Capítulo II: Uma Colher de Baunilha.
Deitado em sua cama, John Connor sente aquele raio de Sol entrando pela sua janela, esquentando seu quarto.
Ele definitivamente ainda não queria levantar, estava com muito sono, pois havia passado a noite quase inteira deitado com Cameron, olhando para seu rosto, com seu corpo grudado no dela. Ele ainda sonhava com isso, outro fator que lhe fazia querer continuar dormindo.
Mas ele bem sabia que nenhum sono era melhor do que a realidade. Ele tinha um profundo conhecimento de causa sobre isso, pois durante muito tempo sonhou com ter Cameron em seus braços e em nenhum desses sonhos ele se sentiu tão feliz quanto naquele dia no terraço.
E por mais que se queira sonhar, a realidade sempre nos puxa de volta. "A realidade continua a arruinar a minha vida", John sempre pensou. Ultimamente, ele não pensava mais assim. Cameron havia mudado isso também. Na verdade, ela havia mudado tudo na vida de John.
John estava deitado com o rosto virado para o teto, ainda de olhos fechados. Ele estava em vigília, "meio dormindo, meio acordado". Quando se está treinando para ser um general, você deve aprender a "dormir e não dormir" ao mesmo tempo. Foi neste momento, no qual ele ainda decidia se voltava a dormir ou acordava que ele sentiu algo tocando de leve sua face. Ele sabia o que era. Sabia quem era. Ele já havia sentido seu perfume há algum tempo, sabia que ela estava lá esperando pacientemente por ele acordar. E saber que ela estava ali o esperando era tudo que ele precisava para se decidir.
Cameron estava sentada do lado da cama, levemente inclinada sobre John, com seu rosto bem perto do dele, como se estivesse verificando se estava tudo bem com John, se ele estava mesmo "só" dormindo. Ela não podia evitar, mas às vezes se importava demais com ele. Ele era muito importante, não só para a humanidade, mas para ela. E foi justamente nessa hora que deixou seus cabelos tocarem de leve em John, fazendo-o acordar.
"Hei! Bom dia, flor do dia!", John disse com um pequeno sorriso no rosto, mas sem abrir os olhos.
"Você ainda estava dormindo?", Cameron perguntou, com sua característica cabeça inclinada para o lado.
"Eu não sei se ainda estava dormindo, mas com certeza eu ainda estava sonhando", John respondeu, ainda de olhos cerrados.
"E com o que você estava sonhando?".
"Que eu estava sendo acordado por um anjo...", ele disse, abrindo os olhos. "Hei! Veja só! Não era só um sonho!".
Cameron não conseguiu conter a alegria dentro de si, exteriorizando-a com um grande sorriso. O mesmo sorriso que havia conquistado o coração de John no primeiro dia que a viu, na escola. E que continuaria aquecendo seu coração até o dia em que ele não pudesse mais respirar, pois somente neste dia ele deixaria de amá-la. Em verdade, até mesmo depois que ele se elevasse aos páramos etéreos, ainda assim ele iria amá-la; pois a vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama.
Após olhá-lo por alguns segundos apenas sorrindo para ele, ela se inclinou mais um pouco, fechando a distância entre eles e tocando suavemente os lábios dele com os seus, deixando que todo o carinho que sentia por ele transparecesse nesse ato.
Com o término do beijo, Cameron continuou com o rosto quase colado ao de John, sentindo a respiração quente dele tocar sua pele.
"Bom dia, John!".
"Só será mesmo bom se você me der outro beijo", John disse com certo tom de brincadeira.
Cameron fez uma pequena careta, com um sorriso que ao mesmo tempo era de deboche e malícia, dando-lhe em seguida o beijo que ele a pedira, sendo que este foi muito mais intenso que o primeiro. Cameron literalmente deitou-se em cima de John, se entregando em seus braços. Ela acariciava os cabelos de John com uma das mãos enquanto a outra alisava sua bochecha, e as mãos de John passeavam por toda a costa de Cameron.
Com um movimento rápido, John rolou para o lado, passando a ficar por cima, enquanto Cameron se aninhava em baixo dele.
Era a vez de Cameron passar as mãos na costa do John, enquanto ele com uma das mãos acariciava o perfeito cabelo de Cameron e com a outra alisava as pernas macias dela, sem quebrarem o beijo por um segundo sequer.
