Aviso: esta história possui violência excessiva, menção a estupro e uso de drogas. 18+. Se ainda tiver curiosidade,

Boa leitura!

Fim.

O tremor é leve e imperceptível para alguns, o martelar de um prego assimila-se ao estado do meu coração. Pulsante, infinito, barulhento. A negridão que te consome no período de desmaio é uma leve bruma, começa com algum cheiro peculiar. Ao menos pra mim. Algodão doce é o que cheiro. Fizemos algodão doce uma única vez, quando num arriscado movimento, minha mãe nos esgueirou pra fora do acampamento, vestiu-me em roupas que eu nunca havia visto e me disse que teríamos a melhor aventura de todas. E tivemos. Andei numa coisa chamada roda-gigante, comi o tal do algodão doce, brincamos de tiro ao alvo e dei pra ela um enorme bicho de pelúcia, foi o paraíso durante uma hora. Está é a única lembrança concreta que eu tenho dela, de um dia incrível num parque de diversões. E é com essa lembrança que eu bato a cabeça no concreto.

. o . . o . o . o . o . o . o . o . o .

Virginia é o nome da novata. Ela é alta e bonita, poderia ser mesmo uma das modelos da revista de Pauline. Com um cabelo volumoso louro e olhos azuis. Eu já a odeio. Não pela beleza, mas sim por que essa intrusa mal chega e já é escalada pro Plantão. A dita cuja só tem dezessete anos. Não por isso, faço quinze em um mês. Estou mais do que preparada pra entrar pro Plantão ou pra Rota. Mas Charlie não acha que esteja preparada. Apta. Falando de seriedade.

- Isto é tão injusto.

Bree sussurra do meu lado. Suspiro. Claro que é. Eu estou sendo preparada a minha vida inteira exatamente pra isso: caçar, matar, sobreviver, cuidar. Virginia, pela fofoca que corre, tem marcas de mordidas em boa parte do corpo. Pescoço, pulsos, pélvis. Os meninos ficam alvoroçados. Ninguém nunca saiu de um covil. Ninguém que tenhamos visto, claro. Somente os mais velhos presenciaram o inicio da guerra e nem muitos deles saíram vivos pra contar história. O velho, meu pai, é um deles. Talvez por isso Charlie seja tão protetor. Ele viu o horror dos fins do tempo.

O inicio do fim.

Mas colocar Virginia no lugar que é destinado pra mim não ira ajudar em nada, na verdade ele está selecionando. Um líder não seleciona. Ele escolhe o melhor pra cada posição. E mesmo que nessa rotatividade de merda a minha idade me limite muito, ficar aqui junto com as crianças é sem pé nem cabeça. Como já visto minha vocação não se encontra ao redor das mesas de ensino. Bree, minha melhor amiga, também mostrou pouca aptidão pra tal. Ela é uma curandeira. Eu uma guerreira. Ao menos é o que eu gostaria que o velho enxergasse, mas a novata tetuda alcança maior prestigio por ter saído de um covil. Até a palavra me faz arrepiar a alma. Odeio Virginia, até a extensão chegar ao ponto de piedade. Não demonstro o ultimo, odeio que tenham pena de mim. Respeito aos seus inimigos você deve mostrar, o velho diz.

- Claro que é. – Repito meus pensamentos, mastigando minha boca. – Mas isso não vai ficar assim.

- Ah é?

Há ceticismo em seu tom. Dou de ombros.

- Sim. Vai haver uma brecha, Bree e quando houver nós duas seremos as próximas da linha.

- Espero que você esteja certa. Estou farta de ver os meus morrerem e ficar impotente.

Dou uma batidinha nas costas de Bree, tentando consola-la. Meses atrás nosso médico, um verdadeiro, morreu. Chance era o melhor. O cara me dava pirulitos até os dias de hoje, qual é. Mas isso não importava por que ele era um pai pra Bree. E ela, além de sua filha de coração, era sua aprendiza. Com este rosto angelical você nem pensaria que Bree é uma maquina de costurar feridas monstruosas e de te abrir no meio pra dissecar. Bem, esse não era o trabalho de Chance, o que nos deixava com uma única médica, que não é bem uma médica e sim uma louca. Carmen, antes dessa putaria toda, era uma legista. Bree, Daniel e Louise trabalhavam com Chance e Carmen, já que os dois apresentavam melhor desenvolvimento pra área da saúde.

