n/B(bella): Oi gente! Como obviamente ninguém falou nada (ainda?), cheguei com o segundo capítulo da fanfic! A partir de agora eu sempre vou responder reviews no fim da página e nesse início eu vou colocar os avisos da autora, tudo bem? Espero que continuem lendo!

ATENÇÃO: Tópicos envolvendo depressão e hidrofobia.


Capítulo 2
Você ao menos sabe?

Eu nunca entendi o que as pessoas queriam dizer quando falavam que estavam se sentindo "entorpecidos" em relação a alguma coisa. Eu nunca tive muito problema com isso até recentemente. De fato, na maior parte do tempo, eu amaria me sentir entorpecido já que é melhor do que machucado, certo?

Errado.

Eu queria gritar, queria chorar, queria socar paredes e socar pessoas e queria chorar. Eu queria chorar mais do que qualquer coisa, mas não importa o quanto quisesse, eu simplesmente não podia. Eu podia olhar para o rosto deles em fotos pela casa. Eu podia ouvir as mensagens de voz que eles deixaram para mim no passado e eu nunca havia checado. Eu podia ler o que eles haviam escrito e suas assinaturas. Eu podia sentir o cheiro deles nos móveis, em suas roupas e em sua cama. Mas eu não podia chorar. Eu sabia que deveria estar destruído. Qualquer pessoa normal estaria. Qualquer pessoa normal teria soluçado por horas sem fim e então deixariam a casa porque ela lembraria tão intensamente o que eles haviam perdido. Eu não sentia nada.

Mikasa me seguiu até a sala de estar depois que eu finalmente sai da cama. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, lágrimas manchavam suas bochechas. Uma doentil e problemática parte de mim invejou sua habilidade de chorar. Eu não queria confortá-la. Eu queria roubar aquilo dela, eu queria roubar suas lágrimas e sua dor e fazer delas as minhas. Eu não sabia o que diabos estava errado comigo.

Ela se sentou ao meu lado e virou para me encarar. Nós fizemos contato visual e ela me observou por um longo tempo com uma expressão que eu não podia descrever.

- Sobre isso... Sinto muito.

- Você sente muito pelo quê? Não foi a sua culpa. Eles eram seus pais também.

- Eu sei, mas não de sangue. É diferente.

A próxima coisa que eu soube foi que as palavras rolaram pela minha língua antes que eu tivesse chance de pensar sobre elas. Eu me senti desconectado da minha mente enquanto ouvia minha própria voz proferir palavras que eu sabia não querer dizer.

- Não se desculpe. Nós não temos tempo para sentar aqui e sentir pena por nós mesmos, você entre todas as pessoas deveria saber disso. Nós precisamos cuidar de tudo. Nós precisamos ligar para nossos parentes, cuidar dos funerais e ver se seus corpos estão pelo menos inteiros para que exista opção de enterro, temos que saber sobre o seguro para lidar com as finanças...

Merda. No momento em que eu consegui parar a mim mesmo, os olhos de Mikasa fitaram o lado oposto e as lágrimas caíam pela sua face. Ela usava uma expressão que eu havia visto apenas algumas vezes desde que seus próprios pais haviam morrido. Ela estava completamente inexpressiva e parecia vazia apesar das lágrimas, mas eu vi dor em seus olhos. Imediatamente me lembrei o que ela havia dito durante o almoço mais cedo naquele dia.

"Você sabe que eu geralmente mantenho minhas emoções sob controle, mas eu ainda as tenho."

- Me desculpa, Mikasa... É só muita coisa para se lidar... Eu nem mesmo-

Ela me cortou com uma breve sacudida de cabeça e então me olhou nos olhos com uma intensidade que me fez vacilar. Eu sabia que ela estava lutando contra algo dentro de si, provavelmente tentando descobrir se seria sábio tomar conta de dela mesma ou tomar conta do meu rabo mal agradecido. Ela escolheu a primeira opção e eu não pude culpa-la. Mikasa encarava além de mim, levantou-se e foi para seu quarto sem me olhar outra vez.

Eu fechei meus olhos rangendo os dentes e suspirei pesadamente. Cavando minha própria cova com a minha boca grande outra vez. Aquilo foi o que, a terceira vez só hoje? Agora eu tinha, oficialmente, afastado a única que estava ao meu lado, a única pessoa que me restava. Não apenas meus pais haviam sido tirados de mim, mas eu havia, efetivamente, afastado Mikasa da maneira mais cruel que eu podia ter feito. Se fosse em relação a ela, ela não poderia me impedir de dizer coisas das quais eu me arrependeria.

