Capítulo 2

Vai se tornar um anjo depois da morte

Nós não lutamos contra os garotos no primeiro dia.

Simulações de combate só aconteciam uma ou duas vezes por mês, nos outros dias apenas treinávamos com nossas armas, sem ser "pra valer". Pelo menos era assim quando eu estava no grupo das meninas. Eu duvidava que houvesse algum momento no qual os garotos não competissem seriamente.

Naquele dia, treinávamos com lanças.

Quando chegou a minha vez de arremessar, dei alguns passos para frente sob os olhares minuciosos do resto dos alunos. A lança pesava em minhas mãos e, como eu estava suando e ela era de ferro, escorregava. Eu não conseguia acreditar na minha falta de sorte. Justo no meu primeiro dia resolveram praticar com a pior arma. Pelo menos para mim.

Eu e lanças? Nunca deu certo.

O Sr. Lorcan sabia disso, ele sempre pegava mais leve comigo quando era dia de treinar com lanças. Porém o Sr. Lorcan não estava ali para ser paciente. Ele era o treinador das meninas e eu e Clove não éramos mais suas responsabilidades.

Nós ainda éramos meninas, ok? Só para deixar claro. O fato é que éramos meninas superiores.

O nosso novo treinador se chamava Rian Fuhr. Treinador Fuhr, como era conhecido. E eu não gostei nada dele, nem de seu corpo extremamente ereto, nem de seus braços cheios de músculos e muito menos de seu olhar sarcástico.

Foquei na lança em minha mão. Respirei fundo e a arremessei com o máximo de força que consegui. Ela atingiu uma parte do gramado que marcava 200 pontos. A avaliação era de 100 a 1000. Eu tinha sido a pior até o momento.

Ótimo. Eu não gostava de lanças mesmo. E, que eu saiba, haviam muitas opções de armas nos Jogos Vorazes. Eu pegaria uma faca e tudo estaria resolvido. Lanças são extremamente dispensáveis.

Pisando firme, andei até o final da fila, sonhando com o dia que eu poderia esmagar o rosto de cada energúmeno que me lançou um sorrisinho de deboche. Ah, eles não perdiam por esperar.

— Belo arremesso — ironizou um garoto que mais parecia uma pilha de músculos. Eu apostava que a única arma que ele conseguia manusear era uma lança. Por causa da força extrema e aparente ausência de cérebro.

Perdedor.

Assim que olhei diretamente para o seu rosto, com o meu usual sorriso maldoso que diz claramente "vou acabar com você", me surpreendi ao reconhecê-lo. Cato. Até mesmo eu, que não procurava gravar nomes de ninguém, tinha ouvido falar dele.

Não importava se ele fosse o favorito do momento. Novamente: perdedor.

Infelizmente, tive que mudar minha opinião assim que a vez dele chegou. Andei um pouco para fora da fila, de modo que pudesse ter uma visão melhor de Cato e prestar mais atenção em seus gestos corporais. Se ele era tão bom como eu tinha ouvido falar, deveria ter algo de interessante, algo que merecesse ser visto. E tinha.

O jeito como ele andava, segurando sua lança com uma leveza que não era forçada, com o queixo nem muito levantado nem muito baixo e sorrindo de modo relaxado deixava claro que nada daquilo requeria muito de seu esforço. Uma postura assim faria com que qualquer pessoa se sentisse inferior, insignificante.

Qualquer pessoa com exceção de mim, claro.

Por mais que Cato tivesse demonstrando naturalidade, na fração de segundo em que ele arremessava sua lança, sua expressão se alterava levemente e um vinco quase imperceptível se formava entre suas sobrancelhas. E, durante aquela fração de segundo, não havia nada de relaxado ou natural nele, nada menos opressivo do que uma determinação bruta.

Percebi que as pessoas a minha volta estavam comemorando, ou o parabenizando, ou o que quer que aqueles grunhidos masculinos significassem, então voltei minha atenção para onde a lança tinha ido parar. Ele tinha feito 1000 pontos.

Nada mal para um perdedor.

Ta, nada mal para qualquer ser humano.


