas ela não podia sorrir em resposta ao flerte. Ele era sexy e atraente e com certeza a perturbava. Ela tinha gostado muito de passar a noite na companhia dele até há poucos minutos, mas assumir uma sociedade era algo bem diferente.
Sua fama de destruidor de corações era amplamente difundida e Lily não queria ser a próxima da lista. Ela gostava da sua independência. Não estava nem um pouco disposta a confiar cinquenta por cento do seu restaurante a um homem que ela mal conhecia, mas a oferta que ele lhe fizera continuava pairando no ar como uma promessa de salvação.
Ele poderia cobrir a sua dívida monstruosa e ela não teria que pedir empréstimos e nem se afundar com os juros.
— Essa é uma oferta muito generosa. Por que é que você está me oferecendo essa ajuda? Afinal, nós somos concorrentes e mal nos conhecemos. Como é que eu posso confiar em você? — perguntou ela olhando no fundo daqueles olhos castanho esverdeados indecifráveis.
— Dinheiro vivo na mão é um bom indício de confiabilidade, você não acha? — perguntou ele com um sorriso.
— Dois milhões de dólares sim — disse ela mais para si mesma do que para ele.
— Você não precisa tomar nenhuma decisão agora — disse ele. — Minha oferta está feita. Pense a respeito. Você pode me investigar e conversar com meus funcionários.
— Eu tenho que decidir logo. Você conhece muito bem as necessidades diárias de um restaurante. Nós podemos perder o crédito na praça.
— Uma Evans? Seu nome ainda vai garantir o seu crédito por muito tempo. Se quiser saber um pouco mais sobre mim, pode ficar um dia no El Diablo, observando o meu trabalho.
James estava sendo bastante razoável, mas Lily não estava achando certo aceitar aquela proposta. Contudo, não conseguia deixar de olhar para a pasta repleta de contas que não haviam sido pagas e cujo montante crescia a cada dia.
— Eu não estou podendo me dar ao luxo de esperar mais — respondeu ela, com sinceridade.
— Faça como achar melhor. Você já conhece a minha oferta. Pense a respeito.
— Essa é, na verdade, a minha única salvação — declarou ela, abruptamente, perguntando-se se algum dia conseguiria comprar de volta a parte dele, ou se aquele seria um acordo permanente.
— Alguma pergunta?
— Em que nível você pretende se envolver na direção do restaurante?
— Eu gostaria de vir diariamente aqui até conhecer toda a equipe e os detalhes do funcionamento do restaurante.
A perspectiva de estar constantemente em contato com James a deixou em brasa. Será que ela ia conseguir preservar o seu coração trabalhando ao lado de um homem tão charmoso? Financeiramente, a oferta era a resposta às suas preces. Ela não tinha nenhuma outra chance de salvar o Lil's Beach além da oferta de James.
Dentro de quatro dias, Lily precisaria de fundos dos quais não iria dispor. Ela poderia fazer um empréstimo para se virar por algum tempo, mas Nicholas acabaria tomando conhecimento de tudo.
— Lily — disse James, trazendo-a de volta ao presente. — Leve o tempo que precisar para pensar a respeito. Se achar melhor, posso lhe fazer um empréstimo, enquanto você avalia a minha oferta.
— Obrigada, mas não tenho realmente nenhuma outra opção. Eu aceito a sua prosposta — respondeu ela, sentindo que estava selando o seu futuro por um bom tempo antes de poder reaver o controle total do restaurante, se é que isso um dia viria a acontecer. Será que ela estava vendendo a alma ao diabo?
— Esplêndido! — exclamou ele, dando a volta na mesa e lançando-lhe mais um daqueles brilhantes e irresistíveis sorrisos que davam fim a qualquer pensamento obscuro da parte de Lily.
James pousou as mãos suavemente nos ombros dela.
— Fantástico! Esta sociedade vai ser maravilhosa e você vai conseguir manter o seu restaurante.
— Você quer dizer que eu vou dividir o Lil's Beach com você — retrucou ela, olhando fixamente para ele.
