Eles viajaram em silêncio, enquanto o sol se punha no horizonte. Lily olhava para a frente, ereta, as mãos cruzadas no colo. Com a saia em várias camadas e o véu que cobria sua cabeça, ela literalmente ocupava toda a frente do carro. Seu vestido ainda tinha o aroma de rosas.

James verificou pela décima vez o retrovisor, aliviado ao ver que ninguém os seguira. Afastando a saia dela do caminho, mudou as marchas e entrou numa rua repleta de árvores, com casas de tijolos elegantes e antigas. Ele parou o carro à sombra de uma magnólia. Desligou o motor e abaixou o vidro da sua janela, depois, por cima de Lily, abaixou o dela também. Ela estava imóvel e muda.

Na mesma calçada, um senhor estranhou a presença dos dois, curioso, depois deu de ombros e seguiu o seu caminho.

Lily nem mesmo notou.

— Lily. — Ele disse gentilmente o nome dela. — Lily.

Ela piscou. Com os olhos verdes arregalados, virou-se lentamente para encará-lo.

— Quer me dizer o que houve? — perguntou.

— Eu... Eu fugi do meu noivo, dos meus pais e de duzentos convidados.

Esta parte ele tinha entendido. Agora, a próxima pergunta mais lógica era:

— Por quê?

— Eu não o amava — respondeu trêmula, e virou-se para o detetive. — Eu... não o amava.

A voz ficou mais forte e firme. James apoiou-se na porta do carro e a examinou, percebendo que sua impressão inicial estava correta. Lily realmente era diferente.

— E só agora percebeu isso?

Ela olhou para o diamante no seu dedo.

— Conheço Oliver há anos. Quase por toda a minha vida. Nossas famílias passavam férias juntas, celebrávamos aniversários e ocasiões especiais. Meus pais ficaram tão contentes quando ele fez o pedido. Nunca pensei em recusá-lo.

— Até hoje.

— Minha vida inteira foi uma mentira. — Ela tirou o anel do dedo. — Meus pais mentiram para mim. Eu menti para mim mesma e para Oliver, tudo por medo de dizer a verdade. Com medo das consequências. Quando vi todas aquelas pessoas na igreja, e vi você, sabia que era agora ou nunca. Eles nunca vão me perdoar.

Ele queria confortá-la, contar a traição de seu noivo. Mas notava o medo, a culpa. Não acrescentaria ainda mais dor à mulher.

E além do mais, a vida amorosa de Lily Evans não era da sua conta. Fora contratado para encontrá-la, não salvá-la.

Ela embrulhou o anel num lenço de seda branco e o guardou dentro do vestido.

— Meus pais confirmaram sua história sobre a minha família biológica. Mas me disseram que meus irmãos morreram no acidente junto com os meus pais. Meu pai viu os atestados de óbito de Rand e Seth.

— Eram falsos — afirmou James. — Assim como o seu.

— O meu?

James confirmou.

— Entendo — ela disse, consternada e confusa. — Não, verdadeiramente, eu não entendo nada. Como é possível? Como pode uma família ser separada, como nós fomos, crianças adotadas ilegalmente? Por que ninguém sabia disso?

— O advogado em Wolf River explicará tudo. — James retirou o celular de dentro do bolso. —Você pode falar com seus irmãos e...

— Não.

— Não?

— Não pelo telefone.

— Tudo bem. Eu a levarei até a sua casa, poderá preparar uma mala, e a colocarei num vôo para Dallas. Wolf River fica a três horas de lá e alguém vai apanha...

— Sr. Potter, o último lugar para onde quero ir agora é a minha casa, e não lenho intenção alguma de entrar num avião.

— Primeiro — ele disse, depois de respirar fundo. — Por que você não me chama de James?

Lily sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha quando olhou o homem.

— Segundo, caso tenha se esquecido, você ainda está usando o vestido de noiva.

