O resto da tarde passou sem problemas, a ponto de Bella pensar que poderia ter imaginado todo o incidente com o fantasma e o espelho. Ela limpou Stonewood Abbey durante toda à tarde com um espanador, embora não estivesse tirando muito pó. Em vez disso, estava examinando as armaduras na biblioteca e os retratos enormes na galeria, e simplesmente se divertindo. A abadia era uma maravilha, e tudo era aconchegante e convidativo. Ela não estava com medo afinal, talvez falar de sua coragem com Muffin fez mais bem do que ela pensava. O telefone tocou uma ou duas vezes, assustando-a, mas ela deixou-o ir para a secretária eletrônica, e a mensagem gravada sobre a Abadia ser fechada para o turismo ecoava enchendo os cômodos.
Em algum momento, ela enrolou-se em um dos sofás com apoio para os pés na galeria para tirar um cochilo. Ela acordou algumas horas mais tarde na escuridão, com o coração batendo. Mas a galeria em si ainda estava aconchegante e amigável, e as sombras eram apenas isso: sombras. Não havia espelhos nesta parte da casa, e ela repreendeu-se por ser boba.
Era apenas uma antiga mansão que se assemelhava a um castelo. Nada de especial. Nada a temer, mesmo que em seu quarto tivesse um espelho enorme.
Coragem! A voz de Muffin soou em sua cabeça.
Ela decidiu dormir em seu quarto naquela noite de qualquer maneira. Mesmo que fosse apenas para provar a si mesma que não era a covarde que Muffin pensava que era.
O quarto estava tranquilo e ainda, aconchegante com a luz das lâmpadas ao lado de sua cama. Bella despiu-se e escovou os dentes no banheiro, evitando o pequeno espelho lá, caso ele decidisse mostrar um fantasma, também. Quando estava pronta para a cama, rastejou debaixo das cobertas e se obrigou a desligar a luz.
A Abadia ficou totalmente silenciosa. Ela deitada na cama, dura e miserável. Por alguma razão, sentiu uma vontade absurda de chorar. As palavras de Muffin tinha ficado em sua cabeça, e ela continuou ouvindo-as uma e outra vez. Como a sua triste vida chegou tão longe, fora de controle, que estava agora dormindo em um quarto assombrado só para provar a si mesma que ela não era um fracasso completo?
Porque se você não fizer isso, ela disse a si mesma, Muffin vai estar certa. Você é uma grande perdedora que não quer nada o suficiente. Você pode fazer isso. Você quer ficar aqui na abadia, mas não pode se está com medo do fantasma. Então tem que subjugar esse medo bobo, ou desistir e ir para casa com o rabo entre as pernas.
Lágrimas deslizaram por seu rosto e ela enxugou-as, fungando alto. Um pequeno soluço escapou, tão facilmente perdido na escuridão como se sentia. Quando ela tinha se tornado tão completamente e totalmente sozinha?
Um som suave perfurou a escuridão, tão suave que ela não tinha certeza de que tinha ouvido em um primeiro momento. No entanto, ela sufocou seu soluço seguinte e prendeu a respiração para o quarto ficar totalmente silencioso, mais uma vez. O som voltou, ainda suave e frágil.
O som parecia ... Uma canção.
A voz de um homem, que enviou um arrepio pela espinha de Bella novamente. As pálpebras dela estavam bem fechadas, para que não conseguisse ver nada, mas precisava descobrir o que estava causando o ruído. Lentamente, ela abriu os olhos. Uma luz suave iluminava o espelho, como se ainda fosse dia e refletisse a luz do sol, mesmo no meio da noite. Ele iluminou seu quarto.
O canto suave continuou, e ela tentou decifrar o som. As palavras eram abafadas e baixas, mas mesmo assim, tinham uma qualidade ímpar que parecia a ela ser uma língua estrangeira. Ela não reconheceu a melodia, mas reconheceu a simplicidade dela, o som estranhamente reconfortante.
Era uma canção de ninar. A luz proveniente do espelho desbotou. E Bella soube quando se virou para olhar que a sombra voltara, a mão apoiada no vidro novamente. O canto suave estava emanando do velho espelho.
Seu fantasma estava tentando confortá-la.
Por alguma razão, Bella se viu saindo da segurança de sua cama e colocando os pés no chão frio. O canto suave continuou, as palavras desconhecidas e ásperas contra sua orelha, mas a voz era agradável em sua rudeza, rouca. O medo voltou ao seu corpo, enviando gelo por suas veias fazendo-a mover-se lentamente. A figura no espelho permaneceu, real e não um truque de sua imaginação.
Coragem! A voz de Alice Muffin soou em sua mente de novo. Coragem!