Ele estava a poucos centímetros de distância dela. Sua barba estava bem feita e seu lábio inferior era carnudo e sensual. Ela podia sentir o cheiro de sua loção após-barba e tinha consciência do calor de suas mãos atravessando a seda de sua blusa. Ele, com certeza, era o homem mais bonito que ela já havia conhecido, e a idéia de ter de resistir ao charme dele para poder trabalhar ao seu lado a deixava um pouco temerosa.
— Eu aposto que a clientela feminina vai aumentar muito daqui para frente — comentou ela, recebendo mais uma daqueles sorrisos desconcertantes.
— Eu notei um número bem maior de homens esta noite.
— Isso não vai durar muito tempo.
— Não precisa ficar assim tão triste. Avise-me, se por acaso mudar de idéia. Nós ainda não consumamos nada — disse ele, olhando-a bem de perto.
Aliviada, ela respondeu:
— Acho que estou em pânico por abrir mão de parte do Lil's Beach.
— Tente não se concentrar naquilo que está perdendo, e sim, no que está ganhando. Você está salvando o Lil's Beach, e ganhando um parceiro bastante experiente — acrescentou ele, sorrindo mais uma vez, fazendo-a lembrar por que é que tantas mulheres se sentiam tão atraídas por ele.
— Quem poderia questionar a situação colocada dessa maneira? — perguntou ela, sorrindo. — Tudo foi muito rápido. Eu preciso de algum tempo para me acostumar às mudanças.
— Pois eu prevejo que nós vamos ganhar muito mais dinheiro juntos do que jamais ganhamos — disse ele com uma voz profunda e grave. — Você vai ver — prosseguiu ele, apertando os seus ombros para depois soltá-los e colocar as mãos em seus quadris. — O que você acha de nos encontrarmos amanhã de manhã para assinarmos o contrato?
— Está bem.
— Nós faremos as coisas no ritmo que você quiser, certo? Avise-me se não estiver satisfeita com alguma coisa.
Lily respondeu com um meneio de cabeça, sentindo-se mais segura a cada uma das afirmativas dele e torcendo para que elas fossem mesmo sinceras.
— Você pode voltar atrás a qualquer momento até assinarmos os papéis e eu depositar o dinheiro na sua conta. Uma vez assinado o contrato, porém, eu vou exigir que você mantenha o seu compromisso, tudo bem?
— Eu acho muito justo — respondeu ela, incapaz, porém, de demonstrar o mesmo entusiasmo.
— Bem, pelo que eu pude entender, nós temos que andar depressa, não é?
— Isso mesmo — respondeu ela, pensando outra vez na sua família e no que eles já sabiam a respeito da sua situação. Será que eles iam se opor à sua sociedade com James?
— O que você acha de avaliarmos o contrato amanhã, às 9h, antes de nos encontrarmos com nossos advogados? — perguntou James.
Lily consultou a agenda.
— Às 9h está ótimo para mim. Eu vou tentar marcar com o advogado de nossa família para amanhã à tarde — disse ela pensando em Brandon Jordan. — Eu confio muito nele e sei que não vai contar nada aos meus irmãos por conta do sigilo profissional.
— Vou entrar em contato com o meu também e dizer que se trata de uma emergência. Tenho certeza de que ele vai rearranjar os horários para me encontrar.
Lily retirou um cartão de Brandon de sua gaveta e o estendeu a James, dando um passo para trás ao perceber o quanto ele estava perto dela. A sedução estava estampada nos olhos dele.
— Eu não mordo, embora até ache a idéia interessante — disse ele.
Ela riu e pegou mais um cartão.
— Este é o meu cartão, com o número do meu celular e o da minha casa.
— Eu também vou lhe dar o meu — disse ele, tirando um cartão do bolso e inclinando-se sobre a mesa para escrever. Lily aproveitou que ele estava de cabeça baixa para admirar o seu cabelo espesso e escuro. Ele então ergueu a cabeça e a flagrou olhando para ele.
— Talvez fosse melhor fazer a reunião no escritório do seu advogado. Eu não quero correr o risco de cruzar com os meus irmãos no escritório de Brandon — disse Lily.
— Ótima idéia.
Ela mordeu o lábio inferior.