A divisão de trabalho é bem simples e agradeço por isso. Além da minha boa mira não tem muito mais coisa que consiga fazer sem um arranhão ou outro. Sou desastrada, mas, o que não faz de forma alguma justo, meu pai achar que não sou apta. Ah... Ele iria ver.

...

No dia seguinte acordei cedo, antes de quase todo mundo – cara, não tem como vencer o velho nisso. Parece que ele não dorme! – e me vesti. Sai correndo pra fora da tenda, com um sorriso no rosto. Estava fazendo frio e lá estava ele. Todo vestido com o rifle em mãos. Eu ainda não era autorizada a ter arma, além de a munição ser escassa, a minha idade não me permitia. Mas quem precisa disso? Eu tenho meu arco e é tudo do que preciso.

- Pai... Ó pai...

Chamei sem resposta. O sol estava nascendo, lindo e extravagante. Do lado do meu pai estava Ephraim, nosso mensageiro. Ele parecia bem mais velho do que realmente era. As olheiras roxas acentuando sua pele morena. Vi sua boca se mover, os lábios finos trazendo desgraça. Se Ephraim estava fora todo mundo ficava em expectativa, se ele voltava, todos ficavam com medo das noticias que sua boca trazia. Corri pra eles, tomando cuidado pra não tombar no chão. Meu pai também tinha pesar no rosto, senti lagrimas de medo voar pra superfície do meu rosto, felizmente consegui supri-las antes do destino final, mastigando meus lábios, a conversa entre os dois findada antes de eu estar ali. Olhando em expectativa.

- O que houve pai?

Alguém tinha que quebrar o silêncio. Charlie suspirou – ele sempre suspirava quando achava algum assunto exaustivo ou chato – e me olhou. Os olhos do velho são um espelho pros meus. Olhamo-nos, Ephraim nos olhou e, após um minuto, saiu.

- Pai?

Tentei novamente. Ele pôs a mão no meu ombro e me virou.

- A última missão deu errado. Eles morreram. Acorde todo mundo Isabella.

Concordei fracamente e corri de volta pro nosso pequeno vilarejo. População: 108. Agora? Menos três.

William, Harry e Diane estão mortos. William não tinha família. Ele vivia conosco e não era de Forks. Não sei nem de onde ele veio. Um dia salvou um dos meninos de ser assado de vampiro. Mas isso tinha sido numa época em que nem chutava no útero da minha mãe. Harry era casado com Sue. Somente Seth estava conosco. Leah, sua filha mais velha, estava em outra resistência muito longe de Washington e ainda mais de Forks. Diane tinha filhos, mas os dois haviam falecido muito tempo atrás. Três pessoas, um grupo menor e, mesmo assim, mortos. A última vez que tínhamos mandado um grupo grande somente parte havia voltado, decidimos, então, mandar um pequeno grupo. Todos morreram. Luto ou não, precisamos de comida, água potável e algum medicamento. Ervas não curam tudo.

O alvoroço foi generalizado. Caramba. Mulheres chorando, um Seth furioso, com outros homens esbravejando, mães tirando as crianças menores daquele tumulto, uma briga estourou entre Charlie e Billy Black. A coisa estava feia. Jacob me puxou do meio do tumulto e eu o acompanhei. Sempre tinha algum do gênero, tendo um sistema democrático estabelecido devíamos tentar ouvir a opinião de todos. Ela nem sempre se apresentava de maneira delicada.

- Começou de novo?

- Sim. Será que hoje eles descem no tapa?

Jacob deu de ombros. Ele nunca ligava muito pra nada, só com os motores velhos que pegava pra brincar e deles fazer engenhocas. Jake é um gênio, um gênio enorme que odeia armas de fogo. Explodir as coisas é a praia dele e por isso sempre o implico.

- Talvez. Seria uma boa. Quem sabe eles relaxam se meterem a pancada em alguém.

- Pode ser. – Concordei, afinal fazia sentido. – Levantei cedinho hoje pra ir caçar com meu pai e os outros. Se ele me visse em ação talvez se lembrasse de quem sou.

- Filha dele?

- Não! Seu asno. De que tenho mais potencial que a garota nova.

- Por favor. – Jake riu. – Ela saiu de um covil. O que você fez? Matou ratos?

- Vá se foder Jake.

Estava saindo dali quando ele assoviou.

- Não vai querer saber?

Detive-me. Lógico que gostaria de saber. Billy é o nosso tesoureiro. Sabe a ordem econômica? Ele é o guardião. Talvez por isso eles brigassem tanto. O velho tenta guardar a paz, Billy quer sustentar a mesma.