Nenhum dos dois queria parar, mas infelizmente, John tinha de respirar. Quando finalmente ele ficou sem fôlego para continuar e quebrou o beijo entre eles, Cameron lhe deu outro sorriso e disse:
"Venha tomar seu café. Eu preparei panquecas para você". "Errrrrrrrrr. Cam, eu não estou muito interessado em panquecas no momento. Estou no meio de algo mais importante...". "É? O quê?"
"Você, Cam. Nós... aqui... agora.". "Nós podemos nos beijar depois, John. Você deve tomar seu café da manhã agora. Ele é a refeição mais importante do dia. Você precisa de carboidratos que atinjam 15% da dose diária recomendável. Além do mais, eu fiz uma nova receita para você.".
John olhou para ela, que estava com um rosto angelicalmente ingênuo e se perguntou se ela sabia o que estava acontecendo, o que ele estava querendo dizer, onde aquilo que ele estava fazendo deveria terminar. Ao olhar em seus olhos, ele soube que não. "Será que nós nunca fizemos isso no futuro?", ele pensava. Definitivamente ele não iria perguntar isso para ela. Até porque bastou vê-la agora para ter a resposta. Ela era pura, não conseguia ver a intenção de John neste momento. E ele achou melhor mantê-la assim, até que ela pudesse ver nos olhos dele o que ele desejava e ela sentir o mesmo. O melhor que ele poderia fazer agora era ir experimentar a "nova receita" que Cameron para ele.
John então saiu de cima de Cameron, estendendo-lhe a mão para que ela pudesse levantar. Ela não precisava disso, óbvio, mas pegou-a mesmo assim, apenas para ter a sensação de ficar de mãos dadas com ele.
Eles foram para a cozinha e ao lá chegar, John encontrou uma mesa perfeitamente arrumada: uma bandeja de frutas, um prato de ovos com bacon coberto (para não esfriar, "ela realmente pensa em tudo", ele falou consigo mesmo), uma caixa de suco de laranja e, em frente ao lugar onde ele deveria sentar, um prato coberto com uma tampa.
"Eu acho que aquilo deve ser as minhas panquecas, correto?". "Correto. Sente-se e coma". "Nossa, nós ainda nem casamos e você já está me dando ordens."
Cameron, ao ouvir aquilo, arregalou os olhos para John e ficou alguns segundos pensando no que ele havia dito. Casar com John? Oh, sim! Ela gostaria daquilo.
"Sente-se e coma, John. Por favor.", ela disse com uma voz gentil, quase que "implorando", fingindo ter ignorado o que ele havia acabado de dizer, embora ele soubesse muito bem que ela havia ouvido.
John sentou, retirou a tampa do prato e viu as panquecas que Cameron havia preparado para ele.
"Elas me parecem como qualquer outra panqueca, Cam." "É porque você ainda nem as provou"
John sorriu e abriu sua boca, permitindo que Cameron lhe alimentasse, e ao mastigar, teve de dar razão a ela.
"Realmente, Cam. Essas são as melhores panquecas que já comi. São muito melhores que as da minha mãe.". "Eu adicionei uma colher de chá de baunilha à receita dela". "Ela não tem uma receita". "A receita da caixa". "Oh! Obrigado por explicar"
John continuou a comer suas panquecas, enquanto Cameron o observava comer. Isso lhe incomodava um pouco.
"Por favor, Cam. Coma alguma coisa." "Eu não preciso comer, John. Eu não retiro energia de alimentos". "Eu sei disso, Cameron. E você sabe muito bem como eu me sinto em relação isso. Coma alguma coisa, ok?".
Cameron, então, pegou um pedaço de fruta e começou a comer. Ela não precisava disso e nem gostava muito de fazê-lo, mas ela fazia mesmo assim. Por ele. Assim como ela respirava e vivia por ele. Ela fazia e faria de tudo por ele. Agora e sempre.
Os dois ficaram ali, comendo em silêncio, pois eles não precisavam de palavras para se entender. Eles sabiam muito bem o que o outro estava pensando apenas por olhar para ele.
Após John terminar de comer a sua panqueca e elogiá-las para Cameron, novamente reforçando que estavam melhores que as de sua mãe (o que o fez ganhar o sorriso mais bonito que ela já havia dado a ele), Cameron foi arrumar a cozinha e John foi preparar a única exigência que Cameron o fazia todo dia: assistir um filme que ela adorava.
John não sabia onde ela tinha visto esse filme pela primeira vez ou o motivo dela gostar tanto desse filme a ponto de fazê-lo comprar o DVD, mas o fato é que toda manhã ela tinha de ver esse desenho ao lado de John.