O pior disso tudo, pensei, era que eu ainda não sentia nada. Era uma forma diferente de nada, no entanto, era diferente do que eu havia sentido na escola. Eu ainda me sentia entorpecido, mas agora eu me sentia como se algo tivesse sido retirado do meu peito. Eu me sentia vazio e era um vazio vasto e esmagador; meu corpo, de repente, era a Fossa das Marianas sem água.

Você não precisa se sentar aqui e lidar com isso. Você já fez estrago o suficiente. Você não pode se importar. Que bem é você agora, quem você está ajudando nesse momento?

Eu precisava me sentir vivo. Eu precisava sentir alguma coisa. Qualquer coisa. Até mesmo raiva. Até mesmo minha famosa raiva que colocava a minha na reta.

- Mikasa? Eu vou sair, vou voltar logo. Eu estou com o meu celular se você precisar de alguma coisa.

Gritei antes de sair o mais rápido que pude assim que a última palavra saiu da minha boca. Eu não queria ouvir sua resposta, eu não queria ter que ouvir sua voz ou o que ela queria me dizer porque havia uma parte retorcida de mim que estava ofendida por ela não continuar a me confortar quando eram meus pais que haviam morrido.

É isso mesmo, ninguém. Sabe que você é horrível... Que tipo de pessoa fica com raiva com a própria irmã por estar de luto ao invés de tomar conta de você? Nojento. Tudo o que ela fez foi te proteger e aqui você está, usando suas palavras para fazê-la chorar.

Eu abri a porta do '00 Ford Focus prata que costumava ser do meu pai e liguei o rádio, imediatamente colocando um CD e aumentando o volume até o momento em que senti meu coração acompanhar as batidas da música. Radiohead, Amnesiac. Eu precisava dirigir. Eu não me importava para onde, eu precisava dirigir.

Quando eu estava fora do pequeno bairro suburbano onde morava, tomei uma rua direto para a cidade. Eu queria ir até os bairros da pesada e perder a mim mesmo. Era necessário que isso me mostrasse tudo o que estava errado no mundo e que me deixasse enojado, triste e amedrontado.

Você ao menos sabe o que significa sentir? Há tantas pessoas passando por coisas piores e aí você está, se desfazendo. Você nem mesmo consegue chorar pelos seus pais. Eles foram seus por dezoito anos e você não pode chorar por eles. Há algo errado com você, Eren.

Começou a chover no mesmo momento em que cheguei à zona oeste da cidade, o bairro da "pesada". Eu observei donos de lojas suspirarem e fecharem as portas. Durante a tempestade, eles perdiam sua única forma de ar puro e condicionado para manter a chuva do lado de fora.

Sem mais Radiohead, coloquei Blood Like Diamonds de Morcheeba's.

Prédios depredados envolviam-se com a multidão, inscrições lascivas, misturavam-se juntos enquanto eu dirigia e a chuva caía sobre o meu carro com força. Então me ocorreu que pessoas viviam dessa forma. Eu nunca havia pensado nisso, mas para algumas pessoas, aqueles prédios eram suas casas. Eles jamais poderiam se sentir a salvo lá, o que significava que não poderiam se sentir a salvo em lugar algum.

E aqui estamos, com uma casa boa que mamãe e papai comprou e pagou só para você; aqui estamos com um carro bom que ainda está na estrada mesmo tendo dez anos desde que fora comprado. Papai cuidou bem do carro para você. Essas pessoas passam por muita coisa todo dia e essas pessoas conseguem prosseguir com a vida. Eles conseguem lidar com isso. Você não. O que você vai fazer quando a pilha de contas chegar? Você não tem emprego. Vai arrumar um? Como isso vai funcionar com a faculdade? Você vai assistir Mikasa ir pelo mesmo caminho, para a própria destruição? Ela deveria ter um futuro tão brilhante. As notas dela sempre foram melhores que as suas, ela não era a oradora da turma?

Eu observei enquanto a ponte que levava para fora da cidade se aproximava e, de repente, tive uma insurgente necessidade de parar. Foi a primeira coisa que senti em horas.

Eu precisava sair.