- Você sabe que sim.

- Então para de ser chata.

Chutei uma pedrinha que bateu no ombro dele, um "ouch" e já o tinha perdoado por ser um bosta comigo.

- Comece.

- Ok. – Do bolso tirou um pequeno bloco e um lápis já no fim. – Virginia, Thomas, Simon, Sam, Quill, Embry, você, Bree, eu, John, Lauren, Daniel, Louise, Eric, Jessica, Collin, Susanna, Rebecca e Jared. Dezenove pessoas. Charlotte vai ajudar no estratagema, mas não acho que ela vá deixar os melhores saírem.

- Não me chame de incompetente.

- Ok. Veja bem: se você quer agir, essa é a hora.

- Tchau Jake. Eu te amo!

- Anham sei disso.

Ali estava. Os nomes dos disponíveis pra tal missão. Charlie cuidava disso, pra ele me colocar de canto e não me escolher seria muito rápido, muito fácil e eu não podia deixar isso acontecer. Susanna é filha de Ephraim e ela já esteve em várias missões, eu, nunca em uma. E ela só tem vinte e três! Quer dizer, a garota começou a sair em missões há uns dez anos atrás. Mais nova até do que eu.

Corri pra távola redonda, o lugar de reuniões: bancos dispostos ao redor de uma arvore que é só um toco. Charles, Billy, Charlotte, Carmen, Eleazar e Simon estavam dispostos conversando. Estava na hora de fazer minha grande entrada!

- Eu acho que deveríamos ir.

- O que?

Eles perguntaram. Mas não o velho. O bigode dele se retorcia em desespero e raiva. Se não conseguisse driblar esses anciões, estou na merda.

- Eu acho que eu e Bree deveríamos ir.

- Isabella.

- Charles, penso que a menina quer dizer algo.

- Tenho certeza que sim Bill. Mas somente lorotas de uma criança, nada que mereça atenção. Vá pra casa Isabella.

Senti meu pescoço e bochechas quentes. Vá pra casa uma pinoia!

- Quem vocês vão mandar lá pra fora? Você tem trinta e oito pai e é quem cuida da paz daqui. Vai pra missão, tudo bem, e quem vai ficar? Melhor: vai levar quem? Todos os melhores do Plantão e da Rota? O nosso vilarejo vai ficar desprotegido. Estamos sem mão de obra. Se não levar os novatos, deixa-os. Qual a melhor opção?

- Isabella. – O pescoço do meu pai parecia ter a circunferência do tronco da mesa deles. – Vá pra casa.

Senti as lágrimas subirem pela segunda vez naquele dia e as engoli, novamente. Virei-me sem olhar pra trás. Que se foda eles.

. . .

- Imagino que você saiba o que fez.

A voz de meu pai me tira dos meus pensamentos. Não olho pra trás. A lua merece mais atenção do que ele. Dou de ombros. Talvez eu saiba.

- Isabella... – Ele esta se aproximando. Fique ereta, espere. – Você parece tanto com a sua mãe que às vezes tenho medo. Ultimamente ando com medo, na minha idade você aprende a ter medo de tudo. Você é a única coisa que me sobrou Bells. Não posso te perder.

Isso me pega de surpresa, mas mantenho-me firme. Dá pra dobrar ele, sei disso, sinto isto.

- Você conseguiu o que queria. Você e Bree vão à missão na cidade.

- Ah pai, eu te amo tanto!

Desisto já, abraçando-o e com lágrimas rolando na minha face. Consegui!

- Prometo que retornaremos bem e que você vai ter orgulho de mim e...

- Eu também irei querida.

Reviro os olhos diante disso. Ei, não dá pra se ter tudo do jeito que a gente deseja.

. o . o . o . o . o .

Chamem-me de volátil, pois o sou. Refiz o primeiro capitulo e fico ansiosa pra saber o que vocês acham! Quem quiser comentar, fique a vontade! E estou preparando o segundo capítulo já. Este capítulo ser postado é total culpa da Lara Silva que foi uma fofa e fez meu coração virar manteiga. Muito obrigada pelas palavras! Espero que você goste mais agora. Pode ficar tranquila, quem lê, não tenho intenção de por a mão em cima do rumo que a fic estava indo, só melhorar os erros gramaticais, concordância etc. Além de acrescentar mais bagagem e jogar fora aqueles capítulos pequenos feitos nas coxas. Qualquer erro, culpa minha.

Até a próxima.