Wall-E. Esse era o desenho que Cameron adorava. Wall-E era um pequeno robô que foi construído para limpar a sujeira que o homem acumulou durante anos na Terra. Enquanto os moradores do planeta estão a bordo da nave Axiom, há 700 anos no espaço, Wall-E fazia a faxina, juntamente com sua barata de estimação. Isso até a visita inesperada da sonda chamada Eva, uma robô muito brava, que quebrou sua rotina. Eva veio em busca de algum vestígio de vida vegetal, para que os seres humanos pudessem voltar. Quando ela vai embora, Wall-E, apaixonado por ela, foge atrás de Eva rumo a Axiom.
Basicamente, era isso a história do filme. Uma história simples e ao mesmo tempo muito bonita e extremamente familiar a eles. John não sabia os motivos de Cameron se sentir tão atraída por este desenho, mas eles eram bem óbvios: assim como o Wall-E, Cameron era um robô solitário que desejava amar e ser amado. E assim como Wall-E, Cameron havia encontrado a pessoa que iria lhe dar esse amor que ela precisava para existir.
Já a presença de John enquanto o filme passava não era meramente figurativa para Cameron, ao contrário do que pudesse parecer. Por mais que ela não falasse com ele, não o beijasse ou fizesse algum tipo de carinho, ficando com os olhos vidrados na TV, ela precisava de John ali. Ela precisava de John ali ao lado dela, necessitava estar com seu braço laçado no dele e com as mãos se tocando, para que ela tivesse certeza absoluta de que, tal como Wall-E, havia encontrado o amor, e esse amor estava ali, ao lado dela e não iria embora.
Assim que o filme acabou, Cameron levantou sua cabeça do ombro de John e olhou para ele, dando-lhe um sorriso e um pequeno e terno beijo, o qual John retribuiu com outro beijo.
"E então, Cam, o que vamos fazer hoje?". "John... Você sabe que sua mãe disse para você..." "Não sair de casa, eu sei, eu sei..."
"Não, não é. Mas parece uma ordem sensata a seguir. Acho que você deveria ficar aqui. Pode ser perigoso lá fora.". "Cam, me escuta. Nós vamos sair e ponto. Isso não é uma discussão."
Cameron, por um momento, lembrou do John do Futuro e o quanto ele era decidido com suas escolhas. Definitivamente, não havia mais muita diferença entre este John e o do futuro. Mas não era por isso que machucava menos o modo como ele falou. Ao perceber que Cameron havia ficado sentida com seu tom, John rapidamente tentou consertar as coisas:
"Olha, Cam. Eu preparei uma surpresa para você também." "Oh! E o que é?"
"É algo que eu só posso lhe dar se nós sairmos de casa. Você quer ficar aqui mofando nessa casa ou quer sair para ver o mundo ao meu lado e saber o que eu preparei em segredo com tanto carinho todos esses dias?".
Não havia como Cameron negar um pedido desses. John sabia ser bem convincente às vezes, ainda quando se sabia que o que ele estava falando era má idéia. "Deve ser por causa disso que ele é o líder no futuro", Cameron pensava.
"Ok, John. Mas me prometa que nós estaremos em casa quando anoitecer.". "Certo. Nós temos um trato?" "Sim.",
"Ok. Então vá se arrumar. Coloque roupas leves, certo?!". "John... Aonde nós vamos?". "Nós vamos nos divertir. Vamos fazer algo muito divertido.". "Vamos jogar totó?"
"Não, Cam, nós não vamos jogar totó. Deus, quem é que se diverte jogando totó. Nós vamos a um parque de diversões, Cam.". "Oh!"
"Cam... Tem algo que você queira me perguntar?".
Cameron chegou a separar seus lábios para falar, mas pensou por alguns segundos, ponderando se era a melhor coisa a fazer.
"Cam? Você está aí?". "O que é um parque de diversões?".
John não pode se segurar e deu um pequeno sorriso. Era engraçado para ele ter de explicar a ela coisas que pareciam óbvias. Mas ao mesmo tempo ele se lembrou do tempo apocalíptico de que ela vinha e de todas as coisas maravilhosas existentes nesse tempo que ela ainda não tinha visto.
"Veja, Cam... Um parque de diversões é um local fechado, com um amplo espaço e um conjunto de brinquedos para nós usarmos. Eu não sei te explicar direito, é melhor ver por você mesmo. Além do mais, eu não quero estragar a surpresa." "Oh! Obrigado por explicar"
"Você sabe que é sempre um prazer. Agora vamos logo nos arrumar, porque estamos perdendo tempo", ele disse.