Estacionei o Focus em um ponto na estrada que fosse perpendicular à ponte e saí do carro sem desligar o motor, impulsionado pela mesma força que havia falado por mim e magoado Mikasa. Continuava a chover; meu cabelo estava inteiro molhado e grudado na minha testa da mesma forma que minha camiseta prendia-se ao meu corpo. Havia alguma beleza em como as vigas, enferrujadas em marrom alaranjado, seguravam a ponte e destacavam-se contra as nuvens cinzentas e escuras. Ninguém além e mim era louco o suficiente para andar num aguaceiro, então eu estava sozinho com exceção dos carros atravessando a ponte. Meus olhos se fecharam e eu ouvi as ondas sob a grade sussurrando palavras que eu quase podia entender. Havia algo de bonito nessa ponte neste momento, neste mesmo segundo e eu não sabia o que era.

Uma coisa a menos para todo mundo se preocupar. Mikasa ficaria melhor apoiando a si mesma ao invés de vocês dois, porque sejamos honestos, você não faria muito para ajuda-la de qualquer forma. Você não estaria partindo o coração de ninguém de qualquer forma; seus colegas na escola não são amigos. Eles esqueceriam sobre você no período de alguns anos, talvez meses. Ah, você ao menos tem colegas na escola? Oh, o Sr. Bossard é seu amigo. Você tem um encontro com ele todos os dias pelas próximas duas semanas, lembra? Hmm? O que você está fazendo parado aí? Aqui está a sua chance.

Era muito bonito para que eu guardasse para mim mesmo. Uma mão trêmula alcançou meu bolso – minha mão? – e puxou meu celular. Antes que eu soubesse, eu havia digitado o número de Mikasa. Uma chamada, duas chamas, três...

- Eren? Você está bem?

Eu estava bem? Os pesadelos e noites de terror que eu havia tido nos últimos meses estavam "bem"? Minhas notas estavam bem, nossas finanças estavam bem, alguma coisa algum dia ficaria bem? Em primeiro lugar: havia alguma coisa bem?

- Eu estou bem, Mikasa. É lindo... Tão lindo... – eu não reconheci a voz alucinada que escapara dos meus lábios, aqueles não eram meus pensamentos. – A ponte é tão bonita e a chuva é tão bonit-

Foi apenas questão de tempo antes das minhas mãos trêmulas e molhadas pela chuva desistissem. Eu observei o celular descansar no ponto de concreto e pisquei. Não valia a pena pegar o celular outra vez, era um grande desperdício de energia para algo tão sem sentido.

Eu subi na lateral da ponte e me deleitei com a liberdade naquilo. Eu não tinha mais barreiras encharcadas contra o meu peito para me manter estável. A água sob mim era tão escura que eu mal podia vê-la; eu apenas ouvia as ondas e a chuva enquanto esta tocava a superfície. Parecia tão perto, tão perto que eu podia tocá-la... Tocá-la. Eu queria tocá-la.

Empurrei um único pé à minha frente e a chuva empurrou minhas costas, como se estivesse pedindo que eu fosse em frente. Tudo aconteceu em questão de segundos: ouvi o grito frenético de Mikasa abafado pelo telefone, senti um sorriso formar-se nos meus lábios e a pontada afiada de algo finalmente preenchendo o vazio em meu peito antes que minha visão fosse engolida por uma vasta escuridão.


n/B: Esse é um capítulo bem intenso na minha opinião... E acaba assim, desse jeito meio em aberto... Mas não desistam da leitura! Na semana que vem tem a primeira interação com o Levi!

Bom, vamos ao que interessa!

Recebemos três reviews essa semana:

Rosangela: Eu espero que você goste mesmo!

Sthef: Todos no aguardo para que a autora não me peça para tirar do ar! HUSIOHSAI Espero mesmo que você goste... Assim, eu conheci a fanfic por alguns quotes em inglês no tumblr também e eu não shippava EreRi, mas depois... Respiro o ship, eles são encantadores!

Taiana-chan n.n: Sr. Bossard é Sr. Bostard na verdade, quem nunca teve um professor assim né? HSUAISOHAI Ok, eu vou falar: essa história é um redemoinho de sentimentos... Eu chorei, admito. Mas não foi nada muito berrante, foi mais... Estar emocionada, acho. Como a Amanda (autora) nunca responde minhas mensagens, vamos torcer para que ela não se importe por eu ter tomado liberdade de fazer isso sozinha né? HSUIASOHAIHASIUA A pedidos, coloquei o capítulo um dia mais cedo do que planejava, espero que você goste!

Um agradecimento especial para a Ari-chan que revisou o capítulo e me apontou as faltas de concordância na minha tradução da madrugada.

O próximo capítulo sai na terça-feira que vem!