— Há ainda uma coisa que eu gostaria de lhe pedir — disse ela. — Você concordaria em manter essa sociedade em sigilo por algum tempo?
Ele deu de ombros.
— Não vejo problemas.
— Isso não tem nada a ver com você — disse ela prontamente. — O problema é a minha família. Se nós não fizermos um anúncio oficial, o risco de eles ficarem sabendo do desfalque diminuiria consideravelmente.
— Eu compreendo perfeitamente. Família é uma coisa muito boa, mas às vezes tudo o que a gente quer é que eles nos deixem cuidar das nossas vidas sem muita interferência. Mas o que é que você vai dizer à sua equipe para justificar a minha presença diária por aqui?
Ela pensou por um momento.
— O que você acha de dizermos a eles que você está me dando uma espécie de consultoria?
— Por mim, tudo bem — respondeu ele, sorrindo para ela. Depois ergueu o queixo dela, fazendo o seu coração acelerar. — Está vendo? Nós podemos trabalhar muito bem juntos.
— Você é muito bom para ser verdade — disse ela, perguntando-se se deveria pensar melhor sobre o assunto durante o fim de semana.
— Não sou não. Simplesmente estou no mesmo ramo que você, tenho dinheiro para investir e essa parece ser uma excelente oportunidade para mim também. Nós vamos nos dar muito bem — disse James com uma voz rouca que fez todo e qualquer pensamento referente a negócios desaparecer imediatamente da cabeça de Lily.
— Eu vou lembrá-lo desse comentário quando nós tivermos a nossa primeira briga — respondeu ela.
— Brigar com você? Nunca! — exclamou ele enfaticamente, baixando os olhos até a boca de Lily, quase fazendo seu coração parar de bater por um momento. — Nós vamos fazer as coisas do meu modo — disse ele provocando-a com outro sorriso charmoso.
— E você acha que vou ceder a todos os seus caprichos? — perguntou ela, sedutoramente, fazendo algo luzir nas profundezas dos olhos dele e o seu sorriso desaparecer. Ela sabia que não deveria flertar com ele, mas estava achando impossível resistir à tentação.
— Se eu pudesse ter apenas um desejo satisfeito... — começou ele.
Ela o interrompeu.
— Ele seria o de que eu cedesse aos seus caprichos! Ora, James, o SoBe está cheio de mulheres lindas e atraentes que estão dispostas a ceder a tudo aquilo que
você lhes pedir. Você parece flertar por vício. Eu já vi muitas fotos suas acompanhado de mulheres deslumbrantes.
— Você não perde para nenhuma delas — disse ele, suavemente, estudando os seus traços.
Ela riu.
— Quer dizer que os galanteios fazem parte do nosso trato?
— Só se desejados — retrucou ele.
— Nós temos que tratar de negócios, lembra?
— Essa minha sócia prática... — provocou ele, passando o indicador pelo rosto de Lily, fazendo o seu coração acelerar.
Com muito esforço, ela se afastou dele, deu a volta na mesa e disse:
— Nós podemos anunciar a nossa sociedade mais tarde, quando as coisas já estiverem mais estáveis. Podemos até fazer uma festa para comemorarmos.
James colocou as mãos nos quadris novamente.
— Eu não preciso de festa. Estou feliz com o nosso acordo. Lembre-se: não há mais dívidas.
— Vou tentar.
— Bem, vou indo — disse ele, dirigindo-se à porta.
— Eu o acompanho até a saída — disse Lily, apressando-se para acertar o passo com o dele.
James segurou a porta para ela passar e ela teve a sensação de que a última hora havia mudado a sua vida para sempre.
— Nós poderemos repassar todas as cláusulas do contrato pela manhã. Tenho certeza de que os nossos advogados também vão nos dar boas sugestões — disse ele, embora ela mal estivesse conseguindo manter a atenção naquilo que ele estava dizendo.
Quanto tempo será que ela levaria para se acostumar com tudo?
Lily ainda esperou até que o manobrista trouxesse o carro de James.
— Até amanhã — disse ele, lançando-lhe um último sorriso antes de entrar no carro.