— Eu garanto que ninguém tem mais ciência disso que eu. — Mal podia respirar. — Mas não vou para casa.

— Tudo bem. E o que pretende fazer?

Lily arrancou em dois segundos o véu que a mãe passara quinze minutos colocando.

— É muito simples. Você me levará de carro para Wolf River.

— Como é que é?

— Quero que você me leve de carro até Wolf River.

— Sem chance — ele revidou. — Fui contratado para achá-la e fazer contato. Desculpe-me, mas o meu trabalho acabou.

— Então estou contratando você. Quanto você cobra?

— Está falando sério? Não importa o quanto eu cobro. Eu a levo até o aeroporto e a ponho num avião, isso é tudo que posso fazer.

— Pago em dobro.

Ela notou sua hesitação, o ligeiro elevar de uma sobrancelha, mas depois ele se refez.

— Olhe — ele disse —, entendo sua chateação e falta de clareza, mas...

— Pare. Pode parar aí mesmo. Você aparece três dias atrás e me diz que toda a minha vida foi uma mentira. Acabo de fugir da única família que já conheci, sem falar no meu noivo e duzentos convidados. Não me diga que entende o que estou pensando ou sentindo neste momento. Você não tem a mínima noção do que está se passando pela minha cabeça.

Lily ficou chocada por ter erguido a voz. Por perceber que gostou da sensação. Mesmo assim, uma vida de boas maneiras e comportamento impecável a fez arrepender-se.

— Me desculpe. Isso foi grosseria de minha parte. Tenho certeza de que podemos discutir isso com calma.

— Não há nada a ser discutido.

Quando o olhar dele baixou até os seios dela e ali permaneceu, Lily sentiu um frio na barriga. "Meu Deus, mas este homem é atrevido!" Nem mesmo Oliver olharia para ela de forma tão descarada.

Com sua insistência, Lily indignou-se.

— Sr. Potter. Se parasse de olhar para o meu busto, talvez pudesse escutar a minha proposta.

— Me desculpe, mas isso não estava aí há alguns minutos.

— O que não estava onde?

— Isso. — Lily olhou para baixo. No seu peito, originando-se no seu decote, havia uma trilha de pequenas manchas vermelhas. "Droga de vestido!"

— Isso deve estar coçando à beça — ele disse.

— Não é nada — mentiu. Ela se cobriu. Não iria se coçar mesmo. — Sr. Pot... James, eu preciso ir até Wolf River, mas também preciso de alguns dias para pensar. Posso não ter nenhum dinheiro comigo, mas lhe garanto que tenho acesso a contas pessoais. Diga-me o seu preço.

"Diabos, mas Lily Evans era mesmo uma princesinha arrogante", pensou James, entre irritado ou divertido. Mas uma coisa era certa, ela era uma princesinha arrogante linda.

— Olhe, Lily. Talvez você tenha razão, precisa de algum tempo. Eu poderia registrá-la, incógnita, em alguma pousada tranquila. Em alguns dias...

— Não pretendo me esconder em alguma pousada. Sei o que quero. Talvez pela primeira vez em minha vida. Eu triplicarei o seu preço.

— Eu... Triplicar?

— Por favor. — Ela pôs a mão no braço dele. — James, por favor. — Ele tentou se convencer de que a secura da garganta era causada pelo calor do fim da tarde acumulado dentro do carro. Viu os lábios dela se entreabrirem enquanto o olhava suplicante, e sentiu uma onda de desejo. Sacudindo a cabeça, afastou o braço.

— Não. Me desculpe, mas você terá que...

James apenas percebeu seu celular em algum lugar debaixo do vestido de Lily quando, subitamente, ele começou a tocar. Ela surpreendeu-se com ele revirando as inúmeras camadas do vestido, até achar o telefone.

— Potter falando.

— James Potter, seu filho da mãe! — exclamou o homem do outro lado da linha. — Eu exijo que me devolva a minha noiva, agora mesmo!