No segundo dia foi diferente, fomos divididos em pares para treinarmos com espada. Eu me dava melhor com espadas, de modo que estava bem mais confiante quando peguei a arma e me posicionei em frente ao meu adversário.

Ele não era muito forte, nem muito alto e não parecia dono de grande agilidade. Imaginei que o treinador estava colocando eu e Clove com os meninos mais fracos. Mas, quando olhei para o lado, vi que o oponente de Clove era ninguém menos que Cato.

Isso me aborreceu. Eu queria lutar com ele.

Porém, por hora, eu teria que me contentar com...

— Como é mesmo o seu nome? — perguntei com um sorriso ameno.

O garoto me encarou com uma sobrancelha levantada, como se não acreditasse que eu tivesse mesmo feito tal pergunta.

— Isso importa? — ele retrucou rudemente.

— Por que não importaria?

Ele revirou os olhos e disse:

— Aron.

Aron não perguntou qual era o meu nome, então apenas assenti em silêncio.

— Podem começar, pessoal! — gritou Fuhr e Aron atacou.

Desviei de seu golpe no último segundo e a lâmina da espada passou a centímetros da minha cintura. Quando ele atacou novamente, já estava preparada. Enquanto nossas espadas se encontravam repetitivamente notei que eu estava errada sobre seu aspecto ágil. Aron se movia com rapidez e precisão e nenhuma de suas investidas teve sequer um traço de rigidez.

Cerca de cinco minutos depois eu estava com um corte no antebraço e havia recuado cinco passos. Dadas as circunstâncias eu não tinha muitas chances de sair vencendo. O que era péssimo, visto que a minha imagem já não tinha ficado muito boa depois do teste com lanças.

Contudo, eu nunca vou saber realmente como aquilo teria acabado, pois um grito alto de dor atravessou o campo fazendo com que todos os combatentes parassem de lutar e se entreolhassem a procura da pessoa que emitira tal som. Não demorou para que eu o localizasse, ajoelhado em uma poça de seu próprio sangue.

Não sou o tipo de pessoa que grava rostos, mas eu me lembrava do daquele garoto pois não fazia muito tempo que o tinha visto. Ele havia espancado o menino no parque naquele dia. Se eu acreditasse em destino, podia até dizer que o dele não era mais do que justo.

O Fuhr correu até onde ele estava, apenas alguns metros longe de mim, e começou a falar continua e furiosamente. Troquei um rápido olhar com Aron, foi a deixa para que nós dois nos aproximássemos, juntamente com quase todos os alunos, do garoto ensanguentado.

Avistei Clove e andei até onde ela estava, com esperança de que pudesse conseguir alguma explicação.

— A espada de Cato — ela disse seriamente, parecendo ainda não crer no que havia acontecido. — Eu estava lutando perto dos dois e vi quando Cato o atingiu. Não era para machucar, mas...

— Perfurou a barriga dele? — supus.

Clove apenas assentiu.

— Mas não era você quem estava lutando com Cato? — perguntei, estranhando o fato. Eu certamente tinha visto os dois juntos antes do treinamento começar.

— Sim, mas logo troquei de parceiro porque ele me venceu — ela não disse isso com muita animação.

— Bem, pelo menos ele não te matou.

Ela sorriu de lado e olhou para o garoto que estava estirado no chão.

— Ele não está morto, ok? — disse.

Treinador Fuhr levantou a voz, se dirigindo a todos nós:

— Vão para casa. O treino acabou por hoje.

— Ainda — murmurei para que apenas Clove escutasse.


E finalmente o último punhado de terra cobriu aquele caixão.

Me perguntei o que eu estava fazendo ali.

Eu nem ao menos sabia o nome daquele garoto. Só sabia que era um fracote por ter morrido sem nem entrar numa arena de verdade. Todos, até mesmo eu e Clove, tinham sido praticamente obrigados a ir ao enterro. Assim como todos os outros colegas dele. Como se fôssemos amigos em vez de assassinos.

Patético.

Olhei para Clove, ela estava séria, porém eu sabia que pensava o mesmo que eu daquela situação. Nós duas apenas queríamos ir para nossas casas, tomar um banho e fingir que esqueceríamos o que se passara durante o treinamento.