Sem esperar para vê-lo partir, Lily correu para o seu escritório.
James seria o seu novo sócio. A idéia de trabalhar perto dele diariamente a aqueceu por dentro. Ela tinha adorado flertar com ele.
— Ao sucesso, à minha nova sociedade e à salvação do Lil's Beach — exclamou ela, de braços abertos, no escritório vazio. Seu alívio era enorme.
Lily correu para o telefone para marcar um horário com Brandon.
Ele entrou em contato com o advogado de James e fechou um encontro com todos para as duas das tarde do dia seguinte.
Quanto mais cedo o dinheiro fosse depositado na sua conta, mais cedo ela estaria livre da possibilidade de sua família ficar sabendo do desfalque.
Ela ainda ligou para Edward Finnigan, o novo contador, para lhe contar as novidades. Depois pôs-se a fazer uma lista de pendências. O telefone tocou e ela teve um sobressalto ao ouvir a voz de James. Ele queria saber se podia ligar para ela mais tarde, para conhecê-la melhor. Sorrindo, Lily se recostou na cadeira e disse que estaria em casa pouco depois da uma da manhã.
Depois de tudo combinado, ela colocou o telefone no gancho e retomou a lista, cantarolando. Foi quando alguém bateu à sua porta.
— Entre — disse Lily.
Seu gerente colocou a cabeça na porta.
— Um ator famoso veio festejar o aniversário aqui, no restaurante. Ele concordou em ser fotografado e eu achei que você ia querer sair na foto.
— É claro — disse ela, pensando na publicidade que renderia para o restaurante. Ela se levantou, ajeitou a saia e seguiu Remus.
Era quase uma da manhã quando Lily entrou em seu apartamento numa área particular do SoBe, feliz por estar novamente em casa depois de um dia de agitação.
Ela tomou um banho restaurador, colocou um CD no aparelho e ficou admirando o mar de sua janela, relaxando pela primeira vez desde que soubera do desfalque.
Foi até o closet e escolheu um conjunto branco de linho e uma blusa de seda azul-marinho para usar no dia seguinte. Ela se olhou no espelho, segurando a roupa à sua frente, mas tudo o que conseguiu ver foi James. Ela tinha gostado dele. Tinha reagido de uma forma intensa às suas investidas e acreditava que ele também havia ficado mobilizado. Lily riu alto. James provavelmente reagia da mesma forma com todas as mulheres que cruzavam o seu caminho. Bonito e sensual, ele era tudo o que as mulheres mais adoravam na vida.
— É melhor você se conter, moça — disse para si mesma, em voz alta.
O telefone tocou. Ávida, ela se jogou na cama para ouvir mais uma vez a voz de James.
Eles conversaram durante quase uma hora. Lily não conseguiu dormir depois disso, pensando em tudo o que eles haviam dito um ao outro.
As horas seguintes foram de pura inquietação. Ela sonhou com James, e acordou no meio da noite, pensando nele. Adormeceu então novamente, para logo depois abrir repentinamente os olhos em meio à escuridão e sentir um arrepio percorrer todo o seu corpo.
Ao ver que já eram quase 5h da manhã, Lily se sentou na cama, assolada por pensamentos sombrios e temores. Será que ela havia sido apressada demais na sua decisão? Será que havia sido muito crédula novamente? Será que havia alguma intenção secreta por trás da oferta de James?
Ela afastou o lençol e começou a caminhar pelo quarto. A cada dúvida que a assolava, ela tentava se lembrar de que não havia encontrado solução para o seu dilema até a chegada de James. Pensou repetidas vezes na promessa que ele havia lhe feito de que ela poderia desistir do acordo até a hora em que eles assinassem o contrato. Ele tinha se disposto a lhe dar mais tempo para pensar em sua oferta e investigá-lo e esse não era o comportamento de alguém que estivesse com segundas intenções.
Olá gente! Olha aí, James foi a salvação de Lily e ela aceitou a proposta. Faço minha a pergunta de vocês no que vai dar essa parceria? huuuum ;) Muito obrigada Joana Patricia, Dafny e Lady Miss Nothing pelos comentários e elogios maravilhosos, amei, amei :*