James casualmente perguntou:

— Quem está falando?

— Você sabe muito bem quem está falando — gritou Oliver Hollingsworth. — Volte aqui, agora!

— Estou um pouco ocupado no momento. Posso ligar mais tarde?

— Não serei humilhado desta maneira — berrava Oliver ao telefone. — Você trará Lily de volta agora, ou mandarei que o prendam e joguem...

— Eu tenho o seu número — interrompeu James. — Quarto 16 do motel Wanderlust. É um ótimo lugar, embora de paredes um pouco finas, não acha?

Houve um longo silêncio, depois Oliver disse baixinho:

— Olhe, Potter, posso fazer valer a pena manter esta informação entre nós. Digamos vinte e cinco mil? Devolva Lily à igreja imediatamente e acrescentarei mais vinte mil a isto. Depois da cerimônia, nós podemos falar de homem para homem e...

James desligou o telefone.

"Posso fazer valer a pena. O desgraçado nem perguntou sobre Lily", pensou James irritado. Nem pediu para falar com ela. Hollingsworth apenas a queria de volta na igreja para que ele não fosse humilhado.

— Quem era? — perguntou Lily, ansiosa.

— Ninguém que você conheça — respondeu James e a viu relaxar.

— James, por favor, reconsidere a minha proposta e...

— Tudo bem.

— Tudo bem?

— Eu aceito.

— Aceita?

— Eu disse que aceitava, não disse? Mas faremos do meu modo, está me entendendo?

— É claro.

Ela sorriu para ele de maneira tão doce e inocente que ele sentiu uma nova onda de desejo. "Diacho."

— Vamos parar quando e onde eu disser. E não quero escutar muito papo-furado.

Ela assentiu.

— Aperte o cinto.

Ela colocou o cinto de segurança, o que não foi fácil, considerando o vestido, depois se acomodou no assento e olhou fixamente para a frente.

James ligou o carro e voltou para a estrada. Ele não se envolveria com Lily, não mesmo. Precisava chegar a Wolf River rápido.

Por quarenta e cinco minutos, Lily esforçou-se para não pensar no que deixara para trás. Embora não se arrependesse de fugir de Oliver, se sentia terrivelmente culpada por tê-lo abandonado. Mesmo que não tivesse sido muito romântico ou apaixonado nos dois anos de relacionamento, não merecia ser abandonado no altar.

Não sabia se ele ou Victoria algum dia a perdoariam. Era estranho, mas a idéia de Victoria não voltar a falar com ela a entristecia mais do que o mesmo pensamento em relação a Oliver.

Lily sabia que os pais sobreviveriam ao escândalo, embora as coisas certamente fossem ser difíceis por algum tempo. Saber da aprovação do pai a confortava, mas ainda precisava lidar com a mãe. Este pensamento fez a coceira no peito de Lily aumentar.

Ela conseguira ficar muda, nem mesmo perguntara o caminho. Ele também se mantivera calado. Ela tentou contar carros, mas simplesmente não conseguia se distrair... A coceira era insuportável.

Droga de irritação! Sabia que era apenas nervosismo, mas isso não lhe trazia alívio. Sentia que estava se espalhando pelas costas, e da maneira que o vestido parecia encolher, todo o seu tórax logo estaria coberto pela irritação.

Ela não ia se coçar... não ia se coçar... não ia se coçar...

— Pare o carro!

James virou a cabeça sobressaltado.

— O quê?

— Pare o carro. Agora.

A contragosto, James obedeceu.

— Meu bem, se você mudou de idéia, então você está...

Ela tirou o cinto de segurança e virou-se de costas para ele com a mão no busto.

— Me desabotoe.

— O quê?

— Depressa!

Numa situação mais "normal", uma mulher pedindo que ele a desabotoasse e depressa teria sido um prazer. Com Lily, contudo, a situação não era nada normal.