Tentei manter minha expressão livre de qualquer sentimento e me esforcei para não bocejar. Uma senhora de idade, que precisava usar uma bengala para se apoiar, continuou em frente à lápide quando todos nós começamos a andar rumo à saída do cemitério. Eu já estava me aproximando do portão quando, por algum motivo inexplicável, virei para olhar uma última vez na direção do local onde o garoto-sem-nome havia sido sepultado.

O choque me percorreu inteira quando me dei conta de que a velha senhora não era a única que havia ficado para trás. Cato também estava parado próximo ao túmulo recém coberto de terra. Ele estava de costas para mim então não vi seu rosto.

— O que foi? — Clove perguntou quando notou que eu tinha parado de andar.

Apontei para Cato.

— O que ele ainda está fazendo lá?

— Não sei e não é da nossa conta — ela disse, me olhando como se eu fosse idiota. — Vamos, vamos embora desse lugar.

— Deve ser peso na consciência — supus para mim mesma, ignorando-a.

— É pode ser — Clove continuou falando. — E não há nada que possamos fazer quanto a isso, então vamos dar o fora daqui de uma vez.

— Apenas vá — murmurei vagamente e ela, me lançando um olhar de pura irritação, o fez.

Permaneci fitando a nuca de Cato, me perguntando como deveria ser matar alguém. Que sentimentos isso provocava. Por mais que eu e muitos outros tivéssemos treinado para aquilo, para sermos assassinos profissionais, eu nunca cheguei a tirar a vida de uma pessoa. Entretanto, não é como se eu não tivesse feito inúmeras suposições sobre como fazer isso seria, ou sonhado.

Sem que eu me desse conta, já estava a alguns passos de distância de Cato.

— O que quer? — a rispidez de sua voz me tirou do transe. Ele se virou para me lançar um olhar duro.

Fiquei em silêncio, apenas observando toda a extensão de seu rosto. Não havia vestígios que provassem que ele derramara uma lágrima sequer. Nem que ele estava arrependido. Não havia emoção alguma e imaginei que era assim que meu rosto se parecia também, embora eu estivesse coberta de dúvidas.

Depois de anos tentando encobrir sentimentos, eu perdera a capacidade de demonstrá-los — ao menos com facilidade — e imaginei que com Cato acontecera a mesma coisa.

Nos encaramos em silêncio. Não respondi sua pergunta e ele não a repetiu.

— Hm, eu estou indo embora, crianças — surpreendeu-nos a velha senhora, parente do garoto morto, ao se aproximar. — Vocês vão ficar?

Cato abriu a boca para responder, mas fui mais rápida.

— Sim — ela sorriu de modo dócil e, quando não retribuí o sorriso, começou a se afastar.

Um sentimento de que eu estava esquecendo de alguma coisa se apossou de mim e chamei-a de volta:

— Eu, hã, sinto muito por sua perda — falei.

Era mentira.

A senhora pareceu satisfeita e foi embora, andando lenta e pesadamente. Me sentei de pernas cruzadas na grama, de frente para o túmulo do meu ex-colega de treinamento. Quando ninguém sentou-se ao meu lado, olhei para cima e lancei a Cato um olhar que indicava que ele deveria fazer o mesmo que eu.

Não sei por que, mas ele fez.

Silêncio mais uma vez. Nuvens negras começavam a tomar conta do céu, indicando que eu tomaria chuva se não fosse logo para casa. Eu podia lidar com mortes, eu podia lidar com chuvas.

Cato riu minimamente, uma risada seca e desprovida de emoção.

— Acho que vou para o inferno — disse.

— Você está nele.

Ele me olhou de lado e perguntou:

— Se aqui é o inferno, então para onde esse babaca aí foi? Para o céu? — havia um tom de deboche em sua voz, deixando claro que o garoto morto não era muito diferente de nós.

— Não — eu sorri como se ele tivesse dito uma piada. — Aqui também é o céu.

— E o que nós somos anjos ou demônios?

— Certamente não anjos. — Pisquei para ele.

Um trovão soou e não demorou para que começasse a chuva. Eu e Cato ficamos conversando sob as gotas pesadas de água e só levantamos para ir embora quando elas pararam de cair.