Ela poderia fazer isso. Ela poderia confrontar o fantasma no espelho e pedir-lhe para deixá-la sozinha. Isabella aproximou-se dele, os olhos descansando no chão. Ela não queria olhar para a aparição. E se ele fosse uma caveira ou tivesse os olhos vermelhos ou algo horrível ...? Ela colocou as mãos em ambos os lados do espelho, preparando-se para olhar o fantasma, para enfrentá-lo.
Lentamente, ergueu os olhos para o espelho, e viu a figura dentro dele.
Ele tirou-lhe o fôlego.
Lindo foi à primeira palavra que lhe veio à mente. Ele era tão lindo!
Ela estava esperando algo horrível, ou assustador, mas o homem dentro do espelho era certamente o mais belo que ela jamais tinha visto. Nas sombras de seu quarto, era difícil dizer a cor de seu cabelo, mas era selvagem e espesso, as pontas que iam para todos os lados a sombra da barba por fazer de sua forte mandíbula. Sua boca era requintada – ela nunca havia visto uma boca de homem tão perfeitamente formada e as maçãs do rosto eram altas, o resto do seu rosto estava escondido pelas sombras. Ele estava sem camisa, exibindo um peito cheio de cicatrizes, largo e musculoso, os planos de seu estômago eram retos, como o resto de sua figura. Sua mão pressionada contra a superfície plana do espelho, movendo-se em direção ao centro, como se pudesse tocar seu rosto.
Ele avançou um pouco, e o jogo de sombras mudou. Ela podia ver seu rosto agora, e roubou-lhe o fôlego. Bella abriu a boca para respirar, enquanto ele continuava a cantar a suave canção de ninar, seus lábios se movendo em uma música silenciosa.
Seus olhos eram tristes. Tão tristes. Verdes e profundos, que pareciam olhar dentro dela e compartilhar sua tristeza, sua solidão. Isso emanava dele vindo do espelho, consumindo e era de cortar o coração, como se o seu mundo há muito houvesse sido destruído e só ele ficara para trás para juntar os pedaços.
A mão dele se moveu no espelho novamente, tentando tocar seu rosto através do vidro, e Bella, de repente percebeu que isso não era algo a ser temido. A tristeza saudosa em sua voz inspirava qualquer coisa, menos o medo. Ela queria ajudá-lo, assim como ele estava tentando ajudá-la.
— Você pode ... Você pode me ouvir? — Ela sussurrou para a escuridão. — Você vê que eu estou aqui? — Parecia uma questão boba para perguntar - sentir como se estivesse cantando sua solidão, cantando só para ela. Mas e se ele não estivesse? E se ele não pudesse vê-la afinal?
Aqueles olhos tristes focaram-se nela de novo e o canto ficou mais alto, um lado da adorável boca dele transformando-se em um leve sorriso.
Ah, ele podia vê-la. Um rubor cresceu em suas faces e Isabella abaixou a cabeça, sentindo-se tímida e ridícula. Ela olhou para ele novamente e viu que ele tinha parado de cantar, a última nota morrendo e terminando seus movimentos.
— Qual é seu nome? — Ela perguntou a ele, determinada a não se sentir estúpida falando com um espelho. O homem dentro dele parecia muito real, como se ela pudesse chegar e tocá-lo. — Eu sou Isabella, mas todos me chamam de Bella.
Os lábios dele se moveram, mas ela não pode ouvir as palavras, não como ela pode ouvir a canção. Decepção caiu sobre dela, penetrante, e ela balançou a cabeça.
Ele pareceu perceber isso, o olhar triste voltando para os seus olhos, e ele balançou a cabeça de leve, como confirmando isso.
Bella sentiu como se seu coração fosse quebrar naquele momento, tão grande era o seu desânimo. Então, eles só podiam olhar um para o outro? Olhar através do vidro? Ele olhou como se quisesse alguém para tocá-lo, e ela queria tocá-lo de volta, afastar a tristeza de seu rosto.
Antes que ela pudesse pensar sobre isso, apertou a mão totalmente contra o vidro frio, como se pudesse de alguma forma aliviá-lo.
Ele pareceu assustado com a ação, mas moveu a mão para baixo, colocando-a contra a dela do outro lado do espelho.
Por um momento, o frio do espelho deu lugar ao calor.
Isabella ofegou e puxou a mão, surpresa, e com este gesto, a imagem desapareceu.
— Não! — ela gritou, colocando a mão no vidro de novo, espalmando os dedos em desespero. — Espere!
Nada. Havia apenas a si mesma no reflexo, suas faces ainda molhadas de lágrimas, os olhos arregalados.
Mas debaixo de sua mão, ela jurou que ainda podia sentir o fraco toque de calor se desvanecendo na distância.