— James, por favorl

— Tudo bem, tudo bem.

James olhou para os cinco pequenos botões de pérola a serem soltos antes do zíper. Ela se contorcia, e quando ele baixou o zíper e a roupa afrouxou-se ao redor da moça, ela jogou a cabeça para trás e soltou um suspiro de alívio.

— Agora o corpete.

"Ah não... péssima idéia..."

— Eu não acho que deveria...

— Não consigo sozinha. Juro que vou gritar se não conseguir sair desta geringonça agora mesmo!

Ótimo. A última coisa que ele precisava era estar parado na beira da estrada com uma mulher seminua gritando. Ele afrouxou cada ganchinho até que a roupa rendada de baixo caiu.

— Deus o abençoe.

James notou brotoejas nas costas da moça. Sem pensar, colocou a mão nas costas de Lily. Ela se sobressaltou.

— Calma — ele disse, esfregando gentilmente a palma sobre a pele quente. —Acho que posso me controlar, Lily. Apenas me diga onde está coçando.

— Aí mesmo. — A voz estava tensa, mas ainda assim ela se recostou no banco do carro. — Em todo lugar.

De leve, ele a aliviava, sentindo-a relaxar com o toque. Ela gemeu baixinho e curvou a espinha de encontro a ele. James mordeu a língua para segurar o carinho que ameaçava brotar de seus lábios.

— Isto é tão bom — sussurrou Lily, se esfregando no assento do carro.

Nunca experimentara algo tão relaxante, nem tão erótico. As mãos largas de James se movendo bem devagar sobre suas costas era a sensação mais maravilhosa do mundo.

Chocou-se ao perceber que este homem desconhecido a tocava de maneira tão íntima. Chocou-se ao ver que queria ser tocada, não apenas nas costas, mas em outros lugares também. Sentiu um calor entre as pernas.

Quando as mãos dele deslizaram, as pontas dos dedos ficaram a menos de três centímetros dos seios, ela sentiu o coração disparar, sabia que devia se afastar, mas não conseguia. Não conseguia.

Prendendo a respiração, sentiu que ele se aproximava, sentiu o calor a respiração dele no seu ombro...

De repente, ele cobriu os ombros dela com o vestido e se afastou.

— Melhor? — perguntou.

Desconcertada, ela apenas acenou afirmativamente.

Ele nada disse, apenas abriu a porta do carro e saiu. Agradecida pelo momento sozinha, ela envergonhou-se e suspirou.

Ela o escutou mexendo no porta-malas, e quando ele voltou para a frente do carro, tentou se cobrir melhor com o vestido.

Ele ficou do lado de fora e jogou algumas roupas no banco do motorista.

— Vista isso, por ora. Quando pararmos à noite, procuraremos algo melhor.

Lily pegou o moletom cinza e a camiseta branca, e olhou para James.

— Obrigada.

— Você tem cinco minutos, depois eu entro, esteja pronta ou não. Sugiro que se apresse.

Ele fechou a porta do motorista e apoiou-se nela, de braços cruzados.

Lily olhou para as costas musculosas de James e para as roupas, depois, tirou o vestido e o jogou no banco de trás, enfiou a camiseta pela cabeça. Mal passara o moletom pelos quadris quando James entrou no carro e deu a partida no motor.

Ele voltou para a estrada, segurando com força a direção, e queimando pneus como se o próprio Diabo os estivesse seguindo.

Abandonara a igreja e o casamento, tinha a longa estrada à frente. Lily sentiu uma sensação de liberdade desconhecida. Sorrindo, colocou o cinto de segurança e se recostou no banco, distraída com a música no rádio.


Oi gente! Lily e James sozinhos em um carro não é boa coisa, imagina quando a noite chegar, hehe. Muito obrigada Joana Patricia, Nanda Soares e Dafny pelos comentários e elogios lindos, amei de coração :*